quarta-feira, 19 de agosto de 2015

#36 – DEZ DE OUROS - ...quando olhei nas entrelinhas, vi a mim mesmo espreitando por detrás das palavras...

Comecei a fria temporada de Ouros invocando à música para redimir as palavras. Em cada uma das minhas aparições nesta estação, abrindo as semanas deste nosso “calendário maia”, usei como trunfo uma música. Não pretendo voltar antes de Ás de Copas, quando uma outra estação será inaugurada.

“...meu coração suburbano espera riquezas maiores
Eu sigo o calendário maia, sou descendente dos astecas
[...] Estou longe, longe - Estou em outra estação...”
(Uma Outra Estação - Legião Urbana)

Minha ausência no final de ouros será não por omissão, mas por lançar mão de um outro trunfo especial, que tem surgido aqui no clã em cada uma das estações – a dama – que agora virá adornada de ouros...
Por hora, tentando não projetar o futuro também neste parágrafo, deixo como despedida minha de ouros mais uma música. Embora seja ambientada em um cenário todo medieval, consigo ver um personagem contemporâneo nas entrelinhas desta canção – eu mesmo:

“Não sou escravo de ninguém
Ninguém é senhor do meu domínio
Sei o que devo defender
E por valor eu tenho
E temo o que agora se desfaz”

Ser escravo pode ser uma condição imposta à força por alguém armado (de metais ou palavras) o suficiente pra te convencer a fazer tudo o que interessa a ele e não a si. Mas se existem escravos circunstanciais, há que se dizer que existem muitos escravos que o são por escolha ou medo. Penso que a esmagadora maioria das pessoas é escrava. Refém de valores, anseios e vontades totalmente alheias a si. Nietzsche falou inúmeras vezes em sua obra sobre pessoas que possuem um “espirito livre”, indivíduos que são capazes de dançar mesmo acorrentados. Mas em um sentido mais prático, útil pra nossa maneira atual de levar os dias, gosto do que o filósofo diz em “Humano, Demasiado Humano”:

“[...] Não se pode perguntar ao banqueiro acumulador de dinheiro, por exemplo, pelo objetivo de sua atividade incessante: ela é irracional. Os homens ativos rolam tal como pedra, conforme a estupidez da mecânica. — Todos os homens se dividem, em todos os tempos e também hoje, em escravos e livres; pois aquele que não tem dois terços do dia para si é escravo, não importa o que seja: estadista, comerciante, funcionário ou erudito.” (Friedrich Nietzsche – Aforismo 283)
A partir desta ótica, podemos supor que um bobo da corte pode ser (e provavelmente é) bem mais livre que um chefe de estado. Quais são as moedas que fazem sentido em nossa vida? Quais são os limites de nossos domínios? Os pedaços de papel com números (tal qual cartas de baralho) ou as escrituras de posse valem mais que o tempo que temos de vida com saúde? Pra mim não! É um valor que tenho e temo ao vê-lo se desfazer em mim ou em seres que amo.

“Viajamos sete léguas
Por entre abismos e florestas
Por Deus nunca me vi tão só
É a própria fé o que destrói
Estes são dias desleais”

As vezes pegar a bicicleta e percorrer os abismos da vida não cura a sensação de solidão em meio a imensidão do universo e a aparente infinitude do tempo. Nunca houve tanto frio aqui dentro de mim. Ter fé (ou não) não é mérito! Como podem as pessoas se gabarem ou se acharem superiores pela simples credulidade em algo? Mesmo pra quem é muito convicto do que acredita, penso que a dúvida redime mais que a fé. Se a fé nunca foi colocada à prova pela dúvida, então ela não vale nada, pois é automática. É por isso que a fé, sozinha, destrói. Pensamentos vagos em uma alma extremamente solitária. Mesmo em dias que tenho os melhores abraços, o inverno ainda segue dolorido, embora a primavera já surja em meu horizonte anunciando o fim dos dias desleais.

“Eu sou metal, raio, relâmpago e trovão
Eu sou metal, eu sou o ouro em seu brasão
Eu sou metal, me sabe o sopro do dragão”

De que me adianta ser metal, ser ouro de brilho raro, se há gelo sobre minha pele? Qual seria o valor do ouro longe da luz? Um fóton de luz do sol que toca meu rosto de manhã não vale mais que todo ouro do planeta? Talvez me digam que os fótons de luz todos tem, enquanto ouros e brasões, são privilégios de poucos... Mas a raridade é mesmo um fator valorativo? Seja qual for o metal feito em brasa e timbrado naquilo que me garante enquanto eu, isto está coberto de gelo. Só o sopro do dragão irá me livrar do invólucro branco de água sólida.

