No dia do curinga do
ano de copas que antecedeu a este, o sol revelou ao amanhecer um típico dia de
final de primavera – sol, céu azul e coração aquecido. Tudo estava combinado
para o churrasco de comemoração ao cair da noite.
Aquele ano de copas
foi repleto de paradoxos: euforia em conseguir ingressar em uma pós-graduação que sonhava e frustração por perder uma oportunidade de trabalho por conta de
um erro burocrático. Alegria pelo nascimento de minha pequena curinguinha Clara
e apreensão por conta de um problema no esôfago que a colocou na mesa de
cirurgia em seu segundo dia de vida. Presenças inusitadas em minha vida e
ausências inexplicáveis...
Toda aquela
intensidade ganhou um espaço de canalização – um espaço onde uma grande amiga
assumia seu lado “Joker” e colocava-se inteira em prosa e poesia. Que ideia!
Rapidamente pedi que ela me ajudasse a criar também um blog. Assim surgiu o
“Trágica Mente Falando”. Na sequencia, a Andrea criou seu blog “Desconhecido”.
Estava armado o circo. Com os três habitando a mesma cidade, depois de um bom
tempo, proporcionamos uma espécie de renascimento do ano de 2007 (o último da
graduação). Naquela ocasião, também era ano de copas e, as vésperas do Dia do
Curinga estávamos eu, ela, a dama curinga e outros amigos na sala de aula, em
uma das últimas aulas do curso, esperando que o curinga aparecesse com seus
guizos porta adentro antes da aula de filosofia em que apresentaríamos o mágico
calendário de Frode. A presença do pequeno anão de mãos frias podia ser sentida
ali... Mas não o vi...
Mas voltando a 2011,
foram frequentes encontros regados a chimarrão, vinho, violão, filosofia,
poesia... A poesia dos dias era tão intensa, que sempre havia motivos pra
esculpir textos em monumento a tudo aquilo que vivíamos... Nossa presença
poético-virtual era tão incisiva que, certa vez, por conta nas nossas fotos de
perfil com imagens de curinga, Carloz Maltz, baterista fundador dos
“Engenheiros do Hawaii”, se referiu a nós no twitter como “Clã Pierrot”... a reação
da Tim foi “Clã Pierrot, nada – Clã Curinga!”...
Mas aquele ano de
paradoxos, que começou tenso e se tornou o mais espetacular dos anos, guardava
em seu ultimo ato, uma dose cavalar de dor. Algo que gritava aos ouvidos
palavras de Mário Quintana na voz do Fernando Anitelli: “a felicidade
bestializa, só o sofrimento humaniza as pessoas...”.
O dia lindo que
amanheceu naquele dia do Curinga e no primeiro parágrafo deste texto,
terminaria na UTI pediátrica de um hospital. Meu pequeno curinga, depois de uma
intensa gripe insistente, teve uma hemorragia interna e, ao ser examinado,
constatou-se o pior – sua imunidade atingira níveis alarmantes. Foram horas com
ele ardendo em febre e refletindo nos olhos uma dor que ia consumindo sua
frágil vida... Ao invés de música e festa, o final do dia foi ouvindo seus
gritos de dor quando os médicos colocavam nele a sonda dentro da UTI. Não posso
mais passar por aquele corredor do hospital sem que as lágrimas me venham aos
olhos... Depois de viver o pior dia da minha vida, precisei sair do hospital. A
UTI não podia ter acompanhantes, mas, no caso dele, foi permitido a presença da
mãe.
