Não
foram poucas vezes que ouvi a frase: “acabou a cerveja, acabou os
amigos”. Não foram poucas vezes que fui questionado por uma voz
espantada: “Ué, você não vai beber?”. Não foram poucas as
vezes que me senti olhado nos momentos de confraternização com
piedade: “lá vai o fraco que não tem coragem de beber...”.
Nunca
foi uma questão moral, apenas de gosto. Não gosto de cerveja e
ponto. “O que? Como pode não gostar do liquido sagrado? Mas eu já
vi você tomar...”. Não gosto, mas já fiquei refém dela. Desde
pequeno aprendi que não havia lugar de honra nas geladeiras pras
bebidas dos fracos (mulheres e crianças na lógica deles). Eram
sempre dúzias de garrafas e/ou latas da cerveja da moda e uma
garrafa do refrigerante mais vagabundo do mercado, armazenado na
parte inferior da geladeira, por isso servido [quase] quente...
Quando me tornei adulto, a única maneira de tomar algo gelado nestes
encontros festivos de família e amigos era tomar um gole de
cerveja... Todos se espantavam nestes momentos: “Olha só, tá
bebendo... Tá virando um dos nossos... Tá virando homem...”.
Como
é que é? Beber cerveja é o que me faz homem? Hahahahaha
Desprezo
muito naturalmente estes fracos e pobres devotos da cerveja. Gente
que passa os dias úteis escravizado por sua rotina e seus valores
morais que, no fim de semana se orgulha de ficar parado bebendo o
cereal liquido. Se falo deles agora é só pra chegar ao ponto de uma
bebida infinitamente melhor...
A
cerveja é fruto de uma artimanha alemã pra driblar uma obrigação
moral. Monges medievais (pra alcançar a santidade) desejavam fazer
as mais difíceis penitencias em períodos de quaresma. Como Cristo
jejuou por quarenta dias no deserto, também eles queriam jejuar. Para
passar toda a quaresma sem comer nada, eles precisavam de uma bebida
forte, capaz de mantê-los fortes. Foi assim que, a partir da
fermentação da um cereal criaram a cerveja. Uma bebida alcoólica
tao calórica quanto o pão... Percebe a hipocrisia? Era uma bebida
destinada a alimentar (como cereal que era)... Mas não era
considerado alimento, pois não se comia... Sinto ainda na cerveja
atual o odor daqueles monges obesos que sonhavam com um paraíso no
além...
Minha
aversão pela cerveja cresceu comigo muito antes de ler livros do
Nietzsche, por isso, ler sobre o assunto na obra de um pensador que
se considerava discípulo de Dionísio (ou Baco), o deus do vinho,
foi divertido e intrigante:
“Quanta
enfadonha gravidade, paralisia, umidade, robe de dormir, quanta
cerveja há na inteligência alemã! Como é possível que homens
jovens, que devotam a existência aos objetivos mais espirituais, não
percebam dentro de si o primeiro instinto da espiritualidade, o
instinto de autoconservação do espírito — e bebam cerveja?...”
(Friedrich Nietzsche – Crepúsculo dos Ídolos).
Também
eu me deparo com mentes brilhantes que se rendem ao liquido caro
(altamente tributado) e difundido pela mídia. Gosto é gosto. Não
quero, de maneira nenhuma, adotar o tom moralista. Muitos são os que
bebem simplesmente porque gostam! Quem sou eu pra questionar gostos?
Mas a grande maioria é formada por animais de rebanho, que vão na onda visual, que querem
saber qual é a boa, a que desce redondo, a numero um... Porque?
Porque sim... Quanto a mim, mulheres seminuas em cartazes e na TV não
me convencem do poder que aquele bebida tenta parecer ter e conferir a quem a bebe...
“Bebidas
alcoólicas me são prejudiciais; um copo de vinho ou cerveja por dia
basta perfeitamente para tornar a vida um 'vale de lágrimas' para
mim [...]. ” (Friedrich Nietzsche – Ecce Homo).
A
mim também o álcool - longe de alegrar ou aguçar os sentidos - anestesia, promove uma estagnação corporal imensa, mãe
de todo mal pensamento... Nietzsche, logo na sequencia de última
citação que fiz de Ecce Homo, recusa o conselho ao ascetismo em relação
ao álcool, mas aponta para uma bebida mais benéfica para o corpo e
o espírito:
“[...]
não saberia aconselhar com seriedade bastante a completa abstenção
de álcool às naturezas mais espirituais. Água basta... Tenho
preferencia por lugares de onde se possa beber de fontes vivas (Nice,
Turim, Silis). Um pequeno copo me segue como um cão. In vino
veritas [no vinho, a verdade],: parece que também nisso me acho
em desacordo com o mundo quanto ao conceito de 'verdade' - em mim
paira o espírito sobre a água...”
Vá
agora a um filtro ou a geladeira e encha um copo com água... A óbvia
água... Talvez não haja nada de extraordinário em beber copo d'água,
afinal, tudo o que vira corriqueiro perde o encanto e entra na esfera
mórbida do habito... Faço então outro desafio: pegue uma bicicleta
ou calce tênis confortáveis e saia por aí
pedalando/correndo/caminhando... Depois de uma hora movimentando o
corpo e levando oxigênio aos teus pensamentos, encha novamente um
copo com água... Pronto! Terás a sensação de estar diante da
melhor entre todas as bebidas! Por fim, entre debaixo de um chuveiro
e sinta a magia em cada gota caindo sob seu corpo aquecido e
exausto... Não tem jeito. Mesmo a bebida que está o tempo todo ao
seu alcance precisa ser buscada. Teu movimento fará de ti uma pessoa
mais viva, muito mais capacitada a se livrar das garras do óbvio e,
por isso, conseguir a melhor das bebidas.
“Ficar
sentado o menor tempo possível; não dar crença ao pensamento não
nascido ao ar livre, de movimentos livres — no qual também os
músculos não festejem. Todos os preconceitos vêm das vísceras. —
A vida sedentária — já o disse antes — eis o verdadeiro pecado
contra o santo espírito.” (Friedrich Nietzsche – Ecce Homo).
Tenho
pequenos tesouros perto de mim que tenho a obrigação de lapidar.
São muito valiosos mas também muito frágeis. Todo cuidado é pouco
para não destruí-los em um piscar de olhos. O mundo dos produtos
industrializados e do paraíso liquido das latas de cerveja é altamente corrosivo para eles. Por isso declarei guerra. Por isso
seleciono quem se aproxima do meu mundo. Minhas flores são efêmeras,
mas não por isso vou permitir que desapareçam assim tao fácil...
Mesmo sendo muito preciosos e raros, pra eles, como em todas as flores,
água basta...
“...Levantei-lhe o balde até a boca. Ele bebeu, de olhos fechados. Era doce como uma festa. Essa água era muito mais que alimento. Nascera da caminhada sob as estrelas, do canto da roldana, do esforço do meu braço. Era boa para o coração, como um presente.” (Antonie de Saint Exuperry – O Pequeno Príncipe)
“...Levantei-lhe o balde até a boca. Ele bebeu, de olhos fechados. Era doce como uma festa. Essa água era muito mais que alimento. Nascera da caminhada sob as estrelas, do canto da roldana, do esforço do meu braço. Era boa para o coração, como um presente.” (Antonie de Saint Exuperry – O Pequeno Príncipe)

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