quinta-feira, 26 de novembro de 2015

#50 – VALETE DE COPAS – um militar suspeito prendeu-se a si mesmo.

            Todos os valetes do baralho seguram alguma arma.
Em contrapartida, todas as damas seguram uma flor.
O valete de copas, segundo soube, faz referência a um militar francês que lutou na “guerra dos cem anos”. Étienne de Vignoles lutou ao lado de Joana d'Arc e, junto com ela, é tido como herói. Alguém que servia ao seu país com fidelidade e bravura. Talvez os ingleses não tenham a mesma percepção histórica dele. O exemplo de sua companheira de guerra é notável, foi queimada como bruxa pelos britânicos e aclamada como santa pelos franceses. O valete de copas da história queimou aldeias e matou centenas de ingleses.
Herói ou vilão?
Os europeus lotearam todo o território ao sul e promoveram na África e na Ásia um movimento ganancioso de exploração de recursos e seres humanos que foi chamado de “imperialismo”. O oriente médio tem um “tesouro” que os ocidentais anseiam pra continuar levando a vida em alta velocidade com seus automóveis – petróleo. Tem um país localizado em um ponto estratégico para o escoamento da produção de petróleo do Oriente Médio para o Ocidente – a Síria. Um grupo radical classificado no ocidente de “terrorista”, organizou um ataque à capital francesa com armas de fogo manuais e causou a morte de mais de uma centena de franceses. O noticiário brasileiro deu amplo destaque ao acontecimento e causou grande comoção no nosso país. Entre notícias de como aconteceram os ataques terroristas, uma nota curta informando que o governo da França respondeu aos ataques bombardeando a Síria. O problema é que na Síria não vivem só os tais terroristas. Milhares de civis (e muitas crianças) já morreram vitimas de bombardeios deste tipo. Mas quem liga pra eles? Cem vidas ocidentais devem valer mais que 100 mil vidas orientais, certo? É a impressão que se tem  vendo os noticiários...
Não quero desprezar a dor das famílias de vitimas de uma guerra como esta, mas é preciso olhar pra vida humana como um valor comum a todos os povos. A vida é algo tão incrível que, receber notícias de atentados contra ela é algo deprimente.
Entusiastas de governos e sistemas econômicos comemoram “avanços”, “crescimento”; lamentam “crises”, “recessões”... Onde chegaremos com a tese liberal do “crescimento eterno”? Prefiro nem falar da sede por lucros cada vez maiores que levou à destruição de toda uma região engolida pela lama de uma destas empresas que visam “crescimento” as custas da natureza... A tese do “crescimento eterno” é uma das maiores aberrações do nosso tempo. O prenuncio de um colapso:


Esta discussão pode ser demorada e chata... Mas não quero depor contra a “guerra”, afinal, é necessário lutar sempre com unhas e dentes. O leão precisa matar pra viver. Nós, em contrapartida precisamos “matar um leão por dia”. Não somos leões! Às vezes matamos sem matar, como na metáfora citada. O dia está em guerra com a noite, o amargo com o doce, o frio com o calor...

“...da guerra de opostos nasce todo o vir-a-ser...”
(Heráclito de Éfeso)

