Todo aquele gelo de que falei em ouros me
afastou ainda mais da convivência social! Tenho andado solitariamente por aí...
Muito por opção minha. Outro tanto não sei explicar. Às vezes dói.
“...Ando só
Nem sei porque
Não me pergunte
O que eu não sei"
(Humberto Gessinger)
Recebi, no entanto, preciosos trunfos
neste final de inverno - valete, dama e reis. Uma revelação de ouro agitou meu
coração! Existe beleza na solidão! Por isso, com o coração batendo forte agora,
mesmo escrevendo da capital mais fria do Brasil, sinto o gelo derreter. Acolho
e recebo a dor do descongelamento de braços abertos. Dor que muitas vezes faz
emergir nos olhos algumas lágrimas. Elas parecem revelar um intenso processo de
fusão dentro de mim.
Por que mergulhar na tristeza de algo que
se perdeu se posso celebrar infinitamente ter estado, ao menos por alguns instantes,
diante de pessoas, coisas e situações tão boas? Pecamos ao pensar que temos
posse e controle sobre pessoas. Pecamos ao crer em compromissos de papel e
palavras! Nada em nós garante sentimentos. Prometer sentimentos em rituais místicos
e pedaços de papel é uma das coisas mais estúpidas que inventaram! Sentimentos são
imprevisíveis. Se de minha parte posso deixar de ter disposição para com alguém,
por que se lamentar a ausência de alguém que agora se indispõe de mim? Talvez um
dos tesouros mais preciosos que podemos possuir seja a capacidade de tirar
proveito do sentimento de "saudades" e não se lamentar, quando temos oportunidade
de viver tal sentimento.
Agora que eu sei
escrever
Agora que eu ando
sozinho
Voltei a lembrar de
você
Aí bateu uma saudade
de mim"
(Essa Nova - Tonho Costa)
Sinto saudades de Às de Copas! Esta carta
avulsa, solitária como o Curinga, mais do que os outros três azes, sente sua
condição de avulsa, afinal, possui um coração. Desde que iniciamos a celebração
de cada semana no Clã Curinga, venho pensando nas palavras pra esta semana tão
especial... Às de copas é a carta que mais me atrai nesta paciência da vida...
Talvez, como no trecho da música citada acima, a carta de um coração solitário
seja metáfora pra mim mesmo. Talvez, assim como Frode inventou e se apaixonou
pela própria criatura, eu, apaixonado por Às de Copas, esteja apaixonado por um
reflexo de mim mesmo no espelho. Estaria eu, o curinga, ocupando o lugar da
princesinha de copas como que por um sonho. Ou estarei eu vestida de rosa,
dormindo e sonhando andar por aí, vestido de bobo da corte, cheio de guizos?
Sinto que não conseguirei resolver a
trama. Jamais saberei se sou Às de Copas e Curinga a um só tempo ou se sou uma
das duas coisas sonhando ser a outra. Há a possibilidade de que existamos
separadamente, vivendo, ainda que na esfera dos sonhos, uma grande euforia em
estarmos perto um do outro...
“Nada é tão nosso
quanto nossos sonhos”
(Friedrich Nietzsche)
Amém!
Na semana que abrirá a temporada das flores
sob o naipe de copas, eu, filho primogênito de Vera, autentico filho da
primavera, deixo a narrativa de algo meu. Um sonho. Um encontro impossível que
se materializa na minha sintaxe abaixo:
Uma voz encantadora entoava um canto
triste. Embora a melodia imprimisse o peso de tudo o que se pode rotular por
“triste”, era um som muito atraente...
...atração e peso...
Apenas ouvir de longe ou se aproximar e
correr o risco de ser esmagado? Uma decisão que dispensava reflexão. O próprio
coração guiava as pernas na direção daquele canto de sereia.
Ela me olhou (sem me ver) e continuou
cantando. Olhei-a nos olhos e todo aquele receio de ser esmagado converteu-se
em leveza....
...flutuava...
O coração acelerado, o suor frio e uma
deliciosa dor aguda na região abdominal atirou-me no solo da minha timidez.
“Achei-a tão linda que
fiquei sem saber pra onde olhar...”
(O Dia
do Curinga - Jostein Gaarder)
Um descompasso inevitável de movimentos
me deixou ainda mais desengonçado do que sou. O meu alvo parecia se divertir daquele
nervosismo todo.
– Breathing – disse ela sorrindo.
– O que? Disse eu sem entender.
– Respiração... É engraçado o jeito que
você está respirando! Parece melodia de um ritmo louco! Disse ela vindo agora
em meu encontro.
...breathing...
Ela se aproximava devagar – sedutoramente
devagar... Meus olhos, ao contrário de mim, se moviam rapidamente. Olhava sua
boca com desejo. Mas também olhava seus olhos em contemplação. Um par de olhos
fascinantes, que, naquele instante me pareciam verdes... Ela fixou seu olhar
nos meus olhos cor de chocolate. Derretiam com o calor que vinha daquela luz
intensa. Olhos nos olhos. Olhos na boca. Minha boca na mira de seus olhos...
boca na boca...
O mundo inteiro deixou de existir, ou, ao
menos, se resumiu inteiro naquele beijo, naquele momento... As ondas de
ofegantes respirações pareciam agora estar prestes a explodir de alegria e
prazer naquela manhã que começava. Virei-me e vi o sol dar a luz à primavera.
Se no dia anterior podia ainda existir no coração pontos endurecidos pelo gelo
que sobrou de um longo inverno, agora os corações batiam forte no peito.
Ardiam. Produziam o fogo que queimava todo o gelo...
"(...)
