quarta-feira, 3 de junho de 2015

#25 - DAMA DE PAUS - Se ele assinou tudo que fez, utilizou apenas impressões digitais...

Do meu pequeno quarto blog quadrado só dava pra observar o movimento das sombras...dois Curingas perambulando pelas esquinas, dançando com o vento do devir. E eu ficava encantada apenas com as sombras, que tinham um “que” de esperança pra esse tédio todo dessa cidade toda cinza. Às vezes apenas a ilusão pode dar sentido a paredes sem cor, corpos sem forma, sombras refletidas num Universo de um milhão e meio de supernovas.

Agora, estou escrevendo de onde se produz o andar, o perambular...onde se traduz o mais nobre sentimento à beira do precipício de um mundo onde cartas perambulam, coelhos falam, deuses jogam dados e dançam tango. De precipícios onde as cartas do grande jogo de baralho se ajeitam, se atracam, se abraçam, se deixam livres, convivem. Recebi o mais nobre convite que, embora visualizado atrasado, veio em tempo certo: “você gostaria de ser Dama De Paus?”

 Aceitei. Claro! Diz a velha lenda que, quando Curingas falam, a gente deve parar e ouvir a história. Imagina quando eles falam diretamente com você...

"...que o teu afeto me afetou é fato..."

Ser Dama de Paus nesse grande jogo às vezes traz uma responsabilidade gigante. Ainda mais quando o título é concedido por um Curinga. Ainda mais se for por dois Curingas, aqueles das sombras que via no meu quarto blog quadrado.  Ainda mais se fizer sentido o título, a frase, a assinatura.  Sem mais delongas, e falando em assinaturas...

Por que não Haverá de Mim um Deus?
Se a cada coisa que há um deus compete, 
Por que não haverá de mim um deus? 
Por que o não serei eu? 
É em mim que o deus anima 
Porque eu sinto (...).
(Ricardo Reis in "Odes" - Fernando Pessoa)

Sempre penso em Deus como um ser que tudo assina. E ele geralmente não costuma fugir do que assina. Pelo contrário, está sempre ali, seja pra dizer “não fui eu”, seja pra afirmar “problema é seu”, seja só por estar. Aprendi a ver deuses de formas diferentes. Em pessoas, em lugares, em prazeres, em virtudes, vícios....mas aprendi mesmo a ver deus na dor e nos momentos de deixar-se levar pela magia do precipício. Numa dada hora do meu dia de hoje, (dia nada fácil pra um mês que já começou com pancadas abruptas, ferro na jugular, caixas de sombras que se abriram...) recebi uma mensagem de alento de um grande perambulador do mundo: “aproveite a queda.” Talvez a presença de deus esteja mesmo na queda livre. E talvez as pessoas que não acreditam nele nunca se jogaram de verdade. Quando se cai, amores, dores,prazeres, esperanças...tudo cai junto. Mas, não vejo isso como um infortúnio...cair é a mais bela forma de encontrar a essência de nós mesmos. É encontrar o deus que habita no que há de mais santo e podre que se tem, de mais belo e vil.  A minha assinatura é quando caio, quando chego ao chão sem nada do que antes atrapalhava meu voo rumo à queda livre.

Pensando bem, talvez não seja necessário cair  sempre pra se ter esperança, ou pra se encontrar um deus.  Talvez eles estejam no reencontro de velhos conhecidos de outros jogos; talvez estejam no pedaço de papel que, de tanta lembrança, ficou amarelado. Talvez possamos encontrar a esperança num beijo ou num abraço, ainda que virtual. Ou ainda num verde mar... que nos deixa à deriva de nós mesmos. Ou ainda em um segundo, terceiro, quarto sol, quarta dimensão ou imensidão, que um dia permitiu o encontro de dois seres num banco de uma dessas Universidades da vida e fez com que toda teoria sobre felicidade, fé, deuses e esperança tivesse um sentido real.
A maior dor, o maior amor, o melhor abraço, a grande entrega, nada disso faz sentido quando deixamos morrer o deus que habita em nós. Em minha breve opinião – assim como breve é a vida -, nada mais especial para traduzir deus como a esperança. E o “invisível nos salta aos olhos” toda vez que “falta a luz” da esperança.

 Quando não vemos nada além do vazio, não há onde assinar....não há o que viver. Agora, relendo o texto, pensando no título e em tudo que acontece por esses dias, tenho receio de não saber por onde minha assinatura pode andar....muito menos onde encontrar a assinatura de quem um dia fez, ou ainda faz parte do livro dos meus dias. Complicada essa história de assinatura....Aprendi um dia que deus assinou tudo que fez. Talvez, no momento exato de assinar sua obra prima da criação – nós – tenha lhe faltado papel e caneta. Se ele assinou tudo que fez, utilizou apenas impressões digitais quando se trata da dor da gente, quando se trata da perca da esperança. Eu ainda espero não perder de vista deuses, esperanças, fé. 

“Do alto da pedra”, de onde sempre me lanço pro precipício, as vezes fica difícil de ver deus....e eu sei que essa busca por ele é um enredo construído apenas pra mim, apenas pra essa vida. E eu sei que só tenho esse breve momento de respiração para encontrar a esperança. Por isso a queda, pra mim, faz sentido. É nesse momento que ninguém, nem deus, nem você, nenhuma das cartas recebe o fardo de assinar por mim...

E assim fecha-se o livro dos dias. “E deus viu que era bom.”


2 comentários:

  1. "É em mim que o deus anima"... E "corpos em movimento, um universo em expansão" - a palavra "anima" vem de "alma", nada mais forte e impalpável a ponto de trazer movimento ao corpo... Aprendi a chamar de Deus encontros como este que, apesar de virtual, traz vida e expande o universo dos meus dias para além das engrenagens massacrantes do dia-a-dia. Apesar de sermos "sombras nesta janela virtual", superamos a caverna a cada reencontro, e nossa história e nossas vivências, sem preço, são únicas e reais, e, na falta da assinatura de um ser superior, assinamos embaixo!

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  2. Continuando... A queda livre sempre nos foi inerente... Acredito que sempre fomos pessoas que sentiram tudo exacerbadamente, o que tem seus pors e contras... Mas aprendemos a amar a dor também como subterfúgio do crescimento, principalmente por termos curingas por perto (ainda que distantes) que solidarizam com nossas penas e se jogam junto de cima da pedra mais alta! Dama de Paus... São tempos difíceis para os sonhadores, mas a sua presença aqui no Clã traz luz aos nossos dias!

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