“...Comparada com a música, toda comunicação com palavras é vergonhosa; as palavras diluem e brutalizam; as palavras despersonalizam; as palavras tornam o incomum comum...” (Ecce Homo –
Friedrich Nietzsche)
Friedrich Nietzsche)
Paradoxal desqualificar as palavras usando palavras. Mas o que somos além de palavras e silêncios? Talvez o filósofo diria que somos melodia e pausa. Pensando bem, talvez ele não dissesse que "somos". Melhor não resolver o paradoxo nem as hipóteses do parágrafo. Em tempos de ouros, recebo de bom grado a recomendação de um ditado popular que diz que “falar é prata, silenciar é ouro”.
Mas vou silenciar em sol maior! Gosto muito da encantadora frase que a curinga co-autora deste blog certa vez me disse: “Ouçam as guitarras distorcidas do silencio! É preciso saber diferenciar silêncio da ausência total de som”. Quantos instrumentos musicais cabem nos teus silêncios? Teus silêncios são povoados por palavras, melodias ou ambas a um só tempo? Em tempos de ouros, aceito de bom grado a convivência entre a fragilidade das palavras e a força revolucionária da música. Depois da abertura da estação com uma linda canção de inverno, trago aqui aos teus olhos e ouvidos uma canção de Zeca Baleiro:
“Não se move uma montanha
Por um pálido pedido
De alguém que não se ama...”
Pra quantas pessoas neste mundo somos capazes de “mover montanhas”? Será possível atender a um pálido pedido de alguém que não se ama? No cristianismo o amor ao próximo é uma obrigação. Será que assim todas as pessoas próximas devem ter nosso amor? O que define quem é próximo? Se proximidade for algo relacionado à geografia, o amor perde toda a sua pretensa nobreza e se torna apenas um sentimento corriqueiro de obrigação cotidiana para com todos. Sou bem mais seletivo quanto a isso. As vezes me sinto muito mais próximo de alguns poucos escritores e músicos defuntos do que da multidão de pessoas que circulam todos os dias ao meu redor... Ao meu ver, não dá pra mover nem uma palha por alguém que não se ama. A vida é curta demais pra alienarmos tempo e atenção a outras vidas alheias a nós.
“...Todo ouro está contigo
Para isso há muita chama
No coração do bandido...”
Para além da temporada de ouros, é preciso ter muito cuidado com os tesouros que você ostenta por aí. Se por um lado ninguém move montanhas sem amor, há muitos bandidos por aí apaixonados pelo ouro que carregas! O mau caráter agirá com todo o fulgor de sua paixão para tomar de ti os teus valores. Mas há quem aprenda a amar o bandido e usa seus valores como isca para prendê-lo a si... Questão de gosto... Ainda acho a vida curta demais pra empreender um objetivo desta natureza.
“...Mais uma vez o dia chega em minha vida...”
Poucas coisas me são tão valiosas quanto o surgimento de um novo dia. Um mesmo sol, surgindo no mesmo horizonte, iluminando o mesmo planeta... Mas contudo, é sempre um novo dia! É como abrir o mesmo livro em uma outra página.
“...Como uma chama na selva
O sol na cama da relva
A tua boca e a lua...”
É uma bela imagem a do sol surgindo entre as arvores da selva e se deitando na cama da relva... A tua boca quieta ou dizendo palavras sob a luz da lua... Palavras que formam imagens não são tão frágeis quanto palavras atreladas a velhos dogmas e conceitos. A citação de Nietzsche no inicio deste texto aparece na sequencia da afirmação que seu livro “Assim Falou Zaratustra” era, na verdade, uma música! Sim! Há um caminho de redenção para as palavras – a música!
“...A minha boca e a tua
Vão deixando pela rua:
Palavras e silêncios
que jamais se encontrarão...”
A minha boca calada não se encontra com minhas mãos que agora escrevem ou com meus olhos que leem cada palavra digitada na tela. A tua boca, agora calada, lê as palavras que escrevi em um passado que recebes agora como presente... Mas ainda assim estamos em silêncio: Eu, você, estas palavras e a guitarra distorcida... Materializar as palavras em som é quebrar o silêncio... Um encontro impossível! Palavras e silêncio só podem se encontrar em um verso ou oração. Só na teoria. Na prática, nunca vão se encontrar...
Que bom que em meio a um inverno (que já dura anos em mim) pude quebrar o silêncio com o som do teclado... Teclado de computador que agora me soa aos ouvidos como música... Que bom escrever aqui agora e contar com a companhia dos teus olhos. Se isso não cura a tristeza que habita hoje em mim, ao menos deixa no ar a ideia de que pra todo inverno deve haver uma primavera...
Um sonho... Um anseio por sentir na pele algo semelhante a energia quente, vital e revolucionária que um dia senti, ou sonhei ter sentido... Será? Às vezes fico pensando que tudo aquilo de bom que vivi (e que parece tão distante e perto a um só tempo) não passou de um sonho...
“...Entendi, então, que tudo aquilo que me parecia um sonho era tão verdadeiro quanto o sol e a lua...” (O dia do Curinga – Dois de Ouros – Jostein Gaarder).
Mas não importa quanta tristeza ou alegria espalhamos por aí com nossas palavras e silêncios. Não importa nenhuma das nossa opiniões, angústias, lutas, omissões, atos, pecados, glórias, derrotas... O sol continuará aparecendo a cada manhã e desaparecendo a cada entardecer. A lua continuará aparecendo no céu a cada noite - vestida com seus quatro trajes (ou naipes) - num ciclo que se repete em cada um dos nossos meses de 28 dias... Por mais que do céu venha toda a energia existente em nosso planeta, os astros lá encima seguem seus movimentos totalmente indiferentes a nós. Seus ciclos precisos são alheios ao que fazemos ou deixamos de fazer aqui neste planetinha ilhado no espaço. Por mais que busquemos informações, notícias, tendências, opiniões... Das forças que realmente importam - aquelas que garantem toda a vida na terra, não ouvi qualquer sinal! Não ouvi nenhuma notícia vinda do sol ou da lua. As nossas pequenas palavras e o imenso silêncio do céu jamais se encontrarão!

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