quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

#11 - Valete de Espadas - OLHOS COR DE MAR

Uma das características mais fascinantes de uma carta curinga, sem dúvidas, é a sua capacidade de se travestir em qualquer outra carta do baralho. 

Por ser elemento raro, e, muitas vezes, inútil na maioria dos jogos (inclusive no de Paciência), acaba sendo frequentemente descartado e se perde fora dos naipes que reúnem os outros personagens, numéricos ou figurativos. Se perde com o triunfo de, lá fora, se encontrar.

Em certas ocasiões, contudo, o Bobo da Corte passeia por entre essas famílias de caracteres comuns e, por não se encaixar em nenhum lugar, acaba sendo capaz de se encaixar em todos sem ser notado.

Apenas os olhos mais atentos (talvez, de outros curingas travestidos) são capazes de perceber a presença ilustre de um ser tão raro entre todos os outros.

São olhos iguais aos seus
Iguais ao céu ao seu redor
São olhos iguais aos seus...
[O que faz as pessoas parecerem tão iguais?]
(Humberto Gessinger)

[De roupa negra e balaclava, saio pelas madrugadas apenas com os olhos à mostra. Uma espécie de disfarce e de proteção, involuntários, sufocando o coração poético ao som de estampidos que já não me aterrorizam. Os olhares que as pessoas me dirigem não diferem uns dos outros. Sou apenas mais uma carta entre as demais. Hoje, de espadas e outras armas na mãos.

O fardo de ter de misturar-me ao baralho traduz-se nas lágrimas dos olhos cansados. Talvez seja este o preço do passaporte ao Curinga que não pretende ser notado ao ponto de ser considerado propriedade do carteador.]

Era inverno de 2013. Era mais um dia comum de trabalho. Treze cartas encontravam-se aprisionadas em uma masmorra que eu guardava. O povo inusitadamente aplaudira o encarceramento.

Haviam se passado duas noites veladas em claro, e, apesar da aparente ordem no caos, o corpo já não respondia aos estímulos externos diante do cansaço e do esgotamento. Um risco...

A vida naquela hora parecia ter perdido a rima, restando apenas os graves e os agudos dos que resmungavam qualquer coisa a um Curinga que se passava por Valete de Espadas. 

Armas em punho. Tez fechada. A postura aparentemente "marrenta" escondia apenas a saudade de casa. 

Eu não me arrependia da posição que ocupava naquele jogo. Até me orgulhava da astúcia daquela missão. Mas só pensava no mar... 

[Ver a imagem de um sol que nasce quadrado, ainda que não fosse para mim, fazia-me valorizar ainda mais a sorte de poder vivenciar esta ideia de plenitude que o mar encerra. Aos senhores das cartas, eu avisava em pensamento - minha alma nunca esteve à venda! Embora meu peito, naquele momento, estivesse à deriva]

Dias de inverno em Curitiba. O sol, além de quadrado, nascera tímido. Coisas que colocam a gente, nos dizeres do poeta, "comovido como o diabo" (Carlos Drummond de Andrade).

No plano de fundo destes turbilhões de pensamentos, ecoava um silêncio que, acredito, só eu ouvia. Enquanto sonhava, ou talvez, delirava numa miragem de paisagem litorânea, como uma alucinação diante da miséria humana a que chegavam os que se apresentavam à minha frente, um estrondo invadiu o pesado ambiente, trazendo-me à realidade.

- "Só falta você para assinar" - foi assim que mergulhei no verde do mais intenso mar daqueles meus dias. Eram olhos [verdes] que brilhavam... e, naquele momento, reconheci um outro Curinga.

***

Na Paciência em que me encontro, 
agora o é ano bissexto. 
O fardo que ainda levo, 
já não me agrega tanto peso.

Não fosse a grade da prisão, 
não fosse o estrondo no silêncio,
o tilintar de nossos sinos 
não passaria de adereço.

Hoje navego nesses mares,
de verde puro e intenso.
Clã Curinga hoje faz
Do Clã Pierrot um recomeço. 

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

#10 - DEZ DE ESPADAS - como ilhas distantes, inacessíveis a minha pequena bike.

