quinta-feira, 30 de julho de 2015

#33 - SETE DE OUROS - Apreciemos a queda!

Li uma vez que a vertigem que a gente sente em grandes altitudes (o famoso "medo de altura") nada mais é do que o medo que nos salva da vontade da queda - uma insustentável leveza. A queda é, quase sempre, na melhor das hipóteses, fatal. O medo é um limite que salva vidas. Apreciar a queda assumindo o risco do "quase" é para poucos.

Para mim, o risco do "quase" sempre foi proporcional ao medo do "mesmo". A rotina é uma engrenagem do tempo que tenta nos consumir... O tédio é o sintoma maior da estagnação - digo sintoma pois a inércia sempre me derrubou como fosse algum tipo de doença. E, diante da doença, meu ateísmo se rende apenas ao movimento:

“Vós dizeis-me: “A vida é uma carga pesada”. Mas, para que é esse vosso orgulho pela manhã e essa vossa submissão, à tarde?
A vida é uma carga pesada; mas não vos mostreis tão contristados. Todos somos jumentos carregados.
Que parecença temos com o cálice de rosa que treme porque o oprime uma gota de orvalho?
É verdade: amamos a vida não porque estejamos habituados à vida, mas ao amor.
Há sempre o seu quê de loucura no amor; mas também há sempre o seu quê de razão na loucura.
E eu, que estou bem com a vida, creio que para saber de felicidade não há como as borboletas e as bolhas de sabão, e o que se lhes assemelhe entre os homens.
Ver revolutear essas almas aladas e loucas, encantadoras e buliçosas, é o que arranca a Zaratustra lágrimas e canções.
Eu só poderia crer num Deus que soubesse dançar.
E quando vi o meu demônio, pareceu-me sério, grave, profundo e solene: era o espírito do pesadelo. Por ele caem todas as coisas.
Não é com cólera, mas com riso que se mata. Adiante! matemos o espírito do pesadelo!
Eu aprendi a andar; por conseguinte corro. Eu aprendi a voar; por conseguinte não quero que me empurrem para mudar de sítio.
Agora sou leve, agora vôo; agora vejo por baixo de mim mesmo, agora salta em mim um Deus”.
Assim falava Zaratustra.”
(Friedrich Nietzsche, “Assim Falou Zaratustra”)

Todos temos nossos demônios. Os meus, tais quais os de Raul Seixas, tornaram a minha solidão um vício - uma contradição de leveza insustentável. E tal qual a solução de Nietzsche, só permito que essa solidão seja rompida por quem realmente me ofereça companhia - o risco do quase, a apreciação da queda.

Ao mês de Julho, ao naipe de Ouros, ao inverno rompido pelo calor do sol e dos abraços, meus agradecimentos! Que venham novos encontros. Apreciemos a queda!

quarta-feira, 22 de julho de 2015

#32 – SEIS DE OUROS – às vezes curingas se encontram aqui na Terra...

Se há duas semanas falei de um inverno rigoroso, hoje falo de um dia de sol e calor. Um dia de verão extraviado na estação mais fria...
Às vezes olhar para o céu me dá a sensação de estar sob o mesmo teto de outros curingas. Quanta vida inteligente já fitou o mesmo céu, com o mesmo sol, a mesma lua e as mesmas estrelas? Conheço alguns curingas neste planetinha ilhado neste espaço infinito... Se os gregos imaginavam que os deuses às vezes desciam do olimpo pra se misturar a eles, pra mim hoje posso dizer que às vezes curingas se encontram aqui na Terra...

“Fiquei sabendo que as divindades gregas viviam no Olimpo, uma elevada montanha bem ao norte da Grécia. Mas de vez em quando elas desciam à terra para se misturar às pessoas. E eram como grandes curingas no jogo dos homens...” (O dia do Curinga – Seis de Ouros – Jostein Gaarder).

Hoje fiz um desses contatos imediatos. Quando esses encontros acontecem, na verdade, não há muito que planejar ou fazer pra tentar aproveitar da melhor maneira... Nunca é possível dizer tudo... Curingas sempre terão algo pra se inquietar, questionar, expressar... O importante é sentir o momento e viver...
Se falo de frio e gelo, hoje o falo como o Duca Leindecker, que cantou seu “Iceberg” em um ensolarado e quente deserto:
Não tenho muito mais o que dizer. Se Pablo Neruda aconselhou aos seus leitores: “feche os livros e vá viver”, é oque tenho pra hoje a quem chegou com os olhos até aqui: desligue sua tela (display) e vá viver!

 

sábado, 18 de julho de 2015

#31- : CINCO DE OUROS - ...o azar maior foi que a bebida do meu copo era muito gostosa...

