Todos
os valetes do baralho seguram alguma arma.
Em contrapartida, todas
as damas seguram uma flor.
O valete de copas,
segundo soube, faz referência a um militar francês que lutou na “guerra dos cem
anos”. Étienne de Vignoles lutou ao lado de Joana d'Arc e, junto com ela, é
tido como herói. Alguém que servia ao seu país com fidelidade e bravura. Talvez
os ingleses não tenham a mesma percepção histórica dele. O exemplo de sua
companheira de guerra é notável, foi queimada como bruxa pelos britânicos e
aclamada como santa pelos franceses. O valete de copas da história queimou
aldeias e matou centenas de ingleses.
Herói ou vilão?
Os europeus lotearam
todo o território ao sul e promoveram na África e na Ásia um movimento
ganancioso de exploração de recursos e seres humanos que foi chamado de “imperialismo”.
O oriente médio tem um “tesouro” que os ocidentais anseiam pra continuar levando
a vida em alta velocidade com seus automóveis – petróleo. Tem um país
localizado em um ponto estratégico para o escoamento da produção de petróleo do
Oriente Médio para o Ocidente – a Síria. Um grupo radical classificado no
ocidente de “terrorista”, organizou um ataque à capital francesa com armas de
fogo manuais e causou a morte de mais de uma centena de franceses. O noticiário
brasileiro deu amplo destaque ao acontecimento e causou grande comoção no nosso
país. Entre notícias de como aconteceram os ataques terroristas, uma nota curta
informando que o governo da França respondeu aos ataques bombardeando a Síria. O
problema é que na Síria não vivem só os tais terroristas. Milhares de civis (e
muitas crianças) já morreram vitimas de bombardeios deste tipo. Mas quem liga
pra eles? Cem vidas ocidentais devem valer mais que 100 mil vidas orientais,
certo? É a impressão que se tem vendo os
noticiários...
Não quero desprezar a
dor das famílias de vitimas de uma guerra como esta, mas é preciso olhar pra
vida humana como um valor comum a todos os povos. A vida é algo tão incrível
que, receber notícias de atentados contra ela é algo deprimente.
Entusiastas de
governos e sistemas econômicos comemoram “avanços”, “crescimento”; lamentam “crises”,
“recessões”... Onde chegaremos com a tese liberal do “crescimento eterno”?
Prefiro nem falar da sede por lucros cada vez maiores que levou à destruição de
toda uma região engolida pela lama de uma destas empresas que visam “crescimento”
as custas da natureza... A tese do “crescimento eterno” é uma das maiores
aberrações do nosso tempo. O prenuncio de um colapso:
Esta discussão pode
ser demorada e chata... Mas não quero depor contra a “guerra”, afinal, é
necessário lutar sempre com unhas e dentes. O leão precisa matar pra viver. Nós,
em contrapartida precisamos “matar um leão por dia”. Não somos leões! Às vezes
matamos sem matar, como na metáfora citada. O dia está em guerra com a noite, o
amargo com o doce, o frio com o calor...
“...da
guerra de opostos nasce todo o vir-a-ser...”
(Heráclito
de Éfeso)
Os elementos em guerra
nas engrenagens do mundo não aniquilam o seu oposto! O leão não extingue a
manada de gnus, pois deli vem seu alimento. O sol não extingue a lua... Que
nossas guerras possam ser equilibradas, vantajosas. Guerrear por bandeiras,
religiões, líderes, parece uma estupidez sem tamanho. Quem dera todos os
valetes fossem como os que serviam a rainha de copas em “Alice no País das
Maravilhas”, que nunca cumpriam a ordem de cortar a cabeça daqueles que a
incomodavam... Quem dera todo rei fosse como aquele do “Pequeno Príncipe”, que
daria sempre o perdão ao rato de seu planeta pra poder condená-lo a morte
sempre... Rei que, aliás, fez do Principezinho um juiz que teria a mais difícil
das tarefas, julgar a si mesmo...
Como se portaria um
daqueles militares que cumpriram ordens do Governo do Paraná pra bombardear
professores desarmados em sete de paus? Eu que fui soldado ciclista em Ás de
Espadas, tenho reservas quando aos ensinamentos que tive sob a maior
instituição militar do país. Militares, ao meu ver, são formados pra obedecer
cegamente, sem ponderar se aquilo que foi ordenado é coerente consigo ou não. Um
militar fica enjaulado em sua farda sem poder dar vazão a si próprio enquanto
indivíduo. Ele é parte de uma instituição maior.
Mas o que pode ser
maior que eu próprio aos meus olhos?
ALERTA VERMELHO!
Pensar assim é muito suspeito! Sendo eu como o valete francês, fiel ao meu rei
e a minha causa, devo punir-me a mim por ter tais pensamentos! E assim um
militar suspeito prendeu-se a si mesmo. Nunca mais escapou da doutrina que
programaram em si.
Na estação passada,
despedi-me do naipe de ouros em dez, invocando o trunfo da dama. Na semana
passada, despedindo-se de copas (o último naipe), pelas mãos da arquiteta deste
clã, a dama-curinga foi invocada pela quarta e última vez nesta paciência. Era
um presente de aniversário. Curioso como as pontas se fecham – no big-bang que
originou este Clã Curinga e a temporada de espadas (o primeiro naipe), quem
recebeu presente de aniversário fui eu. Começou entregando a espada para que eu
pudesse me unir a ela nas lutas que viriam no ano e fechou de coração aberto com
homenagens de nov(a)idade a outra carta-curinga...
Que a dama de copas
traga em suas mãos as mais belas flores da primavera. Que nossas guerras sejam
a nosso favor e jamais a favor daquilo que não somos. Como na canção citada em Dez
de Ouros, “Eu quero a espada em minhas
mãos...”, como um bom valete, não fujo da luta e “Não me entrego sem lutar - tenho, ainda, coração...”. Mas não sou valete e nem devo fidelidade ao naipe copas! Há uma lição a aprender desta carta – deixemos
que os senhores da guerra se destruam entre si!
“[...]
E os senhores liberais, tão vulgares hoje, quem querem eles libertar? Por que
liberdade gritam e anseiam? Pela liberdade do espírito! Do espírito da
moralidade, da legalidade, da devoção, do temor de Deus, etc. Mas isso é o
mesmo que querem os senhores antiliberais, e toda a polémica que os divide anda
à volta de um beneficio: os últimos querem ter a palavra sozinhos, enquanto os
primeiros exigem "ter parte activa no usufruto desse benefício". Para
ambos, o epírito é senhor absoluto e só disputam entre si para saber quem vai
ocupar o trono hierárquico devido ao "regente do Senhor". O melhor de
tudo isto é que podemos ficar tranquilamente a ver toda ssa agitação com a
certeza de que as feras da história se irão comer umas às outras como as da
natureza; e os seus cadáveres a apodrecer vão adubar o terreno para... os
nossos frutos. [...]”
(Max
Stirner - O Único e sua propriedade - As Obsessões).


