quarta-feira, 24 de junho de 2015

#28 - DOIS DE OUROS - Não ouvi nenhuma notícia vinda do sol ou da lua...

“...Comparada com a música, toda comunicação com palavras é vergonhosa; as palavras diluem e brutalizam; as palavras despersonalizam; as palavras tornam o incomum comum...” (Ecce Homo –
Friedrich Nietzsche)

Paradoxal desqualificar as palavras usando palavras. Mas o que somos além de palavras e silêncios? Talvez o filósofo diria que somos melodia e pausa. Pensando bem, talvez ele não dissesse que "somos". Melhor não resolver o paradoxo nem as hipóteses do parágrafo. Em tempos de ouros, recebo de bom grado a recomendação de um ditado popular que diz que “falar é prata, silenciar é ouro”.
Mas vou silenciar em sol maior! Gosto muito da encantadora frase que a curinga co-autora deste blog certa vez me disse: “Ouçam as guitarras distorcidas do silencio! É preciso saber diferenciar silêncio da ausência total de som”. Quantos instrumentos musicais cabem nos teus silêncios? Teus silêncios são povoados por palavras, melodias ou ambas a um só tempo? Em tempos de ouros, aceito de bom grado a convivência entre a fragilidade das palavras e a força revolucionária da música. Depois da abertura da estação com uma linda canção de inverno, trago aqui aos teus olhos e ouvidos uma canção de Zeca Baleiro:

“Não se move uma montanha
Por um pálido pedido
De alguém que não se ama...”

Pra quantas pessoas neste mundo somos capazes de “mover montanhas”? Será possível atender a um pálido pedido de alguém que não se ama? No cristianismo o amor ao próximo é uma obrigação. Será que assim todas as pessoas próximas devem ter nosso amor? O que define quem é próximo? Se proximidade for algo relacionado à geografia, o amor perde toda a sua pretensa nobreza e se torna apenas um sentimento corriqueiro de obrigação cotidiana para com todos. Sou bem mais seletivo quanto a isso. As vezes me sinto muito mais próximo de alguns poucos escritores e músicos defuntos do que da multidão de pessoas que circulam todos os dias ao meu redor... Ao meu ver, não dá pra mover nem uma palha por alguém que não se ama. A vida é curta demais pra alienarmos tempo e atenção a outras vidas alheias a nós.

“...Todo ouro está contigo
Para isso há muita chama
No coração do bandido...”

Para além da temporada de ouros, é preciso ter muito cuidado com os tesouros que você ostenta por aí. Se por um lado ninguém move montanhas sem amor, há muitos bandidos por aí apaixonados pelo ouro que carregas! O mau caráter agirá com todo o fulgor de sua paixão para tomar de ti os teus valores. Mas há quem aprenda a amar o bandido e usa seus valores como isca para prendê-lo a si... Questão de gosto... Ainda acho a vida curta demais pra empreender um objetivo desta natureza.

“...Mais uma vez o dia chega em minha vida...”

Poucas coisas me são tão valiosas quanto o surgimento de um novo dia. Um mesmo sol, surgindo no mesmo horizonte, iluminando o mesmo planeta... Mas contudo, é sempre um novo dia! É como abrir o mesmo livro em uma outra página.

“...Como uma chama na selva
O sol na cama da relva
A tua boca e a lua...”

É uma bela imagem a do sol surgindo entre as arvores da selva e se deitando na cama da relva... A tua boca quieta ou dizendo palavras sob a luz da lua... Palavras que formam imagens não são tão frágeis quanto palavras atreladas a velhos dogmas e conceitos. A citação de Nietzsche no inicio deste texto aparece na sequencia da afirmação que seu livro “Assim Falou Zaratustra” era, na verdade, uma música! Sim! Há um caminho de redenção para as palavras – a música!

“...A minha boca e a tua
Vão deixando pela rua:
Palavras e silêncios
que jamais se encontrarão...”

