quarta-feira, 1 de julho de 2015

#29 - TRÊS DE OUROS - Quarto de Hotel

Não lembro qual o título do capítulo correspondente, no livro "O Dia do Curinga", ao Três de Ouros. Hoje, excepcionalmente, não tenho em minhas mãos o livrinho em versão pocket que sempre me acompanha nestas postagens.

Apesar de sempre me inspirar, tal fato, porém, permite um post talvez mais livre de temas pré-estabelecidos. 

Sentada numa cama dura de um quarto de hotel, na fria e nebulosa cidade de Cascavel, onde vim parar sem tempo de preparo - como tudo na vida - o cansaço exacerbado toma conta de minha parte mais humana (já peço desculpas antecipadamente, por este motivo, pelo post um pouco mais curto).

Fato é que a confortável sensação de estar anestesiada, sob o fundo musical pinkfloydiano que ressoa propositalmente em meu computador, parece fazer pairar sobre a alma uma poesia outrora esquecida - aquela que a gente só encontra quando respira o pó da estrada.

É verdade que sinto falta de casa e da familiaridade com as coisas. Mas é verdade também (pois a verdade jamais é absoluta) que tenho o coração cosmopolita. E, quando se fala em coração, não posso dizer que haja razão maior que a dele.

Por bater contra o tempo, ressalta o preciosismo dos momentos que constroem nossos dias, por mais corriqueiros que pareçam ser. Por soar ao sabor do vento, funciona como guia teleológico pelo mundo, como um Curinga com uma bússola, apontando nortes, quando a alma, desavisada, busca refúgio incerto das incertezas da vida.


Tô num lugar comum
Onde qualquer um se esconde
Pra fazer a frase feita
E sentir os efeitos colaterais
(Engenheiros do Hawaii)

Meu coração se perde e se encontra todos os dias. Se perde nas (tantas) possibilidades que a vida lhe proporciona, a cada novo Sol, de transformar-se em algo novo. Se encontra nas palavras incandescentes do Curinga que aconselha a ter cautela ante os pálidos pedidos dos falsos amores.

Mas se realiza, enquanto ditador do ritmo da vida, na poeira da estrada. A estrada é distância, é urgência. E é somente através da distância que somos capazes de nos percebermos. É apenas respeitando as distâncias que não acabamos nos engolindo uns aos outros. É, sobretudo, somente através dela que podemos dizer que há amor verdadeiro pelo "próximo" (ainda que distante), e não pelo reflexo de nós mesmos.



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