quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

#7 - Sete de Espadas: UMA HISTÓRIA CHEIA DE MISTÉRIOS

Era verão de 2004. Cheguei de ônibus uma hora adiantada nos corredores do Centro de Ciências Humanas da Universidade Estadual de Londrina. Comprei um café com umas poucas moedas que tinha no bolso, acendi um cigarro e tirei da mochila surrada uma biografia de banca de Friedrich Nietzsche que eu tinha comprado recentemente. Eu tinha 17 anos e o mundo era uma mistura de mistério e possibilidades.

Tudo ao redor dançava num ritmo de aventura e conhecimento. Todos pareciam loucos, uns mais que os outros. As aulas falavam de coisas das quais eu nunca ouvira a respeito, nomes como Quetzalcoatl e Tenochtitlán me causavam ao mesmo tempo arrepio e fascinação.

Cerca de um mês depois, a aula mais esperada. Era uma quarta-feira a noite. O texto para discussão tinha apenas duas páginas. Novamente, Nietzsche. E no meio daquela noite consubstancial, descobri o vir-a-ser. Entendi que tudo muda. Percebi que a noção de movimento era tão clara que havia permeado o pensamento ocidental da Grécia Antiga a Einstein, e chegaria até aquele banco de universidade com Jostein Gaarder e O Dia do Curinga.

Foi então que, entre tantos perdidos e desesperados com aquele assunto, conheci quatro figurinhas que fizeram a diferença no meu curso de graduação e na minha vida - com eles, nunca houve lugar para o estático, o pré-concebido e o para sempre assim. Fomos temidos e odiados por pensarmos subversivamente. Sem perdermos a "elegância", nos tornamos reis e inventores da "cutucada acadêmica". Talvez hoje sejamos lembrados pelo sarcasmo e por sermos apenas inofensivos. Curtimos, sem dúvida, o momento. Mas, longe de metáforas feicibuquianas... Crescemos e nos tornamos diversos, e assim ainda o é (ou vem-a-ser) a cada novo dia.

Hoje, verão de 2015, volto novamente ao "templo laico do conhecimento". A História, porém, vem-a-ser outra - "nunca sentamos duas vezes no mesmo banco acadêmico". 

Cheguei apenas 20 minutos adiantada. Fui de bicicleta e havia tomado um saudável café da manhã antes de sair. O livro dessa semana havia sido "O Universo numa casca de nós", de Stephen Hawking, e a frase que não me saía da cabeça era: "Einstein verificou que suas equações não tinham uma solução que descrevesse um Universo estático, imutável no tempo" (p. 33).

Primeira aula, primeira decepção - Ciência Política e Teoria do Estado. Um curso praticamente baseado em Kant. Um professor que pede silêncio quando há discussão dos temas, e enfatiza que o Direito é estudado por meio de "leis, jurisprudência e DOUTRINA". Sim, é assim que eles chamam a bibliografia do curso!

"- O que ensinam para você na escola, Hans Thomas? - perguntou meu pai.
- A ficar sentado na carteira sem perguntar nada - respondi. - E está aí uma coisa tão difícil que a gente precisa de anos para aprender"
(O Dia do Curinga. 7 de Espadas)

Não sei o que me aguarda nos próximos anos. O curso de Direito é, para mim, igualmente uma mistura de mistérios e possibilidades. A faculdade continua sendo um mundo de aventuras e conhecimento.

Aos tais "doutrinadores", contudo, deixo meu aviso: eu não vou me adaptar!

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

#6- Seis de Espadas: Cerveja X uma bebida muito melhor...

