domingo, 28 de dezembro de 2014

#3 - Três de Espadas - RÉVEILLON OU DOS ENFEITES DE FIM DE ANO

A invenção do tempo pode despretensiosamente parecer um subterfúgio matemático, exato, para que o homem possa contar sua longevidade e a obsolescência das coisas.

Por outro lado, ao compasso dos segundos, o ser humano percebeu bater também, dentro de si, algo que figurativamente chamou de coração - não o músculo involuntário que bombeia o sangue arterial e venoso, levando oxigênio e nutrientes ao resto do corpo (embora isso, por si só, já represente a poesia da vida). Falo de sentimentos que refletem e são reflexos da percepção que cada um tem de si mesmo e do seu entorno, algo que nem palavras e nem tique-taques poderiam mensurar com exatidão.

Talvez seja justamente essa nossa falta de jeito de lidar com os "porquês" o motor das engrenagens do tempo - compensamos com ciência exata aquilo a que as palavras jamais pretenderam explicar (acredito, sim, na poesia como trilha sonora da vida, não como a legenda literal de um filme em outro idioma).

[Ligo a TV, nesta época do ano, e vejo pessoas vestindo branco, praias enfeitadas com flores a Iemanjá, mesas fartas de frutas das mais diversas cores. Em todos os lugares há votos de renovação, promessas de mudanças, tudo ao som da trilha sonora de sempre: "hoje é um novo dia, de um novo tempo que começou...". Todo ano, vejo também inundações e catástrofes naturais. Algumas das praias enfeitadas com fogos para a grande festa de réveillon ficam debaixo d'água. Algumas pessoas perdem tudo - o pouco que tinham: "hoje é um novo dia, de um novo tempo que começou"... Sei (quero acreditar) que há lugares longínquos, em que as pessoas se reúnem nesta data à margem da comemoração industrializada, simplesmente para renovarem o apreço e os votos de união - Renovação! "Hoje, é um novo dia, de um novo tempo que começou..."]

Se todo ano é um novo tempo que começou, percebo que o que há de mais permanente é a mudança, o que se torna ao mesmo tempo um paradoxo e uma banalização. Não posso admitir que uma data inventada e um jingle da televisão sejam ditadores de minhas transformações - não há transformação verdadeira sem dor e disposição, sem crescimento e aprendizagem, sem vontade e aceitação (o que é diferente de conformação).

Reconheço, por outro lado, que a invenção do calendário nos induziu à sensação de renovação no sentido de recarregar as energias - físicas, emocionais, espirituais. O coração bombeia esperança em nossas veias até o último dia do ano... E, quando parece chegar à última gota, basta uma contagem regressiva com explosão no tempo zero para ele se encher de forças novamente.

O tempo é um adorno da vida. Circular, linear ou espiral, vincula também o ritmo do que chamei, no início, de coração - nossas esperanças, sentimentos e anseios. É, portanto, também uma necessidade.

"Um tanto estranho enfeitar algo inexplicável - a vida - com algo tão abstrato e, ao mesmo tempo, pretensioso - o tempo - já que almeja à exatidão."

Um tanto estranho não enxergar a poesia do tempo...

Que revivamos absurdamente cada dia de nossas vidas! E aos relógios e ampulhetas que inventaram uma data para a ilusão da mudança, afirmo: nem nós, nem vocês, nos encerramos em nós mesmos.



ESPERANÇA

Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
Atira-se
E
— ó delicioso vôo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança...
E em torno dela indagará o povo:
— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
— O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA...

(Mário Quintana)

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

#2 - DOIS DE ESPADAS: DEUS QUE RI...