“Reconheço meu pesar
Quando tudo é traição
O que venho encontrar
É a virtude em outras mãos”

Pesar, traição, encontro, virtude... Quanto peso atribuímos a certas palavras. E como são diferentes os modos com que entendemos palavras de grafia e sonoridade idênticas! Algumas ações das mais “indecentes” ao meu juízo, já me chegaram aos ouvidos sob a égide da busca pela “decência”. A atribuição da bandeira de “traição” à desvios de percurso em pobres histórias de relacionamentos afetivos me parece uma invenção de novelas mal escritas e letras de música destas que se vendem em rádios para um grande público. Traição nada mais é do que incoerência; Aqueles passos que damos em direção oposta àquilo que sentimos e desejamos em cada momento; A falta de sinceridade quando se finge sincronia com as pessoas próximas para manter um “status”. Jurar algo que não se pode controlar é, ao meu ver, uma das mais pesadas traições a si: “porque quando eu jurei meu amor eu traí a mim mesmo...” (Raul Seixas). Mas a conta não se fechará! No fim das contas, a única traição realmente condenável é aquela que cometemos contra nós próprios. Quando alguém de sua confiança te “trai” e você não percebe, é você quem na verdade está se traindo por confiar em alguém que não é você. Por outro lado, perceber um gesto traiçoeiro em algo exterior a si (como um abismo na trilha do pedal) é uma excelente oportunidade que a vida oferece para mudar o percurso, traçar novos caminhos e rotas pra longa pedalada da vida.

“Minha terra é a terra que é minha
E sempre será
Minha terra tem a lua, tem estrelas
E sempre terá”

Na Grécia Antiga, em Atenas, vivia um homem chamado Diógenes. Ele morava em um barril! Nascido em Sinope, quando questionado se era ateniense, dizia que era “uma criatura natural do cosmos, e não de uma cidade nem de um estado”. Ele andava com uma lamparina nas mãos em busca de pelo menos um homem “de verdade”, alguém que não vivesse como um animal de rebanho, mas que fosse livre das mentiras da sociedade. Alexandre, o Grande, tendo conquistado a Grécia, soube do sábio e colocou-se diante dele oferecendo qualquer coisa que desejasse. Diógenes exigiu apenas que ele não lhe tirasse aquilo que não lhe podia dar – a luz do sol, tampada pelo corpo de Alexandre diante de si! Coloco esta história pra dizer que não importa o quão rico ou pobre seja o lugar onde você esteja, a Terra – a Minha Terra – sempre mostrará a mais bela paisagem que se pode ver – um céu de sol, nuvens, estrelas e lua.

Poderia percorrer toda a letra da música aqui, afinal existem frases tão ricas quanto as citadas acima... Mas minha grande riqueza agora é aproveitar os dias de boa saúde dos meus filhos... Quanto dinheiro e posses alguém daria para garantir a boa saúde de seus filhos? De quanto ouro e oportunidades alguém com câncer terminal abriria mão pra alguns dias a mais de vida? Sim, sou rico! Muito rico! Tenho tempo e saúde pra aproveitar! E o melhor de tudo – aproveito da minha maneira, pois sou livre! Um dos raros espíritos livres neste estúpido mundo de rebanho que me rodeia! Mas não vou perder meu tempo com uma lamparina procurando outros seres livres como eu... Já conheço curingas o suficiente pra compartilhar palavras, sorrisos, abraços e vida! Além dos pequenos curingas, por quem sou responsável, tenho a companhia de outras cartas curingas que escrevem aqui no Clã! E você, leitor, é escravo ou é curinga?

“...tudo passa, tudo passará
E nossa estória não estará pelo avesso
Assim, sem final feliz
Teremos coisas bonitas pra contar
E até lá, vamos viver
Temos muito ainda por fazer
Não olhe pra trás
Apenas começamos
O mundo começa agora
Apenas começamos”.
(Metal Contra as Nuvens – Legião Urbana)

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