A Terra é minha morada.
A Terra é tua morada.
Pra onde quer que você olhe, sempre verá a Terra.
Existe uma força magnética que nos liga a ela de uma maneira irresistível: um espírito invisível e aprisionador chamado de “Gravidade”.
Não são poucas as imagens em minha mente que alimentaram a vontade de superar o espírito de gravidade. A primeira que me lembro é a do Peter Pan... A imagem era tão forte que cheguei a sonhar que voava como ele... Lembro-me de que, em meio aquela sensação fantástica, me veio à mente que tudo aquilo era um sonho. Consciente de minha inconsciência - passei a aproveitar ao máximo aquele momento. Lembro-me que foi bom. Muito bom. Uma hora acordei. Ficou um sentimento de alegria e satisfação pela liberdade momentânea que tive em relação ao espírito de gravidade. Jamais esqueceria este sonho de criança.
A segunda imagem que tenho é a do super-homem, não o do Nietzsche, mas o do cinema. Um alienígena que em nada diferia de nós, exceto por não sofrer os efeitos da gravidade, podendo assim voar e usar uma força sobre-humana...
Outras imagens de superação da gravidade se movimentaram em minha mente, mas deixo apenas mais uma como destaque: O alienígena do filme “E.T. O Extraterrestre” fazendo uma bicicleta voar:


Uma imagem que, embora pertença a um filme lançado seis meses antes de eu nascer, entrou em minha memória uns 15 anos depois. Andar de bicicleta pra mim é uma experiência libertadora. Na bike é possível se locomover em uma velocidade maior que a caminhada e sem o inconveniente da poluição e do barulho dos veículos de motores a combustão interna. No filme, a bike vai além... Faz pensar que é possível o impossível. Dá pra se imaginar pedalando pelas estrelas que aparecem no nosso céu noturno. Mas tudo o que está além da nossa Terra, se apresenta como ilhas distantes, inacessíveis a minha pequena bike...
O Zaratustra de Nietzsche não procurava voar andando de bicicleta, mas com o mesmo princípio de movimento: andar-correr-voar:

“Eu acreditaria somente num deus que soubesse dançar.
Quando vi meu diabo, achei-o sério, meticuloso, profundo e solene: era o espírito de gravidade - ele faz todas as coisas caírem.
Não com a ira, mas com o riso é que se mata. Eia, vamos matar o espírito de gravidade!
Aprendi a andar: desde então corro. Aprendi a voar: desde então, não quero ser empurrado para sair do lugar.
Agora sou leve, agora voo, agora me vejo abaixo de mim, agora dança um deus através de mim.” (Assim falou Zaratustra – Friedrich Nietzsche).

          Só com o movimento e a dança é possível conceber o divino! Só com o riso é possível superar o espírito de gravidade... Enquanto não aprendo a voar, sigo pedalando... Talvez um dia os meus pneus se desprendam do chão e, mesmo sem carregar comigo um E.T., eu consiga alçar voo... Mas ainda que voe, voltarei...
          A Terra é minha morada!
          Mas o que importa isso tudo ao sol e suas irmãs?

“Eia! chora [...] se tens lágrimas. Se só tens riso ri-te! É a mesma coisa. O Cruzeiro, que a linda Sofia não quis fitar, como lhe pedia Rubião, está assaz alto para não discernir os risos e as lágrimas dos homens.” (Quincas Borba – Machado de Assis)

          E se somos nós apenas poeira de estrelas, o que importa pras estrelas a poeira? O que importa pra ti a poeira em tuas coisas?
          Talvez as estrelas tragam o maior entre todos os ensinamentos: a indiferença! Não que eu queira vender a ideia de uma indiferença mórbida, pessimista... Mas se deixarmos de lado as coisas muito maiores que nós e a poeira no chão que a gente pisa, tenhamos mais tempo pra observar aquilo que nossos olhos podem observar, como uma paisagem em uma estrada rural sob as rodas de uma bicicleta... Como os minúsculos pontinhos de luz que aparecem a noite no céu... Pra que querer querer toca-los?
          Mas ainda assim, quero seguir em movimento... Sigo querendo voar pelo planeta...
          A Terra é tua morada. Nesta quarta-feira, lembra-te que nada mais somos que cinzas: Poeira apagada de corpos de luz que viajam pelo nosso universo...


