quinta-feira, 29 de outubro de 2015

#46 - SETE DE COPAS – Jovem das cartas escreve na tela mágica...

Quantos jovens de nosso tempo já “perderam tempo” enviando uma carta? De minha parte, lembro de ter selado algumas poucas. Logo apareceram os e-mails, mensagens sms, msn, redes sociais, WhatsApp... 
Lembro de receber algumas poucas cartas do meu pai que, depois de uma briga com minha mãe, ficou em Porto Alegre, onde moramos por alguns meses, e nós voltamos pra Londrina, pra casa da minha avó materna, a Dalva... Eu tinha a idade que meu filho mais velho tem hoje, nove anos.
O paradeiro do meu pai, por anos foi um mistério... Mas um dia chegou uma carta de Campinas, no interior de São Paulo, ele estava vivo e morando lá... 
A irmã dele, mais velha, se tornou missionária da igreja católica e, ela sim, enviava muitas cartas da Itália, onde morou por longos anos... Hoje ela mora aqui em Londrina e, há quase cinco anos, comemorou 25 anos de freira e me chamou para, junto com uns amigos, tocar na comemoração realizada em um salão de igreja. Uma canção missionária católica executada em rock, pra dar uma preparada naquele publico diferente, e tome rock and roll dos anos 1980... Teve freirinha “requebrando até o chão” ao som frenético que fazíamos... Entre as canções do repertório, uma está presa em minha cabeça há alguns dias... Foi a partir desta canção que pensei em escrever sobre cartas aqui. Mas vou guarda-la pro final...
Volto a falar de minha experiência com cartas: Escrevi algumas respostas pro meu pai a pedido da vó Mafalda, mãe dele. Esperei ansioso algumas respostas, que, hora nem chegavam, hora demorava m muito pra chegar. Não... Não posso dizer que tive uma grande experiência com cartas. Ao menos não uma experiência tradicional... Os e-mails, chamados em português de “correio eletrônico”, serviam sempre pra enviar/receber trabalhos acadêmicos, ou piadas, curiosidades, textos religiosos, de autoajuda, de promoções... 
Houve alguém que rompeu com este paradigma e, pela primeira vez, me fez ver o correio eletrônico como espaço para receber e enviar cartas. Assim nasceu uma amizade de imenso valor na minha história. Trocamos cartas por algum tempo e era exatamente assim que chamávamos – cartas. Quando eu demorava, vinha uma cobrança: “hey, você não vai responder minha carta? Estou esperando!!!”.
Não é incrível esta possibilidade: jovem das cartas escreve na tela mágica e suas palavras alcançam de maneira arrebatadora outra pessoa, do outro lado! E isso é capaz de se propagar por horas e mais horas além daquele momento de leitura da carta... 
Não é exatamente igual, mas a possibilidade de eu escrever agora em uma tela mágica e isso ficar disponível para milhões de pessoas, portando outras telas mágicas, há milhares e milhares de quilômetros pelo planeta, através da internet, é incrível... (Claro que a disponibilidade não equivale a leitura. Mas é bom ter a companhia de alguns poucos raros e dos teus olhos aqui e agora.) A mesma possibilidade se aplica a todos os recursos tecnológicos citados acima: você escreve em uma tela mágica que leva suas palavras para os destinos desejados instantaneamente!
Infelizmente (ou felizmente) a tela mágica ainda não pode se comunicar com o passado... A jovem das cartas partiu, pediu que a deixasse partir... Tal qual o pequeno príncipe, abandonou sua casca e hoje habita em cada ponto luminoso do céu noturno. Se minhas palavras superassem a velocidade da luz, poderiam viajar no tempo e voltar até aquele lugar. Um lugar que não mais existe. Um lugar no passado, um tempo em que se esperavam ligações e cartas. Um tempo em que as noites de insônia poderiam ser preenchidas escrevendo cartas, mesmo aquelas que nunca seriam mandadas...
Mas não sou carta pra ficar me lamentando... Sou carta curinga! Sou carta que olha do alto e tira proveito de tudo o que a vida oferece, sobretudo da liberdade que só tem quem sabe olhar. Sou a carta do impossível, a carta dos sonhos e do olhar saudável para a vida que se revela em pura poesia ao meu redor...

Mas agora, só agora,
Sou a carta do número da perfeição:
Sou um sete e possuo um coração!
Sete copas, feito prece em oração
Carta fora do baralho nas minhas mãos...

“...Toda noite de insônia eu penso em te escrever:
escrever uma carta definitiva
Que não dê alternativa pra quem lê
Te chamar de carta fora do baralho
Descartar, embaralhar você
E fazer você voltar
Ao tempo em que nada nos dividia...”

(Perfeita Simetria - Engenheiros do Hawaii)


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