quarta-feira, 4 de março de 2015

#12 - Dama de Espadas - O SILÊNCIO NA MEGALÓPOLE ERA COMO MÚSICA.

Ler algo é mais do que simplesmente juntar letras em palavras, palavras em versos e versos em poesia ou prosa. Há muitos instrumentais e caminhos que podemos percorrer ao ler. Quem está atento à geografia, ao ler os textos que inauguram as semanas/cartas do Clã Curinga, pôde notar a "ponte wireless" Curitiba-Londrina aqui estabelecida.
Quero, entretanto, abrir um link especial com uma correspondente que está agora na região sudeste do Brasil:

Como é ser uma dama na maior cidade da América Latina?

Dama: Incrivelmente comum, mas também totalmente estranho.  A noção de pessoas, sexos, gêneros aqui é diferente.  Na verdade, é realidade aumentada. Nada parece real e tudo parte de uma realidade cruel.  "São Paulo é como um mundo todo", e todas as damas, vagabundos, ateu praticante ocidental, católicos incompetentes, podemos aqui encontrar.

Qual é o ruído (música) que emite a imensa cidade seca?

Dama: Olha... São Paulo é terra das quatro estações num dia, de todas as tribos em um vagão de metrô,  do cocô de todo mundo no tietê... Então são vários ruídos que caracterizam essa desvairada pauliceia.
Por exemplo: Na Rua 25 de março, além dos arrochas da vida, tem o som das moedas caindo dos bolsos da galera que quer comprar a todo custo,  que não tem dinheiro pra levar o filho no dentista (já que o estado não cumpre sua função social), mas que tem dinheiro pra aproveitar a promoção de camisas “a 10 real”.
Tem também o som dos egos loucos e correndo atrás de quem os observe na Avenida Paulista.  Uma rua com história viva, uma rua bonita de se ver... Se não fossem os seres humanos.
É um desfile de "festa estranha com gente esquisita" que seria até legal observar, se o ego e a soberba permitissem.
Tem também o som das balas de borracha no metrô Pedro II, da polícia da "ordem e progresso", dos indivíduos amassando latas, seringas,  dignidade,  humanidade... 
Tem ainda o som de buzinas,  gritos, apelos, funks,  arrochas e toda sorte de musica da rodovia Anchieta, da Avenida do Estado, da Salim Faha Maluf... São pessoas perdidas pelas pontes, estradas, dentro de seus carros automáticos, levando a vida mais cruel e solitária que se pode imaginar.
E, por falar em solidão, e para concluir a resposta, tem o meu preferido: o som do silêncio da cidade que não pára: não pára pra ver, pra ouvir, pra sentir, pra ser, pra viver.  Esse som é o mais lindo, o mais angustiante, a mais doce e amarga partitura da alma de São Paulo. A solidão na selva de pedras produz o som que dói, que acalma, que rasga, cura, morre e vive.

Quais são as armas pra "matar um leão por dia" nesta selva de pedra onde o leito do "rio encanado" vai secando a cada dia?

Dama: Meu irmão diz algo interessante sobre a terra: Que ela seria melhor sem os seres humanos. Cruel, eu sei. Mas tem salvação uma raça que polui suas nascentes e depois, num ato falho de desespero, inventa canos gigantes pra roubar a fonte da vida do colega da divisa? Mas, tentarei resposta desta questão apesar dos pesares.
Pra mim, existem dois tipos de armas para matar o leão nosso de cada dia: As “lícitas” e as “não lícitas”. Sobre as lícitas, adoro aquelas pessoas que pegam sua cartolina e escrevem "Abraço grátis" na Avenida Paulista. Sim, elas existem de verdade.  E oferecem ternura numa terra que não sabe o que é o amor.
Adoro também ouvir as conversas no metrô e no ônibus. É um trabalho etnológico diário, que me salva da mesmice... E quando aparece uma praça no meio do caminho então?  Me faz pensar na grandeza das coisas, me faz ver o verde na grande poeira dos dias, das fábricas, das pessoas.
Gosto também do cheiro de morango das barracas de frutas nas ruas. E do cheiro de pastel das feiras... Esses aromas salvam quem aprendeu a acostumar com o cheiro agridoce e podre do Tietê.
Agora, sobre as armas “não lícitas”... Tenho problemas com elas... Mas, prefiro citar a pior de todas: A vida social de São Paulo.
Pra mim, a famosa "vida cultural" de São Paulo é para aqueles que buscam desesperadamente se encontrar. Que não sabem seu lugar, e que tentam comprar esse encontrar-se em peças longas e chatas do teatro municipal, em shows incrivelmente caros nas casas mais badaladas. Que buscam se ver no espelho das obras de arte dos museus e SESC...
Acho que é isso... A escolha entre matar um leão por dia na simplicidade das coisas ou matar um leão por dia no eterno genocídio de nós mesmos.

A correspondente especial é uma dama sem espadas, professora, armada com giz e enfrentando paus e pedras pra conseguir um pouco de ouros, garantindo a sobrevida de seu coração de copas... A dama curinga é mais uma daquelas figuras singulares que são capazes de conservar o sorriso, sobrevivendo aos naufrágios de cada dia de luta.

"Tinha sobrevivido a um naufrágio!, pensei. Só agora me dava conta disso. Era como se tivesse nascido de novo...” (O Dia do Curinga – Dama de Espadas – Jostein Gaarder)

Encontrar o silêncio e motivos pra sorrir em meio ao caos, é como atracar os pensamentos em uma ilha misteriosa que não existe no mapa... Entrar em uma caverna coma as mais belas cores e, do outo lado, vislumbrar uma paisagem que, de tão bela, desmente o ar cinzento da selva de pedras, transportando os sentidos para um silencio de luminosidade catártica...

"Dentro da montanha reinava uma luminosidade azul-esverdeada [...]. Vislumbrei uma paisagem tão encantadoramente bela que não pude conter as lágrimas..." (O Dia do Curinga – Dama de Espadas – Jostein Gaarder)


Trunfo1: A Dama-curinga que se corresponde comigo neste post é Andrea Moreti, historiadora londrinense que vive atualmente em São Paulo e, quando a correria da megalópole dá uma pausa, escreve suas sobrevivências e devaneios no blog Reticente. E ponto.
Trunfo2: Apesar do termo "correspondente" sugerir "correspondência", e com isso, pra mim, fazer lembrar de carta manuscrita, o "link direto com SP" foi através de um popular aplicativo de bate papo para smartphones:

E ponto.

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