sábado, 5 de dezembro de 2015

Sempre um renascer poético em copas...

No dia do curinga do ano de copas que antecedeu a este, o sol revelou ao amanhecer um típico dia de final de primavera – sol, céu azul e coração aquecido. Tudo estava combinado para o churrasco de comemoração ao cair da noite.
Aquele ano de copas foi repleto de paradoxos: euforia em conseguir ingressar em uma pós-graduação que sonhava e frustração por perder uma oportunidade de trabalho por conta de um erro burocrático. Alegria pelo nascimento de minha pequena curinguinha Clara e apreensão por conta de um problema no esôfago que a colocou na mesa de cirurgia em seu segundo dia de vida. Presenças inusitadas em minha vida e ausências inexplicáveis...
Toda aquela intensidade ganhou um espaço de canalização – um espaço onde uma grande amiga assumia seu lado “Joker” e colocava-se inteira em prosa e poesia. Que ideia! Rapidamente pedi que ela me ajudasse a criar também um blog. Assim surgiu o “Trágica Mente Falando”. Na sequencia, a Andrea criou seu blog “Desconhecido”. Estava armado o circo. Com os três habitando a mesma cidade, depois de um bom tempo, proporcionamos uma espécie de renascimento do ano de 2007 (o último da graduação). Naquela ocasião, também era ano de copas e, as vésperas do Dia do Curinga estávamos eu, ela, a dama curinga e outros amigos na sala de aula, em uma das últimas aulas do curso, esperando que o curinga aparecesse com seus guizos porta adentro antes da aula de filosofia em que apresentaríamos o mágico calendário de Frode. A presença do pequeno anão de mãos frias podia ser sentida ali... Mas não o vi...
Mas voltando a 2011, foram frequentes encontros regados a chimarrão, vinho, violão, filosofia, poesia... A poesia dos dias era tão intensa, que sempre havia motivos pra esculpir textos em monumento a tudo aquilo que vivíamos... Nossa presença poético-virtual era tão incisiva que, certa vez, por conta nas nossas fotos de perfil com imagens de curinga, Carloz Maltz, baterista fundador dos “Engenheiros do Hawaii”, se referiu a nós no twitter como “Clã Pierrot”... a reação da Tim foi “Clã Pierrot, nada – Clã Curinga!”...
Mas aquele ano de paradoxos, que começou tenso e se tornou o mais espetacular dos anos, guardava em seu ultimo ato, uma dose cavalar de dor. Algo que gritava aos ouvidos palavras de Mário Quintana na voz do Fernando Anitelli: “a felicidade bestializa, só o sofrimento humaniza as pessoas...”.
O dia lindo que amanheceu naquele dia do Curinga e no primeiro parágrafo deste texto, terminaria na UTI pediátrica de um hospital. Meu pequeno curinga, depois de uma intensa gripe insistente, teve uma hemorragia interna e, ao ser examinado, constatou-se o pior – sua imunidade atingira níveis alarmantes. Foram horas com ele ardendo em febre e refletindo nos olhos uma dor que ia consumindo sua frágil vida... Ao invés de música e festa, o final do dia foi ouvindo seus gritos de dor quando os médicos colocavam nele a sonda dentro da UTI. Não posso mais passar por aquele corredor do hospital sem que as lágrimas me venham aos olhos... Depois de viver o pior dia da minha vida, precisei sair do hospital. A UTI não podia ter acompanhantes, mas, no caso dele, foi permitido a presença da mãe.
Bem perto dali, a Tim, sua mãe e nossa amiga Eliane, esperavam notícias. Elas queriam me homenagear com dois mimos de aniversário – um cabo de instrumento de alta qualidade (que uso até hoje), e um livro de um autor que se tornaria uma referencia pra mim – Alberto Caeiro. Mas o mais comovente do livro, sem dúvida é a dedicatória:

  
Foram as únicas pessoas que pude ver naquele dia. Sai de lá com a firme intenção de não ver mais ninguém. Iria direto pra casa, pois, embora fosse meu aniversário, não havia motivos pra comemorar... Quando me despedi das amigas e dei partida no carro, ouvi um pequeno tilintar. Olhei na rua pra ver se havia algum papai noel de shopping perdido, mas não havia ninguém. Passei a lombada e o barulho foi mais forte, parecia estar dentro do carro. Olhei no retrovisor e tomei um susto. Um sujeito baixinho com um sorriso constante me encarava. Parei o carro e me virei pra traz – não havia nada... devia ser delírio por conta do dia pesado...
Quando coloquei o veiculo em movimento, uma voz aguda e sarcástica me disse:
- Cuidado com o ciclista, amanhã pode ser você! – E desviei de um ciclista que, de repente enxerguei na minha frente...
Antes que eu tivesse tempo pra me recobrar do susto e conferir de onde teria vindo aquela voz, ouvi-a novamente:
– Melhor continuar dirigindo e fingir que eu nem estou aqui. Não queremos machucar mais ninguém hoje, não é?
Olhei de lado e lá estava ele. Não havia duvidas! A mesma presença que senti naquele final de tarde no CCH em 2007, sentia agora – Era o Curinga! O mesmo que escapou da paciência mágica de Frode! Não consegui dizer nada além de:
– M...maaas... Co...Como?
– Ouça bem – disse ele – tenho aqui comigo um tesouro e uma missão! Esta ampulheta é mais uma prova da existência da ilha mágica e das cartas que pularam da cabeça de Frode. Esta ampulheta foi feita com madeira colhida na floresta pelas cartas de paus e o vidro soprado pelas anãs de ouros. Os anões de espadas modelaram a madeira e as de copas colocaram um pouco do trigo azul-turquesa que usavam em seus pães e envernizaram... você vai guarda-la até que chegue o momento certo! Antes que comece o ano de copas, vais escrever como um valete no final de um livro sobre sonhos. Semearás o “Clã Curinga” e ajudarás a fazê-lo crescer... Mas ouça bem, só será digna da ampulheta a pessoa que for pequena gigante!
Enquanto desviei por um segundo a atenção pra conferir um sinal de transito, já perto de minha casa, o pequeno clown desapareceu. Em cima do banco, estava a ampulheta que, segundo ele, foi feita pelas cartas de Frode:



 Jamais poderia imaginar que a destinatária da ampulheta estivesse tão perto. Mas foi a nossa dama curinga que, ao transgredir a ordem aqui no clã com um post alheio a qualquer carta, quem me revelou. Quem mais poderia ser tão grande e tão pequena a um só tempo?
A dama curinga mostrou que o clã poderá sobreviver ao final desta paciência... Talvez mais solto, sem a necessidade de um monumento a cada carta/semana... Talvez em melodia e versos... Talvez em silêncio... Deixemos que o vento nos mostre a direção...
O Clã Curinga existe antes mesmo de ser nomeado! Existe há quase 12 anos! Estamos na semana 12 de copas, há 12 dias do fim desta paciência... Se virada 4 vezes, a ampulheta tem duração de 13 minutos e 12 segundos. 13 são as cartas de cada naipe do baralho – uma pra cada mês no calendário do Clã. 12 são os meses convencionais e os ponteiros do relógio... são só números e coincidências em uma vida de números e coincidências...
Não vou usar os níveis de glucose do post anterior, evidentemente (hahahaha), mas deixo aqui as mais sinceras saudações à arquiteta que, a partir de uma simples ideia proposta com palavras de valete (ao contrario), fez surgir este lar virtual.

Faltam 12 minutos pro fim do seu dia - Feliz Aniversário Tim, nossa Pequena Grande Clown!!!

Um comentário:

  1. "A medida de amar é amar sem medida". Se fiquei sem palavras ontem, imagina hoje com tais números! Não apenas com os números, mas com todo o filme que passou por minha cabeça desde as primeiras linhas desse post. Quantos acontecimentos em nosso pequeno/grande devir de quase 12 anos de amizade, sobre os quais eu afirmo categoricamente: viveria tudo uma outra vez mais! (Claro, não incluo o sofrimento dos pequenos nessa afirmativa). Obrigada pela presença de sempre, pela amizade-família que é da força de um "metal contra as nuvens", pela história cheia de coisas bonitas pra contar! Que os anos vindouros sejam cheios de vida a todos nós, "temos muito ainda por fazer!"

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