A minha boca calada não se encontra com minhas mãos que agora escrevem ou com meus olhos que leem cada palavra digitada na tela. A tua boca, agora calada, lê as palavras que escrevi em um passado que recebes agora como presente... Mas ainda assim estamos em silêncio: Eu, você, estas palavras e a guitarra distorcida... Materializar as palavras em som é quebrar o silêncio... Um encontro impossível! Palavras e silêncio só podem se encontrar em um verso ou oração. Só na teoria. Na prática, nunca vão se encontrar...
Que bom que em meio a um inverno (que já dura anos em mim) pude quebrar o silêncio com o som do teclado... Teclado de computador que agora me soa aos ouvidos como música... Que bom escrever aqui agora e contar com a companhia dos teus olhos. Se isso não cura a tristeza que habita hoje em mim, ao menos deixa no ar a ideia de que pra todo inverno deve haver uma primavera...
Um sonho... Um anseio por sentir na pele algo semelhante a energia quente, vital e revolucionária que um dia senti, ou sonhei ter sentido... Será? Às vezes fico pensando que tudo aquilo de bom que vivi (e que parece tão distante e perto a um só tempo) não passou de um sonho...

“...Entendi, então, que tudo aquilo que me parecia um sonho era tão verdadeiro quanto o sol e a lua...” (O dia do Curinga – Dois de Ouros – Jostein Gaarder).


Mas não importa quanta tristeza ou alegria espalhamos por aí com nossas palavras e silêncios. Não importa nenhuma das nossa opiniões, angústias, lutas, omissões, atos, pecados, glórias, derrotas... O sol continuará aparecendo a cada manhã e desaparecendo a cada entardecer. A lua continuará aparecendo no céu a cada noite - vestida com seus quatro trajes (ou naipes) - num ciclo que se repete em cada um dos nossos meses de 28 dias... Por mais que do céu venha toda a energia existente em nosso planeta, os astros lá encima seguem seus movimentos totalmente indiferentes a nós. Seus ciclos precisos são alheios ao que fazemos ou deixamos de fazer aqui neste planetinha ilhado no espaço. Por mais que busquemos informações, notícias, tendências, opiniões... Das forças que realmente importam - aquelas que garantem toda a vida na terra, não ouvi qualquer sinal! Não ouvi nenhuma notícia vinda do sol ou da lua. As nossas pequenas palavras e o imenso silêncio do céu jamais se encontrarão!

quarta-feira, 17 de junho de 2015

#27 - ÁS DE OUROS - A verdade a ver navios...

Inaugurando um novo naipe nas postagens do Clã, Ás de Ouros se apresenta na semana em que aguardamos uma passagem de relevância astronômica - literal e poeticamente falando. O solstício de inverno, tradicionalmente datado de 21/06 em nosso hemisfério, não possui, na realidade, uma data certa para definir o dia mais curto do ano - o dia em que a Terra se encontre mais distante do Sol. Parece uma ironia que este Naipe tão reluzente seja marcado por tão obscura afirmação! 

"No inverno fica tarde mais cedo..."
(Humberto Gessinger)

Por outro lado, trata-se de uma forma de renascimento, pois (como me lembrou o Curinga co-autor destas postagens), após este marco, até que o tempo se renove em flores, e também daí em diante, todos os dias passarão a ser gradativamente marcados pela aproximação acalentadora do Astro Rei - é preciso um inverno intenso para revelar um verão invencível! (parafraseando Albert Camus). É preciso o doce e o amargo, o não e o sim...

Diante dos opostos dos dias, dos naipes, do tempo, atribuímos valores aos acontecimentos para construir quem somos. Bem e mal, tudo ou nada, ouro e ouro de tolo... 

"Acho que a gente vê aquilo em que acredita"
(Hans Thomas - Ás de Ouros)

Diante dos opostos: a solidão de quem vive dentre muitos. A solidão nietzschiana que modifica vozes, misantrópica. De quem a preza mais do que às falsas companhias. De quem reconhece que o silêncio é de ouro - nada como chegar em casa e pairar sobre a melodia da guitarra distorcida do silêncio.

Quase que uma tentativa de hibernação, esta época do ano me parece pedir recolhimento. Isso porque a gente acorda numa certa manhã e vê que cresceu. A gente abre os olhos e segue a rotina do trabalho, dos estudos, dos objetivos, dos sonhos... a gente paga pra ver, até a hora de dizer chega (nosso fundo do poço, ou solstício de inverno). A gente mergulha num frio intenso em busca de ar, involuntária e imperceptivelmente, até que um novo nascer do Sol nos relembre de dar valor de Ouro ao que realmente o tenha. Ao que acreditamos que deva ter.

"Ritos de passagem" - ouro pra mim é perceber que a vida tem-me se apresentado, em sua forma mais intensa, através de momentos de ruptura. Amizades de ouro, como outrora dito, se queimaram como paus na fogueira... Outras presenças produziram calor tão intenso, que confortaram a alma desta que vos escreve, com nada mais do que um "bom dia" - mensagens que romperam com a tepidez das horas. Curingas postando aqui no Clã foram como Sol nascente anunciando um novo recomeço.

