Sete horas da manhã. O sol recém-chegado ilumina timidamente a
paisagem que admirei na tarde anterior da sacada do mais acolhedor dos
apartamentos da capital paranaense. Dali se pode ver uma casa de madeira, bem
conservada, com amplo quintal nos fundos e um antigo poço de agua na frente,
que ganhou contornos ainda mais belos naquela fresca manhã de Curitiba. Além do
poço e a casa “de sítio” naquele local eminentemente urbano, havia no alto do
poste, bem próximo a sacada, uma casa do João de Barro e seu dono...
Antes de voltar pra aquela paisagem matinal típica da estação de paus,
ilustro a descrição com a foto/notícia de que o João de Barro começou a construir
uma nova casa ao lado da sua. Me veio então uma dúvida: Estaria ele apaixonado?
Será que ele planeja concluir a ampliação na expectativa de atrair pra lá uma desejada companhia?
Foto enviada pela melhor anfitriã do mundo!
“As aranhas não tecem suas teias
por loucura ou por paixão
Se o sangue ainda corre nas
veias é por pura falta de opção”
(Além dos outdoors – Engenheiros
do Hawaii)
Voltando a narrativa matinal do início, quando passaria a observar
outros pontos da paisagem que tanto me chamou a atenção no dia anterior, uma
cena desviou totalmente tal objetivo: Lentamente, porém em ritmo constante,
pedalava ladeira acima uma garota na movimentada rua que cortava a paisagem
alguns metros abaixo de onde eu estava. Ela usava capacete, luvas, um vestido
verde simples e uma pesada blusa. Quis o destino que ela sentisse calor e o
consequente incômodo da blusa bem ali, em frente a casa do poço, na reta do
poste do João de Barro. Tirou das costas a mochila que carregava colocando-a no
chão. Com muita leveza de movimentos tirou a blusa, alcançou a mochila no chão e
colocou com todo o cuidado o agasalho lá dentro... Não dá pra se apaixonar por
alguém que nem pude ver a cor dos olhos. Mas um conjunto de fatores e recordações
ativou em mim um estado de encantamento com aquela cena... Ela desapareceu
ladeira acima pra, provavelmente, nunca mais estar diante de meus olhos... Mas
ficaram coisas familiares dela reverberando na minha memória naquele dia. Elementos agradáveis que, ao que me parece, já
estavam em mim: bicicleta, esforço, beleza física trajada de verde... Verde... Verde
como a cor de olhos que sempre me vem a memória quando fecho os meus, castanhos.
“De olhos fechados não me vejo -
E você sorriu pra mim...”
(Se fiquei esperando o meu amor
passar – Legião Urbana)
"Achei-a tão linda que fiquei
sem saber pra onde olhar (...)
Quando sorria, duas covinhas
profundas se desenhavam em suas bochechas. Achei que a sua beleza não era deste
mundo. Ela era linda como um elfo. Quando sorria, seus olhos verdes brilhavam
como esmeraldas. Não conseguia desviar os olhos dela."
(O dia do Curinga – Três de Paus
– Jostein Gaarder)
Paixão é uma palavra que vem do grego “pathos”. Esta mesma palavra deu origem a um termo que designa problema de saúde, “patologia”. Estar apaixonado
então é estar doente? Se alguém afirmar que sim, haverá de concordar então que
nossa civilização construiu seus pilares e seu calendário ao redor de um “Deus
doente”:
“Um Deus apaixonado mandou o seu
recado
Por meio de seu filho [...]
Um filho apaixonado morreu
crucificado
Paixão mais dolorida o mundo
nunca viu...”
(Um Deus apaixonado - Padre
Zezinho)
Mas se paixão for mesmo doença, prefiro acreditar que seja uma doença
boa, inspiradora, cheia de vitalidade... Estar apaixonado implica deixar de
lado o comportamento que possuem as cartas de paus. A paixão não se harmoniza
com o comportamento de rebanho! Antes, induz a abandonar tudo o que for
habitual, entregar todas as energias ao firme objetivo de satisfação da mesma...
O rebanho dificilmente entende o apaixonado, vide o exemplar drama da Paixão de Cristo, morto pela ira dos que não o entendiam:
Por quatro anos seguidos interpretei o personagem principal da "Paixão de Cristo".
Como em todo teatro desta natureza, há sempre cruz de paus bem pesados a ser carregada...
Costuma-se associar paixão somente a casos românticos. Também. Mas, para alem disso, a paixão é sentimento que transita por todas as esferas da vida. Nós, apaixonados, haveremos sempre de carregar uma cruz de paixões bem pesadas!
A paixão é um sentimento intenso, perigoso e prazeroso ao mesmo tempo. Chega-se facilmente nos tênues limites da dor e do prazer sem se notar onde começa e acaba cada
uma destas sensações... Pra viver o prazer de uma paixão é preciso pagar o
preço da dor. Pra crescer na dor de uma paixão, paga-se o preço do inebriante prazer...
Paixão é loucura! Paradoxo! No fundo, acho que louco mesmo é quem nunca teve coragem de se
apaixonar, de se entregar de corpo e alma a uma paixão de qualquer que seja a natureza...
Diferente da visão pessimista do Renato Russo no disco “A Tempestade”, prefiro pensar que a paixão é benéfica por si própria, de modo que, mesmo quando há dor e uma eventual frustração, há lucro.
Diferente da visão pessimista do Renato Russo no disco “A Tempestade”, prefiro pensar que a paixão é benéfica por si própria, de modo que, mesmo quando há dor e uma eventual frustração, há lucro.
“...Não quero deixar que a
tristeza Inunde o meu coração
Prefiro chorar com a certeza de
que essa paixão
Me fez um homem melhor - Depois
de você.”
(Baby, Eu Queria – Nando Reis)

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