Mais uma vez escrevo da estrada. Se o destino é uma
serpente que engole a si mesma, minha tarefa é ludibriá-la para não virar presa
- perambulo pelo mundo e tenho comigo mesma um voto de não "partir desta
pra melhor" antes de compreender um pouquinho mais sobre ele.
Estou na terra do mais alto poder e autoridade do
país. Local em que as pessoas se guiam por setores e asas, como se a
compartimentação da vida fosse sinônimo de organização e, por consequência, de
qualidade - "setor de indústrias"; "setor de diversões" (produza
aqui, mas seja feliz apenas acolá).
"Meu deus, mas que cidade linda..."
(Legião Urbana)
A cidade de asas, contudo, não decolou. Afunda,
amiúde, com seus símbolos maiores de poder e autoridade - vaidade daqueles que
levam o país no cabresto da carência e da desinformação.
A ostentação das esplanadas é de uma beleza tão
impressionante que quase disfarça seu ponto fraco aos olhos narcisistas - as
paredes espelhadas refletem universos que não pertencem ao cenário.
O Parque da Cidade não tem árvores. O Estádio Nacional
não tem time. O Lago Paranoá não tem acesso. O museu só tem uma versão da
História.
Seria destino ou coincidência essa viagem sob a égide
do naipe de ouros?
... Devaneios que tenho caminhando no percurso de meus
compromissos na capital federal...
"Vidas se repetindo na estação", como na
canção... Vidas que se cruzam por acaso ou por um motivo... A serpente
novamente se engolindo...
Penso agora na poesia que sopra o vento árido do
cerrado - rimas secas também são rimas, ventos que salvam de afogamentos.
Perambulo pelo mundo pois a minha única vaidade é rimar sempre em novos ares,
ainda que eles sejam rarefeitos nesta Terra de Gigantes.
Comecei a fria temporada de Ouros
invocando à música para redimir as palavras. Em cada uma das minhas aparições
nesta estação, abrindo as semanas deste nosso “calendário maia”, usei como
trunfo uma música. Não pretendo voltar antes de Ás de Copas, quando uma outra
estação será inaugurada.
“...meu coração
suburbano espera riquezas maiores
Eu sigo o calendário
maia, sou descendente dos astecas
[...] Estou longe,
longe - Estou em outra estação...”
(Uma Outra Estação - Legião
Urbana)
Minha ausência no final de ouros será não
por omissão, mas por lançar mão de um outro trunfo especial, que tem surgido
aqui no clã em cada uma das estações – a dama – que agora virá adornada de
ouros...
Por hora, tentando não projetar o futuro
também neste parágrafo, deixo como despedida minha de ouros mais uma música. Embora
seja ambientada em um cenário todo medieval, consigo ver um personagem contemporâneo
nas entrelinhas desta canção – eu mesmo:
“Não sou escravo de
ninguém
Ninguém é senhor do
meu domínio
Sei o que devo
defender
E por valor eu tenho
E temo o que agora se
desfaz”
Ser escravo pode ser uma condição imposta
à força por alguém armado (de metais ou palavras) o suficiente pra te convencer
a fazer tudo o que interessa a ele e não a si. Mas se existem escravos
circunstanciais, há que se dizer que existem muitos escravos que o são por
escolha ou medo. Penso que a esmagadora maioria das pessoas é escrava. Refém de
valores, anseios e vontades totalmente alheias a si. Nietzsche falou inúmeras vezes
em sua obra sobre pessoas que possuem um “espirito livre”, indivíduos que são capazes
de dançar mesmo acorrentados. Mas em um sentido mais prático, útil pra nossa
maneira atual de levar os dias, gosto do que o filósofo diz em “Humano,
Demasiado Humano”:
“[...]
