Ler algo é mais do que simplesmente juntar letras em palavras,
palavras em versos e versos em poesia ou prosa. Há muitos instrumentais e
caminhos que podemos percorrer ao ler. Quem está atento à geografia, ao ler os
textos que inauguram as semanas/cartas do Clã Curinga, pôde notar a "ponte
wireless" Curitiba-Londrina aqui estabelecida.
Quero, entretanto, abrir um link especial com uma correspondente que
está agora na região sudeste do Brasil:
Como é ser uma dama na maior cidade da América Latina?
Dama: Incrivelmente comum, mas
também totalmente estranho. A noção de
pessoas, sexos, gêneros aqui é diferente.
Na verdade, é realidade aumentada. Nada parece real e tudo parte de uma
realidade cruel. "São Paulo é como
um mundo todo", e todas as damas, vagabundos, ateu praticante ocidental,
católicos incompetentes, podemos aqui encontrar.
Qual é o ruído (música) que emite a imensa cidade seca?
Dama: Olha... São Paulo é terra
das quatro estações num dia, de todas as
tribos em um vagão de metrô, do cocô de
todo mundo no tietê... Então são vários ruídos que caracterizam essa desvairada
pauliceia.
Por exemplo: Na Rua 25 de março, além dos
arrochas da vida, tem o som das moedas caindo dos bolsos da galera que quer
comprar a todo custo, que não tem
dinheiro pra levar o filho no dentista (já que o estado não cumpre sua função
social), mas que tem dinheiro pra aproveitar a promoção de camisas “a 10 real”.
Tem também o som dos egos loucos
e correndo atrás de quem os observe na Avenida Paulista. Uma rua com história viva, uma rua bonita de
se ver... Se não fossem os seres humanos.
É um desfile de "festa estranha com gente esquisita" que seria até legal observar, se o ego e a soberba permitissem.
É um desfile de "festa estranha com gente esquisita" que seria até legal observar, se o ego e a soberba permitissem.
Tem também o som das balas de
borracha no metrô Pedro II, da polícia da "ordem e progresso", dos
indivíduos amassando latas, seringas,
dignidade, humanidade...
Tem
ainda o som de buzinas, gritos, apelos,
funks, arrochas e toda sorte de musica
da rodovia Anchieta, da Avenida do Estado, da Salim Faha Maluf... São pessoas
perdidas pelas pontes, estradas, dentro de seus carros automáticos, levando a
vida mais cruel e solitária que se pode imaginar.
E, por falar em solidão, e para
concluir a resposta, tem o meu preferido: o som do silêncio da cidade que não
pára: não pára pra ver, pra ouvir, pra sentir, pra ser, pra viver. Esse som é o mais lindo, o mais angustiante, a
mais doce e amarga partitura da alma de São Paulo. A solidão na selva de pedras produz o som que
dói, que acalma, que rasga, cura, morre e vive.
Quais são as armas pra "matar um leão por dia" nesta selva
de pedra onde o leito do "rio encanado" vai secando a cada dia?
Dama: Meu irmão diz algo
interessante sobre a terra: Que ela seria melhor sem os seres humanos. Cruel,
eu sei. Mas tem salvação uma raça que polui suas nascentes e depois, num ato
falho de desespero, inventa canos gigantes pra roubar a fonte da vida do colega
da divisa? Mas, tentarei resposta desta questão apesar dos pesares.
Pra mim, existem dois tipos de
armas para matar o leão nosso de cada dia: As “lícitas” e as “não lícitas”. Sobre
as lícitas, adoro aquelas pessoas que pegam sua cartolina e escrevem
"Abraço grátis" na Avenida Paulista. Sim, elas existem de
verdade. E oferecem ternura numa terra
que não sabe o que é o amor.
Adoro também ouvir as conversas
no metrô e no ônibus. É um trabalho etnológico diário, que me salva da mesmice...
E quando aparece uma praça no meio do caminho então? Me faz pensar na grandeza das coisas, me faz
ver o verde na grande poeira dos dias, das fábricas, das pessoas.
Gosto também do cheiro de
morango das barracas de frutas nas ruas. E do cheiro de pastel das feiras... Esses
aromas salvam quem aprendeu a acostumar com o cheiro agridoce e podre do Tietê.
Agora, sobre as armas “não
lícitas”... Tenho problemas com elas... Mas, prefiro citar a pior de todas: A
vida social de São Paulo.
Pra mim, a famosa "vida
cultural" de São Paulo é para aqueles que buscam desesperadamente se
encontrar. Que não sabem seu lugar, e que tentam comprar esse encontrar-se em
peças longas e chatas do teatro municipal, em shows incrivelmente caros nas
casas mais badaladas. Que buscam se ver no espelho das obras de arte dos museus
e SESC...
Acho que é isso... A escolha
entre matar um leão por dia na simplicidade das coisas ou matar um leão por dia
no eterno genocídio de nós mesmos.
A correspondente especial é uma dama sem espadas, professora, armada
com giz e enfrentando paus e pedras pra conseguir um pouco de ouros, garantindo
a sobrevida de seu coração de copas... A dama curinga é mais uma daquelas figuras
singulares que são capazes de conservar o sorriso, sobrevivendo aos naufrágios
de cada dia de luta.
"Tinha sobrevivido a um
naufrágio!, pensei. Só agora me dava conta disso. Era como se tivesse nascido
de novo...” (O Dia do Curinga – Dama de Espadas – Jostein Gaarder)
Encontrar o silêncio e motivos pra sorrir em meio ao caos, é como
atracar os pensamentos em uma ilha misteriosa que não existe no mapa... Entrar em
uma caverna coma as mais belas cores e, do outo lado, vislumbrar uma paisagem
que, de tão bela, desmente o ar cinzento da selva de pedras, transportando os
sentidos para um silencio de luminosidade catártica...
"Dentro da montanha reinava
uma luminosidade azul-esverdeada [...]. Vislumbrei uma paisagem tão
encantadoramente bela que não pude conter as lágrimas..." (O Dia do
Curinga – Dama de Espadas – Jostein Gaarder)
Trunfo1: A Dama-curinga que se corresponde comigo neste post é Andrea
Moreti, historiadora londrinense que vive atualmente em São Paulo e, quando a
correria da megalópole dá uma pausa, escreve suas sobrevivências e devaneios no
blog Reticente. E ponto.
Trunfo2: Apesar do termo "correspondente" sugerir "correspondência", e com isso, pra mim, fazer lembrar de carta manuscrita, o "link direto com SP" foi através de um popular aplicativo de bate papo para smartphones:
E ponto.

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