"As estrelas são sábias, para elas, tanto faz como escolhemos viver nossas vidas aqui na Terra." (O Dia do Curinga – Dez de Espadas – Jostein Gaarder)


quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

#9 - NOVE DE ESPADAS - Desculpas: acreditava ter visto coisas onde outras pessoas não viam...

Pela primeira vez no ano, publico com alguns minutos de atraso. O peso da rotina me impediu, desta vez, de deixar um texto salvo e pre-publicado, como rascunho, motivo pelo qual inicio com um pedido de desculpas.

Estou atrasada, aliás, por uma desculpa. 

O estado do Paraná se tornou, essa semana, palco de manifestações de funcionários públicos legitimamente indignados devido a arbitrariedades contra seus direitos adquiridos. Em alguns casos, tratam-se ainda de direitos básicos ligados à própria subsistência.

Não obstante os descasos costumeiros da política pública básica voltada aos pilares das necessidades da sociedade - educação, segurança e saúde - vê-se claramente diversas tentativas e manobras ardis no intuito de quebrar-se o estado, ignorando-se o bem comum, em prol de imediatismos de projetos políticos mal formulados.

Há, contudo, detalhes que não são tão claros assim. Pela primeira vez em anos, os braços da única violência legítima - a do Estado - encontram-se do lado dito mais fraco do cabo de guerra. E, o único recado que vim dar esta noite, é este: se me tentam calar, passo então a agir...

"Se tu falas muitas palavras sutis
Se gostas de senhas sussurros ardís
A lei tem ouvidos pra te delatar
Nas pedras do teu próprio lar..."
(Chico Buarque - HINO DE DURAN)

Uma desculpa me impediu de publicar um texto mais poético e no horário costumeiro no dia de hoje (pelo horário, dia de ontem). Uma outra desculpa talvez tenha impedido que uma tragédia acontecesse esta noite. Por ter visto adiante, mesmo contrariada por todos, pedidos de desculpas talvez tenham sido a chave para que tudo desse certo - sacrificando, infelizmente, esta publicação em sua forma pretendida.

Mas, a virtude do Curinga é também uma responsabilidade... E sair pela esquerda talvez faça a sorte do leão da montanha. Hoje fui a prova viva disso tudo.

"... Nem de paus, nem de ouros, nem de copas, nem de espadas [...] É um caso a parte; uma carta sem relação com as outras. Ele está no mesmo monte das outras cartas, mas aquele não é o seu lugar. Por isso pode ser separado do monte sem que ninguém sinta falta dele." 
(Nove de Espadas - O dia do Curinga)

E se ficou muito mal explicado - desculpe-me! Mas garanto: nem mesmo soldado tem feito sentido...

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

#8 - Oito de Espadas: ERA COMO SE TIVESSE SIDO ARREBATADO PELO CÉU DE UM FIM DE TARDE

Quantas vezes na vida experimentamos momentos extraordinários? Quantos instantes de total alheamento ao contexto, onde os sentidos convergem em uma única direção, um único evento, uma explosão catártica capaz de conferir o mais elevado valor a vida? Quantos instantes assim cabem em uma vida? Quantos seres semelhantes a nós, igualmente tocados pelo sol, nunca viveram momentos assim?
Quanto aos que estão para além de mim, pouco ou nada sei. Quanto a mim, sinto ainda efeitos benéficos de momentos dotados de tal magnitude.

"Agora beba. Este é o momento mais sublime da sua vida, meu jovem. Você sempre vai se lembrar dele, mas ele nunca mais vai voltar." (Jostein Gaarder - O Dia do Curinga - 8 de espadas).