Não foram poucas vezes que ouvi a frase: “acabou a cerveja, acabou os amigos”. Não foram poucas vezes que fui questionado por uma voz espantada: “Ué, você não vai beber?”. Não foram poucas as vezes que me senti olhado nos momentos de confraternização com piedade: “lá vai o fraco que não tem coragem de beber...”.
Nunca foi uma questão moral, apenas de gosto. Não gosto de cerveja e ponto. “O que? Como pode não gostar do liquido sagrado? Mas eu já vi você tomar...”. Não gosto, mas já fiquei refém dela. Desde pequeno aprendi que não havia lugar de honra nas geladeiras pras bebidas dos fracos (mulheres e crianças na lógica deles). Eram sempre dúzias de garrafas e/ou latas da cerveja da moda e uma garrafa do refrigerante mais vagabundo do mercado, armazenado na parte inferior da geladeira, por isso servido [quase] quente... Quando me tornei adulto, a única maneira de tomar algo gelado nestes encontros festivos de família e amigos era tomar um gole de cerveja... Todos se espantavam nestes momentos: “Olha só, tá bebendo... Tá virando um dos nossos... Tá virando homem...”.
Como é que é? Beber cerveja é o que me faz homem? Hahahahaha
Desprezo muito naturalmente estes fracos e pobres devotos da cerveja. Gente que passa os dias úteis escravizado por sua rotina e seus valores morais que, no fim de semana se orgulha de ficar parado bebendo o cereal liquido. Se falo deles agora é só pra chegar ao ponto de uma bebida infinitamente melhor...
A cerveja é fruto de uma artimanha alemã pra driblar uma obrigação moral. Monges medievais (pra alcançar a santidade) desejavam fazer as mais difíceis penitencias em períodos de quaresma. Como Cristo jejuou por quarenta dias no deserto, também eles queriam jejuar. Para passar toda a quaresma sem comer nada, eles precisavam de uma bebida forte, capaz de mantê-los fortes. Foi assim que, a partir da fermentação da um cereal criaram a cerveja. Uma bebida alcoólica tao calórica quanto o pão... Percebe a hipocrisia? Era uma bebida destinada a alimentar (como cereal que era)... Mas não era considerado alimento, pois não se comia... Sinto ainda na cerveja atual o odor daqueles monges obesos que sonhavam com um paraíso no além...
Minha aversão pela cerveja cresceu comigo muito antes de ler livros do Nietzsche, por isso, ler sobre o assunto na obra de um pensador que se considerava discípulo de Dionísio (ou Baco), o deus do vinho, foi divertido e intrigante:

Quanta enfadonha gravidade, paralisia, umidade, robe de dormir, quanta cerveja há na inteligência alemã! Como é possível que homens jovens, que devotam a existência aos objetivos mais espirituais, não percebam dentro de si o primeiro instinto da espiritualidade, o instinto de autoconservação do espírito — e bebam cerveja?...” (Friedrich Nietzsche – Crepúsculo dos Ídolos).

Também eu me deparo com mentes brilhantes que se rendem ao liquido caro (altamente tributado) e difundido pela mídia. Gosto é gosto. Não quero, de maneira nenhuma, adotar o tom moralista. Muitos são os que bebem simplesmente porque gostam! Quem sou eu pra questionar gostos? Mas a grande maioria é formada por animais de rebanho, que vão na onda visual, que querem saber qual é a boa, a que desce redondo, a numero um... Porque? Porque sim... Quanto a mim, mulheres seminuas em cartazes e na TV não me convencem do poder que aquele bebida tenta parecer ter e conferir a quem a bebe...

Bebidas alcoólicas me são prejudiciais; um copo de vinho ou cerveja por dia basta perfeitamente para tornar a vida um 'vale de lágrimas' para mim [...]. ” (Friedrich Nietzsche – Ecce Homo).

A mim também o álcool - longe de alegrar ou aguçar os sentidos - anestesia, promove uma estagnação corporal imensa, mãe de todo mal pensamento... Nietzsche, logo na sequencia de última citação que fiz de Ecce Homo, recusa o conselho ao ascetismo em relação ao álcool, mas aponta para uma bebida mais benéfica para o corpo e o espírito:

[...] não saberia aconselhar com seriedade bastante a completa abstenção de álcool às naturezas mais espirituais. Água basta... Tenho preferencia por lugares de onde se possa beber de fontes vivas (Nice, Turim, Silis). Um pequeno copo me segue como um cão. In vino veritas [no vinho, a verdade],: parece que também nisso me acho em desacordo com o mundo quanto ao conceito de 'verdade' - em mim paira o espírito sobre a água...”

