Comecei a fria temporada de Ouros
invocando à música para redimir as palavras. Em cada uma das minhas aparições
nesta estação, abrindo as semanas deste nosso “calendário maia”, usei como
trunfo uma música. Não pretendo voltar antes de Ás de Copas, quando uma outra
estação será inaugurada.
“...meu coração
suburbano espera riquezas maiores
Eu sigo o calendário
maia, sou descendente dos astecas
[...] Estou longe,
longe - Estou em outra estação...”
(Uma Outra Estação - Legião
Urbana)
Minha ausência no final de ouros será não
por omissão, mas por lançar mão de um outro trunfo especial, que tem surgido
aqui no clã em cada uma das estações – a dama – que agora virá adornada de
ouros...
Por hora, tentando não projetar o futuro
também neste parágrafo, deixo como despedida minha de ouros mais uma música. Embora
seja ambientada em um cenário todo medieval, consigo ver um personagem contemporâneo
nas entrelinhas desta canção – eu mesmo:
“Não sou escravo de
ninguém
Ninguém é senhor do
meu domínio
Sei o que devo
defender
E por valor eu tenho
E temo o que agora se
desfaz”
Ser escravo pode ser uma condição imposta
à força por alguém armado (de metais ou palavras) o suficiente pra te convencer
a fazer tudo o que interessa a ele e não a si. Mas se existem escravos
circunstanciais, há que se dizer que existem muitos escravos que o são por
escolha ou medo. Penso que a esmagadora maioria das pessoas é escrava. Refém de
valores, anseios e vontades totalmente alheias a si. Nietzsche falou inúmeras vezes
em sua obra sobre pessoas que possuem um “espirito livre”, indivíduos que são capazes
de dançar mesmo acorrentados. Mas em um sentido mais prático, útil pra nossa
maneira atual de levar os dias, gosto do que o filósofo diz em “Humano,
Demasiado Humano”:
“[...]
Não se pode perguntar ao banqueiro acumulador de dinheiro, por exemplo, pelo
objetivo de sua atividade incessante: ela é irracional. Os homens ativos rolam
tal como pedra, conforme a estupidez da mecânica. — Todos os homens se dividem,
em todos os tempos e também hoje, em escravos e livres; pois aquele que não tem
dois terços do dia para si é escravo, não importa o que seja: estadista,
comerciante, funcionário ou erudito.” (Friedrich Nietzsche – Aforismo 283)
A partir desta ótica, podemos supor que
um bobo da corte pode ser (e provavelmente é) bem mais livre que um chefe de
estado. Quais são as moedas que fazem sentido em nossa vida? Quais são os limites
de nossos domínios? Os pedaços de papel com números (tal qual cartas de
baralho) ou as escrituras de posse valem mais que o tempo que temos de vida com
saúde? Pra mim não! É um valor que tenho e temo ao vê-lo se desfazer em mim ou
em seres que amo.
“Viajamos sete léguas
Por entre abismos e
florestas
Por Deus nunca me vi
tão só
É a própria fé o que
destrói
Estes são dias
desleais”
As vezes pegar a bicicleta e percorrer os
abismos da vida não cura a sensação de solidão em meio a imensidão do universo
e a aparente infinitude do tempo. Nunca houve tanto frio aqui dentro de mim. Ter
fé (ou não) não é mérito! Como podem as pessoas se gabarem ou se acharem
superiores pela simples credulidade em algo? Mesmo pra quem é muito convicto do
que acredita, penso que a dúvida redime mais que a fé. Se a fé nunca foi
colocada à prova pela dúvida, então ela não vale nada, pois é automática. É por
isso que a fé, sozinha, destrói. Pensamentos vagos em uma alma extremamente solitária.
Mesmo em dias que tenho os melhores abraços, o inverno ainda segue dolorido,
embora a primavera já surja em meu horizonte anunciando o fim dos dias
desleais.
“Eu sou metal, raio,
relâmpago e trovão
Eu sou metal, eu sou o
ouro em seu brasão
Eu sou metal, me sabe
o sopro do dragão”
De que me adianta ser metal, ser ouro de
brilho raro, se há gelo sobre minha pele? Qual seria o valor do ouro longe da
luz? Um fóton de luz do sol que toca meu rosto de manhã não vale mais que todo
ouro do planeta? Talvez me digam que os fótons de luz todos tem, enquanto ouros
e brasões, são privilégios de poucos... Mas a raridade é mesmo um fator
valorativo? Seja qual for o metal feito em brasa e timbrado naquilo que me
garante enquanto eu, isto está coberto de gelo. Só o sopro do dragão irá me
livrar do invólucro branco de água sólida.
