Por outro lado, ao compasso dos segundos, o ser humano percebeu bater também, dentro de si, algo que figurativamente chamou de coração - não o músculo involuntário que bombeia o sangue arterial e venoso, levando oxigênio e nutrientes ao resto do corpo (embora isso, por si só, já represente a poesia da vida). Falo de sentimentos que refletem e são reflexos da percepção que cada um tem de si mesmo e do seu entorno, algo que nem palavras e nem tique-taques poderiam mensurar com exatidão.
Talvez seja justamente essa nossa falta de jeito de lidar com os "porquês" o motor das engrenagens do tempo - compensamos com ciência exata aquilo a que as palavras jamais pretenderam explicar (acredito, sim, na poesia como trilha sonora da vida, não como a legenda literal de um filme em outro idioma).
[Ligo a TV, nesta época do ano, e vejo pessoas vestindo branco, praias enfeitadas com flores a Iemanjá, mesas fartas de frutas das mais diversas cores. Em todos os lugares há votos de renovação, promessas de mudanças, tudo ao som da trilha sonora de sempre: "hoje é um novo dia, de um novo tempo que começou...". Todo ano, vejo também inundações e catástrofes naturais. Algumas das praias enfeitadas com fogos para a grande festa de réveillon ficam debaixo d'água. Algumas pessoas perdem tudo - o pouco que tinham: "hoje é um novo dia, de um novo tempo que começou"... Sei (quero acreditar) que há lugares longínquos, em que as pessoas se reúnem nesta data à margem da comemoração industrializada, simplesmente para renovarem o apreço e os votos de união - Renovação! "Hoje, é um novo dia, de um novo tempo que começou..."]
Se todo ano é um novo tempo que começou, percebo que o que há de mais permanente é a mudança, o que se torna ao mesmo tempo um paradoxo e uma banalização. Não posso admitir que uma data inventada e um jingle da televisão sejam ditadores de minhas transformações - não há transformação verdadeira sem dor e disposição, sem crescimento e aprendizagem, sem vontade e aceitação (o que é diferente de conformação).
Reconheço, por outro lado, que a invenção do calendário nos induziu à sensação de renovação no sentido de recarregar as energias - físicas, emocionais, espirituais. O coração bombeia esperança em nossas veias até o último dia do ano... E, quando parece chegar à última gota, basta uma contagem regressiva com explosão no tempo zero para ele se encher de forças novamente.
O tempo é um adorno da vida. Circular, linear ou espiral, vincula também o ritmo do que chamei, no início, de coração - nossas esperanças, sentimentos e anseios. É, portanto, também uma necessidade.
"Um tanto estranho enfeitar algo inexplicável - a vida - com algo tão abstrato e, ao mesmo tempo, pretensioso - o tempo - já que almeja à exatidão."
Um tanto estranho não enxergar a poesia do tempo...
Que revivamos absurdamente cada dia de nossas vidas! E aos relógios e ampulhetas que inventaram uma data para a ilusão da mudança, afirmo: nem nós, nem vocês, nos encerramos em nós mesmos.
ESPERANÇA
Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
Atira-se
E
— ó delicioso vôo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança...
E em torno dela indagará o povo:
— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
— O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA...
(Mário Quintana)