Vá agora a um filtro ou a geladeira e encha um copo com água... A óbvia água... Talvez não haja nada de extraordinário em beber copo d'água, afinal, tudo o que vira corriqueiro perde o encanto e entra na esfera mórbida do habito... Faço então outro desafio: pegue uma bicicleta ou calce tênis confortáveis e saia por aí pedalando/correndo/caminhando... Depois de uma hora movimentando o corpo e levando oxigênio aos teus pensamentos, encha novamente um copo com água... Pronto! Terás a sensação de estar diante da melhor entre todas as bebidas! Por fim, entre debaixo de um chuveiro e sinta a magia em cada gota caindo sob seu corpo aquecido e exausto... Não tem jeito. Mesmo a bebida que está o tempo todo ao seu alcance precisa ser buscada. Teu movimento fará de ti uma pessoa mais viva, muito mais capacitada a se livrar das garras do óbvio e, por isso, conseguir a melhor das bebidas.

Ficar sentado o menor tempo possível; não dar crença ao pensamento não nascido ao ar livre, de movimentos livres — no qual também os músculos não festejem. Todos os preconceitos vêm das vísceras. — A vida sedentária — já o disse antes — eis o verdadeiro pecado contra o santo espírito.” (Friedrich Nietzsche – Ecce Homo).

Tenho pequenos tesouros perto de mim que tenho a obrigação de lapidar. São muito valiosos mas também muito frágeis. Todo cuidado é pouco para não destruí-los em um piscar de olhos. O mundo dos produtos industrializados e do paraíso liquido das latas de cerveja é altamente corrosivo para eles. Por isso declarei guerra. Por isso seleciono quem se aproxima do meu mundo. Minhas flores são efêmeras, mas não por isso vou permitir que desapareçam assim tao fácil... Mesmo sendo muito preciosos e raros, pra eles, como em todas as flores, água basta...
...Levantei-lhe o balde até a boca. Ele bebeu, de olhos fechados. Era doce como uma festa. Essa água era muito mais que alimento. Nascera da caminhada sob as estrelas, do canto da roldana, do esforço do meu braço. Era boa para o coração, como um presente.” (Antonie de Saint Exuperry – O Pequeno Príncipe)

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

#5 - Cinco de espadas: ouvi um velho ditado...

Os momentos que compõem nossos dias podem ser fantásticos ou corriqueiros. Aprendi, com a Física (a poetisa das Exatas), que tudo depende de um referencial - igualmente aqui, sobre os momentos, de um ponto de vista. 

Há dias em que, para mim, o mero e repetitivo cumprimento de meu trabalho se torna simplesmente corriqueiro, embora eu corra os mais diferentes riscos. Ao mesmo tempo, nada mais fantástico do que chegar em casa e ver pela janela um por-do-sol...

Dizer que a vida é feita de momentos é um ditado clichê...  Mas deve haver um bom motivo para existirem ditados clichês!

Os mais variados riscos de vida circundam, na verdade, todas as pessoas. Dizer que tenho maior propensão a um mal inesperado em virtude de minha profissão não exclui um acaso (acaso?) igualmente trágico (trágico?) a uma dona de casa, por exemplo. 

"Mapas e bússolas, sorte e acaso, quem sabe do que depende?" (Humberto Gessinger)

Talvez a maior dádiva e o maior desafio de nossos dias seja justamente a incerteza do amanhã, pois nos mostra a importância de não estagnarmos. A vida dita ritmos, e é preciso dançar mesmo entre amarras. Dessa forma, outra vez sendo clichê, posso afirmar com veemência que "o que não nos mata, nos fortalece..." - ou engorda! (citando Nietzsche e a minha avó numa mesma frase).

