Certa vez
sonhei que perdia o meu filho pra uma doença rara no coração. No sonho estavam
esgotadas as possibilidades de cura e ele teria no máximo mais 24 horas de vida
em repouso absoluto, ou alguns minutos se fizesse qualquer esforço físico. Naquela
angustia pela espera da morte próxima de uma criança de cinco anos incompletos,
ele me fez um pedido:
- Pai, posso tocar bateria?
Este pedido
inocente, tão repetido por ele nos poucos anos que vivemos juntos trouxe um
dilema: seria melhor deixá-lo quieto e prolongar sua breve e dolorosa
existência entre nós por algumas horas, ou realizar seu último desejo e perdê-lo
definitivamente em alguns instantes?
Difícil lembrar
este sonho sem chorar...
Mas no sonho eu
não chorei. Tirei força sabe-se lá de onde e respondi com firmeza e ternura:
- Pode!
Desci seu frágil corpo da
cama e coloquei-o sentado no banco da bateria. Ele tocou forte com as baquetas,
como sempre fazia, mas logo o ritmo e a intensidade foram caindo, seus olhos
foram fechando e ele foi tombando devagar para o lado esquerdo já sem sinal de
vida...
Acordei com
meus próprios gritos de dor e desespero. Corri pro quarto dele ainda sem
controlar a aflição. O pequeno baterista chegou a acordar com todo o meu choro
convulsivo, mas seu sono era pesado. Silenciei e ele logo voltou a dormir. Quem
não dormiu mais fui eu. Foi disparado o meu pior pesadelo.
Ainda sob
efeitos de toda a dor que senti naquele pesadelo, me veio um sonho bom. O
melhor sonho que sonhei: terminava o banho e saia pela sala em direção ao
quarto. De repente avistei-a ali no meu sofá. Um tanto constrangido, com a
metade de baixo do corpo enrolada na toalha, pensei em correr de volta pro
banheiro, mas ela se levantou e veio movendo suas pernas e toda a sua
inebriante beleza em minha direção. Tomei coragem e avancei também. Aqueles
lábios há tanto tempo desejados contornavam o mais belo sorriso que já tinha visto. Nossos
olhares se encontraram transbordantes de desejo... Neste instante o encontro
dos lábios era tão inevitável quanto o nascer do sol no fim da madrugada...
Beijo...
Acordei com o
corpo todo entorpecido de um orgasmo devastador acendido por um único beijo...
Escreveria todo um livro sobre beijos e o beijo... Existe contato mais íntimo
que o beijo? Aquele momento em que as palavras cessam e os dois silenciam na
mesma língua... O mais perfeito dos diálogos entre apaixonados...
Dois sonhos e
um mesmo néctar bebido em uma só taça – o néctar agridoce da dor e do prazer...
Muitas experiências daqueles sonhos pularam do mundo das ideias ao mundo dos
sentidos. Mas quanto mais distante fico daqueles dias, mais tênue fica a
fronteira entre os contos de bruxas e fadas e a história:
"A
história é como um grande conto de fadas. A única diferença entre os dois é que
a história é de verdade...". (O dia
do Curinga – Nove de Paus – Jostein Gaarder).
Se me
perguntarem qual foi a melhor época de minha vida, direi que foi esta dos
sonhos que pularam da cabeça para o dia-a-dia. Se me perguntarem qual foi a
pior época da minha vida apontarei o mesmo período dos sonhos que pularam da
cabeça para o dia-a-dia...
"O
problema é que não é muito saudável beber o mundo todo de um só gole, meu
jovem. É melhor bebê-lo aos poucos, um golinho de cada vez." (O dia do Curinga – Nove de Paus – Jostein
Gaarder).
Desde que
provei daquele néctar agridoce me esforço pra esquecer a intensidade incendiária
daquela bebida (It's better to burn out than to fade away?). Às vezes há
sucesso. Mas às vezes uma metáfora qualquer proferida sobre o frio, calor, sol,
lua, estações... Devolve todo aquele contexto ao epicentro do pensamento. Uma voz
doce e encantadora em tom alterado e ameaçador é capaz desmontar toda a minha
teia teatral de sanidade. A lamentação externa por uma oportunidade que perdi é
também a lembrança de que obstrui caminhos de outras oportunidades alheias a
mim...
Não há por que
trocar horas de agonia por uns minutos tocando um instrumento...
Não há porque
lamentar coisas que não aconteceram...
Não agora...
Por hora o
melhor é beber o mundo devagar...
Aproveitando
queda...
Lenta e amena
queda livre...
Sentindo apenas meu próprio suspiro agora...
E se for preciso, quero estar preparado pra saber a hora certa de
mergulhar ou evitar a fogueira...
“...e o meu lugar é esse
ao lado seu, no corpo inteiro
dou o meu lugar pois o seu lugar
é o meu amor primeiro
o dia e a noite as quatro
estações...”
(Dois Rios – Skank e Nando Reis)

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