"Ela mudou, tudo acabou,
ela está pronta pra recomeçar"
(Humberto Gessinger)

Encontros. Pontes cibernéticas quebrando distâncias. Distância que, todos os dias, repenso sobre o valor e a pena (às vezes, a alma cosmopolita, que tanta passagem e ruptura já enfrentou, busca apenas o caminho de casa, mesmo sabendo que, aquilo que outrora chamou de lar, jamais encontrará de novo).

"Quem disse que eu me mudei?
Não importa que a tenham demolido:
A gente continua morando na velha casa em que nasceu"
(Mário Quintana)

São de ouro o colo de mãe, o mate com os amigos, os olhos de mar que nos observam, ainda que distantes. É de ouro a falta que tudo isso faz. Parafraseando Hans Thomas, a gente sente por aquilo em que acredita. 

Diante dos valores que damos ao que constrói nossa vivência, a verdade vê navios pois se perde na sua própria falta de existência. Encontramos outros modos de ver a queda. Entre os sentimentos de ouro e os ouros de tolo, temos de alcançar o tempo de recomeço. 

O mundo é plural. Somos paradoxais, e esta afirmação, controversa, por isso, mesmo vale ouro. Amiúde, temos muita coisa grande pra conquistar...


"Tell me somethin', give me hope for the night
We don't know how we feel
We're just prayin' that we're doin' this right
Though that's not the way it seems [...]"
(Winter Song)

quarta-feira, 10 de junho de 2015

#26 - REIS DE PAUS – Entre a verdade do universo e a prestação que vai vencer.

Mão esquerda segurando a caneta esferográfica que dança pelas linhas em branco da folha do caderno onde desenho estas palavras... Estou cumprindo com o compromisso que fiz em Ás de Paus, de, antes de digitar, escrever tudo “a mão” nesta estação.
É tempo de transição. Reis de paus encerrará o semestre das cartas pretas, deixando metade da paciência sobre a mesa!
Planejo mentalmente há dias o que escrever aqui para o “gran finale” de paus (outono), afinal, esta é a última semana que terá dias cada vez mais curtos. Em Ás de Ouros o sol derrotará as trevas e os dias passarão a ser cada vez mais longos – Sol Invictus! Mas falar disso é avançar a um tempo que ainda nem existe...
Pensei então em dividir um pouco do que vivi na última semana – a mais intensa de paus! Meus filhos precisaram ir a Curitiba pra continuar lutando por sua frágil vida. Embora o apoio da embaixada Curinga na Capital tenha tornado as coisas mais leves num primeiro momento, as coisas que aconteceram no hospital tornaram tudo muito pesado...
No mesmo contexto, meus colegas professores, em greve há muitos dias, deliberavam sobre a continuidade ou não do movimento. Isso acontecia há dois quilômetros do hospital, então, fui até lá... Poderia escrever sobre isso, afinal, é tempo de paus, de trabalho... Deixo apenas uma foto...
Voltando ao hospital, me deparei com as crianças desacordadas em um leito. Tinham feito exame de medula, o que exigiu anestesia. Nos dois a reação foi ruim, mas no Luiz Miguel foi pior. Depois de algumas horas a Clara levantou e o Luiz Miguel ficou com um mal estar que insistia em não passar. Não conseguia nem se levantar... Precisei carregar ele e uma das malas, enquanto a mãe dele carregava sua irmã e a outra mala. Quais versos, melodias e prosas seriam capazes de reunir em mim forças pra carregar todo aquele peso?

Não era só o esforço físico! Era um terrível cansaço mental pela circunstancia toda. Porque aquelas crianças tão doces tem que passar por situações assim? Porque as nossas crianças? Porque os professores tinham que comprar a briga de todos os funcionários públicos? Porque não temeríamos o corte em nossos salários tendo a menor folha de pagamento entre os funcionários de formação superior? Minha cabeça funcionava como na alegoria de uma música de Raul Seixas, entre a verdade do universo e a prestação que vai vencer.

