quarta-feira, 2 de setembro de 2015

#38 - DAMA DE OUROS - Teu olhar me tirou daqui...

“Com duas conchas nas mãos
Vem vestida de ouro e poeira...” (OTM)

Mais uma carta nas mãos. Mais uma oportunidade de ser uma, de ser outras. Mais uma vez, mais um convite. Todos os olhares hoje eu volto ao Clã que me acolheu. E aos Curingas que “como num pavilhão de espelhos”eu os vejo multiplicados em “mim, em mil”. Dessa vez, os Curingas deram-me a missão de ser a Dama de Ouros.
Mas, o que é ouro pra mim?
Essa frase não sai da minha cabeça....
A gente anda por tantos lugares, faz e refaz “eternidades da semana”, encontra e aprecia tantos olhares e sorrisos, fica difícil, às vezes, definir o que é ouro.  Andei tecendo cortina brilhante, cheia de detalhes – o presente e o futuro encaixando-se em cada ponto da agulha. Cada linha da cortina me lembra o Curinga, que perambula por aí. Ás vezes, cortinas tornam-se tão grandes que os ventos não conseguem perambular pela casa. E a casa fica abafada e sem luz. O coração é a casa da gente. O vento, a liberdade, o ouro – O Curinga perdido na pequena escuridão.
Talvez o ouro hoje seja a liberdade, o vento tocando o rosto, o espaço. O deixar-se livre. Ouvi certa vez que deve-se deixar livre para ser livre. Criar asas. Perambular.
A Dama de Ouros olhou para o espelho e viu que suas raízes estavam em seu coração. No fundo, sabia que o coração era a sua verdadeira casa. Entretanto, de móveis, só restava agora uma cadeira. E a casa, que um dia foi tão cheia, agora estava com espaço de sobra.

“(...) tudo na madrugada insiste em ficar
Já que existe tanto espaço em mim.”(Vitor Ramil)

Talvez o ouro esteja mesmo na solidão. Aprendi que não há mais bela canção que o silencio. E não há mais bela contemplação que um olhar. Ainda que apenas na memória. O ouro, nos últimos dias, veio a mim através de lembranças dos olhares que, certa vez, me disseram “sim”, “não”, “eu quero e preciso”, “eu te entendo”.

“ (...) tem certas coisas que eu não sei dizer...”(Lulu Santos)

Aprendi com meu pai a olhar nos olhos das pessoas. Ele certamente era um Curinga. Como um Curinga pode dar vida à Dama? Não se sabe. Também não se sabe por que aprendi essa lição. Na verdade, o Seu Antonio sempre soube a verdade escondida nos olhos, nos meus olhos. Ledo engano pensar que é um legado vil. É preciso ver.
Em sua breve (e linda!) passagem por esse planetinha, ele me mostrou que não há espaço para singularidades. São muitos amores, muitas dores, muitos olhares, muito ouro. É necessário ser plural. Repartir acúmulos, sorrisos, olhares. No início da reflexão, me coloquei no Clã como quem vem “vestida de ouro e poeira.” O ouro vem hoje do olhar. Pra mim, vale mais que toda riqueza acumulada, que todo título pregado em paredes como troféu, que todo dinheiro e posses de indivíduos que não sabem o valor da simplicidade. A poeira vem do “ser plural”. Vem do lapidar o ouro bruto que há em mim, do ouro que havia em mim. Vem da dança da Dama de Ouros no campo minado, à procura de seu Curinga. Vem dos móveis que arrastei dentro de casa à procura de espaço. Vem do velho caderno de memórias, um achado no meio de tantos filósofos e historiadores que habitavam caixas e mais caixas de muitas histórias. Pude reencontrar as tardes de cafés, rodas de violão, palavras e olhares. Hoje, tudo isso tornou-se ouro pra mim. De forma diferente. Com olhos diferentes.

“Reescrevi as memórias, deixei o cabelo crescer e te dedico uma linda história confessa...”(Tiê)

A Dama se despede com olhares de ouros. Saúda, mais uma vez, a casa, o Clã que lhe acolheu. Agradece ainda mais aos Curingas que fizeram dela um tanto do que hoje ela é. Na nova cortina que tece, a agulha é de prata. Entretanto, os fios são de ouros, são os Curingas que olham a poeira da vida. Que fitam a dança da Dama no silencio, no espaço. É a nova decoração para a casa do coração da Dama.
Reza a lenda que todas as manhãs a Dama se senta na cadeira em frente à janela. Quando o sol bate, dá pra ver os olhares dos Curingas. A Dama não sabe o que eles dizem através dos olhos. Mas, pra ela não importa. O enigma é o que importa. É o mistério que a faz voltar todas as manhãs só pra ser observada. No leste tudo nasce. No olhar ela encontra o seu tudo. Isso é ouro pra ela.

“Frode olhou para mim (...). Seus olhos ainda brilhavam como pedras preciosas. Ao constatar isso, não pude deixar de pensar em algo que já tinha ouvido muitas vezes na minha vida: os olhos são o espelho da alma (...). - Dá para vocês verem a profundidade desse jogo do Curinga?” (O dia do Curinga – Dama de Ouros – Jostein Gaarder).

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