A poesia não tem hora marcada para acontecer. Essa afirmação pode parecer uma desculpa esfarrapada desta que vos escreve, haja vista atraso na data de publicação. Não deixa de ser: fora as intempéries da viagem e do clima que impediram a postagem usual de quarta-feira, uma bebida muito gostosa, aliada ao cansaço e ao excesso de receptividade materna, me colocaram de cama nas noites seguintes, feito Hans Thomas ao provar uma bebida alcóolica pela primeira vez.
Não me desculpo, contudo. A poesia realmente não tem horário para acontecer.
Há poesia numa sexta chuvosa, em que o corpo pede cama e a alma sonha rimas em silêncio sob o fundo da tela em branco. Há poesia na memória do rascunho perdido, para sempre no universo das reticências...
Há poesia, sobretudo, nos encontros mais inusitados da vida, cujos dez últimos dias de viagem me foram exemplo. Rio com mar, mangue e sal, pôr-do-sol... Olhares de estranhos que se cruzam e travam diálogos insanos sobre assuntos diferentes, concordando sem saber com o quê... O maior encontro de todos, sem dúvidas, comigo mesma...

"Ser poeta é a minha maneira de estar sozinho"
(Alberto Caeiro)

Pessoa. Pessoas. Amizades. Amores. Laços tão improváveis desenhando um caminho há três mil quilômetros de minha terra natal. Mãos que se encontram para uma longa caminhada em silêncio, mesmo sob o fundo musical desesperador das modinhas do nordeste.
Roda de viola a dois, faltando corda. Jantar a dois, com uma multidão em volta. Outra vez, mãos dadas. Há encontros que, na imperfeição aparente, ordenam o caos do dia-a-dia. Há momentos em que o rompimento com o óbvio dá maior movimento ao coração já acostumado a bater no mesmo ritmo, e o improvável traz vida à parte da alma poética que já se encontrava em afogamento.
O tango argentino me vai bem melhor que o axé, o pagode e até mesmo o blues.
Contra a poesia serena da beira mar, a realidade dança nua nas ruas de Recife: obras de arte expostas a céu aberto numa das capitais do analfabetismo. Fome e revolução. Favela wifi. Colônia de exploração e exploração das desculpas. Contrastes. Devir.

Ainda bem que temos a arte para não morrer da verdade.

quarta-feira, 8 de julho de 2015

#30 - QUATRO DE OUROS - Mãos frias como uma estátua de gelo.

“...quero um machado pra quebrar o gelo
quero acordar do sonho agora mesmo
quero uma chance de tentar viver sem dor...”
(O astronauta de mármore – Nenhum de nós)

A solidão é tão normal no espaço.
A terra está neste espaço.
Solidão é silêncio.
Sem melodia.
Sem palavra.
Sem gesto.
Sem cor.
Só dor.
Só...
...
..
.
(vácuo/vazio)

O inverno em mim atinge agora o estágio mais rigoroso. Não falo apenas dos dias frios e chuvosos, afinal, já vivi primaveras contornadas por dias de intenso frio e fortes tempestades. Mas hoje tudo se afina em frio, água, dor, e, finalmente, gelo! É um inverno rigoroso. Um inferno extremamente doloroso!


Fosse eu um astronauta (como o Nando Reis no clipe) talvez estaria agora congelando, machado em mãos, quebrando uma montanha de gelo na tentativa de encontrar-me a mim mesmo e descongelar minha alma. A mesma que há tempos “bateu em retirada” de mim. Não sou mais o mesmo. Mas este, que está no meu lugar, me quer de volta...
Não gosto de falar muito sobre mim. Na verdade nem falo muito. Sempre fui tímido, quieto, solitário, isolado... Raríssimos seres vivos conseguiram entrar no meu mundo ou me convidar pra fazer parte do seu. A estes sou especialmente grato. Mas especialmente hoje, me sinto ainda mais avulso, isolado, sozinho... 
Às vezes fico com a forte sensação de estar ocupando um espaço que não é meu. Que não diz respeito a mim. Gostaria de não ser empecilho para os planos de ninguém, mas às vezes é exatamente assim que me sinto. Escrevo com um certo peso na consciência por estar dizendo coisas assim - que nunca digo. É sempre mais fácil fingir estar bem pra não ter que explicar algo que nem eu consigo entender. Pudesse eu entender o mecanismo da tristeza, moveria icebergs pra não ter que senti-la... Mas me convenço de que posso falar por aqui, afinal, outro dia mesmo ouvi minha voz dizer que “gostava de morar nas entrelinhas do Clã Curinga”. Aqui acho que posso dizer, pôr pra fora... Um espaço que "quase ninguém lê" - um perfeito refúgio...
Às vezes pedalo pra tentar descongelar a minha alma. Quase sempre estou a fugir da morte, das absurdas palavras de Camus, ou das minhas próprias palavras diante do absurdo que é a vida. Ao escrever acho que trago certa parte da minha alma desertora de volta. Mas agora já não sei. Agora já não sou. Isto sou eu aqui, do lado de fora, vendo a minha própria imagem congelada na lua, feito mármore. As mãos frias como uma estátua de gelo...
Assim estou eu - congelando...
Por onde andará o sol em mim? Onde está Ás de Copas com seu calor solar? Quanto calor (ou machado) será necessário pra destruir o gelo? Talvez eu próprio agora seja este sol perdido que procuro!

