Desejei - há algumas horas – escrever o mais belo poema do mundo...
Agora, mais modesto, desejo apenas conseguir escrever...
Enquanto hesitava pra iniciar este parágrafo de caneta e caderno nas mãos,
a pequena Clara, pra minha surpresa, se aproximou, parou de pedalar e
perguntou:
- Pai, você está pronto pra escrever?
As palavras foram exatamente estas. Não me surpreendeu a frase
conjugada corretamente, afinal, mesmo com apenas quatro anos, já tem alguns
meses que ela vem usando palavras e frases dentro da norma culta de nossa língua.
Mas o conteúdo da pergunta me chegou como um raio! Olhei fixo pra ela e
respondi:
- Estou! E você, está pronta pra pedalar?
- Sim!
- Então pedale!
Graças à pergunta da Clara cheguei até aqui... Seu irmão Luiz Miguel
também pedala na quadra enquanto escrevo.
Voltando ao simples desejo de escrever, explico: Quem me conhece, sabe
que escrever é uma das coisas que mais gosto de fazer. Mas problemas
relacionados ao meu lado de paus (curingas não passam de cartas que tem os
quatro naipes) me deixaram profundamente triste e desanimado...
Já estive profundamente triste e desanimado em assuntos que dizem
respeito ao meu lado de ouros e de copas. Encerrei cinco de paus na esperança que, talvez
agora, em sete, encontraria uma luz pra mirar um horizonte. Agora, junto as
névoas de ouro, sob os meus dois maiores tesouros, juntou-se a fumaça de gás lacrimogêneo
que jogaram na minha base de paus... Quando digo dos meus dois tesouros, é porque
a Clara, poucos meses depois do irmão, foi diagnosticada com a mesma doença
rara...
Mas em meio a tanta névoa, desviando um pouco a mente dos problemas e
vendo os dois aqui, pertinho de mim, pedalando, no final da tarde, já é uma luz
agradável. E, mesmo sem ver o horizonte, posso imaginar um lindo pôr-do-sol...
Anoiteceu... Nesta época do ano, ao olhar pra mesma quadra em que estive
no final deste dia, dá pra ver o nascer-do-sol, que encerra as noites. Vejo o sol nascendo e imagino ver também o mar...
"O vermelho da aurora
formava uma espécie de cinto bem fino que separava o céu do mar." (O dia
do Curinga – Sete de Paus – Jostein Gaarder)
Que bom que não fui a Curitiba. Entendo e apoio quem está pensando no
futuro da nossa profissão lá na capital do estado. Mas não posso pensar agora na
aposentadoria. Tenho urgência em viver cada minuto com meus filhos. Nada é tão
prioritário quanto isso. Não posso ficar mirando horizontes que não sei aonde
vão me levar...
E assim, mudando completamente a perspectiva, olhando pra tudo o que
tive de bom hoje, posso finalmente me sentir bem... Danem-se os naipes que
definem as cartas na paciência. Se é verdade que trago todos em mim, não é
menos verdade que não tenho qualquer compromisso com nenhum deles. Só os uso
pra poder fazer parte do jogo. Por hora, vivo meu jogo só com curingas. Raríssimos
e pequeninos curingas - o melhor que tenho em meu baú de ouros.
Mas não há porque recuar na luta. O tempo torna a situação cada vez
mais grave e só um transplante de medula óssea pode garantir que o Luiz Miguel prolongue
sua existência neste nosso planetinha. A Clara ainda não vive situação tão
grave, mas os médicos dizem que é questão de tempo.
Medula Óssea... Coisa que custei a entender! Como era possível que células
hematopoéticas pudessem existir dentro dos meus ossos? Mas nem toda a minha
poesia poderá garantir a solução que o meu pequeno curinga precisa. Contudo, os médicos
já sinalizam que minha hematopesia poderá salvá-lo! Manter e aprimorar minha saúde
é questão central nos meus dias agora!
Pra quem queria só escrever, terminar hoje com um poema seria pedir
demais... Mas espero conseguir um dia escrever o mais belo poema do mundo. Um
daqueles que se escreve sorrindo ao vencer uma batalha. Neste dia, todas as
minhas células hematopoéticas estarão regendo a vida que surge no interior dos
ossos do Luiz Miguel...
E que as boas notícias e a boa saúde contagie a tudo e a todos! Que esteja
presente hoje também em alguém especial - alguém que tenha olhos cor de esperança...