Teria olhos verdes? Era fascinado por olhos verdes, como se as pessoas de olhos
verdes nunca revelassem tudo, escondendo por trás daquela cor uma vida secreta,
profunda, como a dos gatos. " (Caio Fernando Abreu)
E o universo parece estar conspirando,
como se tudo fosse programado. Como se tudo seguisse a ordem que eu mesmo escolhi
aqui neste texto - como no filme “Vanilla Sky”. A linda Sofia é invenção minha,
ou ela existe em algum lugar? Ela existiu um dia e partiu, ou é a memória dela que
a torna tão real quanto o sol e a lua? Talvez tudo o que Às de Copas tenha a me
dizer, é o mesmo que disse Sofia no filme – que talvez um dia nos encontraremos "em
uma outra vida – quando formos gatos"!
Se a loucura se avizinhou de minha mente
por conta das intemperes invernais, o coração agora bate tão acelerado que o
calor produz uma fogueira! A euforia é enlouquecedora! Mas parece ser uma
loucura melhor que aquela do inverno!
Voltando de meus devaneios, notando a
fogueira se alastrar pelo corpo, afastei-me dela!
– Não posso me aproximar mais, disse afastando-me
dela!
– Vem! Tenho uma florzinha pra te
entregar nestes primeiros raios de luz da primavera!
– Mas estou em chamas! Destruiria a ti e
a florzinha em poucos segundos.
– Mesmo que dure apenas três segundos, eu
quero! Me abraça e toma o que é teu – toma o que guardei pra ti, meu amor –
ainda que dure apenas três segundos, eu quero...
Assim, a florzinha em minhas mãos e ela
própria, depois do mais incandescente encontro de corpos que se tem registro,
se desintegraram em pouco mais de três segundos...
Acordei sem saber se acordei mesmo ou se
dormi em chamas e agora sonho... Pouco importa! Se os sonhos são meus e nada me
pertence mais que eles, que a vida seja toda de sonhos – Sem a urgência de saber
o que de fato é real ou não.
“Descobrir o
verdadeiro sentido das coisas
É querer saber
demais...”
(Sonho de uma Flauta -
O Teatro Mágico)
Às de copas é a semana que abre a
contagem regressiva para o início da nova estação que, em seu último dia, trará a
primavera. Na próxima quarta-feira o sol trará a estação mãe deste Clã Curinga.
A estação que, antes de se despedir, no último ano, deu a luz a este lar
virtual. Como dizia um presságio em Reis de Ouros, o Clã está voltando pra
casa. Foram muitas lutas com espadas, trabalho intenso com pedras e paus,
recompensas em ouro que pagaram as passagens de retorno ao nosso mais precioso
bem - o coração.
Seja bem-vinda novamente a estação das
flores, do calor e do amor...
No fogo o gelo vai
queimar."
(Nando Reis)

Creio que me vi umas quatro, cinco ou vinte vezes em seu texto. Me vi ficando com Às de copas, me vi partindo com o Curinga. ..
ResponderExcluirMe vi em paixões absurdas que, de tão lindas, me tiraram o chão. Quantas vezes o coração suporta bater apaixonado? Acho que ele sempre bate apaixonado...
O dom de ver as pessoas e coisas torna ainda mais longa nossa busca por Curingas. As vezes, essa busca é inconsciente, as vezes de propósito, com propósitos, só de sacanagem. Me apaixono sempre que posso, sempre que não posso. Por pessoas, por canções, por gestos. De cada 10 paixões, 12 são platônicas, é fato. Mas acho que elas mantém viva em mim a vontade de pertencer ao todo...
Numa dessas paixões do "sempre que não posso", reencontrei alguém por quem meu coração, todos os dias, sorri. E, quando falo em reencontro, me refiro às antigas vidas de gatos que tivemos. Ao ler vc em seu texto, vi os olhos dela a fitar o horizonte. ..e sorri.
"Todos meus tantos são teus...todos enquantos. .." (Anitelli).
Perdoe o devaneio...mas é irresistível, assim como esse despejar de cores da primavera que vc fez nesse post. Metade de mim, enquanto lia, segurava a mão de Às de Copas. A outra metade lembrava que, vez ou outra, o Curinga precisa perambular. Quando ele voltar pra casa, que haja em nós a vontade de ser ainda mais poesia. De amar ainda mais a vida. De esperar sempre o melhor. De sonhar. ...Belo texto! Belo exemplo de amor! Bela perambulada pela vida!
https://youtu.be/ZFequU2oycs
ResponderExcluirQuantas pessoas no mundo são capazes de dialogar (como nós um dia dialogamos em sonho) com "cavalos filosóficos?
ResponderExcluirQuantos são os raros entre os seres pensantes capazes de sentir toda a força do amor (filo) à Sofia? Essa — é apenas esta — é O que se pode chamar de filosofia!
Falo agora como um sobrevivente - alguém que, mais uma vez sobreviveu ao inverno! Um final de inverno de fogo, é bem verdade. Ás de copas trouxe a tona os mais quentes dias de inverno que vivi... Mas hoje, nos últimos instantes da semana, quando o dois de copas já desponta no horizonte, consigo entender como a queda (que já figura há 4 anos em nossas figuras) nunca nos mata!
ResponderExcluirComo não notei antes - é tão nítido quanto a aurora que vi hoje inaugurando a estação! Aprendemos a cair como gatos! Presságio de uma próxima vida? Ou apenas nós, ocupando qualquer lugar da paciência, sem necessariamente pertencer a qualquer grupo de mesma?
Obrigado Tim! Tua sacada deu uma nova luz às cores aí postas!!!