"— Por que Ás de Copas está usando um vestido amarelo?
— Ela é o sol, que no verão atinge o seu ponto mais alto no céu."
(O dia do Curinga – Quatro de Ouros – Jostein Gaarder).

Que ironia... Logo eu que sempre tento vender um discurso otimista, de pés cravados no agora, me rendo a um niilismo de quem projeta um futuro que não existe... O início da primavera... Os caminhos do verão... Mas é o inverno em mim que parece invencível... Logo eu que me acho tão primaveril, fiquei preso em um labirinto de mármore e gelo...
As lágrimas (volumosas e ainda liquidas) talvez se tornem infiltrações decorrentes chuva que cai no meu peito. Talvez estas lágrimas possam amolecer meu coração congelado.
Vira e meche tenho a sensação de estar vivendo a vida em modo “piloto automático”. Hoje a sensação é ainda mais intensa. O que restou de mim não passa um mosaico incompleto de projetos incompletos... Sou como a luz apagada que outrora brilhava por traz da tela estilhaçada do meu iPad...

“Quero me encontrar, mas não sei onde estou...
tenho quase certeza que eu não sou daqui...
você me deixou sentindo tanto frio...
deixa ver como viver é bom...
...amava... odeio...
pequenas coisas...
deve passar...”
(Meninos e Meninas – Legião Urbana)

As paródias que planejei compor neste ano
deixei incompletas.
Os quilômetros que desejei pedalar neste mês
deixei de rodar.
A tela quebrada do meu velho iPhone
deixei estar.
As técnicas que quis aprender cantando
deixei em silêncio.
Os instrumentos que acompanhavam meu canto
deixei pelos cantos.
O instrumento novo que pensei em aprender
deixei empoeirando na estante.
Comecei meia dezena de livros que
deixei sem terminar.
A bola que eu chutava com as crianças
deixei murchar.
Os arquivos ociosos e inúteis no computador
deixei de deletar.
Aquela bagunça da velha estante trocada
deixei amontoada embaixo da mesa.
Nesta mesa onde trabalho, navego e me afogo
deixei meus pés sobre entulhos.
Entulhos que se misturam a mim
deixei-me confundir.
A barba, as obrigações do trabalho, a reforma
deixei por fazer...
O poeta que achava que era no dia-a-dia
deixei sem poesia.
Por fim, as palavras que escrevo agora
deix

quarta-feira, 1 de julho de 2015

#29 - TRÊS DE OUROS - Quarto de Hotel

Não lembro qual o título do capítulo correspondente, no livro "O Dia do Curinga", ao Três de Ouros. Hoje, excepcionalmente, não tenho em minhas mãos o livrinho em versão pocket que sempre me acompanha nestas postagens.

Apesar de sempre me inspirar, tal fato, porém, permite um post talvez mais livre de temas pré-estabelecidos. 

Sentada numa cama dura de um quarto de hotel, na fria e nebulosa cidade de Cascavel, onde vim parar sem tempo de preparo - como tudo na vida - o cansaço exacerbado toma conta de minha parte mais humana (já peço desculpas antecipadamente, por este motivo, pelo post um pouco mais curto).

Fato é que a confortável sensação de estar anestesiada, sob o fundo musical pinkfloydiano que ressoa propositalmente em meu computador, parece fazer pairar sobre a alma uma poesia outrora esquecida - aquela que a gente só encontra quando respira o pó da estrada.

É verdade que sinto falta de casa e da familiaridade com as coisas. Mas é verdade também (pois a verdade jamais é absoluta) que tenho o coração cosmopolita. E, quando se fala em coração, não posso dizer que haja razão maior que a dele.

Por bater contra o tempo, ressalta o preciosismo dos momentos que constroem nossos dias, por mais corriqueiros que pareçam ser. Por soar ao sabor do vento, funciona como guia teleológico pelo mundo, como um Curinga com uma bússola, apontando nortes, quando a alma, desavisada, busca refúgio incerto das incertezas da vida.


Tô num lugar comum
Onde qualquer um se esconde
Pra fazer a frase feita
E sentir os efeitos colaterais
(Engenheiros do Hawaii)

Meu coração se perde e se encontra todos os dias. Se perde nas (tantas) possibilidades que a vida lhe proporciona, a cada novo Sol, de transformar-se em algo novo. Se encontra nas palavras incandescentes do Curinga que aconselha a ter cautela ante os pálidos pedidos dos falsos amores.

Mas se realiza, enquanto ditador do ritmo da vida, na poeira da estrada. A estrada é distância, é urgência. E é somente através da distância que somos capazes de nos percebermos. É apenas respeitando as distâncias que não acabamos nos engolindo uns aos outros. É, sobretudo, somente através dela que podemos dizer que há amor verdadeiro pelo "próximo" (ainda que distante), e não pelo reflexo de nós mesmos.