Bola na marca do pênalti. Atrás de si uma fila de crianças de sua turma
o observa aguardando a sua vez de chutar ao gol formado por cones no pátio da
escola. Ele olha para a bola em cima da marca de giz no chão. Olhou para o gol e
para o goleiro... correu... chutou com muita confiança e...
A confiança não se traduziu em força e, em uma velocidade quase
insuficiente para chegar até a linha do gol, a bola parou devagar no pé do
goleiro que a chutou de volta rindo e acompanhando aos outros que diziam em
chacota: “nanico”, “fracote”, “toquinho de amarrar bode”...
Voltou para casa e não contou o episódio a ninguém. Não bastasse a
vergonha que sentia ainda queriam que contasse? Contar seria como reviver tudo
e ampliar o número de pessoas de quem sentir vergonha. Passou a tarde toda
triste e ninguém conseguiu arrancar de si o motivo de toda aquela tristeza.
Depois de muita insistência da mãe dele, no dia seguinte, acabou
contando o que ocorrera. Sentia-se exatamente como os colegas disseram: um
fracote, incapaz de chutar uma bola para o gol.
Quando soube, não quis conversar com ele sobre o assunto. Um tímido
nato como eu sabe que, conversar às vezes só piora o sentimento de vergonha.
Chamei-o então pra dar uma volta e fomos até um local público que tem
vários campos de futebol. Peguei a bola, posicionei-a no gramado, ocupei o
lugar do goleiro e pedi pra ele chutar. Ele hesitou, mas mostrei para ele que
só estávamos nós dois ali e eu queria ensiná-lo alguns truques.
Convencido, ele correu e chutou quase automaticamente, sem mudar a
passada e com o bico do pé. A bola me chegou fraca, bem no meio do gol. Coloquei
novamente a bola na grama e expliquei sobre impulso, utilização do lado do pé
para facilitar a escolha da direção da bola... Apesar dos seus cinco anos, ele
me ouvia com atenção, afinal já tinha me visto fazendo gols em jogos de futsal
e sabia que podia confiar em mim.
Voltei pro gol e pedi pra ele chutar como eu havia ensinado. A bola
veio fraca ainda, mas já tinha uma direção. Dois, três, cinco, dez chutes...
com um pouco de repetição, dicas e incentivo, logo ele estava chutando forte,
alto, no canto! Agora era só voltar pra escola e frustrar a todos que esperavam
pelo momento de rir dele novamente...
No outro dia, chegou alegre e sorridente da escola e veio me contar, com a riqueza de detalhes que ele sempre usa, os gols que fez. Me senti um grande pai naquele momento!
No outro dia, chegou alegre e sorridente da escola e veio me contar, com a riqueza de detalhes que ele sempre usa, os gols que fez. Me senti um grande pai naquele momento!
Nesta mesma época, ele sempre acompanhava comigo os jogos do Londrina
que, naquele ano, disputava a segunda divisão do campeonato paranaense de
futebol. Foi nestas idas ao estádio que ele passou a alimentar o sonho de ser
jogador do time da nossa cidade. Mas notei que ela passava a maior parte do
tempo com os olhos colados no goleiro, que na época era o Danilo (hoje na
Chapecoense). Perguntei se ele queria ser goleiro e ele disse que talvez, mas o
importante mesmo era se tornar um jogador do Londrina!
O nosso time venceu aquele campeonato e voltou à elite do futebol
estadual. Tive a ideia de fazer uma versão em rock do hino do clube, afim de
comemorar aquele momento. Junto com amigos de uma velha banda de rock que tínhamos,
iniciamos este projeto.
Em meio a tudo isso veio o duro golpe. O pequeno Luiz Miguel teve uma
gripe forte em Dezembro (ou Reis), que não cessou com a medicação. No retorno
ao hospital, em 17/12/2011, os exames de sangue apontaram um quadro de saúde
tão grave, que ele foi internado na UTI pediátrica imediatamente!
Mais tarde ele seria diagnosticado com “Anemia de Fanconi”, uma doença
genética rara, que exigia um transplante de medula óssea. Tinha ficado mais difícil
jogar bola...
E agora? Como agir em meio a esta tempestade de sensações e medo que
se apresentava com a urgência e gravidade da situação? Todos os projetos de
minha vida congelaram. Restava a esperança de encontrar um fiapo de luz em meio
a toda aquela escuridão que povoava minha mente.
Do navio à noite, embora não se
veja nada, sabe-se que há um mar à frente... (O dia do Curinga – Cinco de Paus –
Jostein Gaarder).
Mas o resultado desta minha navegação em um mar às cegas é assunto pra
uma outra carteada... Em sete de paus podem estar escondidas as luzes que, talvez, possam acender a imagem do horizonte a minha frente!

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