Dar aulas para crianças que estão se
iniciando nos estudos da história (e na construção de sua própria) e escrever
aqui no Clã neste ano me fizeram pensar (e muito) no valor que damos à escrita.
Tudo o que vem antes da invenção da escrita chamamos de “pré-história”. A
história não passa de míseras dezenas de séculos em meio a um oceano de
existência de vida no planeta Terra. A própria Terra não passa de uma formação
recente no meio de uma infinidade de espaço vazio e incontáveis estrelas
distantes...
Mas nós inventamos a escrita. Artificio
que ajudou nossos ancestrais a acumularem conhecimento e aprenderem a, de uma
forma ou de outra, lidar melhor com o caos natural que se desenrola ao nosso
redor. Negar a importância da escrita seria uma grande hipocrisia. Mas a
sacralização da mesma e tudo o que hoje se aprisiona por meio dela é algo que
parece exalar (e já há algum tempo) o odor da decomposição...
Logo que nascemos, um papel assinado por
nossos pais, mais do que o nosso choro, ou a primeira respirada de ar, é o que “certifica”
nossa existência. Depois vamos experimentando o mundo e se encantando a cada
coisa nova que descobrimos. Mas as coisas tem nome, por isso vamos aprendendo. Às
vezes, duas coisas diferentes tem o mesmo nome, e somos surpreendidos quando
ouvimos uma frase do tipo “não limpa a boca suja de manga na manga da camisa!”.
Manga fruta, manga da camisa, folha do pé de manga, folha de bananeira, rádio
folha, folha de papel...
Na escola usamos muito papel...
Em blocos com muitas folhas de papel aprendemos
a ordenar tudo o que ouvimos em palavras escritas... E vamos descobrindo que
este mundo maravilhoso que parecia nosso, tem donos. Todo o mês chegam em casa
papeis cobrando pelo uso da agua, eletricidade, telefone, aluguel... Quem viveu
a vida toda vendo os pais pagarem aluguel, como vi e vejo minha mãe, conhece o
sonho da maioria das pessoas que vivem nessa situação – comprar uma casa. Basta
juntar dinheiro, achar uma casa a venda e assinar papéis. A casa será tua
quando tiver um papel no seu nome, uma “escritura”.
Iniciamos então os conhecimentos sobre a
propriedade privada. Tudo regulamentado por papeis assinados por pessoas “importantes”
e “poderosas”. Se eu der de ombros, como fez o Pequeno Príncipe nos planetas do
rei, do empresário, do geógrafo... ou simplesmente pedir pra que esses “poderosos”
não atrapalhem a visão que tenho do meu sol, como fez Diógenes, certamente posso levar a vida de
uma maneira muito rica...
(Planos de Papel - Raul Seixas)
Mas ignorar a idolatria por papel de
alguns poucos, não livra a grande maioria da mesma idolatria. Reproduzimos a
ideia de posse por uma escritura em nossas relações sociais. Quem não é filho
de político precisa estudar (e muito) pra alcançar alguma posição de destaque
nos palcos montados no circo das relações sociais. E pra sermos respeitados,
ter oportunidades de jogar o jogo deles, precisamos de um papel com o carimbo
de uma instituição e a assinatura dos superiores da mesma. Sem diploma, salvo raríssimas
exceções, não passamos de curingas descartados no lixo. Totalmente fora do jogo
que garante nossa permanência segura na terra.
"Se pensam que eu tenho as mãos vazias e frias - melhor assim.
Se pensam que as minhas mãos estão presas - surpresa!
Se pensam que as minhas mãos estão presas - surpresa!
mãos e o coração livres e quentes - chimarrão e leveza..."
(Ilex Paraguarienses - Engenheiros do Hawaii)
(Ilex Paraguarienses - Engenheiros do Hawaii)
Mas queremos garantia de tudo pra
atingirmos a segurança necessária pra sermos felizes e vivermos em paz, então vem
outro papel. Uma escritura de posse que quase todo mundo quer ter. A posse
sobre outra pessoa. Um “papel passado” que garante que, a partir daquela data,
tu só poderá se interessar pela mesma cor, a mesma fruta (ainda que apodreça),
o mesmo cheiro, os mesmos sons, a mesma textura...
“Se eu te amo e tu me amas,
o amor a dois profana
o amor de todos os mortais:
porque quem gosta de maçã
irá gostar de todas,
porque todas são iguais..."
(“A Maçã” - Raul Seixas)
Já citei esta musica em um debate sobre o
amor e meus interlocutores disseram que era uma justificativa tola, uma
desculpa de quem não era capaz de arcar com um compromisso. Então me bate outra
dúvida, um “compromisso” é algo que firmamos e mantemos por amor ou por
obrigação? Não pretendo alimentar a ideia de que as pessoas devem viver em uma
sociedade sem compromissos, mas acho que só é possível se comprometer com
coisas possíveis e, mais do que isso, com coisas que nos fazem bem. Comecei o
texto falando sobre escrever e dar aulas. Meu compromisso com o colégio e os
alunos garante os recursos que preciso pra me manter na vivo na paciência da sociedade.
Mas não posso dizer que me seja um peso. Gosto do que faço. O compromisso de
escrever aqui a cada catorze dias é algo que me faz bem. Se não me agradasse
mais com isso, não acho que seria desonesto parar. O compromisso deveria
existir pra nos ajudar a viver e não o contrário. Viver em função de
compromissos que se afastam daquilo que somos e almejamos deveria ser
considerado um pecado contra a vida.
“Não basta o
compromisso, vale mais o coração
Já que não me
entendes, não me julgues, não me tentes...”
