Uma das características mais fascinantes de uma carta curinga, sem dúvidas, é a sua capacidade de se travestir em qualquer outra carta do baralho.
Por ser elemento raro, e, muitas vezes, inútil na maioria dos jogos (inclusive no de Paciência), acaba sendo frequentemente descartado e se perde fora dos naipes que reúnem os outros personagens, numéricos ou figurativos. Se perde com o triunfo de, lá fora, se encontrar.
Em certas ocasiões, contudo, o Bobo da Corte passeia por entre essas famílias de caracteres comuns e, por não se encaixar em nenhum lugar, acaba sendo capaz de se encaixar em todos sem ser notado.
Apenas os olhos mais atentos (talvez, de outros curingas travestidos) são capazes de perceber a presença ilustre de um ser tão raro entre todos os outros.
São olhos iguais aos seus
Iguais ao céu ao seu redor
São olhos iguais aos seus...
[O que faz as pessoas parecerem tão iguais?]
(Humberto Gessinger)
[De roupa negra e balaclava, saio pelas madrugadas apenas com os olhos à mostra. Uma espécie de disfarce e de proteção, involuntários, sufocando o coração poético ao som de estampidos que já não me aterrorizam. Os olhares que as pessoas me dirigem não diferem uns dos outros. Sou apenas mais uma carta entre as demais. Hoje, de espadas e outras armas na mãos.
O fardo de ter de misturar-me ao baralho traduz-se nas lágrimas dos olhos cansados. Talvez seja este o preço do passaporte ao Curinga que não pretende ser notado ao ponto de ser considerado propriedade do carteador.]
Era inverno de 2013. Era mais um dia comum de trabalho. Treze cartas encontravam-se aprisionadas em uma masmorra que eu guardava. O povo inusitadamente aplaudira o encarceramento.
Haviam se passado duas noites veladas em claro, e, apesar da aparente ordem no caos, o corpo já não respondia aos estímulos externos diante do cansaço e do esgotamento. Um risco...
A vida naquela hora parecia ter perdido a rima, restando apenas os graves e os agudos dos que resmungavam qualquer coisa a um Curinga que se passava por Valete de Espadas.
Armas em punho. Tez fechada. A postura aparentemente "marrenta" escondia apenas a saudade de casa.
Eu não me arrependia da posição que ocupava naquele jogo. Até me orgulhava da astúcia daquela missão. Mas só pensava no mar...
[Ver a imagem de um sol que nasce quadrado, ainda que não fosse para mim, fazia-me valorizar ainda mais a sorte de poder vivenciar esta ideia de plenitude que o mar encerra. Aos senhores das cartas, eu avisava em pensamento - minha alma nunca esteve à venda! Embora meu peito, naquele momento, estivesse à deriva]
Dias de inverno em Curitiba. O sol, além de quadrado, nascera tímido. Coisas que colocam a gente, nos dizeres do poeta, "comovido como o diabo" (Carlos Drummond de Andrade).
No plano de fundo destes turbilhões de pensamentos, ecoava um silêncio que, acredito, só eu ouvia. Enquanto sonhava, ou talvez, delirava numa miragem de paisagem litorânea, como uma alucinação diante da miséria humana a que chegavam os que se apresentavam à minha frente, um estrondo invadiu o pesado ambiente, trazendo-me à realidade.
- "Só falta você para assinar" - foi assim que mergulhei no verde do mais intenso mar daqueles meus dias. Eram olhos [verdes] que brilhavam... e, naquele momento, reconheci um outro Curinga.
***
Na Paciência em que me encontro,
agora o é ano bissexto.
O fardo que ainda levo,
já não me agrega tanto peso.
Não fosse a grade da prisão,
não fosse o estrondo no silêncio,
o tilintar de nossos sinos
não passaria de adereço.
Hoje navego nesses mares,
de verde puro e intenso.
Clã Curinga hoje faz
Do Clã Pierrot um recomeço.