Os elementos em guerra nas engrenagens do mundo não aniquilam o seu oposto! O leão não extingue a manada de gnus, pois deli vem seu alimento. O sol não extingue a lua... Que nossas guerras possam ser equilibradas, vantajosas. Guerrear por bandeiras, religiões, líderes, parece uma estupidez sem tamanho. Quem dera todos os valetes fossem como os que serviam a rainha de copas em “Alice no País das Maravilhas”, que nunca cumpriam a ordem de cortar a cabeça daqueles que a incomodavam... Quem dera todo rei fosse como aquele do “Pequeno Príncipe”, que daria sempre o perdão ao rato de seu planeta pra poder condená-lo a morte sempre... Rei que, aliás, fez do Principezinho um juiz que teria a mais difícil das tarefas, julgar a si mesmo...
Como se portaria um daqueles militares que cumpriram ordens do Governo do Paraná pra bombardear professores desarmados em sete de paus? Eu que fui soldado ciclista em Ás de Espadas, tenho reservas quando aos ensinamentos que tive sob a maior instituição militar do país. Militares, ao meu ver, são formados pra obedecer cegamente, sem ponderar se aquilo que foi ordenado é coerente consigo ou não. Um militar fica enjaulado em sua farda sem poder dar vazão a si próprio enquanto indivíduo. Ele é parte de uma instituição maior.
Mas o que pode ser maior que eu próprio aos meus olhos?
ALERTA VERMELHO!
Pensar assim é muito suspeito! Sendo eu como o valete francês, fiel ao meu rei e a minha causa, devo punir-me a mim por ter tais pensamentos! E assim um militar suspeito prendeu-se a si mesmo. Nunca mais escapou da doutrina que programaram em si.
Na estação passada, despedi-me do naipe de ouros em dez, invocando o trunfo da dama. Na semana passada, despedindo-se de copas (o último naipe), pelas mãos da arquiteta deste clã, a dama-curinga foi invocada pela quarta e última vez nesta paciência. Era um presente de aniversário. Curioso como as pontas se fecham – no big-bang que originou este Clã Curinga e a temporada de espadas (o primeiro naipe), quem recebeu presente de aniversário fui eu. Começou entregando a espada para que eu pudesse me unir a ela nas lutas que viriam no ano e fechou de coração aberto com homenagens de nov(a)idade a outra carta-curinga...
Que a dama de copas traga em suas mãos as mais belas flores da primavera. Que nossas guerras sejam a nosso favor e jamais a favor daquilo que não somos. Como na canção citada em Dez de Ouros, “Eu quero a espada em minhas mãos...”, como um bom valete, não fujo da luta e “Não me entrego sem lutar - tenho, ainda, coração...”. Mas não sou valete e nem devo fidelidade ao naipe copas! Há uma lição a aprender desta carta – deixemos que os senhores da guerra se destruam entre si!

“[...] E os senhores liberais, tão vulgares hoje, quem querem eles libertar? Por que liberdade gritam e anseiam? Pela liberdade do espírito! Do espírito da moralidade, da legalidade, da devoção, do temor de Deus, etc. Mas isso é o mesmo que querem os senhores antiliberais, e toda a polémica que os divide anda à volta de um beneficio: os últimos querem ter a palavra sozinhos, enquanto os primeiros exigem "ter parte activa no usufruto desse benefício". Para ambos, o epírito é senhor absoluto e só disputam entre si para saber quem vai ocupar o trono hierárquico devido ao "regente do Senhor". O melhor de tudo isto é que podemos ficar tranquilamente a ver toda ssa agitação com a certeza de que as feras da história se irão comer umas às outras como as da natureza; e os seus cadáveres a apodrecer vão adubar o terreno para... os nossos frutos. [...]”

(Max Stirner - O Único e sua propriedade - As Obsessões).


quarta-feira, 18 de novembro de 2015

#49 - 10 DE COPAS - " um bobo da corte, que a engrenagem do tempo é incapaz de engolir, perambula pelo mundo..."

Uma Dama da capital costuma aparecer ocasionalmente por aqui. Traveste-se de diferentes naipes. Possui diferentes faces. Possui um só coração, imenso, sem raízes. 

Há cerca de 11 anos ela perambulava por Londrina, quando encontrou um soldado que pedalava pela estrada, e ambos se tornaram partes integrantes de meus dias, meus poemas, minha vida.

Há cerca de um mês ela comemora órbitas em torno do sol, tantas que já nem sei quantas foram! [perco o amigo, mas não perco a piada! rsrs]

Pudera... como condenar celebrações da vida, ainda que sob a égide de um "inferno astral"? Na onda do desapego do papel, sugerida genialmente no post passado, por que nos apegarmos tanto a datas marcadas, se há razão para celebrar a cada instante a presença de vidas tão preciosas ao nosso redor?

Nenhum título de post seria mais propício ao dia de hoje. Nem fiz questão de adaptá-lo! Mais uma vez sob a égide das poucas palavras, deixarei de lado os infortúnios diários que, especialmente hoje, distorcem meu silêncio solitário e inspiram palavras já guardadas a uma próxima ocasião...