Por falar em momentos... Quem sabe do que dependem os grandes encontros? - um momento fantástico como um simples jantar entre curingas na noite de ontem só foi possível porque milhares de acontecimentos na História confluíram para tal. Nossa História nos fortaleceu!

De um reencontro aparentemente corriqueiro, surgiu uma prosa fantástica - vi nos olhos de menino o reflexo de um mundo poético; vi nos olhos das crianças o encantamento com os pequenos gestos. 

Talvez, a vida seja feita, além, de estado de espírito - e deste devem ter surgido os ditados clichês (pensando agora, "ditado clichê" é uma expressão tão forte que soa pleonástica). Podemos nos resignar com as intempéries do seu curso, ou enxergar nela a poesia que enxerga uma criança ao admirar, estupefata, a uma bela alvorada!

"Valeria a pena viver cada segundo de sua vida novamente, exatamente como foi da primeira vez?" 

Nos olhos de criança de todos nós, naquele momento, eu sabia que a resposta era: sim!



Ao visitante

O papel em que escrevo
Não é mais que uma miragem

Qual jangada e sua rede
Salva a vida da mensagem

Feito barco, prosa ao vento,
Num entreposto da viagem,

As palavras - o alimento,
De um poeta de passagem.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

#4 Quatro de Espadas – DE ONDE VEIO E PRA ONDE FUI COM O LIVRINHO

Hoje estamos começando a última semana do mês de Ás – que é o primeiro da estação do verão ou, se preferirem, das cartas de espadas. Muitos motivos de comemoração a cada início de semana. Aniversario, natal, ano novo...
Na paciência passada, também no primeiro dia do mês de Ás, junto com um sorriso e um abraço amigo, chegou as minhas mãos uma lupa e um livrinho!

“Pra que eu precisaria de uma lupa e um livrinho?” (Jostein Gaarder – O Dia do Curinga – 4)

A lupa me possibilitaria ampliar o campo de visão, enxergar os detalhes invisíveis a olho nu. O livrinho, bem... o livrinho me levaria novamente ao país das maravilhas com Alice. Ela me conhecia suficientemente bem pra saber que, pra mim, um livro como aquele não pode entrar na prateleira daqueles livros que tratamos por: “este eu já li”. É um livro que, sempre que eu quiser dar um check-up geral na situação (como Raul Seixas fazia), vou reler. Livros como este não se esgotam e sempre conseguimos encontrar coisas novas nas mesmas paginas que por tantas vezes percorremos...
Eu poderia escrever um livro inteiro comentando Alice, o chapeleiro maluco, o gato falante, a rainha vermelha e todas as outras 52 cartas... O problema é que se eu fizesse isso, teria que escrever um livro a cada leitura, pois não serei o mesmo leitor da mesma pagina daqui há quatro minutos.
Por isso prefiro dizer que, ganhar aquele livrinho e lupa me fez querer ter a companhia de um livro em cada uma das 52 semanas (ou cartas) do ano. Lendo estes livros comecei a pintar na minha mente o sonho (que já tinha contornos em outra mente) do clã curinga! Um dos 52 livros virou a semente que, tendo caído em terra boa, fez o blog germinar...
Uma lupa, um livrinho, uma parceria verbal de muitos anos, um sonho... E eu aqui, ainda sem saber direito o que fazer...
Incrível este mês de Ás!
O que será de nos ao final de três semanas comemorativas?
E agora? Chega de festa e voltemos pra “dura realidade”?
Não!
A festa da vida nunca acaba pra quem vive ao som da poesia do tempo!

Livros grandes, pequenos e médios
Eu, livrinho...
Fecho e paro se leio algum tedio
Eu, livrinho...
Livros feitos somente pros sérios
Eu, livrinho...
Libertei-me da dor sem remédios
Eu, livrinho...


p.s. Já que tem se falado tanto do Tim Maia, pra demonstrar que o mês de Ás é todo de festas, (até mesmo no calendário geral [06/01] da paciência) cito-o: "hoje é dia de santo reis! Anda meio esquecido mas é dia da festa de santo reis..."