Não se pode perguntar ao banqueiro acumulador de dinheiro, por exemplo, pelo
objetivo de sua atividade incessante: ela é irracional. Os homens ativos rolam
tal como pedra, conforme a estupidez da mecânica. — Todos os homens se dividem,
em todos os tempos e também hoje, em escravos e livres; pois aquele que não tem
dois terços do dia para si é escravo, não importa o que seja: estadista,
comerciante, funcionário ou erudito.” (Friedrich Nietzsche – Aforismo 283)
A partir desta ótica, podemos supor que
um bobo da corte pode ser (e provavelmente é) bem mais livre que um chefe de
estado. Quais são as moedas que fazem sentido em nossa vida? Quais são os limites
de nossos domínios? Os pedaços de papel com números (tal qual cartas de
baralho) ou as escrituras de posse valem mais que o tempo que temos de vida com
saúde? Pra mim não! É um valor que tenho e temo ao vê-lo se desfazer em mim ou
em seres que amo.
“Viajamos sete léguas
Por entre abismos e
florestas
Por Deus nunca me vi
tão só
É a própria fé o que
destrói
Estes são dias
desleais”
As vezes pegar a bicicleta e percorrer os
abismos da vida não cura a sensação de solidão em meio a imensidão do universo
e a aparente infinitude do tempo. Nunca houve tanto frio aqui dentro de mim. Ter
fé (ou não) não é mérito! Como podem as pessoas se gabarem ou se acharem
superiores pela simples credulidade em algo? Mesmo pra quem é muito convicto do
que acredita, penso que a dúvida redime mais que a fé. Se a fé nunca foi
colocada à prova pela dúvida, então ela não vale nada, pois é automática. É por
isso que a fé, sozinha, destrói. Pensamentos vagos em uma alma extremamente solitária.
Mesmo em dias que tenho os melhores abraços, o inverno ainda segue dolorido,
embora a primavera já surja em meu horizonte anunciando o fim dos dias
desleais.
“Eu sou metal, raio,
relâmpago e trovão
Eu sou metal, eu sou o
ouro em seu brasão
Eu sou metal, me sabe
o sopro do dragão”
De que me adianta ser metal, ser ouro de
brilho raro, se há gelo sobre minha pele? Qual seria o valor do ouro longe da
luz? Um fóton de luz do sol que toca meu rosto de manhã não vale mais que todo
ouro do planeta? Talvez me digam que os fótons de luz todos tem, enquanto ouros
e brasões, são privilégios de poucos... Mas a raridade é mesmo um fator
valorativo? Seja qual for o metal feito em brasa e timbrado naquilo que me
garante enquanto eu, isto está coberto de gelo. Só o sopro do dragão irá me
livrar do invólucro branco de água sólida.
“Reconheço meu pesar
Quando tudo é traição
O que venho encontrar
É a virtude em outras
mãos”
Pesar, traição, encontro, virtude...
Quanto peso atribuímos a certas palavras. E como são diferentes os modos com
que entendemos palavras de grafia e sonoridade idênticas! Algumas ações das mais
“indecentes” ao meu juízo, já me chegaram aos ouvidos sob a égide da busca pela
“decência”. A atribuição da bandeira de “traição” à desvios de percurso em
pobres histórias de relacionamentos afetivos me parece uma invenção de novelas
mal escritas e letras de música destas que se vendem em rádios para um grande
público. Traição nada mais é do que incoerência; Aqueles passos que damos em
direção oposta àquilo que sentimos e desejamos em cada momento; A falta de
sinceridade quando se finge sincronia com as pessoas próximas para manter um “status”.
Jurar algo que não se pode controlar é, ao meu ver, uma das mais pesadas
traições a si: “porque quando eu jurei meu amor eu traí a mim mesmo...” (Raul
Seixas). Mas a conta não se fechará! No fim das contas, a única traição
realmente condenável é aquela que cometemos contra nós próprios. Quando alguém de
sua confiança te “trai” e você não percebe, é você quem na verdade está se
traindo por confiar em alguém que não é você. Por outro lado, perceber um gesto
traiçoeiro em algo exterior a si (como um abismo na trilha do pedal) é uma
excelente oportunidade que a vida oferece para mudar o percurso, traçar novos
caminhos e rotas pra longa pedalada da vida.