... Para dizer que esta curinga que hoje vos escreve, mais uma vez, está a poucas horas de perambular pelo mundo novamente... E, por ironia, a caminho de local tão próximo de nossa Dama-Curinga... que igualmente tem a alma e o peito cosmopolitas!

[Infelizmente, a ocasião não permitirá um encontro... não fosse eu esta carta ignorada do baralho, nem mesmo poderia estar postando aqui o meu destino!]

Mas aproveito o ensejo para deixar registrado aqui, também, a felicidade de ter feito parte de mais uma volta em torno do sol na vida da Dama do Clã Curinga. Hoje [sim, somente hoje!] ela coloca fim ao seu inferno astral tão comemorado e celebra, de fato, seu aniversário!


"A amizade é um amor que nunca morre"
(Mário Quintana)

Que os astros então sejam sublimes nos seus atalhos por este mundo gigante! Que as trilhas que seguimos continuem nos cruzando os caminhos, pois família é também aquela que a gente escolhe, e posso afirmar plenamente que temos este porto seguro no que chamamos, há mais de dez anos, de amizade! E que o sorriso estampado na foto de 2007 seja o de todos os dias no teu espelho... 

[pela distância, e como pedido de desculpas por não poder te dar um abraço nesta ocasião, posso te deixar de presente uma promessa de tirar uma foto decente no nosso próximo encontro, e também o próximo post da Dama de Copas, lugar já cativo e esperado aqui no Clã]

Feliz aniversário!

sábado, 14 de novembro de 2015

#48 – NOVE DE COPAS – O mundo agora apodrece em seus compromissos de papel...

Dar aulas para crianças que estão se iniciando nos estudos da história (e na construção de sua própria) e escrever aqui no Clã neste ano me fizeram pensar (e muito) no valor que damos à escrita. Tudo o que vem antes da invenção da escrita chamamos de “pré-história”. A história não passa de míseras dezenas de séculos em meio a um oceano de existência de vida no planeta Terra. A própria Terra não passa de uma formação recente no meio de uma infinidade de espaço vazio e incontáveis estrelas distantes...
Mas nós inventamos a escrita. Artificio que ajudou nossos ancestrais a acumularem conhecimento e aprenderem a, de uma forma ou de outra, lidar melhor com o caos natural que se desenrola ao nosso redor. Negar a importância da escrita seria uma grande hipocrisia. Mas a sacralização da mesma e tudo o que hoje se aprisiona por meio dela é algo que parece exalar (e já há algum tempo) o odor da decomposição...
Logo que nascemos, um papel assinado por nossos pais, mais do que o nosso choro, ou a primeira respirada de ar, é o que “certifica” nossa existência. Depois vamos experimentando o mundo e se encantando a cada coisa nova que descobrimos. Mas as coisas tem nome, por isso vamos aprendendo. Às vezes, duas coisas diferentes tem o mesmo nome, e somos surpreendidos quando ouvimos uma frase do tipo “não limpa a boca suja de manga na manga da camisa!”. Manga fruta, manga da camisa, folha do pé de manga, folha de bananeira, rádio folha, folha de papel...
Na escola usamos muito papel...
Em blocos com muitas folhas de papel aprendemos a ordenar tudo o que ouvimos em palavras escritas... E vamos descobrindo que este mundo maravilhoso que parecia nosso, tem donos. Todo o mês chegam em casa papeis cobrando pelo uso da agua, eletricidade, telefone, aluguel... Quem viveu a vida toda vendo os pais pagarem aluguel, como vi e vejo minha mãe, conhece o sonho da maioria das pessoas que vivem nessa situação – comprar uma casa. Basta juntar dinheiro, achar uma casa a venda e assinar papéis. A casa será tua quando tiver um papel no seu nome, uma “escritura”.
Iniciamos então os conhecimentos sobre a propriedade privada. Tudo regulamentado por papeis assinados por pessoas “importantes” e “poderosas”. Se eu der de ombros, como fez o Pequeno Príncipe nos planetas do rei, do empresário, do geógrafo... ou simplesmente pedir pra que esses “poderosos” não atrapalhem a visão que tenho do meu sol, como fez Diógenes, certamente posso levar a vida de uma maneira muito rica...

