Quantas
vezes na vida experimentamos momentos extraordinários? Quantos
instantes de total alheamento ao contexto, onde os sentidos convergem
em uma única direção, um único evento, uma explosão catártica
capaz de conferir o mais elevado valor a vida? Quantos instantes
assim cabem em uma vida? Quantos seres semelhantes a nós, igualmente
tocados pelo sol, nunca viveram momentos assim?
Quanto
aos que estão para além de mim, pouco ou nada sei. Quanto a mim,
sinto ainda efeitos benéficos de momentos dotados de tal magnitude.
"Agora
beba. Este é o momento mais sublime da sua vida, meu jovem. Você
sempre vai se lembrar dele, mas ele nunca mais vai voltar."
(Jostein Gaarder - O Dia do Curinga - 8 de espadas).
Por certa
lógica, nada se repete e cada momento é único. Há um ponto de
vista que pensa no eterno retorno do diferente. Mas não há que se
descartar a possibilidade do eterno retorno do mesmo... É bom sempre
lembrar que nossos momentos são efêmeros, passageiros, pequeninos
diante da grandiosidade infinita ao redor do nosso planetinha. Mas será
que se soubéssemos que tudo vai se repetir infinitamente viveríamos
cada momento da melhor maneira, apaixonados por cada instante e
ligados na eterna conspiração do universo?
Subi há
pouco as escadas de um estádio de futebol em direção à saída...
A lua cheia, imensa e brilhante se mostrava soberana no céu. Sua
presença só podia ser notada naquele momento porque seus contornos,
naquele instante, se ofereciam aos olhos em uma brecha entre as
nuvens de uma noite predominantemente nublada.
Já me
perguntaram porque às vezes fico tão hipnotizado olhando pra lua.
Quiseram saber o que vejo nela, para além dela. Nada. Somente a
lua... Mas se campos de trigo podem trazer a lembrança de alguém
com cabelos louros, igualmente a lua me lembra momentos... A visão
da lua me traz a memória lembranças de momentos que nem sei se de
fato vivi.
Descia a
avenida distraído e em alta velocidade pilotando minha bicicleta...
O céu estava pintado com as cores do momento mágico e derradeiro do
dia, àquela hora no final da tarde onde não se sabe ao certo se é
dia ou se é noite. Um pouco mais lenta, a garota pedalava também na
mesma direção.
Alcancei-a
e lhe sorri.
Ela
sorriu de volta.
Acionei o
freio.
Ela
também parou.
Por oito
milésimos de segundo estávamos parados lado a lado, sem que nenhum
dos pés tocasse o solo... Pés no chão, mãos no guidão e passos
lentos. Caminhávamos juntos sentindo a alegria e o prazer em cada um
daqueles passos. Coração acelerado, vivo, em uma festa musical que
passava por todo o meu corpo naquele ritmo alucinante que vinha do
meu peito. Uma dor boa se instalava na região do estômago. Meus olhos escuros e profundos mergulhados na beleza que
saia de seus olhos claros, rasos e límpidos. Brilhavam. Era como se
eu pudesse ver além dos olhos e, sem dizer palavras, tocar os
pensamentos dela que pareciam estar como os meus: Parados...
Concentrados apenas naqueles passos lentos, sentindo cada instante
daqueles, que eram temperados pelo barulho das catracas das
bicicletas rodando sem serem pedaladas...
Parecia
que a mesma música que meu corpo produzia era produzida também pelo
corpo dela. Só que com outros timbres, outras possibilidades que
enriqueciam uma mesma melodia. Era como se eu tivesse sido arrebatado
pelo céu de um fim de tarde.
Aquele
encontro foi tão breve quanto o encontro do dia e da noite, tão
rápido quanto um eclipse, que é um daqueles momentos que a lua
esconde o nosso sol para poder beijá-lo...
Anoiteceu...
"Uma
lua cheia e branca erguia-se sobre as montanhas, a leste; no céu, as
primeiras estrelas começavam a surgir.” (Jostein Gaarder - O Dia do Curinga - 8
de espadas).
Uma
trégua em meio ao signo de espadas. O que importam todas as guerras
diante de momentos como este? De que importariam bilhões de anos do
universo ou a existência de um multiverso se não fosse pra existir
aqueles oito milésimos de segundo em que paramos no ar no último instante
de equilíbrio da bicicleta sem movimento? Não sei se tudo
acontece por acaso ou se há um ordenamento proposital nas coisas que
existem. O que sei é que foram necessários inúmeros eventos em
bilhões de anos e movimentos no espaço-tempo para estarmos eu e ela
lado a lado. Eu aqui escrevendo e você agora aí do outro lado
lendo... Cada momento é único, insubstituível e incrivelmente
ligado a um encadeamento grandioso de acontecimentos que nos uniram
aqui neste movimento cíclico de escrita/leitura, sonho/realidade,
passado/presente...
Um único
verso
Justifica
um universo
Com
múltiplos versos
Talvez
crie algo inverso...
Seja em
prosas ou (in)versos
Tudo
in(dica) um multiverso...
Subir
solitário a montanha, buscar abrigo e respostas... O que ainda tenho
por conhecer/viver neste mísero espaço/tempo do universo que me
contém? Valeria a pena viver tudo de novo?
Talvez, num universo paralelo, um único verso curve o espaço-tempo na direção de um eclipse total, sem que buracos negros nos retire toda a matéria viva e nos condene à singularidade da culpa e da incerteza. Talvez, em nenhum desses universos a energia necessária a tal eclipse seja tão grande e tão natural que o torne, desta forma, único e fascinante. O que há de mais impressionante na relatividade, sem dúvidas, é o fato de que um eclipse tão único e raro dure milésimos de segundos sob uma perspectiva, mas uma eternidade aos olhos atentos... "Corpos em movimento, um universo em expansão!" - já dizia HG, sobre o tema, deixando a dica da compreensão.
ResponderExcluir