quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

#6- Seis de Espadas: Cerveja X uma bebida muito melhor...

Não foram poucas vezes que ouvi a frase: “acabou a cerveja, acabou os amigos”. Não foram poucas vezes que fui questionado por uma voz espantada: “Ué, você não vai beber?”. Não foram poucas as vezes que me senti olhado nos momentos de confraternização com piedade: “lá vai o fraco que não tem coragem de beber...”.
Nunca foi uma questão moral, apenas de gosto. Não gosto de cerveja e ponto. “O que? Como pode não gostar do liquido sagrado? Mas eu já vi você tomar...”. Não gosto, mas já fiquei refém dela. Desde pequeno aprendi que não havia lugar de honra nas geladeiras pras bebidas dos fracos (mulheres e crianças na lógica deles). Eram sempre dúzias de garrafas e/ou latas da cerveja da moda e uma garrafa do refrigerante mais vagabundo do mercado, armazenado na parte inferior da geladeira, por isso servido [quase] quente... Quando me tornei adulto, a única maneira de tomar algo gelado nestes encontros festivos de família e amigos era tomar um gole de cerveja... Todos se espantavam nestes momentos: “Olha só, tá bebendo... Tá virando um dos nossos... Tá virando homem...”.
Como é que é? Beber cerveja é o que me faz homem? Hahahahaha
Desprezo muito naturalmente estes fracos e pobres devotos da cerveja. Gente que passa os dias úteis escravizado por sua rotina e seus valores morais que, no fim de semana se orgulha de ficar parado bebendo o cereal liquido. Se falo deles agora é só pra chegar ao ponto de uma bebida infinitamente melhor...
A cerveja é fruto de uma artimanha alemã pra driblar uma obrigação moral. Monges medievais (pra alcançar a santidade) desejavam fazer as mais difíceis penitencias em períodos de quaresma. Como Cristo jejuou por quarenta dias no deserto, também eles queriam jejuar. Para passar toda a quaresma sem comer nada, eles precisavam de uma bebida forte, capaz de mantê-los fortes. Foi assim que, a partir da fermentação da um cereal criaram a cerveja. Uma bebida alcoólica tao calórica quanto o pão... Percebe a hipocrisia? Era uma bebida destinada a alimentar (como cereal que era)... Mas não era considerado alimento, pois não se comia... Sinto ainda na cerveja atual o odor daqueles monges obesos que sonhavam com um paraíso no além...
Minha aversão pela cerveja cresceu comigo muito antes de ler livros do Nietzsche, por isso, ler sobre o assunto na obra de um pensador que se considerava discípulo de Dionísio (ou Baco), o deus do vinho, foi divertido e intrigante:

Quanta enfadonha gravidade, paralisia, umidade, robe de dormir, quanta cerveja há na inteligência alemã! Como é possível que homens jovens, que devotam a existência aos objetivos mais espirituais, não percebam dentro de si o primeiro instinto da espiritualidade, o instinto de autoconservação do espírito — e bebam cerveja?...” (Friedrich Nietzsche – Crepúsculo dos Ídolos).

Também eu me deparo com mentes brilhantes que se rendem ao liquido caro (altamente tributado) e difundido pela mídia. Gosto é gosto. Não quero, de maneira nenhuma, adotar o tom moralista. Muitos são os que bebem simplesmente porque gostam! Quem sou eu pra questionar gostos? Mas a grande maioria é formada por animais de rebanho, que vão na onda visual, que querem saber qual é a boa, a que desce redondo, a numero um... Porque? Porque sim... Quanto a mim, mulheres seminuas em cartazes e na TV não me convencem do poder que aquele bebida tenta parecer ter e conferir a quem a bebe...

Bebidas alcoólicas me são prejudiciais; um copo de vinho ou cerveja por dia basta perfeitamente para tornar a vida um 'vale de lágrimas' para mim [...]. ” (Friedrich Nietzsche – Ecce Homo).

A mim também o álcool - longe de alegrar ou aguçar os sentidos - anestesia, promove uma estagnação corporal imensa, mãe de todo mal pensamento... Nietzsche, logo na sequencia de última citação que fiz de Ecce Homo, recusa o conselho ao ascetismo em relação ao álcool, mas aponta para uma bebida mais benéfica para o corpo e o espírito:

[...] não saberia aconselhar com seriedade bastante a completa abstenção de álcool às naturezas mais espirituais. Água basta... Tenho preferencia por lugares de onde se possa beber de fontes vivas (Nice, Turim, Silis). Um pequeno copo me segue como um cão. In vino veritas [no vinho, a verdade],: parece que também nisso me acho em desacordo com o mundo quanto ao conceito de 'verdade' - em mim paira o espírito sobre a água...”

Vá agora a um filtro ou a geladeira e encha um copo com água... A óbvia água... Talvez não haja nada de extraordinário em beber copo d'água, afinal, tudo o que vira corriqueiro perde o encanto e entra na esfera mórbida do habito... Faço então outro desafio: pegue uma bicicleta ou calce tênis confortáveis e saia por aí pedalando/correndo/caminhando... Depois de uma hora movimentando o corpo e levando oxigênio aos teus pensamentos, encha novamente um copo com água... Pronto! Terás a sensação de estar diante da melhor entre todas as bebidas! Por fim, entre debaixo de um chuveiro e sinta a magia em cada gota caindo sob seu corpo aquecido e exausto... Não tem jeito. Mesmo a bebida que está o tempo todo ao seu alcance precisa ser buscada. Teu movimento fará de ti uma pessoa mais viva, muito mais capacitada a se livrar das garras do óbvio e, por isso, conseguir a melhor das bebidas.

Ficar sentado o menor tempo possível; não dar crença ao pensamento não nascido ao ar livre, de movimentos livres — no qual também os músculos não festejem. Todos os preconceitos vêm das vísceras. — A vida sedentária — já o disse antes — eis o verdadeiro pecado contra o santo espírito.” (Friedrich Nietzsche – Ecce Homo).

Tenho pequenos tesouros perto de mim que tenho a obrigação de lapidar. São muito valiosos mas também muito frágeis. Todo cuidado é pouco para não destruí-los em um piscar de olhos. O mundo dos produtos industrializados e do paraíso liquido das latas de cerveja é altamente corrosivo para eles. Por isso declarei guerra. Por isso seleciono quem se aproxima do meu mundo. Minhas flores são efêmeras, mas não por isso vou permitir que desapareçam assim tao fácil... Mesmo sendo muito preciosos e raros, pra eles, como em todas as flores, água basta...
...Levantei-lhe o balde até a boca. Ele bebeu, de olhos fechados. Era doce como uma festa. Essa água era muito mais que alimento. Nascera da caminhada sob as estrelas, do canto da roldana, do esforço do meu braço. Era boa para o coração, como um presente.” (Antonie de Saint Exuperry – O Pequeno Príncipe)

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