(Planos de Papel - Raul Seixas)

Mas ignorar a idolatria por papel de alguns poucos, não livra a grande maioria da mesma idolatria. Reproduzimos a ideia de posse por uma escritura em nossas relações sociais. Quem não é filho de político precisa estudar (e muito) pra alcançar alguma posição de destaque nos palcos montados no circo das relações sociais. E pra sermos respeitados, ter oportunidades de jogar o jogo deles, precisamos de um papel com o carimbo de uma instituição e a assinatura dos superiores da mesma. Sem diploma, salvo raríssimas exceções, não passamos de curingas descartados no lixo. Totalmente fora do jogo que garante nossa permanência segura na terra.

"Se pensam que eu tenho as mãos vazias e frias - melhor assim.
Se pensam que as minhas mãos estão presas - surpresa!
mãos e o coração livres e quentes - chimarrão e leveza..."
(Ilex Paraguarienses - Engenheiros do Hawaii)

Mas queremos garantia de tudo pra atingirmos a segurança necessária pra sermos felizes e vivermos em paz, então vem outro papel. Uma escritura de posse que quase todo mundo quer ter. A posse sobre outra pessoa. Um “papel passado” que garante que, a partir daquela data, tu só poderá se interessar pela mesma cor, a mesma fruta (ainda que apodreça), o mesmo cheiro, os mesmos sons, a mesma textura...
“Se eu te amo e tu me amas,
o amor a dois profana
o amor de todos os mortais:
porque quem gosta de maçã
irá gostar de todas,
porque todas são iguais..." 
(“A Maçã” - Raul Seixas)

Já citei esta musica em um debate sobre o amor e meus interlocutores disseram que era uma justificativa tola, uma desculpa de quem não era capaz de arcar com um compromisso. Então me bate outra dúvida, um “compromisso” é algo que firmamos e mantemos por amor ou por obrigação? Não pretendo alimentar a ideia de que as pessoas devem viver em uma sociedade sem compromissos, mas acho que só é possível se comprometer com coisas possíveis e, mais do que isso, com coisas que nos fazem bem. Comecei o texto falando sobre escrever e dar aulas. Meu compromisso com o colégio e os alunos garante os recursos que preciso pra me manter na vivo na paciência da sociedade. Mas não posso dizer que me seja um peso. Gosto do que faço. O compromisso de escrever aqui a cada catorze dias é algo que me faz bem. Se não me agradasse mais com isso, não acho que seria desonesto parar. O compromisso deveria existir pra nos ajudar a viver e não o contrário. Viver em função de compromissos que se afastam daquilo que somos e almejamos deveria ser considerado um pecado contra a vida.

“Não basta o compromisso, vale mais o coração
Já que não me entendes, não me julgues, não me tentes...”
(Legião Urbana – 1º de Julho)

Não quero descrer na vontade que duas pessoas possam ter de passar a vida inteira juntos em harmonia um com o outro. Mas também não posso acreditar que isso seja regra. A experiência me diz até que isso é exceção. Sem negar a possibilidade de um amor “até que a morte os separe”, penso que prometer amor é alta traição a si próprio. É como prometer que não vai chover amanhã! Ou será que sentimentos são elementos de laboratório, totalmente constantes e previsíveis? Somos natureza, somos caos...

"Podemos prometer atos,
mas não podemos prometer sentimentos.
Atos são pássaros engaiolados.
Sentimentos são pássaros em voo."
(Mosaico de Pensamentos - Rubem Alves).

