Inaugurando um novo naipe nas postagens do Clã, Ás de Ouros se apresenta na semana em que aguardamos uma passagem de relevância astronômica - literal e poeticamente falando. O solstício de inverno, tradicionalmente datado de 21/06 em nosso hemisfério, não possui, na realidade, uma data certa para definir o dia mais curto do ano - o dia em que a Terra se encontre mais distante do Sol. Parece uma ironia que este Naipe tão reluzente seja marcado por tão obscura afirmação!
"No inverno fica tarde mais cedo..."
(Humberto Gessinger)
Por outro lado, trata-se de uma forma de renascimento, pois (como me lembrou o Curinga co-autor destas postagens), após este marco, até que o tempo se renove em flores, e também daí em diante, todos os dias passarão a ser gradativamente marcados pela aproximação acalentadora do Astro Rei - é preciso um inverno intenso para revelar um verão invencível! (parafraseando Albert Camus). É preciso o doce e o amargo, o não e o sim...
Diante dos opostos dos dias, dos naipes, do tempo, atribuímos valores aos acontecimentos para construir quem somos. Bem e mal, tudo ou nada, ouro e ouro de tolo...
"Acho que a gente vê aquilo em que acredita"
(Hans Thomas - Ás de Ouros)
Diante dos opostos: a solidão de quem vive dentre muitos. A solidão nietzschiana que modifica vozes, misantrópica. De quem a preza mais do que às falsas companhias. De quem reconhece que o silêncio é de ouro - nada como chegar em casa e pairar sobre a melodia da guitarra distorcida do silêncio.
Quase que uma tentativa de hibernação, esta época do ano me parece pedir recolhimento. Isso porque a gente acorda numa certa manhã e vê que cresceu. A gente abre os olhos e segue a rotina do trabalho, dos estudos, dos objetivos, dos sonhos... a gente paga pra ver, até a hora de dizer chega (nosso fundo do poço, ou solstício de inverno). A gente mergulha num frio intenso em busca de ar, involuntária e imperceptivelmente, até que um novo nascer do Sol nos relembre de dar valor de Ouro ao que realmente o tenha. Ao que acreditamos que deva ter.
"Ritos de passagem" - ouro pra mim é perceber que a vida tem-me se apresentado, em sua forma mais intensa, através de momentos de ruptura. Amizades de ouro, como outrora dito, se queimaram como paus na fogueira... Outras presenças produziram calor tão intenso, que confortaram a alma desta que vos escreve, com nada mais do que um "bom dia" - mensagens que romperam com a tepidez das horas. Curingas postando aqui no Clã foram como Sol nascente anunciando um novo recomeço.
"Ela mudou, tudo acabou,
ela está pronta pra recomeçar"
(Humberto Gessinger)
Encontros. Pontes cibernéticas quebrando distâncias. Distância que, todos os dias, repenso sobre o valor e a pena (às vezes, a alma cosmopolita, que tanta passagem e ruptura já enfrentou, busca apenas o caminho de casa, mesmo sabendo que, aquilo que outrora chamou de lar, jamais encontrará de novo).
"Quem disse que eu me mudei?
Não importa que a tenham demolido:
A gente continua morando na velha casa em que nasceu"
(Mário Quintana)
São de ouro o colo de mãe, o mate com os amigos, os olhos de mar que nos observam, ainda que distantes. É de ouro a falta que tudo isso faz. Parafraseando Hans Thomas, a gente sente por aquilo em que acredita.
Diante dos valores que damos ao que constrói nossa vivência, a verdade vê navios pois se perde na sua própria falta de existência. Encontramos outros modos de ver a queda. Entre os sentimentos de ouro e os ouros de tolo, temos de alcançar o tempo de recomeço.
O mundo é plural. Somos paradoxais, e esta afirmação, controversa, por isso, mesmo vale ouro. Amiúde, temos muita coisa grande pra conquistar...
Uma entrada triunfal para o semestre das cartas vermelhas...
ResponderExcluirNão consigo encontrar palavras pra te dizer o quanto me sinto em casa nas entrelinhas do seu texto. Não sei dizer o como me faz bem morar aqui, no clã curinga. Uma velha casa que hoje tem paredes de ouro...
Obrigado parceira!
Não posso deixar de comentar.
ResponderExcluirEstou incomodada. Pois é, o texto incomoda de tão bom que é.
É, de certa forma, a tradução da música "93 million miles" do Jason Mraz, música e letra lindíssimas, analisem a letra e me digam se estou errada.
https://m.youtube.com/watch?v=qRaZzW8nm0s
Dos últimos 4 anos, grande parte do tempo me esqueci do problema de saúde das crianças e, de repente, um exame de sangue me faz recordar tal problema e entramos num inverno imenso na esperança de que a "temporada das flores" chegue logo.
Sempre que preciso ir para o hospital de Curitiba lembro da música que eu citei, principalmente "Every road is a slippery slope
But there is always a hand that you can hold on to
Looking deeper through the telescope
You can see that your home's inside of you
Just know, that wherever you go
No, you're never alone,
You will always get back home"
"é preciso um inverno intenso para revelar um verão invencível!" Assim seja. Amém, Amém!
Belo texto, belo texto!!!
"Rogai por mim, vou tentar rezar agora, despudoradamente em público. Reclamar! Da vida o desatino. ..
ResponderExcluirOu talvez dizer já seja uma reza, já seja uma oração dentro de nós. ."
( Perdoando o Adeus - OTM )
Vendo o belo texto, a nossa história, a história das crianças, percebo a fragilidade da vida. E percebo também o quão frágeis somos nós, e como nossa busca por respostas nos dá esperança de vida nova, de novas vidas.
Todos aqui temos por quem vive, por quem pedir, quem perdoar e esquecer. Temos portas que se abrem e que se fecham, e no meio disso tudo há esperança é fé, mesmo quando estamos no fundo do poço ou à deriva num barquinho no meio de um oceano de dúvidas e incertezas. E é isso que nós faz subir, que nos faz remar.
"A vida anuncia que renuncia a morte dentro de nós. ..:
Faço preces em silêncio pelas nossas vidas, pelas pessoas que amamos, por tudo aquilo que devemos esquecer e perdoar, pelas nossas histórias. E peço também pra que o silencia nos faça ouvir o Deus que há em nós. E pra que a solidão nos ensine a ver só o que é quem realmente importa
Belo texto! Belos comentários! Belas vidas que me cercam!
Não há um só ser humano que não seja uma ilha. Apreciar a própria companhia é um dom e um vício, ao mesmo tempo - uma bênção e um fardo. De fato, é sempre bom vermos outras ilhas por perto, ainda que num horizonte trêmulo ou difuso. Faz com que o mar, por mais impressionante, hipnotizante e monstruoso que seja, se torne também um obstáculo transponível... um... caminho! -
ResponderExcluir"we've come a long way to belong here and share this view..."
A falta de luz às vezes é necessária, mas ter vocês em meio às cartas do baralho faz com que a familiaridade com as coisas, com o mundo, com o humano, me seja um convite de volta pra casa, ainda que essa casa seja virtual...
Obrigada pelas palavras, curingas!