Bem perto dali, a Tim,
sua mãe e nossa amiga Eliane, esperavam notícias. Elas queriam me homenagear
com dois mimos de aniversário – um cabo de instrumento de alta qualidade (que
uso até hoje), e um livro de um autor que se tornaria uma referencia pra mim –
Alberto Caeiro. Mas o mais comovente do livro, sem dúvida é a dedicatória:
Foram as únicas
pessoas que pude ver naquele dia. Sai de lá com a firme intenção de não ver
mais ninguém. Iria direto pra casa, pois, embora fosse meu aniversário, não
havia motivos pra comemorar... Quando me despedi das amigas e dei partida no
carro, ouvi um pequeno tilintar. Olhei na rua pra ver se havia algum papai noel
de shopping perdido, mas não havia ninguém. Passei a lombada e o barulho foi
mais forte, parecia estar dentro do carro. Olhei no retrovisor e tomei um
susto. Um sujeito baixinho com um sorriso constante me encarava. Parei o carro
e me virei pra traz – não havia nada... devia ser delírio por conta do dia
pesado...
Quando coloquei o
veiculo em movimento, uma voz aguda e sarcástica me disse:
- Cuidado com o
ciclista, amanhã pode ser você! – E desviei de um ciclista que, de repente
enxerguei na minha frente...
Antes que eu tivesse
tempo pra me recobrar do susto e conferir de onde teria vindo aquela voz,
ouvi-a novamente:
– Melhor continuar
dirigindo e fingir que eu nem estou aqui. Não queremos machucar mais ninguém
hoje, não é?
Olhei de lado e lá
estava ele. Não havia duvidas! A mesma presença que senti naquele final de
tarde no CCH em 2007, sentia agora – Era o Curinga! O mesmo que escapou da
paciência mágica de Frode! Não consegui dizer nada além de:
– M...maaas...
Co...Como?
– Ouça bem – disse ele
– tenho aqui comigo um tesouro e uma missão! Esta ampulheta é mais uma prova da
existência da ilha mágica e das cartas que pularam da cabeça de Frode. Esta
ampulheta foi feita com madeira colhida na floresta pelas cartas de paus e o
vidro soprado pelas anãs de ouros. Os anões de espadas modelaram a madeira e as
de copas colocaram um pouco do trigo azul-turquesa que usavam em seus pães e
envernizaram... você vai guarda-la até que chegue o momento certo! Antes que
comece o ano de copas, vais escrever como um valete no final de um livro sobre
sonhos. Semearás o “Clã Curinga” e ajudarás a fazê-lo crescer... Mas ouça bem,
só será digna da ampulheta a pessoa que for pequena gigante!
Enquanto desviei por
um segundo a atenção pra conferir um sinal de transito, já perto de minha casa,
o pequeno clown desapareceu. Em cima do banco, estava a ampulheta que, segundo
ele, foi feita pelas cartas de Frode:
Jamais poderia
imaginar que a destinatária da ampulheta estivesse tão perto. Mas foi a nossa
dama curinga que, ao transgredir a ordem aqui no clã com um post alheio a
qualquer carta, quem me revelou. Quem mais poderia ser tão grande e tão pequena a
um só tempo?
A dama curinga mostrou
que o clã poderá sobreviver ao final desta paciência... Talvez mais solto, sem
a necessidade de um monumento a cada carta/semana... Talvez em melodia e
versos... Talvez em silêncio... Deixemos que o vento nos mostre a direção...
O Clã Curinga existe
antes mesmo de ser nomeado! Existe há quase 12 anos! Estamos na semana 12 de
copas, há 12 dias do fim desta paciência... Se virada 4 vezes, a ampulheta tem
duração de 13 minutos e 12 segundos. 13 são as cartas de cada naipe do baralho
– uma pra cada mês no calendário do Clã. 12 são os meses convencionais e os
ponteiros do relógio... são só números e coincidências em uma vida de números e
coincidências...
Não vou usar os níveis
de glucose do post anterior, evidentemente (hahahaha), mas deixo aqui as mais
sinceras saudações à arquiteta que, a partir de uma simples ideia proposta com
palavras de valete (ao contrario), fez surgir este lar virtual.
Faltam 12 minutos pro
fim do seu dia - Feliz Aniversário Tim, nossa Pequena Grande Clown!!!