Sentimentos não podem ser delimitados por cercas!
Nunca pedi ajuda a tantos autores. Mas este tema é quase uma unanimidade! Quase todos sacralizam e sonham com propriedades, diplomas e, sobretudo, casamento – seu e dos outros... Não pretendo tirar o orgulho de um eventual leitor que ame os arranjos sociais como são, à base de papel e compromissos. Mas quero demonstrar que não concordar com isso não é nenhuma aberração. Posso encontrar argumento até nas palavras de um padre, representante de uma instituição que sacraliza por séculos a união de duas pessoas por um ritual mágico que se confirma em papel:

“...Tudo o que te aconteceu
Foi por falta de entender
Que amar não é prender
Nem ter domínio sobre alguém
Mas consiste em fazer livre
A quem se ama e se quer bem
Todo amor que não promove
A liberdade, não convém...”
(Beleza Imperfeita - Padre Fábio de Melo)

Eu poderia passar horas tentando demonstrar que o mundo agora apodrece em seus compromissos de papel, mas duvido que hoje eu possa ser mais contundente e claro do que companheiros defuntos que vira e meche chamo pra um bate-papo musico-filosófico: Nietzsche e Raul Seixas. Por isso deixo aqui inteiramente um aforismo do alemão e uma canção do baiano:

As coisas que chamamos de amor: Cobiça e amor: que sentimentos diversos evocam essas duas palavras em nós! – e poderia, no entanto, ser o mesmo impulso que recebe dois nomes; uma vez difamado do ponto de vista dos que já possuem, nos quais ele alcançou alguma calma e que temem por sua ‘posse’; a outra vez do ponto de vista dos insatisfeitos, sedentos, e por isso glorificado como ‘bom’.
Nosso amor ao próximo – não é ele uma ânsia por nova propriedade? E igualmente o nosso amor ao saber, à verdade, e toda ânsia por novidades?
Pouco a pouco nos enfadamos do que é velho, do que possuímos seguramente, e voltamos a estender os braços; ainda a mais bela paisagem não estará certa do nosso amor, após passarmos três meses nela, e algum litoral longínquo despertará nossa cobiça: em geral, as posses são diminuídas pela posse. Nosso prazer conosco procura se manter transformando algo novo em nós mesmos – precisamente a isto chamamos possuir.
Enfadar-se de uma posse é enfadar-se de si mesmo.
(Pode-se também sofrer da demasia – também o desejo de jogar fora, de distribuir; pode ter o honrado nome de “amor”.)
Quando vemos alguém sofrer, aproveitamos com gosto a oportunidade que nos é oferecida para tomar posse desse alguém; é o que faz o homem benfazejo e compassivo, que também chama de “amor” ao desejo de uma nova posse que nele é avivado, e que nela tem prazer semelhante ao de uma nova conquista iminente.
Mas é o amor sexual que se revela mais claramente como ânsia de propriedade: o amante quer a posse incondicional tanto sobre sua alma como sobre seu corpo, quer ser amado unicamente, habitando e dominando a outra alma como algo supremo e absolutamente desejável.
Se considerarmos que isso não é outra coisa senão excluir todo o mundo de um precioso bem, de uma felicidade e fruição; se considerarmos que o amante visa o empobrecimento e privação de todos os demais competidores e quer tornar-se o dragão de seu tesouro, sendo o mais implacável e egoísta dos ‘conquistadores’ e exploradores; se considerarmos, por fim, que para o amante todo o resto do mundo parece indiferente, pálido, sem valor; e que ele se acha disposto a fazer qualquer sacrifício, a transtornar qualquer ordem, a relegar qualquer interesse: então nos admiraremos de que esta selvagem cobiça e injustiça do amor sexual tenha sido glorificada e divinizada a tal ponto, em todas as épocas, que desse amor foi extraída a noção de amor como o oposto do egoísmo, quando é talvez a mais direta expressão do egoísmo.
Nisso, evidentemente, o uso linguístico foi determinado pelos que não possuíam e desejavam – os quais sempre foram em maior número, provavelmente. Aqueles que nesse campo tiveram posses e satisfação bastante deixaram escapar, aqui e ali, uma palavra sobre o ‘demônio furioso’, como fez o mais adorável e benquisto dos atenienses, Sófocles: mas Eros sempre riu desses blasfemos – eram, invariavelmente, os seus grandes favoritos.
– Bem que existe no mundo, aqui e ali, uma espécie de continuação do amor, na qual a cobiçosa ânsia que duas pessoas têm uma pela outra deu lugar a um novo desejo e cobiça, a uma elevada sede conjunta de um ideal acima delas: Mas quem conhece tal amor? Quem o experimentou? Seu verdadeiro nome é amizade.” (A Gaia Ciência – Friedrich Nietzsche) 


