Quantos jovens de nosso tempo já “perderam
tempo” enviando uma carta? De minha parte, lembro de ter selado algumas poucas. Logo apareceram os e-mails, mensagens sms, msn, redes sociais, WhatsApp...
Lembro de receber algumas poucas cartas do meu pai que, depois de uma briga com
minha mãe, ficou em Porto Alegre, onde moramos por alguns meses, e nós voltamos
pra Londrina, pra casa da minha avó materna, a Dalva... Eu tinha a idade que
meu filho mais velho tem hoje, nove anos.
O paradeiro do meu pai, por anos foi um
mistério... Mas um dia chegou uma carta de Campinas, no interior de São Paulo,
ele estava vivo e morando lá...
A irmã dele, mais velha, se tornou missionária
da igreja católica e, ela sim, enviava muitas cartas da Itália, onde morou por
longos anos... Hoje ela mora aqui em Londrina e, há quase cinco anos, comemorou
25 anos de freira e me chamou para, junto com uns amigos, tocar na comemoração
realizada em um salão de igreja. Uma canção missionária católica executada em
rock, pra dar uma preparada naquele publico diferente, e tome rock and roll dos
anos 1980... Teve freirinha “requebrando até o chão” ao som frenético que
fazíamos... Entre as canções do repertório, uma está presa em minha cabeça há
alguns dias... Foi a partir desta canção que pensei em escrever sobre cartas aqui.
Mas vou guarda-la pro final...
Volto a falar de minha experiência com
cartas: Escrevi algumas respostas pro meu pai a pedido da vó Mafalda, mãe dele.
Esperei ansioso algumas respostas, que, hora nem chegavam, hora demorava m muito
pra chegar. Não... Não posso dizer que tive uma grande experiência com cartas. Ao
menos não uma experiência tradicional... Os e-mails, chamados em português de
“correio eletrônico”, serviam sempre pra enviar/receber trabalhos acadêmicos,
ou piadas, curiosidades, textos religiosos, de autoajuda, de promoções...
Houve
alguém que rompeu com este paradigma e, pela primeira vez, me fez ver o correio
eletrônico como espaço para receber e enviar cartas. Assim nasceu uma amizade
de imenso valor na minha história. Trocamos cartas por algum tempo e era
exatamente assim que chamávamos – cartas. Quando eu demorava, vinha uma
cobrança: “hey, você não vai responder minha carta? Estou esperando!!!”.
Não é incrível esta possibilidade: jovem
das cartas escreve na tela mágica e suas palavras alcançam de maneira arrebatadora outra pessoa, do
outro lado! E isso é capaz de se propagar por horas e mais horas além daquele momento de leitura da carta...
Não é exatamente igual, mas a possibilidade de eu escrever agora em uma tela
mágica e isso ficar disponível para milhões de pessoas, portando outras telas mágicas, há milhares e milhares de
quilômetros pelo planeta, através da internet, é incrível... (Claro que a disponibilidade não equivale a leitura. Mas é bom ter a companhia de alguns poucos raros e dos teus olhos aqui e agora.) A mesma
possibilidade se aplica a todos os recursos tecnológicos citados acima: você
escreve em uma tela mágica que leva suas palavras para os destinos desejados
instantaneamente!
Infelizmente (ou felizmente) a tela mágica ainda não pode
se comunicar com o passado... A jovem das cartas partiu, pediu que a deixasse
partir... Tal qual o pequeno príncipe, abandonou sua casca e hoje habita em cada
ponto luminoso do céu noturno. Se minhas palavras superassem a velocidade da
luz, poderiam viajar no tempo e voltar até aquele lugar. Um lugar que não mais
existe. Um lugar no passado, um tempo em que se esperavam ligações e cartas. Um
tempo em que as noites de insônia poderiam ser preenchidas escrevendo cartas,
mesmo aquelas que nunca seriam mandadas...
Mas não sou carta pra ficar me
lamentando... Sou carta curinga! Sou carta que olha do alto e tira proveito de tudo o que a vida oferece, sobretudo da
liberdade que só tem quem sabe olhar. Sou a carta do impossível, a carta dos sonhos e do olhar saudável para a vida que se revela em pura poesia ao meu redor...
Mas agora, só agora,
Sou a carta do número
da perfeição:
Sou um sete e possuo
um coração!
Sete copas, feito
prece em oração
Carta fora do baralho
nas minhas mãos...
“...Toda noite de insônia eu penso em te escrever:
escrever uma carta definitiva
escrever uma carta definitiva
Que não dê alternativa
pra quem lê
Te chamar de carta
fora do baralho
Descartar, embaralhar
você
E fazer você voltar
Ao tempo em que nada
nos dividia...”
(Perfeita Simetria - Engenheiros
do Hawaii)
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