Poderia falar novamente sobre a cruz... Uma cruz de paus bem pesados... Violência... Intolerância... Mas prefiro deixar apenas palavras selecionadas de cada uma das cartas pretas do semestre. Embaralhei-as e juntei as frases. Pra fazer jus ao ofício do curinga, ajeitei três ou quatro peças no monte e a primeira metade da paciência me apareceu assim:

É nesse momento que ninguém, nem deus, nem você, nenhuma das cartas recebe o fardo de assinar por mim... (Q♣) Não há transformação verdadeira sem dor e disposição, sem crescimento e aprendizagem, sem vontade e aceitação (o que é diferente de conformação). (3♠) Aqui, tenho sido errante por matas e praias, por vezes passo horas ouvindo apenas o mar e o ruído ensurdecedor dos meus pensamentos... que, aos poucos, vão se esvaindo em brisas... (10♣)
Minhas flores são efêmeras, mas não por isso vou permitir que desapareçam assim tão fácil... (6♠) Hoje navego nesses mares de verde puro e intenso. Clã Curinga hoje faz do Clã Pierrot um recomeço. (J♠). Cada momento é único, insubstituível e incrivelmente ligado a um encadeamento grandioso de acontecimentos que nos uniram aqui neste movimento cíclico de escrita/leitura, sonho/realidade, passado/presente... (8♠) que me fez perceber que a História só tem importância real quando nos vemos como sujeitos dela. (4♣). Ainda que não saiam do mundo das ideias, esses versos se esvaem e retornam novos, diversos, repletos de vontade e de potência - como eu, na transitoriedade, vêm-a-ser. (K♠). Há dez anos as engrenagens do tempo conspiraram para que o nascimento de um clã se fizesse possível. (A). De um reencontro aparentemente corriqueiro, surgiu uma prosa fantástica - vi nos olhos de menino o reflexo de um mundo poético. (5♠)
Em meio a tudo isso veio o duro golpe. (5♣). A poesia de hoje é uma prece, como quem segura nos braços um tesouro e jura, ainda que impotente, o bem maior como garantia... (6). Quais versos, melodias e prosas seriam capazes de reunir em mim forças pra carregar todo aquele peso? (K) Caneta em minha mão esquerda, ponta da caneta no papel, movimentos curtos e rápidos que desenham as palavras que você está agora lendo. (A) O verbo, que era divino em si, pulou para fora do texto e se fez carne! Passou a existir no plano palpável da matéria. (J) E no meio daquela noite consubstancial, descobri o vir-a-ser. Entendi que tudo muda. (7)
O Clã Curinga tem sido o meu modo de rotular, poeticamente ou não, o mundo que crio ao meu redor (8). E se ficou muito mal explicado - desculpe-me! Mas garanto: nem mesmo soldado tem feito sentido... (9) Ouçam o som do silêncio da cidade que não para: não para pra ver, pra ouvir, pra sentir, pra ser, pra viver. (Q) Pra onde quer que você olhe, sempre verá a Terra. (10)
Nós, apaixonados, haveremos sempre de carregar uma cruz de paixões bem pesadas! (3)Não há porque lamentar coisas que não aconteceram... (9♣) Quem me conhece, sabe que escrever é uma das coisas que mais gosto de fazer. (7) Não há "sol invictus" aqui! O início do verão (espadas) marcou o declínio dos dias longos até que as trevas alcancem seu ponto mais alto no início do inverno (ouros)... (2) Talvez seja necessário, ainda, este outono incerto para a transição a um inverno que traga o aconchego do verso pinkfloydiano que diz que é bom esquentar os ossos na lareira... (2) A festa da vida nunca acaba pra quem vive ao som da poesia do tempo! (4)

quarta-feira, 3 de junho de 2015

#25 - DAMA DE PAUS - Se ele assinou tudo que fez, utilizou apenas impressões digitais...

Do meu pequeno quarto blog quadrado só dava pra observar o movimento das sombras...dois Curingas perambulando pelas esquinas, dançando com o vento do devir. E eu ficava encantada apenas com as sombras, que tinham um “que” de esperança pra esse tédio todo dessa cidade toda cinza. Às vezes apenas a ilusão pode dar sentido a paredes sem cor, corpos sem forma, sombras refletidas num Universo de um milhão e meio de supernovas.

Agora, estou escrevendo de onde se produz o andar, o perambular...onde se traduz o mais nobre sentimento à beira do precipício de um mundo onde cartas perambulam, coelhos falam, deuses jogam dados e dançam tango. De precipícios onde as cartas do grande jogo de baralho se ajeitam, se atracam, se abraçam, se deixam livres, convivem. Recebi o mais nobre convite que, embora visualizado atrasado, veio em tempo certo: “você gostaria de ser Dama De Paus?”

