Mais um post "atrasado". Mais uma vez fora de hora. Como tudo na vida, a imprevisibilidade é a regra do devir, e talvez tudo o que possamos afirmar é que as coisas têm a hora certa para acontecer. Contradição?
Nossa impotência cria inúmeras justificativas para os fatos inexplicáveis da vida. Deus. Deuses. Vida. Morte. Além-morte. Todo ser humano, por mais cético que seja, encontra no fundo da alma uma certa síndrome de orfandade - a ignorância sobre de onde viemos e o medo do "para onde vamos" nos faz dormir em posição fetal algumas vezes na vida. Queremos ninho. Segurança. Ao menos, saber que alguém se importa.
As engrenagens mecânicas dos dias nos faz olvidar essas questões essenciais. Hora para acordar, para comer, para produzir, para descansar. Mascaramos nossos anseios e questões fundamentais com a ditadura das horas, num intento inútil de tornar previsível o que, de fato, não é. Queremos segurança - e ela se traduz na falsa sensação de que temos o controle dos acontecimentos.
Não quero, com essas constatações, afirmar que somos meros espectadores, inertes diante da vida. Temos certo controle e, sobretudo, responsabilidade sobre nossas escolhas. Podemos escolher viver uma vida em função de trabalho, de estudos, de outras pessoas ou de nós mesmos. Podemos escolher a disciplina das horas ou vender a arte na praia. São as escolhas, ainda que sob a égide de um livre arbítrio, que nos livram de sermos medíocres e pequenos. Nossa reação à condição humana de existência.
Assim sendo, não há forma de vida que se passe diante de nossos olhos sem ser grandiosa. Não há um só encontro entre seres humanos que não seja magnífico. A escolha de doar a tais encontros algumas das nossas preciosas horas é inefável. Dentre eles... os encontros com aqueles que passam por nossas vidas e permanecem, por algum motivo, sem dúvida, se tornam ainda mais especiais. Daí voltarmos, então, à estaca zero - a solidão suprema ao sentirmos que tudo é passageiro, que esses encontros um dia se desfarão, inevitavelmente. A falta... do ninho... da segurança...
"Súbito me senti infinitamente triste por todos nós, seres humanos, que acabamos nos acostumando com uma coisa tão incrível, tão imperscrutável como a vida. Um belo dia acabamos achando evidente o fato de existirmos... e então... bem, só então voltamos a pensar que um dia teremos de deixar esse mundo" (JG - 8 de Copas)
Nessas horas, o colo é a presença dos que se importam. O corpo carece do abraço que aconchega e aquece. O coração, da presença, ainda que distante, dos que comungam do mesmo sentimento. A solidão humana se faz menos só com solidões alheias lado a lado.
"... esqueça o roteiro, não pergunte que horas são -
eu não sei! - se tu quiseres saber quem eu sou...
me dá tua mão, me protege e terás proteção..."
(HG - Lado a Lado)
Hoje minhas palavras são breves, queria eu que fossem leves. Uma perda que não foi diretamente minha não deixa de ser igualmente perda, pois traz à tona todos os fantasmas que narrei aqui. No desespero de hoje, em nossa própria companhia, rimos e choramos diante do imprevisto, nos abraçamos para enfrentar a nossa impotência. Na solidão do poeta que conversa com as estrelas, acima de tudo, afirmo, por amor, a quem dirijo o post de hoje: olhe para o céu, não estás só.
Direis agora: "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas?
Que sentido tem o que dizem,
quando estão contigo? "
E eu vos direi:
"Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e e de entender estrelas
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