Era verão de 2004. Cheguei de ônibus uma hora adiantada nos corredores do Centro de Ciências Humanas da Universidade Estadual de Londrina. Comprei um café com umas poucas moedas que tinha no bolso, acendi um cigarro e tirei da mochila surrada uma biografia de banca de Friedrich Nietzsche que eu tinha comprado recentemente. Eu tinha 17 anos e o mundo era uma mistura de mistério e possibilidades.
Tudo ao redor dançava num ritmo de aventura e conhecimento. Todos pareciam loucos, uns mais que os outros. As aulas falavam de coisas das quais eu nunca ouvira a respeito, nomes como Quetzalcoatl e Tenochtitlán me causavam ao mesmo tempo arrepio e fascinação.
Cerca de um mês depois, a aula mais esperada. Era uma quarta-feira a noite. O texto para discussão tinha apenas duas páginas. Novamente, Nietzsche. E no meio daquela noite consubstancial, descobri o vir-a-ser. Entendi que tudo muda. Percebi que a noção de movimento era tão clara que havia permeado o pensamento ocidental da Grécia Antiga a Einstein, e chegaria até aquele banco de universidade com Jostein Gaarder e O Dia do Curinga.
Foi então que, entre tantos perdidos e desesperados com aquele assunto, conheci quatro figurinhas que fizeram a diferença no meu curso de graduação e na minha vida - com eles, nunca houve lugar para o estático, o pré-concebido e o para sempre assim. Fomos temidos e odiados por pensarmos subversivamente. Sem perdermos a "elegância", nos tornamos reis e inventores da "cutucada acadêmica". Talvez hoje sejamos lembrados pelo sarcasmo e por sermos apenas inofensivos. Curtimos, sem dúvida, o momento. Mas, longe de metáforas feicibuquianas... Crescemos e nos tornamos diversos, e assim ainda o é (ou vem-a-ser) a cada novo dia.
Hoje, verão de 2015, volto novamente ao "templo laico do conhecimento". A História, porém, vem-a-ser outra - "nunca sentamos duas vezes no mesmo banco acadêmico".
Cheguei apenas 20 minutos adiantada. Fui de bicicleta e havia tomado um saudável café da manhã antes de sair. O livro dessa semana havia sido "O Universo numa casca de nós", de Stephen Hawking, e a frase que não me saía da cabeça era: "Einstein verificou que suas equações não tinham uma solução que descrevesse um Universo estático, imutável no tempo" (p. 33).
Primeira aula, primeira decepção - Ciência Política e Teoria do Estado. Um curso praticamente baseado em Kant. Um professor que pede silêncio quando há discussão dos temas, e enfatiza que o Direito é estudado por meio de "leis, jurisprudência e DOUTRINA". Sim, é assim que eles chamam a bibliografia do curso!
"- O que ensinam para você na escola, Hans Thomas? - perguntou meu pai.
- A ficar sentado na carteira sem perguntar nada - respondi. - E está aí uma coisa tão difícil que a gente precisa de anos para aprender"
(O Dia do Curinga. 7 de Espadas)
Não sei o que me aguarda nos próximos anos. O curso de Direito é, para mim, igualmente uma mistura de mistérios e possibilidades. A faculdade continua sendo um mundo de aventuras e conhecimento.
Aos tais "doutrinadores", contudo, deixo meu aviso: eu não vou me adaptar!
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