quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

#8 - Oito de Espadas: ERA COMO SE TIVESSE SIDO ARREBATADO PELO CÉU DE UM FIM DE TARDE

Quantas vezes na vida experimentamos momentos extraordinários? Quantos instantes de total alheamento ao contexto, onde os sentidos convergem em uma única direção, um único evento, uma explosão catártica capaz de conferir o mais elevado valor a vida? Quantos instantes assim cabem em uma vida? Quantos seres semelhantes a nós, igualmente tocados pelo sol, nunca viveram momentos assim?
Quanto aos que estão para além de mim, pouco ou nada sei. Quanto a mim, sinto ainda efeitos benéficos de momentos dotados de tal magnitude.

"Agora beba. Este é o momento mais sublime da sua vida, meu jovem. Você sempre vai se lembrar dele, mas ele nunca mais vai voltar." (Jostein Gaarder - O Dia do Curinga - 8 de espadas).

Por certa lógica, nada se repete e cada momento é único. Há um ponto de vista que pensa no eterno retorno do diferente. Mas não há que se descartar a possibilidade do eterno retorno do mesmo... É bom sempre lembrar que nossos momentos são efêmeros, passageiros, pequeninos diante da grandiosidade infinita ao redor do nosso planetinha. Mas será que se soubéssemos que tudo vai se repetir infinitamente viveríamos cada momento da melhor maneira, apaixonados por cada instante e ligados na eterna conspiração do universo?
Subi há pouco as escadas de um estádio de futebol em direção à saída... A lua cheia, imensa e brilhante se mostrava soberana no céu. Sua presença só podia ser notada naquele momento porque seus contornos, naquele instante, se ofereciam aos olhos em uma brecha entre as nuvens de uma noite predominantemente nublada.
Já me perguntaram porque às vezes fico tão hipnotizado olhando pra lua. Quiseram saber o que vejo nela, para além dela. Nada. Somente a lua... Mas se campos de trigo podem trazer a lembrança de alguém com cabelos louros, igualmente a lua me lembra momentos... A visão da lua me traz a memória lembranças de momentos que nem sei se de fato vivi.
Descia a avenida distraído e em alta velocidade pilotando minha bicicleta... O céu estava pintado com as cores do momento mágico e derradeiro do dia, àquela hora no final da tarde onde não se sabe ao certo se é dia ou se é noite. Um pouco mais lenta, a garota pedalava também na mesma direção.
Alcancei-a e lhe sorri.
Ela sorriu de volta.
Acionei o freio.
Ela também parou.
Por oito milésimos de segundo estávamos parados lado a lado, sem que nenhum dos pés tocasse o solo... Pés no chão, mãos no guidão e passos lentos. Caminhávamos juntos sentindo a alegria e o prazer em cada um daqueles passos. Coração acelerado, vivo, em uma festa musical que passava por todo o meu corpo naquele ritmo alucinante que vinha do meu peito. Uma dor boa se instalava na região do estômago. Meus olhos escuros e profundos mergulhados na beleza que saia de seus olhos claros, rasos e límpidos. Brilhavam. Era como se eu pudesse ver além dos olhos e, sem dizer palavras, tocar os pensamentos dela que pareciam estar como os meus: Parados... Concentrados apenas naqueles passos lentos, sentindo cada instante daqueles, que eram temperados pelo barulho das catracas das bicicletas rodando sem serem pedaladas...
Parecia que a mesma música que meu corpo produzia era produzida também pelo corpo dela. Só que com outros timbres, outras possibilidades que enriqueciam uma mesma melodia. Era como se eu tivesse sido arrebatado pelo céu de um fim de tarde.
Aquele encontro foi tão breve quanto o encontro do dia e da noite, tão rápido quanto um eclipse, que é um daqueles momentos que a lua esconde o nosso sol para poder beijá-lo...
Anoiteceu...

"Uma lua cheia e branca erguia-se sobre as montanhas, a leste; no céu, as primeiras estrelas começavam a surgir.” (Jostein Gaarder - O Dia do Curinga - 8 de espadas).

Uma trégua em meio ao signo de espadas. O que importam todas as guerras diante de momentos como este? De que importariam bilhões de anos do universo ou a existência de um multiverso se não fosse pra existir aqueles oito milésimos de segundo em que paramos no ar no último instante de equilíbrio da bicicleta sem movimento? Não sei se tudo acontece por acaso ou se há um ordenamento proposital nas coisas que existem. O que sei é que foram necessários inúmeros eventos em bilhões de anos e movimentos no espaço-tempo para estarmos eu e ela lado a lado. Eu aqui escrevendo e você agora aí do outro lado lendo... Cada momento é único, insubstituível e incrivelmente ligado a um encadeamento grandioso de acontecimentos que nos uniram aqui neste movimento cíclico de escrita/leitura, sonho/realidade, passado/presente...

Um único verso
Justifica um universo
Com múltiplos versos
Talvez crie algo inverso...
Seja em prosas ou (in)versos
Tudo in(dica) um multiverso...

Subir solitário a montanha, buscar abrigo e respostas... O que ainda tenho por conhecer/viver neste mísero espaço/tempo do universo que me contém? Valeria a pena viver tudo de novo?

Sim!


Um comentário:

  1. Talvez, num universo paralelo, um único verso curve o espaço-tempo na direção de um eclipse total, sem que buracos negros nos retire toda a matéria viva e nos condene à singularidade da culpa e da incerteza. Talvez, em nenhum desses universos a energia necessária a tal eclipse seja tão grande e tão natural que o torne, desta forma, único e fascinante. O que há de mais impressionante na relatividade, sem dúvidas, é o fato de que um eclipse tão único e raro dure milésimos de segundos sob uma perspectiva, mas uma eternidade aos olhos atentos... "Corpos em movimento, um universo em expansão!" - já dizia HG, sobre o tema, deixando a dica da compreensão.

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