“Reconheço meu pesar
Quando tudo é traição
O que venho encontrar
É a virtude em outras
mãos”
Pesar, traição, encontro, virtude...
Quanto peso atribuímos a certas palavras. E como são diferentes os modos com
que entendemos palavras de grafia e sonoridade idênticas! Algumas ações das mais
“indecentes” ao meu juízo, já me chegaram aos ouvidos sob a égide da busca pela
“decência”. A atribuição da bandeira de “traição” à desvios de percurso em
pobres histórias de relacionamentos afetivos me parece uma invenção de novelas
mal escritas e letras de música destas que se vendem em rádios para um grande
público. Traição nada mais é do que incoerência; Aqueles passos que damos em
direção oposta àquilo que sentimos e desejamos em cada momento; A falta de
sinceridade quando se finge sincronia com as pessoas próximas para manter um “status”.
Jurar algo que não se pode controlar é, ao meu ver, uma das mais pesadas
traições a si: “porque quando eu jurei meu amor eu traí a mim mesmo...” (Raul
Seixas). Mas a conta não se fechará! No fim das contas, a única traição
realmente condenável é aquela que cometemos contra nós próprios. Quando alguém de
sua confiança te “trai” e você não percebe, é você quem na verdade está se
traindo por confiar em alguém que não é você. Por outro lado, perceber um gesto
traiçoeiro em algo exterior a si (como um abismo na trilha do pedal) é uma
excelente oportunidade que a vida oferece para mudar o percurso, traçar novos
caminhos e rotas pra longa pedalada da vida.
“Minha terra é a terra
que é minha
E sempre será
Minha terra tem a lua,
tem estrelas
E sempre terá”
Na Grécia Antiga, em Atenas, vivia um
homem chamado Diógenes. Ele morava em um barril! Nascido em Sinope, quando
questionado se era ateniense, dizia que era “uma criatura natural do cosmos, e
não de uma cidade nem de um estado”. Ele andava com uma lamparina nas mãos em
busca de pelo menos um homem “de verdade”, alguém que não vivesse como um
animal de rebanho, mas que fosse livre das mentiras da sociedade. Alexandre, o
Grande, tendo conquistado a Grécia, soube do sábio e colocou-se diante dele
oferecendo qualquer coisa que desejasse. Diógenes exigiu apenas que ele não lhe
tirasse aquilo que não lhe podia dar – a luz do sol, tampada pelo
corpo de Alexandre diante de si! Coloco esta história pra dizer que não importa
o quão rico ou pobre seja o lugar onde você esteja, a Terra – a Minha Terra –
sempre mostrará a mais bela paisagem que se pode ver – um céu de sol, nuvens,
estrelas e lua.
Poderia percorrer toda a letra da música
aqui, afinal existem frases tão ricas quanto as citadas acima... Mas minha grande
riqueza agora é aproveitar os dias de boa saúde dos meus filhos... Quanto
dinheiro e posses alguém daria para garantir a boa saúde de seus filhos? De quanto
ouro e oportunidades alguém com câncer terminal abriria mão pra alguns dias a
mais de vida? Sim, sou rico! Muito rico! Tenho tempo e saúde pra aproveitar! E o
melhor de tudo – aproveito da minha maneira, pois sou livre! Um dos raros espíritos
livres neste estúpido mundo de rebanho que me rodeia! Mas não vou perder meu
tempo com uma lamparina procurando outros seres livres como eu... Já conheço
curingas o suficiente pra compartilhar palavras, sorrisos, abraços e vida! Além
dos pequenos curingas, por quem sou responsável, tenho a companhia de outras
cartas curingas que escrevem aqui no Clã! E você, leitor, é escravo ou é
curinga?
“...tudo passa, tudo
passará
E nossa estória não
estará pelo avesso
Assim, sem final feliz
Teremos coisas bonitas
pra contar
E até lá, vamos viver
Temos muito ainda por
fazer
Não olhe pra trás
Apenas começamos
O mundo começa agora
Apenas começamos”.
(Metal Contra as Nuvens – Legião Urbana)

Nenhum comentário:
Postar um comentário