(Legião Urbana – 1º de
Julho)
Não quero descrer na vontade que duas
pessoas possam ter de passar a vida inteira juntos em harmonia um com o outro. Mas
também não posso acreditar que isso seja regra. A experiência me diz até que
isso é exceção. Sem negar a possibilidade de um amor “até que a morte os separe”,
penso que prometer amor é alta traição a si próprio. É como prometer que não
vai chover amanhã! Ou será que sentimentos são elementos de laboratório,
totalmente constantes e previsíveis? Somos natureza, somos caos...
"Podemos prometer atos,
mas não podemos
prometer sentimentos.
Atos são pássaros
engaiolados.
Sentimentos são
pássaros em voo."
(Mosaico de
Pensamentos - Rubem Alves).
Sentimentos não podem ser delimitados por
cercas!
Nunca pedi ajuda a tantos autores. Mas este
tema é quase uma unanimidade! Quase todos sacralizam e sonham com propriedades,
diplomas e, sobretudo, casamento – seu e dos outros... Não pretendo tirar o
orgulho de um eventual leitor que ame os arranjos sociais como são, à base de
papel e compromissos. Mas quero demonstrar que não concordar com isso não é
nenhuma aberração. Posso encontrar argumento até nas palavras de um padre,
representante de uma instituição que sacraliza por séculos a união de duas
pessoas por um ritual mágico que se confirma em papel:
“...Tudo o que te
aconteceu
Foi por falta de
entender
Que amar não é prender
Nem ter domínio sobre
alguém
Mas consiste em fazer
livre
A quem se ama e se
quer bem
Todo amor que não
promove
A liberdade, não
convém...”
(Beleza Imperfeita - Padre
Fábio de Melo)
Eu poderia passar horas tentando
demonstrar que o mundo agora apodrece em seus compromissos de papel, mas duvido
que hoje eu possa ser mais contundente e claro do que companheiros defuntos que
vira e meche chamo pra um bate-papo musico-filosófico: Nietzsche e Raul Seixas. Por isso deixo aqui inteiramente um aforismo do alemão e uma canção do baiano:
“As
coisas que chamamos de amor: Cobiça e amor: que sentimentos diversos evocam
essas duas palavras em nós! – e poderia, no entanto, ser o mesmo impulso que
recebe dois nomes; uma vez difamado do ponto de vista dos que já possuem, nos
quais ele alcançou alguma calma e que temem por sua ‘posse’; a outra vez do
ponto de vista dos insatisfeitos, sedentos, e por isso glorificado como ‘bom’.
Nosso amor ao próximo – não é ele uma
ânsia por nova propriedade? E igualmente o nosso amor ao saber, à verdade, e
toda ânsia por novidades?
Pouco a pouco nos enfadamos do que é
velho, do que possuímos seguramente, e voltamos a estender os braços; ainda a
mais bela paisagem não estará certa do nosso amor, após passarmos três meses
nela, e algum litoral longínquo despertará nossa cobiça: em geral, as posses
são diminuídas pela posse. Nosso prazer conosco procura se manter transformando
algo novo em nós mesmos – precisamente a isto chamamos possuir.
Enfadar-se de uma posse é enfadar-se de
si mesmo.
(Pode-se também sofrer da demasia –
também o desejo de jogar fora, de distribuir; pode ter o honrado nome de
“amor”.)
Quando vemos alguém sofrer, aproveitamos
com gosto a oportunidade que nos é oferecida para tomar posse desse alguém; é o
que faz o homem benfazejo e compassivo, que também chama de “amor” ao desejo de
uma nova posse que nele é avivado, e que nela tem prazer semelhante ao de uma
nova conquista iminente.
Mas é o amor sexual que se revela mais
claramente como ânsia de propriedade: o amante quer a posse incondicional tanto
sobre sua alma como sobre seu corpo, quer ser amado unicamente, habitando e
dominando a outra alma como algo supremo e absolutamente desejável.
Se considerarmos que isso não é outra
coisa senão excluir todo o mundo de um precioso bem, de uma felicidade e
fruição; se considerarmos que o amante visa o empobrecimento e privação de
todos os demais competidores e quer tornar-se o dragão de seu tesouro, sendo o
mais implacável e egoísta dos ‘conquistadores’ e exploradores; se
considerarmos, por fim, que para o amante todo o resto do mundo parece
indiferente, pálido, sem valor; e que ele se acha disposto a fazer qualquer
sacrifício, a transtornar qualquer ordem, a relegar qualquer interesse: então
nos admiraremos de que esta selvagem cobiça e injustiça do amor sexual tenha
sido glorificada e divinizada a tal ponto, em todas as épocas, que desse amor
foi extraída a noção de amor como o oposto do egoísmo, quando é talvez a mais
direta expressão do egoísmo.
Nisso, evidentemente, o uso linguístico
foi determinado pelos que não possuíam e desejavam – os quais sempre foram em
maior número, provavelmente. Aqueles que nesse campo tiveram posses e
satisfação bastante deixaram escapar, aqui e ali, uma palavra sobre o ‘demônio
furioso’, como fez o mais adorável e benquisto dos atenienses, Sófocles: mas
Eros sempre riu desses blasfemos – eram, invariavelmente, os seus grandes
favoritos.
– Bem que existe no mundo, aqui e ali,
uma espécie de continuação do amor, na qual a cobiçosa ânsia que duas pessoas
têm uma pela outra deu lugar a um novo desejo e cobiça, a uma elevada sede conjunta
de um ideal acima delas: Mas quem conhece tal amor? Quem o experimentou? Seu
verdadeiro nome é amizade.” (A Gaia Ciência – Friedrich Nietzsche)


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