quarta-feira, 27 de maio de 2015

#24 - VALETE DE PAUS - Se o mundo é uma música, então deve existir um maestro.

 “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.
Ele estava no princípio com Deus.
Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez.
Nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens.
E a luz resplandece nas trevas, e as trevas não a compreenderam.
[...] E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós...”
(Evangelho de João – Capítulo 1)

               O verbo, que era divino em si, pulou para fora do texto e se fez carne! Passou a existir no plano palpável da matéria. Em outra história, cartas de baralho (que podem não ser verbos, mas se compõe de letras, números, símbolos) pularam da cabeça de um marujo que as tinham como única companhia em uma ilha onde vivia após sobreviver a um naufrágio.

“...Alguma coisa os impedia de se reconhecerem criaturas da minha imaginação. Aliás, a falta de consciência acerca de sua própria condição é comum a todas as criaturas. Mas justo essas criaturas da minha imaginação eram diferentes de todas as outras. Elas tinham percorrido o inexplicável caminho que leva do espaço da criação na minha cabeça ao espaço real, o espaço criado.” (O dia do Curinga – Valete de Paus – Jostein Gaarder).

               Assim como todos nós, submetidos à “letra da lei” por letras de um nome e números de identificação, as cartas (como a maioria de nós) jamais se questionavam acerca de sua origem, seu destino, a matéria de que são feitos...

“Cria a dor. Cria e atura
(Criador. Criatura)...
Não habita. Se habitua...”
(Cidadão de Papelão - O Teatro Mágico)

               Este assunto da criação é muito delicado.
         Delicado também é usar o verbo pra tentar desvendar a força inaudita responsável pelo movimento do tempo... pelo milagre (?) da vida...

“...Quem é você?
Que se esconde, atrás de um nome qualquer,
Não aparece pra mim,
Estende a mão,
Trazendo a chuva,
Tocando o som do trovão,
Será que vamos saber?”
(Música Inédita - Cidadão Quem)

               Segundo Nietzsche o verbo não é algo assim tão divino. Não passa de miséria  e analgésico para os moribundos espíritos conceituais. Por isso dizia que deus estava morto (conforme a citação em dez de espadas) e que só um deus que soubesse dançar mereceria ser adorado. Nenhuma forma de comunicação poderia ser mais rica que a música. Se há um deus, ele deve ser compositor, intérprete, maestro e dançarino da música que cria.

“Há uma voz que canta
Uma voz que dança
Uma voz que gira
Bailando no ar...”
(Tente Outra Vez - Raul Seixas)

                Valete de paus traz à tona questões pertinentes à vida e à divindade. A vida nos remete ao palco da mesma, o mundo. A divindade nos coloca diante da linguagem verbal ou musical. Na origem das tragédias gregas, a musica podia preencher a lacuna sagrada dos anseios existenciais dos indivíduos. O mundo por este ângulo deve ser uma grande obra musical! Se o mundo é uma música, então deve existir um maestro...
Sem querer resolver a questão da existência ou não do maestro, da sacralidade maior da palavra ou da música, pretendo deixar não uma mensagem de paz, mas de tensão, inquietação, questionamento...

“...o Curinga apareceu por essas bandas dezesseis ou dezessete anos depois eu todos os outros já tinham chegado. E quando já estávamos acostumados com nossa nova vida em comum, surge um elemento amotinador para perturbar nossa paz...” (O dia do Curinga – Valete de Paus – Jostein Gaarder).

Já que comecei com verbo e depois temperei com músicas, encerro com verbo pra ampliar ainda mais as questões referentes às forças desconhecidas.

“Oração ao Deus desconhecido.
Antes de prosseguir em meu caminho e lançar o meu olhar para a frente, uma vez mais elevo, só, minhas mãos a Ti de quem eu fujo.
A Ti das profundezas de meu coração, tenho dedicado altares festivos para que, em cada momento, Tua voz me pudesse chamar.
Sobre esses altares estão gravadas em fogo palavras: "Ao Deus desconhecido".
Teu, sou eu, embora até o presente tenho me associado aos sacrílegos.
Teu, sou eu, não obstante os laços que me puxam para o abismo.
Mesmo querendo fugir, sinto-me forçado a servir-Te.
Eu quero Te conhecer, desconhecido.
Tu, que me penetras a alma e, qual turbilhão, invades a minha vida.
Tu, o incompreensível, mas meu semelhante, quero te conhecer, quero servir só a Ti.”

(Friedrich Nietzsche)

terça-feira, 19 de maio de 2015

#23 - Dez de paus - WANDERLUST: Uma necessidade que surge do nada

O post de hoje não é inédito, ou talvez seja, uma vez que seu texto jaz em um caderninho de bolso, no fundo de uma gaveta, desde outubro de 2013. 

Quis resgatá-lo hoje, do nada. Assim como, do nada, passei o dia sentindo a necessidade (que tem sido recorrente) de ver o mar, de estar à beira de algo...