“Minha terra é a terra
que é minha
E sempre será
Minha terra tem a lua,
tem estrelas
E sempre terá”
Na Grécia Antiga, em Atenas, vivia um
homem chamado Diógenes. Ele morava em um barril! Nascido em Sinope, quando
questionado se era ateniense, dizia que era “uma criatura natural do cosmos, e
não de uma cidade nem de um estado”. Ele andava com uma lamparina nas mãos em
busca de pelo menos um homem “de verdade”, alguém que não vivesse como um
animal de rebanho, mas que fosse livre das mentiras da sociedade. Alexandre, o
Grande, tendo conquistado a Grécia, soube do sábio e colocou-se diante dele
oferecendo qualquer coisa que desejasse. Diógenes exigiu apenas que ele não lhe
tirasse aquilo que não lhe podia dar – a luz do sol, tampada pelo
corpo de Alexandre diante de si! Coloco esta história pra dizer que não importa
o quão rico ou pobre seja o lugar onde você esteja, a Terra – a Minha Terra –
sempre mostrará a mais bela paisagem que se pode ver – um céu de sol, nuvens,
estrelas e lua.
Poderia percorrer toda a letra da música
aqui, afinal existem frases tão ricas quanto as citadas acima... Mas minha grande
riqueza agora é aproveitar os dias de boa saúde dos meus filhos... Quanto
dinheiro e posses alguém daria para garantir a boa saúde de seus filhos? De quanto
ouro e oportunidades alguém com câncer terminal abriria mão pra alguns dias a
mais de vida? Sim, sou rico! Muito rico! Tenho tempo e saúde pra aproveitar! E o
melhor de tudo – aproveito da minha maneira, pois sou livre! Um dos raros espíritos
livres neste estúpido mundo de rebanho que me rodeia! Mas não vou perder meu
tempo com uma lamparina procurando outros seres livres como eu... Já conheço
curingas o suficiente pra compartilhar palavras, sorrisos, abraços e vida! Além
dos pequenos curingas, por quem sou responsável, tenho a companhia de outras
cartas curingas que escrevem aqui no Clã! E você, leitor, é escravo ou é
curinga?
Existe uma teoria que afirma que, neste planeta, tudo o que existe é formado de poeira de estrelas. Outra complementa esta e afirma que todo ser humano descende de um ancestral comum.
Para os que acreditam em histórias um pouco mais mirabolantes, temos a astrologia e o livro do Gênesis.
Seja na Ciência ou na Arte, somos levados a acreditar que há uma identidade que nos une, algo que ficou lá atrás, "escrito nas estrelas".
Por outro lado, basta um olhar, ainda que desatento, para notar estranheza até mesmo no espelho. Somos reflexos das mudanças que, por milênios, nos tornaram seres únicos neste universo, que também é único dentre tantos outros (será?).
"Se eu amo o meu semelhante? Sim.
Mas onde encontrar o meu semelhante?"
(Mário Quintana)
A minha provocação do dia é fruto de reflexões sobre a série "Cosmos - uma Odisseia no Espaço-tempo", apresentada pelo físico Neil deGrassen Tyson e produzida por Ann Druyan, viúva de Carl Sagan, a quem eu não saberia como apresentar, mas cito aqui como autor da primeira versão desta série, em 1980. [Mais uma] Indicação de ouro do curinga Jeferson Sabran.
Se eu tivesse que apresentar Carl Sagan aqui, contudo, diria apenas que foi o autor de um dos textos que me fizeram encantar pelo ceticismo científico há cerca de onze anos atrás. Para além da descrença, esse ceticismo pressupõe a dúvida como a maior dádiva da humanidade, negando tudo o que se afirma absoluto e contraria a razão humana.
"Quando é do conhecimento de todos que os deuses descem à Terra,
nós talvez tenhamos alucinações com deuses; quando todos nós estamos
familiarizados com demônios, aparecem os íncubos e os súcubos; quando os
duendes são aceitos por toda parte, vemos duendes; numa era de
espiritualismo, encontramos espíritos; e quando os antigos mitos se
enfraquecem e começamos a pensar que os seres extraterrestres são
plausíveis, é para eles que tendem as nossas imagens hipnagógicas."
(Carl Sagan - O Mundo Assombrado pelos Demônios)
Pouco tempo depois, o excesso de cientificismo [acadêmico] me entediou. Fórmulas exatas de pensamento, mesmo na área de Humanas, parecia não passar de mera repetição do óbvio. E o óbvio era que as pessoas estavam perdidas em repetições de discursos sobre os quais sequer refletiam, por falta de coragem, talvez, de conhecer o novo ou o diferente.
