quarta-feira, 25 de março de 2015

#15 - Dois de Paus - Dois bilhetes em minhas mãos

Meu nobre amigo curinga, escrevendo diretamente de minha terra natal, semana passada, lembrou da inclinação das cartas de paus ao trabalho manual e do aparente mau presságio que as cartas de espadas representam. Trouxe à tona, como solução a esta gravidade, a transitoriedade...

É outono (é certo que, em Curitiba, já parece fazer algum tempo). Tempo de transição entre duas estações extremas. Para aqueles que, como eu, gostam sempre do tudo ou do nada, talvez esses momentos de passagem pareçam turvos e imprecisos. Por outro lado, trata-se também de momento de resguardo e preparação para tempos que, esperamos, tragam boas novas.

Vivo este momento à flor da pele. Para curingas do baralho, toda manifestação corriqueira de transformação, por mais imperceptível que possa parecer, reveste-se de maior intensidade diante do devir poético que a vida enseja.
  
"Novos horizontes, se não for isso o que será?"
(Engenheiros do Hawaii)

A estação de espadas cumpriu seu papel nos meus dias conforme anunciado - apesar de possuir a espada nas mãos, seu peso se tornou tamanho que não pude mais ser metal contra as nuvens.

 Agora, sob a Era de paus, ganho novo bilhete para um caminho diferente, descartando sem pensar o anterior. Uma missão que, embora exija maior esforço braçal, possui propósitos mais nobres, o que, espero, pela própria obrigação do banho de endorfina diário, traga mais leveza aos meus dias. Insustentável leveza...

 "Não sou escravo de ninguém, ninguém senhor do meu domínio, sei o que devo defender..." 
(Legião Urbana)
Acho que, quem lê nossos textos aqui no blog, talvez tenha percebido a gravidade dos meus posts, sobretudo dos últimos. Hoje explico...

Quando a gente "vira" gente "grande" (entre aspas - no primeiro caso, porque isso acontece de repente; no segundo, devido aos meus 1,60m de altura!), a vida nos impõe certas chatices como meios de se alcançar e realizar sonhos. São obrigações das quais não podemos nos esquivar, correndo sempre o risco, contudo, de nos vermos presos nesse "meios", perdendo, no caminho, o vislumbre dos "fins".

E eu, que tão pouco quis dos meus dias, nada além de viver em paz comigo mesma e acreditar nas pessoas, me vi perdida numa guerra que não era minha... Cega em tiroteio, um curinga travestido em Valete de Espadas.

Deixei passar, por vezes, jogadas da paciência em que perdi amigos de ouros e quase sacrifiquei meu naipe de copas.

Na contramão desse peso, essa semana a conexão Londrina-Curitiba veio brindar-me com a presença ilustre desses dois Curingas em minha casa. Um impulso para relembrar que nossas vidas são construídas em cima desses pequenos e importantes momentos... (Nada melhor do que celebrar esse encontro com uma bebida que exige uma grande destreza manual, e que marca nossos dias desde o início desta grande amizade - pra não perder a piada, o nome da erva remete a um curinga que apareceu aqui como Dama de Espadas recentemente, embora ela vá provavelmente querer me matar por revelar isso).

"Mãos e coração livres e quentes, chimarrão e leveza"
(Engenheiros do Hawaii)
Talvez tenha sido necessário um aparente inverno para que eu relembrasse que, dentro de mim, ainda há um verão invencível (Albert Camus). Talvez seja necessário, ainda, este outono incerto para a transição a um inverno que traga o aconchego do verso pinkfloydiano que diz que é bom esquentar os ossos na lareira...

 Falando em Pink Floyd, o vinil toca nostalgicamente "good bye blue sky" ao fundo dessas palavras enquanto se escrevem. Fica difícil falar (escrever) enquanto ouço pink floyd...

 ... Mas deixo a dica na canção que encerra essa prosa de hoje.


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