Escrevi esse texto em Trindade-RJ há quase dois anos, e hoje o sentimento é parecido...


MAR ADENTRO...

Não faço ideia das horas, mas já deve passar das 22h. Há cerca de 12h uma tempestade assolou a Vila de Trindade, deixando-nos sem energia elétrica, e ainda com um instável sinal telefônico - nada mais propício para o retorno ao papel e à caneta.

Dias a fio tenho me dedicado ao trabalho e a tudo que ele envolve. Quase sem identidade (ou com várias delas), tornei-me um rótulo batido e difamado pelas pessoas - fardo que, tanto quanto me realiza, me tira o sono; tanto quanto me populariza, me afasta das pessoas.

***
O poeta estava certo quando disse que a solidão podia se tornar um vício. Nietzsche estava mais correto ainda sobre o peso da solidão que pode devorar um homem em meio à multidão. Contudo, talvez uma das maiores conquistas que um ser humano possa alcançar seja a da solidão desejada, como etapa do auto-conhecimento do indivíduo que, só assim, poderá oferecer verdadeira companhia - como na melhor poesia de Rilke, somente à distância conseguimos ver completamente ao outro e a nós mesmos.

Todos perguntam por que viajo sozinha. A cada um, respondo o que acho que lhe convém. Recebo olhares de pena e de admiração. Sempre intrigados. No fundo, busco apenas a justa distância do meu próprio ser, e que o desprendimento permita novos encontros... 

[como adendo, posso afirmar, dois anos depois, 
que um encontro providencial acontecia nesta época do ano]

***

Após quase seis anos sem ter um verdadeiro descanso (físico e mental), decidi escolher um lugar financeiramente viável e, ao mesmo tempo, isolado de qualquer forma de rotina que me lembrasse o dia-a-dia e os problemas da cidade. Uma espécie de bucolismo necessário, impulso idílico - WANDERLUST! - alma que implora refúgio do corpo.

Aqui, tenho sido errante por matas e praias, por vezes passo horas ouvindo apenas o mar e o ruído ensurdecedor dos meus pensamentos... que, aos poucos, vão se esvaindo em brisas...

***
"Viver é melhor que sonhar"
(Belchior)
***

Mais do que apenas
Ambiente diverso,
Rompe meus versos
A brisa do mar.
Desperto da Inércia,
Encontro outro norte,
Navego à sorte
Trazida de lá.
Rumo ao que for,
Outro dia Virá  
Trindade - Paraty-RJ, 03.10.2015.


quarta-feira, 13 de maio de 2015

#22 - NOVE DE PAUS – O néctar agridoce da dor e do prazer.

Certa vez sonhei que perdia o meu filho pra uma doença rara no coração. No sonho estavam esgotadas as possibilidades de cura e ele teria no máximo mais 24 horas de vida em repouso absoluto, ou alguns minutos se fizesse qualquer esforço físico. Naquela angustia pela espera da morte próxima de uma criança de cinco anos incompletos, ele me fez um pedido:
- Pai, posso tocar bateria?
Este pedido inocente, tão repetido por ele nos poucos anos que vivemos juntos trouxe um dilema: seria melhor deixá-lo quieto e prolongar sua breve e dolorosa existência entre nós por algumas horas, ou realizar seu último desejo e perdê-lo definitivamente em alguns instantes?
Difícil lembrar este sonho sem chorar...
Mas no sonho eu não chorei. Tirei força sabe-se lá de onde e respondi com firmeza e ternura:
- Pode!
Desci seu frágil corpo da cama e coloquei-o sentado no banco da bateria. Ele tocou forte com as baquetas, como sempre fazia, mas logo o ritmo e a intensidade foram caindo, seus olhos foram fechando e ele foi tombando devagar para o lado esquerdo já sem sinal de vida...
Acordei com meus próprios gritos de dor e desespero. Corri pro quarto dele ainda sem controlar a aflição. O pequeno baterista chegou a acordar com todo o meu choro convulsivo, mas seu sono era pesado. Silenciei e ele logo voltou a dormir. Quem não dormiu mais fui eu. Foi disparado o meu pior pesadelo.
Ainda sob efeitos de toda a dor que senti naquele pesadelo, me veio um sonho bom. O melhor sonho que sonhei: terminava o banho e saia pela sala em direção ao quarto. De repente avistei-a ali no meu sofá. Um tanto constrangido, com a metade de baixo do corpo enrolada na toalha, pensei em correr de volta pro banheiro, mas ela se levantou e veio movendo suas pernas e toda a sua inebriante beleza em minha direção. Tomei coragem e avancei também. Aqueles lábios há tanto tempo desejados contornavam o mais belo sorriso que já tinha visto. Nossos olhares se encontraram transbordantes de desejo... Neste instante o encontro dos lábios era tão inevitável quanto o nascer do sol no fim da madrugada... Beijo...
Acordei com o corpo todo entorpecido de um orgasmo devastador acendido por um único beijo... Escreveria todo um livro sobre beijos e o beijo... Existe contato mais íntimo que o beijo? Aquele momento em que as palavras cessam e os dois silenciam na mesma língua... O mais perfeito dos diálogos entre apaixonados...
Dois sonhos e um mesmo néctar bebido em uma só taça – o néctar agridoce da dor e do prazer... Muitas experiências daqueles sonhos pularam do mundo das ideias ao mundo dos sentidos. Mas quanto mais distante fico daqueles dias, mais tênue fica a fronteira entre os contos de bruxas e fadas e a história:

"A história é como um grande conto de fadas. A única diferença entre os dois é que a história é de verdade...". (O dia do Curinga – Nove de Paus – Jostein Gaarder).