É evidente que...
[Eu sempre quis começar um texto com "é evidente que..."]
É evidente que todas as evidências não passam de impressões.
É evidente que esta minha opinião pode ser apoiada em um engano.
É evidente que, qualquer evidência, assim como a verdade, só pode ser respeitada se tratada de forma isolada, circunstancial, irrepetível, como se passa com a vida...
Trato, pois, então, de minhas evidências:
Parece-me evidente que a festa pagã do solstício de inverno, de maneira muito perspicaz, foi tomada pelo cristianismo pra fazer ali a celebração do aniversário de seu mestre. O solstício de inverno marca o dia mais curto do ano, quando o sol está mais distante do local onde nos encontramos neste planetinha que nos abriga. Depois deste dia (entre 21 e 22 de dezembro) os dias ficariam gradativamente maiores, tendo seu ápice no início do verão, em junho...
É evidente que tem algo errado nesta análise!
Pelo menos do meu ponto de vista geográfico.
Aqui, no hemisfério sul, acontece exatamente o contrário! Estamos nesta época vivendo os dias mais longos e mais quentes do ano.
Não há "sol invictus" aqui! O início do verão marca o declínio dos dias longos até que as trevas alcancem seu ponto mais alto no início do inverno...
"O mundo está ao contrário e ninguém reparou?"
É evidente que aquele senhor obeso, de barba e cabelos brancos, trajando um agasalho vermelho e distribuindo balas nos shoppings é uma das coisas mais bizarras da nossa cultura. No dia da festa pagã, transformada em festa do Menino Deus, que era de família pobre... De onde tiraram aquele velho que parece passar frio aqui no alto verão dos trópicos?
O rebanho tem mais dinheiro no bolso nesta época e, por isso, pode copiar os modos estadunidenses de consumo. Pode copiar até o frio, com bonecos de neve e o dito "bom velhinho...". E porque comer Peru, panetone, estourar espumantes, soltar fogos? Que diabos o galo tem a ver com tudo isso naquela missa sem galo?
Alguém pode me dizer que estou me fazendo de desentendido e que conheço muito bem os símbolos e sentidos por traz de tudo isso.
Sim. Admito que conheço as explicações.
Hahahahahaha.
Desculpem o riso repentino... É que, pra mim, é evidente que estas inúmeras colagens em torno desta data ao redor do tempo formam um cenário hilário.
O que será que Deus pensa disso?
É evidente que, se há um Deus, é um deus que ri!!!
Onde está deus?
Lá em cima ou em mim?
De minha parte, pelo menos no campo das palavras, posso afirmar e demonstrar a evidência de que “eu” estou no meio de dEUs!
Deus está lá em cima e ri!
Deus está em mim e eu, como Deus, rio!
Deus, mesmo se estiver lá embaixo, ri...
Não tem como não rir...
Hahahahahahaha
E este é o maior valor do Natal!
Provoca riso, por isso, evidentemente é divino...
Mas o meu riso vai além do cenário hilário da "festa do consumo".
Meu riso é de contentamento!
Pintei o sonho de jogar uma paciência de palavras. Um jogo aleatório onde, em um clã virtual, eu pudesse esperar pelo próximo post e, depois disso, fazer o meu.
Revolução é quando alguém tira uma ideia do mundo abstrato e materializa, ainda que esta "matéria" seja digital.
Me ocorreu falar do momento...
Chove, faz frio, é solstício quente e é natal...
Poderia ter feito um poema enorme.
Poderia ter escrito um hai-kai...
Poderia ter colocado um "#2 - ?" No título e "..." No corpo do texto.
Talvez faça isso em um dos próximos 50 posts...
Mas agora, passo a bola pra quem tornou nossa esta paciência!
Alguém que, sem se diluir, ao contrário, afirmando sua individualidade, construiu a morada de nossa paciência me entregando a chave!
Que alegria aqui estar!
Tentaremos estar aqui a cada final da noite de quarta. Se ninguém vier aqui, além de nós dois com nossos guizos, (não se entenda isso como soberba) não me importo!
O riso, a surpresa, o aprendizado, a catarse estarão garantidas! Aprendemos já há algum tempo a criar nossos próprios sentidos e a rir em meio às mais terríveis tempestades!
Putz...
Estou igual criança com presente de natal (aniversário)!
“...tirei novamente a lupa do estojo que o anão misterioso tinha me dado. Decidi usa-la para examinar a natureza mais de perto. Se me deitasse no chão e ficasse olhando um bom tempo uma formiga ou uma flor, talvez conseguisse descobrir alguns de seus segredos. E então poderia dar um pouco de sossego de presente de Natal ao meu pai...” (Jostein Gaarder – O Dia do Curinga – 2 de espadas)
Aqui apresentarei os resultados do que vi da natureza pela lupa que ganhei! Mas agora, como Hans Thomas ao seu pai, vou te dar sossego de presente de natal! Prometo ser menos chato na próxima intervenção.
Mas deixo com meu riso o desejo de muita alegria a todos nestes momentos de confraternização generalizada!
Meu muito obrigado a menina que pegou as tintas do meu (nosso) sonho e (re)construiu este (não)lugar de aconchego, intensidade e criação!
Esta carta única na paciência da vida - vi pela última vez em Curitiba, "na rodoviária":

