quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

#2 - DOIS DE ESPADAS: DEUS QUE RI...

É evidente que...
[Eu sempre quis começar um texto com "é evidente que..."]
É evidente que todas as evidências não passam de impressões.
É evidente que esta minha opinião pode ser apoiada em um engano.
É evidente que, qualquer evidência, assim como a verdade, só pode ser respeitada se tratada de forma isolada, circunstancial, irrepetível, como se passa com a vida...
Trato, pois, então, de minhas evidências:
Parece-me evidente que a festa pagã do solstício de inverno, de maneira muito perspicaz, foi tomada pelo cristianismo pra fazer ali a celebração do aniversário de seu mestre. O solstício de inverno marca o dia mais curto do ano, quando o sol está mais distante do local onde nos encontramos neste planetinha que nos abriga. Depois deste dia (entre 21 e 22 de dezembro) os dias ficariam gradativamente maiores, tendo seu ápice no início do verão, em junho...
É evidente que tem algo errado nesta análise!
Pelo menos do meu ponto de vista geográfico.
Aqui, no hemisfério sul, acontece exatamente o contrário! Estamos nesta época vivendo os dias mais longos e mais quentes do ano.
Não há "sol invictus" aqui! O início do verão marca o declínio dos dias longos até que as trevas alcancem seu ponto mais alto no início do inverno...
"O mundo está ao contrário e ninguém reparou?"
É evidente que aquele senhor obeso, de barba e cabelos brancos, trajando um agasalho vermelho e distribuindo balas nos shoppings é uma das coisas mais bizarras da nossa cultura. No dia da festa pagã, transformada em festa do Menino Deus, que era de família pobre... De onde tiraram aquele velho que parece passar frio aqui no alto verão dos trópicos?
O rebanho tem mais dinheiro no bolso nesta época e, por isso, pode copiar os modos estadunidenses de consumo. Pode copiar até o frio, com bonecos de neve e o dito "bom velhinho...". E porque comer Peru, panetone, estourar espumantes, soltar fogos? Que diabos o galo tem a ver com tudo isso naquela missa sem galo?
Alguém pode me dizer que estou me fazendo de desentendido e que conheço muito bem os símbolos e sentidos por traz de tudo isso.
Sim. Admito que conheço as explicações.
Hahahahahaha.
Desculpem o riso repentino... É que, pra mim, é evidente que estas inúmeras colagens em torno desta data ao redor do tempo formam um cenário hilário.
O que será que Deus pensa disso?
É evidente que, se há um Deus, é um deus que ri!!!
Onde está deus?
Lá em cima ou em mim?
De minha parte, pelo menos no campo das palavras, posso afirmar e demonstrar a evidência de que “eu” estou no meio de dEUs!
Deus está lá em cima e ri!
Deus está em mim e eu, como Deus, rio!
Deus, mesmo se estiver lá embaixo, ri...
Não tem como não rir...
Hahahahahahaha
E este é o maior valor do Natal!
Provoca riso, por isso, evidentemente é divino...
Mas o meu riso vai além do cenário hilário da "festa do consumo".
Meu riso é de contentamento!
Pintei o sonho de jogar uma paciência de palavras. Um jogo aleatório onde, em um clã virtual, eu pudesse esperar pelo próximo post e, depois disso, fazer o meu.
Revolução é quando alguém tira uma ideia do mundo abstrato e materializa, ainda que esta "matéria" seja digital.
Me ocorreu falar do momento...
Chove, faz frio, é solstício quente e é natal...
Poderia ter feito um poema enorme.
Poderia ter escrito um hai-kai...
Poderia ter colocado um "#2 - ?" No título e "..." No corpo do texto.
Talvez faça isso em um dos próximos 50 posts...
Mas agora, passo a bola pra quem tornou nossa esta paciência!
Alguém que, sem se diluir, ao contrário, afirmando sua individualidade, construiu a morada de nossa paciência me entregando a chave!
Que alegria aqui estar!
Tentaremos estar aqui a cada final da noite de quarta. Se ninguém vier aqui, além de nós dois com nossos guizos, (não se entenda isso como soberba) não me importo!
O riso, a surpresa, o aprendizado, a catarse estarão garantidas! Aprendemos já há algum tempo a criar nossos próprios sentidos e a rir em meio às mais terríveis tempestades!
Putz...
Estou igual criança com presente de natal (aniversário)!
“...tirei novamente a lupa do estojo que o anão misterioso tinha me dado. Decidi usa-la para examinar a natureza mais de perto. Se me deitasse no chão e ficasse olhando um bom tempo uma formiga ou uma flor, talvez conseguisse descobrir alguns de seus segredos. E então poderia dar um pouco de sossego de presente de Natal ao meu pai...” (Jostein Gaarder – O Dia do Curinga – 2 de espadas)
Aqui apresentarei os resultados do que vi da natureza pela lupa que ganhei! Mas agora, como Hans Thomas ao seu pai, vou te dar sossego de presente de natal! Prometo ser menos chato na próxima intervenção.
Mas deixo com meu riso o desejo de muita alegria a todos nestes momentos de confraternização generalizada!
Meu muito obrigado a menina que pegou as tintas do meu (nosso) sonho e (re)construiu este (não)lugar de aconchego, intensidade e criação!
Esta carta única na paciência da vida - vi pela última vez em Curitiba, "na rodoviária":

"O PaPaPapai Noel é um presépio de papel
Confunde a quem não puder se defender...
A vela é de cera
A cera pega fogo
E o fogo lá da vela
Lá da vela, lá da vela
É o ETERNO CURINGA do jogo..."

(Raul Seixas - Na Rodoviária).





2 comentários:

  1. "Quem é você, que se esconde por trás de um nome qualquer? Não aparece pra mim..." Quantos significados para esta data - cada ser humano, uma resposta. Muitas repetidas, é verdade. Contudo, para esta que vos fala, este natal representa sobretudo o selamento do compromisso que temos com as palavras, evidentemente, que sem o peso da palavra "compromisso"! Que nossa leveza seja celebrada a cada nova postagem, como a criança que sorri a cada nova descoberta! Feliz natal, curinga!

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  2. Acho que deus deve cantarolar "a incompetência da América catolica", a hipocrisia das mesas fartas, dos refrões de paz, amor, tolerância. Do cara vestido de vermelho que só dá presente pra quem for bom...mas, se Vc foi bom e não recebeu presente, é porque "deus tem o melhor pra ti, não conteste! "
    Certamente ele ri! E ri da criação, como quem ri do rato na gaiola que corre na roda...

    Nem preciso expressar a felicidade que nós, expectadores dessa viagem do Curinga, sentimos em ver esse retorno mágico! Com vcs, vamos todos Curingando por aí!
    Beijo grande, Curingas!

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