Exceto pelo "rótulo acadêmico", essa atitude em nada se diferenciava daquilo que Sagan descreve como "imagens hipnagógicas". Chegamos a criar um estigma para a atitude - Universidade, o "templo laico" do conhecimento.
Não longe disso, criamos nossas próprias "verdades" cotidianas, crendo no que quer que seja sob a desculpa de sermos, hoje, esclarecidos, e certamente repetimos tais imagens. Um astro do rock, o autor de um livro, uma página na rede social... nossos deuses já foram mitos, astronautas, doutores... hoje, são apenas detentores de um número considerável de seguidores ou fãs. Isso não os torna nem menos nem mais importantes, e é claro que não seremos abduzidos por um smartphone (espero!).
Por outro lado, ficou mais fácil (e mais frio) acompanhar uma rede social de bolso do que dedicar alguns minutos de nosso precioso tempo para refletir sobre a real influência que tais fatos têm em nossas vidas. Não dedicamos ainda a eles o benefício da dúvida que dedicamos outrora aos outros deuses - hoje, em sua maioria, desacreditados. Fazemos porque todo mundo faz...
"[...] E a sua roupa nova
É só uma roupa nova
Você não tem idéias
Pra acompanhar a moda
[...]
Nós somos tão modernos
Só não somos sinceros
Nos escondemos mais e mais
É só questão de idade
Passando dessa fase
Tanto fez e tanto faz"
(A Dança - Legião Urbana)
A Ciência, a Arte, a Religião, o dia-a-dia... tudo carece de humanização. E humanização significa romper pelo questionamento, pela dúvida. Após a tempestade - eu garanto - vem a poesia: há onze anos atrás, eu e um grupo de amigos elegemos a Arte como guia da ciência histórica. Há décadas atrás, o homem elegeu a Física como a poesia das Exatas, e a astronomia como a rima de seus versos. Há dois mil anos, o cristianismo precisou tornar humano e sacrificar um deus para se aproximar dos homens.
Você e eu, poeira das estrelas, gota d'água e grão de areia... somos completamente insignificantes diante da imensidão do que se apresenta a nós como Universo (ou multiversos?). E ainda, somos cada qual um universo único e paralelo caminhando por aí.
[No livro que inspirou este Blog, o capítulo de hoje é o dia em que o Curinga começa a colocar as cartas em ordem... Quantos universos ocultos começam a se apresentar para formar um todo coerente! Cada qual, em sua insignificância, ocupa um lugar no espaço-tempo de uma ordem maior... e a destruição de uma Paciência é apenas o início de outra]
Olho no espelho e vejo apenas novidade. Olho nos seus olhos, leitor, e vejo a mim mesma.
"Nós somos uma maneira do Cosmos conhecer a si mesmo"
No
nosso calendário do Clã Curinga, este post fecha o mês das cartas “8”. No
calendário vigente, este post abre a semana que terá o dia 8 no mês 8. Curioso
é que justamente neste mês 8, me foi apresentada a série “sense8”. 8 pessoas
nascidas em um mesmo dia 8/8 em várias partes do mundo, possuem uma incrível
conexão entre si.
Frame do episódio 8 de sense8.
Já
que tantas conexões com o numero 8 apareceram justamente na semana de oito de
ouros, trago um pensamento que tive tempos atrás em um dia 8/8. Abro aspas pra
palavras que saíram de alguém que fui, pois já não sou o que era, e não serei
por muito tempo o que sou agora (até mesmo esta frase precisará de aspas
amanhã).
“Não quero entrar no mérito simbológico
da coisa.
Prefiro enxergar o oito como um infinito
não acomodado
Ele está de pé agora, pois sabe que
permanecera inerte no fim.
Devo admitir que o que sou hoje, a julgar
pela ideia acima, não é tão diferente do que era. Me agrada muito esta imagem! O
símbolo do infinito, em pé, traz a ideia de como cada instante pode ser
infinito em sua fragilidade e efemeridade!