 Aceitei. Claro! Diz a velha lenda que, quando Curingas falam, a gente deve parar e ouvir a história. Imagina quando eles falam diretamente com você...

"...que o teu afeto me afetou é fato..."

Ser Dama de Paus nesse grande jogo às vezes traz uma responsabilidade gigante. Ainda mais quando o título é concedido por um Curinga. Ainda mais se for por dois Curingas, aqueles das sombras que via no meu quarto blog quadrado.  Ainda mais se fizer sentido o título, a frase, a assinatura.  Sem mais delongas, e falando em assinaturas...

Por que não Haverá de Mim um Deus?
Se a cada coisa que há um deus compete, 
Por que não haverá de mim um deus? 
Por que o não serei eu? 
É em mim que o deus anima 
Porque eu sinto (...).
(Ricardo Reis in "Odes" - Fernando Pessoa)

Sempre penso em Deus como um ser que tudo assina. E ele geralmente não costuma fugir do que assina. Pelo contrário, está sempre ali, seja pra dizer “não fui eu”, seja pra afirmar “problema é seu”, seja só por estar. Aprendi a ver deuses de formas diferentes. Em pessoas, em lugares, em prazeres, em virtudes, vícios....mas aprendi mesmo a ver deus na dor e nos momentos de deixar-se levar pela magia do precipício. Numa dada hora do meu dia de hoje, (dia nada fácil pra um mês que já começou com pancadas abruptas, ferro na jugular, caixas de sombras que se abriram...) recebi uma mensagem de alento de um grande perambulador do mundo: “aproveite a queda.” Talvez a presença de deus esteja mesmo na queda livre. E talvez as pessoas que não acreditam nele nunca se jogaram de verdade. Quando se cai, amores, dores,prazeres, esperanças...tudo cai junto. Mas, não vejo isso como um infortúnio...cair é a mais bela forma de encontrar a essência de nós mesmos. É encontrar o deus que habita no que há de mais santo e podre que se tem, de mais belo e vil.  A minha assinatura é quando caio, quando chego ao chão sem nada do que antes atrapalhava meu voo rumo à queda livre.

Pensando bem, talvez não seja necessário cair  sempre pra se ter esperança, ou pra se encontrar um deus.  Talvez eles estejam no reencontro de velhos conhecidos de outros jogos; talvez estejam no pedaço de papel que, de tanta lembrança, ficou amarelado. Talvez possamos encontrar a esperança num beijo ou num abraço, ainda que virtual. Ou ainda num verde mar... que nos deixa à deriva de nós mesmos. Ou ainda em um segundo, terceiro, quarto sol, quarta dimensão ou imensidão, que um dia permitiu o encontro de dois seres num banco de uma dessas Universidades da vida e fez com que toda teoria sobre felicidade, fé, deuses e esperança tivesse um sentido real.
A maior dor, o maior amor, o melhor abraço, a grande entrega, nada disso faz sentido quando deixamos morrer o deus que habita em nós. Em minha breve opinião – assim como breve é a vida -, nada mais especial para traduzir deus como a esperança. E o “invisível nos salta aos olhos” toda vez que “falta a luz” da esperança.

 Quando não vemos nada além do vazio, não há onde assinar....não há o que viver. Agora, relendo o texto, pensando no título e em tudo que acontece por esses dias, tenho receio de não saber por onde minha assinatura pode andar....muito menos onde encontrar a assinatura de quem um dia fez, ou ainda faz parte do livro dos meus dias. Complicada essa história de assinatura....Aprendi um dia que deus assinou tudo que fez. Talvez, no momento exato de assinar sua obra prima da criação – nós – tenha lhe faltado papel e caneta. Se ele assinou tudo que fez, utilizou apenas impressões digitais quando se trata da dor da gente, quando se trata da perca da esperança. Eu ainda espero não perder de vista deuses, esperanças, fé. 

“Do alto da pedra”, de onde sempre me lanço pro precipício, as vezes fica difícil de ver deus....e eu sei que essa busca por ele é um enredo construído apenas pra mim, apenas pra essa vida. E eu sei que só tenho esse breve momento de respiração para encontrar a esperança. Por isso a queda, pra mim, faz sentido. É nesse momento que ninguém, nem deus, nem você, nenhuma das cartas recebe o fardo de assinar por mim...

E assim fecha-se o livro dos dias. “E deus viu que era bom.”