sábado, 18 de julho de 2015

#31- : CINCO DE OUROS - ...o azar maior foi que a bebida do meu copo era muito gostosa...

A poesia não tem hora marcada para acontecer. Essa afirmação pode parecer uma desculpa esfarrapada desta que vos escreve, haja vista atraso na data de publicação. Não deixa de ser: fora as intempéries da viagem e do clima que impediram a postagem usual de quarta-feira, uma bebida muito gostosa, aliada ao cansaço e ao excesso de receptividade materna, me colocaram de cama nas noites seguintes, feito Hans Thomas ao provar uma bebida alcóolica pela primeira vez.
Não me desculpo, contudo. A poesia realmente não tem horário para acontecer.
Há poesia numa sexta chuvosa, em que o corpo pede cama e a alma sonha rimas em silêncio sob o fundo da tela em branco. Há poesia na memória do rascunho perdido, para sempre no universo das reticências...
Há poesia, sobretudo, nos encontros mais inusitados da vida, cujos dez últimos dias de viagem me foram exemplo. Rio com mar, mangue e sal, pôr-do-sol... Olhares de estranhos que se cruzam e travam diálogos insanos sobre assuntos diferentes, concordando sem saber com o quê... O maior encontro de todos, sem dúvidas, comigo mesma...

"Ser poeta é a minha maneira de estar sozinho"
(Alberto Caeiro)

Pessoa. Pessoas. Amizades. Amores. Laços tão improváveis desenhando um caminho há três mil quilômetros de minha terra natal. Mãos que se encontram para uma longa caminhada em silêncio, mesmo sob o fundo musical desesperador das modinhas do nordeste.
Roda de viola a dois, faltando corda. Jantar a dois, com uma multidão em volta. Outra vez, mãos dadas. Há encontros que, na imperfeição aparente, ordenam o caos do dia-a-dia. Há momentos em que o rompimento com o óbvio dá maior movimento ao coração já acostumado a bater no mesmo ritmo, e o improvável traz vida à parte da alma poética que já se encontrava em afogamento.
O tango argentino me vai bem melhor que o axé, o pagode e até mesmo o blues.
Contra a poesia serena da beira mar, a realidade dança nua nas ruas de Recife: obras de arte expostas a céu aberto numa das capitais do analfabetismo. Fome e revolução. Favela wifi. Colônia de exploração e exploração das desculpas. Contrastes. Devir.

Ainda bem que temos a arte para não morrer da verdade.

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