quarta-feira, 13 de maio de 2015

#22 - NOVE DE PAUS – O néctar agridoce da dor e do prazer.

Certa vez sonhei que perdia o meu filho pra uma doença rara no coração. No sonho estavam esgotadas as possibilidades de cura e ele teria no máximo mais 24 horas de vida em repouso absoluto, ou alguns minutos se fizesse qualquer esforço físico. Naquela angustia pela espera da morte próxima de uma criança de cinco anos incompletos, ele me fez um pedido:
- Pai, posso tocar bateria?
Este pedido inocente, tão repetido por ele nos poucos anos que vivemos juntos trouxe um dilema: seria melhor deixá-lo quieto e prolongar sua breve e dolorosa existência entre nós por algumas horas, ou realizar seu último desejo e perdê-lo definitivamente em alguns instantes?
Difícil lembrar este sonho sem chorar...
Mas no sonho eu não chorei. Tirei força sabe-se lá de onde e respondi com firmeza e ternura:
- Pode!
Desci seu frágil corpo da cama e coloquei-o sentado no banco da bateria. Ele tocou forte com as baquetas, como sempre fazia, mas logo o ritmo e a intensidade foram caindo, seus olhos foram fechando e ele foi tombando devagar para o lado esquerdo já sem sinal de vida...
Acordei com meus próprios gritos de dor e desespero. Corri pro quarto dele ainda sem controlar a aflição. O pequeno baterista chegou a acordar com todo o meu choro convulsivo, mas seu sono era pesado. Silenciei e ele logo voltou a dormir. Quem não dormiu mais fui eu. Foi disparado o meu pior pesadelo.
Ainda sob efeitos de toda a dor que senti naquele pesadelo, me veio um sonho bom. O melhor sonho que sonhei: terminava o banho e saia pela sala em direção ao quarto. De repente avistei-a ali no meu sofá. Um tanto constrangido, com a metade de baixo do corpo enrolada na toalha, pensei em correr de volta pro banheiro, mas ela se levantou e veio movendo suas pernas e toda a sua inebriante beleza em minha direção. Tomei coragem e avancei também. Aqueles lábios há tanto tempo desejados contornavam o mais belo sorriso que já tinha visto. Nossos olhares se encontraram transbordantes de desejo... Neste instante o encontro dos lábios era tão inevitável quanto o nascer do sol no fim da madrugada... Beijo...
Acordei com o corpo todo entorpecido de um orgasmo devastador acendido por um único beijo... Escreveria todo um livro sobre beijos e o beijo... Existe contato mais íntimo que o beijo? Aquele momento em que as palavras cessam e os dois silenciam na mesma língua... O mais perfeito dos diálogos entre apaixonados...
Dois sonhos e um mesmo néctar bebido em uma só taça – o néctar agridoce da dor e do prazer... Muitas experiências daqueles sonhos pularam do mundo das ideias ao mundo dos sentidos. Mas quanto mais distante fico daqueles dias, mais tênue fica a fronteira entre os contos de bruxas e fadas e a história:

"A história é como um grande conto de fadas. A única diferença entre os dois é que a história é de verdade...". (O dia do Curinga – Nove de Paus – Jostein Gaarder).

Se me perguntarem qual foi a melhor época de minha vida, direi que foi esta dos sonhos que pularam da cabeça para o dia-a-dia. Se me perguntarem qual foi a pior época da minha vida apontarei o mesmo período dos sonhos que pularam da cabeça para o dia-a-dia...

"O problema é que não é muito saudável beber o mundo todo de um só gole, meu jovem. É melhor bebê-lo aos poucos, um golinho de cada vez." (O dia do Curinga – Nove de Paus – Jostein Gaarder).

Desde que provei daquele néctar agridoce me esforço pra esquecer a intensidade incendiária daquela bebida (It's better to burn out than to fade away?). Às vezes há sucesso. Mas às vezes uma metáfora qualquer proferida sobre o frio, calor, sol, lua, estações... Devolve todo aquele contexto ao epicentro do pensamento. Uma voz doce e encantadora em tom alterado e ameaçador é capaz desmontar toda a minha teia teatral de sanidade. A lamentação externa por uma oportunidade que perdi é também a lembrança de que obstrui caminhos de outras oportunidades alheias a mim...
Não há por que trocar horas de agonia por uns minutos tocando um instrumento...
Não há porque lamentar coisas que não aconteceram...
Não agora...
Por hora o melhor é beber o mundo devagar...
Aproveitando queda...
Lenta e amena queda livre... 
Sentindo apenas meu próprio suspiro agora...
E se for preciso, quero estar preparado pra saber a hora certa de mergulhar ou evitar a fogueira...


“...e o meu lugar é esse
ao lado seu, no corpo inteiro
dou o meu lugar pois o seu lugar
é o meu amor primeiro
o dia e a noite as quatro estações...”
(Dois Rios – Skank e Nando Reis)

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