quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

#52 – REI DE COPAS – Sobrevivam apenas lembranças cheias de vida...

Os outros três reis do baralho procuraram o rei de copas pra se queixar. Em espadas, concluiu-se com citação que dá de ombros para o poder e suas leis, e, pior, afirma categoricamente que “não interessa o que diz o rei”. Em paus, ao invés de louvar ao poder e a força, ficaram rastros de peso e fraqueza. Em ouros, desprezou-se o metal precioso em favor do valor da vida que quase se desfez em um acidente. E ainda foi colocado que o coração valia mais que a cifra. Foi o próprio rei de copas quem me contou. Em um misto de benevolência e autoridade, com uma espada em uma das mãos e uma cruz em outra, me pediu pra redimir um pouco a imagem dos reis aqui, agora.

Carlos Magno - O Rei de Copas          

Mas os reis, enquanto reis, não tem mesmo muito a me dizer. Seu poder, sua benevolência ou sua tirania não me interessam. Mas se o jogo sujo do poder não me interessa, tenho por isso que odiar um rei como pessoa? Talvez, até mesmo o rei tenha um coração. Talvez o rei também tenha sensibilidade pra, como eu, tocar um instrumento e compor uma canção. Talvez, por baixo da capa e da coroa haja alguém como eu e você. Alguém cheio de dúvidas e que também fica confuso:

"…Well, it goes like this: the fourth, the fifth
The minor fall and the major lift
The baffled king composing Hallelujah..."
(Hallelujah - Jeff Buckley)

Viver é uma questão de ponto-de-vista. Acho que foi a tecla em que mais batemos aqui no Clã. Mudar a perspectiva é um ato revolucionário. Em tempos de instabilidade política, ter a coragem de ignorar a política é uma virtude. Não é que as decisões que os políticos tomam não nos afetam. É que isso é muito pequeno diante do esplendor de vida que se revela aos nossos olhos a cada nascer do sol. Se vou comer em um banquete de restaurante caro, ou se vou achar comida na lata do lixo de uma lanchonete barata, são variáveis muito pequenas diante do valor de um coração que vive e pulsa em nosso peito. Pobre do rei, disse uma vez Raul Seixas. Está condenado a comandar seu povo. Está a mercê de chacotas e ódio de todos os que estão obrigados a se curvar perante si. Pobre rei que pensa governar os homens, mas, como todos nós, está a mercê do reinado do tempo, onde é preciso esperar o momento oportuno pra assistir o pôr-do-sol ou sentir os pingos de chuva. Não vou brigar e nem discutir por cauda de politica. Aos políticos faço apenas uma exigência, aprendida do grego Diógenes – que não tapem o meu sol!
Como rei e comandante do exército que sou eu, decreto agora que sempre haja uma voz pra me lembrar que É HOJE! A vida não tem hora marcada pra ocorrer, ela é sempre agora! Decreto também não me sejam negados a luz, os sons, aromas, sabores e texturas e que, em nome de meus sonhos, minha tropa ataque tudo aquilo que me desfigure e que me afaste daquilo que sou. Decreto que a poesia dos dias valham mais que as lembranças, entretanto, não torno crimes as lembranças, na medida em que elas sejam agradáveis contornos para os dias. Sobrevivam apenas lembranças cheias de vida. E que fique registrado no meu Código Vivíl que, o que vier, seja bom demais, dolorido demais, ou ambas as coisas, seja abraçado com o amor de quem aceita, deseja e procura seu destino. Tudo valerá a pena, basta que apenas que seja sincero e venha do coração.
Como último ato de meu pronunciamento, deixo duas pegadas de vida - uma na boa lembrança de minha ex-professora Sônia Sperandio Adum, que, há algumas horas deixou de viver. Outra no desejo de muita saúde, alegria e força ao meu ex-aluno Maycon Andrey, a quem encaminho uma cópia de meu livro preferido, "O Dia do Curinga".
Obrigado Maycon, tuas palavras (ainda no primeiro naipe, na semana 8 de Espadas) foram inspiradoras e acabaram por rasgar o aparente véu de desértica solidão que pairava sobre o Clã Curinga! Tu foi a nossa maior prova de que, do outro lado das frias palavras digitadas, havia vida!
A todos os que por aqui passaram e que ainda passarão, faço votos de coragem pra correr riscos e seguir aos instintos do CORAÇÃO. Instintos do último naipe da paciência. O naipe da primavera. O naipe que fecha um ciclo iniciado em 2012. Mas o ano de copas ainda não acabou - esta última semana prepara o duplo “Dia do Curinga”, que ocorre a cada quatro anos e, depois de si, traz a tona o início de mais um ciclo em um novo ano de espadas.

“Tudo é questão de obedecer ao instinto.
Que o coração ensina a ter, ensina a ter.
Correr o risco, apostar num sonho de amor.

O resto é sorte e azar.

Tudo é questão de não se negar nada.
A nenhuma força que dê luz, que dê luz.
Seja de Deus ou do Diabo se for claro.
É só pagar pra ver, é só pagar pra ver.

E se por acaso, doer demais.
É porque valeu.

E se por acaso, for bom demais.
É porque valeu.”
(Sorte e Azar – Barão Vermelho)


Nenhum comentário:

Postar um comentário