A ansiedade pela partida é cortina de véu para o pesar da estagnação. A quimera de viver sem endereço reafirma a sua natureza ante o receio que se faz de âncora - a gravidade do dia, desse post, é reflexo do perigo de se entregar uma caneta a um rei de espadas.
Um símbolo dourado, que sobe à cabeça, traz consigo o fardo do poder de decisão, qual a Rainha de Copas, em Alice, sobre cabeças que devem rolar. Fardo que talvez pese tanto quanto uma pluma no jogo cego dos guardas da fronteira...
Nunca deixei, contudo, de alimentar o coração cosmopolita! A estranheza recorrente de viver nesta casa, nesta cidade, neste emprego, é compensada pela sensação de pertencer ao mundo: sigo rimando nas entrelinhas de meus passos,
entrando para o acaso e amando o transitório (Carlos Pena Filho).
"O homem, porque não tem senão uma vida,
não tem nenhuma possibilidade de verificar a
hipótese através de experimentos, de maneira que
não saberá nunca se errou ou acertou ao obedecer a
um sentimento. Tudo é vivido pela primeira vez
sem preparação. Como se um ator entrasse em
cena sem nunca ter ensaiado"
(Milan Kundera - A Insustentável Leveza do Ser)
Diantendo improviso, a vida também tem se cantado em versos que, revisitados, se tornam novos - todos os dias, ainda que iguais pareçam os temas, acabo mantendo contato imediato com novos versos e rimas. Ainda que não saiam do mundo das ideias, esses versos se esvaem e retornam novos, diversos, repletos de vontade e de potência - como eu, na transitoriedade, vêm-a-ser.
Acaso ou não, o tempo é uma percepção que passeia pelo devir, tornando justamente precioso tudo quanto é transitório. Desta forma, rogo que canetas sirvam apenas para traçar novas perspectivas num papel em branco, em torno das quais os rabiscos de um novo horizonte se esfumacem, trazendo ao fundo um belo por do sol...
Que esta imagem seja a poesia (ainda que transitória) do dia, pois o que rima com "assinatura" hoje não me interessa...
"... Não interessa o que diz o Rei,
sem um jogo não há juiz,
não há jogada fora da lei.
Não interessa o que diz o ditado,
não interessa o que o Estado diz,
nós falamos outra língua,
moramos em outro país..."
(Humberto Gessinger)
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