Se me perguntarem qual foi a melhor época de minha vida, direi que foi esta dos sonhos que pularam da cabeça para o dia-a-dia. Se me perguntarem qual foi a pior época da minha vida apontarei o mesmo período dos sonhos que pularam da cabeça para o dia-a-dia...

"O problema é que não é muito saudável beber o mundo todo de um só gole, meu jovem. É melhor bebê-lo aos poucos, um golinho de cada vez." (O dia do Curinga – Nove de Paus – Jostein Gaarder).

Desde que provei daquele néctar agridoce me esforço pra esquecer a intensidade incendiária daquela bebida (It's better to burn out than to fade away?). Às vezes há sucesso. Mas às vezes uma metáfora qualquer proferida sobre o frio, calor, sol, lua, estações... Devolve todo aquele contexto ao epicentro do pensamento. Uma voz doce e encantadora em tom alterado e ameaçador é capaz desmontar toda a minha teia teatral de sanidade. A lamentação externa por uma oportunidade que perdi é também a lembrança de que obstrui caminhos de outras oportunidades alheias a mim...
Não há por que trocar horas de agonia por uns minutos tocando um instrumento...
Não há porque lamentar coisas que não aconteceram...
Não agora...
Por hora o melhor é beber o mundo devagar...
Aproveitando queda...
Lenta e amena queda livre... 
Sentindo apenas meu próprio suspiro agora...
E se for preciso, quero estar preparado pra saber a hora certa de mergulhar ou evitar a fogueira...


“...e o meu lugar é esse
ao lado seu, no corpo inteiro
dou o meu lugar pois o seu lugar
é o meu amor primeiro
o dia e a noite as quatro estações...”
(Dois Rios – Skank e Nando Reis)

quarta-feira, 6 de maio de 2015

#21 - OITO DE PAUS - Tentendeder

"Desculpe estou um pouco atrasado, mas espero que ainda dê tempo..." - Abro o post de hoje com os versos de Nando Reis para desculpar-me pelo horário, pois pela primeira vez não consegui chegar a tempo da publicação costumeira de quarta a noite. 

A diversão maior, para mim, contudo, do Clã Curinga, é este compromisso que assumimos sob o pretexto poético, mas que, apesar de tentar cumprir fielmente com as datas e horários de postagens, não possui todo o peso que a palavra "compromisso" parece ensejar. Esse compromisso é uma grande e pura satisfação.

Sob a égide de Oito de Paus, recebi há pouco a ligação de uma carta intitulada "08" requisitando minha presença em uma situação de trabalho, logo que iniciei as palavras de hoje. Por um momento me perdi em devaneios sobre a simbologia deste número, que tende ao infinito...

... Percebi que tais ligações inoportunas nunca irão cessar...

... Percebi que este retorno às postagens em blog foram um sinal de que eu não deveria ter cessado antes...

... Percebi que não cessei, fora apenas um intervalo do qual um Curinga me resgatou...

As palavras, muito mais do que explicar, criam o mundo ao nosso redor. Nos apropriamos de todas as coisas ao lhes impor um rótulo - seja poético, seja um mero adjetivo. O Clã Curinga tem sido o meu modo de rotular, poeticamente ou não, o mundo que crio ao meu redor - cheio de personagens fantásticos que são apenas pessoas comuns; epopeias que são contos aumentados de um ponto...

Sobretudo... Fortaleço laços que sei que também são infinitos, ainda que a distância...

Não sei o que nos move neste grande comboio de rodas dos dias, o que nos impele a seguir em frente em meio aos devaneios nem sempre poéticos a que a rotina nos obriga, tampouco sei o que nos leva a dedicar apenas alguns minutos a cada quinzena a dispor as palavras neste espaço virtual...

"Se nosso cérebro fosse tão simples a ponto de entendê-lo, 
seríamos tão tolos que continuaríamos sem entendê-lo" 
(J. Gaarder)

Sei que vale a pena... porque a alma não é pequena. Acho que justifico meu atraso se disser que, depois da ligação da carta 08, e após oito dias de espera, finalmente pude ter certeza de que certos olhos verdes continuam tão fortes quanto o mar que vejo neles...

"Se procurar bem você acaba encontrando.
Não a explicação (duvidosa) da vida,
Mas a poesia (inexplicável) da vida"
(Carlos Drummond de Andrade)