A vida se alimenta da morte! Novas flores
só poderão surgir na primavera que se anuncia porque as da estação passada
morreram. Nós só estamos aqui porque nossos ancestrais morreram! Nos alimentamos
literalmente da morte! E não me venha um vegetariano dizer que está isento de
cadáveres em sua dieta. Cabeças de repolho precisam rolar (e sem a
possibilidade de protestas e gritos) pra encher o seu prato. A morte de
cereais, verduras e outros mamíferos, aves ou peixes, garante a nossa sobrevivência.
Garante a nossa marcha em direção ao nosso próprio fim.
“Na
praia, uma criança constrói um castelo de areia. Por um momento, contempla
admirada a sua obra. Depois destrói tudo e constrói um outro castelo. Da mesma
forma, o tempo permite que o globo terrestre realize seus experimentos. [...] Na
Terra a vida pulsa de forma desordenada, até que um belo dia somos modelados...
com o mesmo e frágil material de nossos antepassados. O sopro do tempo nos
perpassa, nos carrega e se incorpora a nós. Depois se desprende de nós e nos
deixa cair. Somos arrebatados como num passe de mágica e depois novamente
abandonados. Sempre há alguma coisa fermentando, à espera de tomar nosso lugar.
Isso porque não temos um solo firme sob os nossos pés. Não temos sequer areia
sob os pés. Nós somos areia.” (O dia do
Curinga – Oito de Ouros – Jostein Gaarder).
Mas ainda vivemos! Eu e você - que agora lê
com seus olhos vicejantes – piscando muitas vezes a cada parágrafo... Vivemos
com as bênçãos da única e exclusiva fonte de energia de nosso planeta! Algo que
está há 8 minutos-luz (ou 149.600.000 km) daqui. A ciência diz que átomos de hidrogênio são convertidos
em Hélio no núcleo do sol e demoram 1 milhão de anos pra chegar até a superfície
e, dali, chegar até o meu rosto de manhã em forma de luz e calor! Não fosse
esta energia, você não estaria lendo estas palavras agora. Sem a energia do
sol, nenhum ser vivo conhecido poderia habitar este "pálido ponto
azul" que chamamos de Terra.
Tenho 8 motivos pra continuar escrevendo.
Tenho 8 motivos pra parar. Faltam 8 minutos pra acabar o mês das cartas de 8. Mas
ainda assim, algo a mais precisa ser dito (ou copiado) aqui:
“Não
há um lugar onde possamos nos esconder para escapar do tempo. Podemos escapar
de reis e imperadores, e talvez até de Deus. Mas não podemos escapar do tempo.
O tempo nos enxerga em toda a parte, pois tudo à nossa volta está mergulhado
nesse elemento infatigável [...] O tempo vai devorando tudo através da
história, silenciosa e inexoravelmente, como o sol se levanta no Leste e se põe
no Oeste. Ele destrói civilizações, corrói antigos monumentos e engole gerações
atrás de gerações. Por isso é que falamos dos ‘dentes da engrenagem do tempo’:
o tempo mastiga, mastiga... e somos nós que estamos no meio de seus dentes.
[...]
Não é inacreditável, Hans-Thomas? Vivemos num planeta no universo. Mas logo
seremos varridos do tabuleiro. Abracadabra e... pronto! Desaparecemos. [...]
Nesse momento só podemos cumprimentar,
sorrir e desejar bom-dia para milhares de nossos contemporâneos: ‘Ei, você! Que
coisa fantástica podermos compartilhar do mesmo tempo!’. [...] Estamos vivos,
ouviu bem? Mas só por esta vez...” (O dia do
Curinga – Oito de Ouros – Jostein Gaarder).
Um dia, o ultimo ser humano, a terra e até
o sol morrerá! Mas isso poderá ser só um recomeço! O mesmo tempo que nos
mastiga - poderá nos por de volta... Cada instante infinitamente se
repetindo... Um eterno retorno de cada momento. Uma nova
chance pra viver velhos/novos instantes - como os que se podem viver em um 08/08
às 08h08m08s...
“A vida vem em ondas - como um mar – num indo
e vindo infinito” (Lulu Santos)