Por certa lógica, nada se repete e cada momento é único. Há um ponto de vista que pensa no eterno retorno do diferente. Mas não há que se descartar a possibilidade do eterno retorno do mesmo... É bom sempre lembrar que nossos momentos são efêmeros, passageiros, pequeninos diante da grandiosidade infinita ao redor do nosso planetinha. Mas será que se soubéssemos que tudo vai se repetir infinitamente viveríamos cada momento da melhor maneira, apaixonados por cada instante e ligados na eterna conspiração do universo?
Subi há pouco as escadas de um estádio de futebol em direção à saída... A lua cheia, imensa e brilhante se mostrava soberana no céu. Sua presença só podia ser notada naquele momento porque seus contornos, naquele instante, se ofereciam aos olhos em uma brecha entre as nuvens de uma noite predominantemente nublada.
Já me perguntaram porque às vezes fico tão hipnotizado olhando pra lua. Quiseram saber o que vejo nela, para além dela. Nada. Somente a lua... Mas se campos de trigo podem trazer a lembrança de alguém com cabelos louros, igualmente a lua me lembra momentos... A visão da lua me traz a memória lembranças de momentos que nem sei se de fato vivi.
Descia a avenida distraído e em alta velocidade pilotando minha bicicleta... O céu estava pintado com as cores do momento mágico e derradeiro do dia, àquela hora no final da tarde onde não se sabe ao certo se é dia ou se é noite. Um pouco mais lenta, a garota pedalava também na mesma direção.
Alcancei-a e lhe sorri.
Ela sorriu de volta.
Acionei o freio.
Ela também parou.
Por oito milésimos de segundo estávamos parados lado a lado, sem que nenhum dos pés tocasse o solo... Pés no chão, mãos no guidão e passos lentos. Caminhávamos juntos sentindo a alegria e o prazer em cada um daqueles passos. Coração acelerado, vivo, em uma festa musical que passava por todo o meu corpo naquele ritmo alucinante que vinha do meu peito. Uma dor boa se instalava na região do estômago. Meus olhos escuros e profundos mergulhados na beleza que saia de seus olhos claros, rasos e límpidos. Brilhavam. Era como se eu pudesse ver além dos olhos e, sem dizer palavras, tocar os pensamentos dela que pareciam estar como os meus: Parados... Concentrados apenas naqueles passos lentos, sentindo cada instante daqueles, que eram temperados pelo barulho das catracas das bicicletas rodando sem serem pedaladas...
Parecia que a mesma música que meu corpo produzia era produzida também pelo corpo dela. Só que com outros timbres, outras possibilidades que enriqueciam uma mesma melodia. Era como se eu tivesse sido arrebatado pelo céu de um fim de tarde.
Aquele encontro foi tão breve quanto o encontro do dia e da noite, tão rápido quanto um eclipse, que é um daqueles momentos que a lua esconde o nosso sol para poder beijá-lo...
Anoiteceu...

"Uma lua cheia e branca erguia-se sobre as montanhas, a leste; no céu, as primeiras estrelas começavam a surgir.” (Jostein Gaarder - O Dia do Curinga - 8 de espadas).

Uma trégua em meio ao signo de espadas. O que importam todas as guerras diante de momentos como este? De que importariam bilhões de anos do universo ou a existência de um multiverso se não fosse pra existir aqueles oito milésimos de segundo em que paramos no ar no último instante de equilíbrio da bicicleta sem movimento? Não sei se tudo acontece por acaso ou se há um ordenamento proposital nas coisas que existem. O que sei é que foram necessários inúmeros eventos em bilhões de anos e movimentos no espaço-tempo para estarmos eu e ela lado a lado. Eu aqui escrevendo e você agora aí do outro lado lendo... Cada momento é único, insubstituível e incrivelmente ligado a um encadeamento grandioso de acontecimentos que nos uniram aqui neste movimento cíclico de escrita/leitura, sonho/realidade, passado/presente...

Um único verso
Justifica um universo
Com múltiplos versos
Talvez crie algo inverso...
Seja em prosas ou (in)versos
Tudo in(dica) um multiverso...

Subir solitário a montanha, buscar abrigo e respostas... O que ainda tenho por conhecer/viver neste mísero espaço/tempo do universo que me contém? Valeria a pena viver tudo de novo?

Sim!