"O PaPaPapai Noel é um presépio de papel
Confunde a quem não puder se defender...
A vela é de cera
A cera pega fogo
E o fogo lá da vela
Lá da vela, lá da vela
É o ETERNO CURINGA do jogo..."

(Raul Seixas - Na Rodoviária).





quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

#1 - ÁS DE ESPADAS: Um Soldado passou pedalando pela estrada

Não era exatamente um soldado, mas exibia com orgulho seu uniforme utilizado outrora, quando pertencera ao Tiro de Guerra do serviço obrigatório do Exército brasileiro. Era um ex-soldado que pedalava por estradas, ruas e rodovias, ao som de seus "herois que morreram de overdose" antes mesmo de presenciarem o fim de suas lutas maiores - hoje relembradas por este Aedo homérico com alma de menino; menino cujos sonhos são a forma maior de expressão do seu hedonismo, e, quiçá, sua profissão.

Não era um simples estudante do curso de História da Universidade Estadual de Londrina. Era um poeta cuja plêiade encontraria naquele lugar. Um poeta que, das duras pedaladas até a sala de aula e dos dias de infantaria, traria a fúria tão somente nas palavras e nas rimas - estas, sim, que fizeram História no sentido científico mais poético da expressão. 

Há os que digam que, numa de suas aparições, lá se instalou o caos. Há, porém, os que crêem, assim como eu, que as cartas finalmente foram colocadas na mesa, doendo a quem doesse - sim, Quintana, quem faz sentido é soldado! - regado ao som do melhor rock 'n roll-baiano-poético-nietzscheano!

Não, não se tratam de contradições. Todo poeta vive, afinal, dentro de um jogo de opostos, que dá corda às engrenagens do tempo. Mas sobrevive a elas graças a uma astúcia milenar - a da escrita.

Há dez anos as engrenagens do tempo conspiraram para que o nascimento de um clã se fizesse possível. Um encontro jamais imaginado, cujo futuro era nada mais do que incertezas. Porém, laços maiores fortaleceram uma irmandade inimaginável, que somente versos poderiam expressar.

Há pouco mais de dois anos, essa mesma engrenagem quase conseguiu nos engolir - sem sucesso. Hoje, um Dia do Curinga, aniversário desse meu amigo-irmão tão distante e tão presente em minha vida, tenho como comemorar apenas utilizando como presente um subterfúgio cibernético que pretendo que nos una em rimas ao menos por mais um ano - este Clã Curinga, um sonho pintado por ele, que hoje vai ao ar.

Que venham mais 51 posts! Em sua homenagem, com um "vale-abraço" pra breve:


Revisitâncias

Poeta, curinga do tempo,
declama tua rima insana
e subverta os versos homéricos,
louco Aedo!

Travestido de bobo,
sopra vida aos necessitados
ao uivo dançante do vento!

... pois, no ritmo, tu vens a ser...

... e resistes pois existes,
e pensas por ser logo,
e danças pois não te cansas...

... e escreves porque amas,
e finges porque sentes,

e devoras,
enquanto ignoras,
o porvir
e o outrora...

no teu agora,
diariamente.

(Por Tim Gonçalez)