Ele estava no
princípio com Deus.
Todas as coisas foram
feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez.
Nele estava a vida, e
a vida era a luz dos homens.
E a luz resplandece
nas trevas, e as trevas não a compreenderam.
[...] E o Verbo se fez
carne, e habitou entre nós...”
(Evangelho de João –
Capítulo 1)
O
verbo, que era divino em si, pulou para fora do texto e se fez carne! Passou a
existir no plano palpável da matéria. Em outra história, cartas de baralho (que
podem não ser verbos, mas se compõe de letras, números, símbolos) pularam da
cabeça de um marujo que as tinham como única companhia em uma ilha onde vivia após
sobreviver a um naufrágio.
“...Alguma coisa os impedia de
se reconhecerem criaturas da minha imaginação. Aliás, a falta de consciência
acerca de sua própria condição é comum a todas as criaturas. Mas justo essas
criaturas da minha imaginação eram diferentes de todas as outras. Elas tinham
percorrido o inexplicável caminho que leva do espaço da criação na minha cabeça
ao espaço real, o espaço criado.” (O dia do
Curinga – Valete de Paus – Jostein Gaarder).
Assim como todos
nós, submetidos à “letra da lei” por letras de um nome e números de
identificação, as cartas (como a maioria de nós) jamais se questionavam acerca
de sua origem, seu destino, a matéria de que são feitos...
“Cria a dor. Cria e
atura
(Criador. Criatura)...
Não habita. Se
habitua...”
(Cidadão de Papelão - O
Teatro Mágico)
Este assunto da
criação é muito delicado.
Delicado também é
usar o verbo pra tentar desvendar a força inaudita responsável pelo movimento
do tempo... pelo milagre (?) da vida...
“...Quem é você?
Que se esconde, atrás
de um nome qualquer,
Não aparece pra mim,
Estende a mão,
Trazendo a chuva,
Tocando o som do
trovão,
Será que vamos saber?”
(Música Inédita - Cidadão
Quem)
Segundo Nietzsche
o verbo não é algo assim tão divino. Não passa de miséria e analgésico para os moribundos espíritos
conceituais. Por isso dizia que deus estava morto (conforme a citação em dez de
espadas) e que só um deus que soubesse dançar mereceria ser adorado. Nenhuma forma
de comunicação poderia ser mais rica que a música. Se há um deus, ele deve ser
compositor, intérprete, maestro e dançarino da música que cria.
“Há uma voz que canta
Uma voz que dança
Uma voz que gira
Bailando no ar...”
(Tente Outra Vez - Raul
Seixas)
Sem querer resolver a questão da existência ou não
do maestro, da sacralidade maior da palavra ou da música, pretendo deixar não
uma mensagem de paz, mas de tensão, inquietação, questionamento...
“...o Curinga apareceu por essas
bandas dezesseis ou dezessete anos depois eu todos os outros já tinham chegado.
E quando já estávamos acostumados com nossa nova vida em comum, surge um
elemento amotinador para perturbar nossa paz...” (O dia do
Curinga – Valete de Paus – Jostein Gaarder).
Já que comecei com verbo e depois temperei com músicas,
encerro com verbo pra ampliar ainda mais as questões referentes às forças
desconhecidas.
“Oração ao
Deus desconhecido.
Antes de
prosseguir em meu caminho e lançar o meu olhar para a frente, uma vez mais
elevo, só, minhas mãos a Ti de quem eu fujo.
A Ti das
profundezas de meu coração, tenho dedicado altares festivos para que, em cada
momento, Tua voz me pudesse chamar.
Sobre esses
altares estão gravadas em fogo palavras: "Ao Deus desconhecido".
Teu, sou eu,
embora até o presente tenho me associado aos sacrílegos.
Teu, sou eu,
não obstante os laços que me puxam para o abismo.
Mesmo
querendo fugir, sinto-me forçado a servir-Te.
Eu quero Te
conhecer, desconhecido.
Tu, que me
penetras a alma e, qual turbilhão, invades a minha vida.
Tu, o
incompreensível, mas meu semelhante, quero te conhecer, quero servir só a Ti.”
(Friedrich
Nietzsche)

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