sexta-feira, 6 de novembro de 2015

#47 - Oito de Copas - QUANDO A GENTE NÃO SABE SE RI OU SE CHORA

Mais um post "atrasado". Mais uma vez fora de hora. Como tudo na vida, a imprevisibilidade é a regra do devir, e talvez tudo o que possamos afirmar é que as coisas têm a hora certa para acontecer.  Contradição?

Nossa impotência cria inúmeras justificativas para os fatos inexplicáveis da vida. Deus. Deuses. Vida. Morte. Além-morte. Todo ser humano, por mais cético que seja, encontra no fundo da alma uma certa síndrome de orfandade - a ignorância sobre de onde viemos e o medo do "para onde vamos" nos faz dormir em posição fetal algumas vezes na vida. Queremos ninho. Segurança. Ao menos, saber que alguém se importa.

As engrenagens mecânicas dos dias nos faz olvidar essas questões essenciais. Hora para acordar, para comer, para produzir, para descansar. Mascaramos nossos anseios e questões fundamentais com a ditadura das horas, num intento inútil de tornar previsível o que, de fato, não é. Queremos segurança - e ela se traduz na falsa sensação de que temos o controle dos acontecimentos.

Não quero, com essas constatações, afirmar que somos meros espectadores, inertes diante da vida. Temos certo controle e, sobretudo, responsabilidade sobre nossas escolhas. Podemos escolher viver uma vida em função de trabalho, de estudos, de outras pessoas ou de nós mesmos. Podemos escolher a disciplina das horas ou vender a arte na praia. São as escolhas, ainda que sob a égide de um livre arbítrio, que nos livram de sermos medíocres e pequenos. Nossa reação à condição humana de existência.

Assim sendo, não há forma de vida que se passe diante de nossos olhos sem ser grandiosa. Não há um só encontro entre seres humanos que não seja magnífico. A escolha de doar a tais encontros algumas das nossas preciosas horas é inefável. Dentre eles... os encontros com aqueles que passam por nossas vidas e permanecem, por algum motivo, sem dúvida, se tornam ainda mais especiais. Daí voltarmos, então, à estaca zero - a solidão suprema ao sentirmos que tudo é passageiro, que esses encontros um dia se desfarão, inevitavelmente. A falta... do ninho... da segurança... 

"Súbito me senti infinitamente triste por todos nós, seres humanos, que acabamos nos acostumando com uma coisa tão incrível, tão imperscrutável como a vida. Um belo dia acabamos achando evidente o fato de existirmos... e então... bem, só então voltamos a pensar que um dia teremos de deixar esse mundo" (JG - 8 de Copas)

Nessas horas, o colo é a presença dos que se importam. O corpo carece do abraço que aconchega e aquece. O coração, da presença, ainda que distante, dos que comungam do mesmo sentimento. A solidão humana se faz menos só com solidões alheias lado a lado.

"... esqueça o roteiro, não pergunte que horas são -
eu não sei! - se tu quiseres saber quem eu sou...
me dá tua mão, me protege e terás proteção..."
(HG - Lado a Lado)

Hoje minhas palavras são breves, queria eu que fossem leves. Uma perda que não foi diretamente minha não deixa de ser igualmente perda, pois traz à tona todos os fantasmas que narrei aqui. No desespero de hoje, em nossa própria companhia, rimos e choramos diante do imprevisto, nos abraçamos para enfrentar a nossa impotência. Na solidão do poeta que conversa com as estrelas, acima de tudo, afirmo, por amor, a quem dirijo o post de hoje: olhe para o céu, não estás só.

Direis agora: "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas?
Que sentido tem o que dizem,
quando estão contigo? "

E eu vos direi:
"Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e e de entender estrelas