Mão esquerda segurando a caneta
esferográfica que dança pelas linhas em branco da folha do caderno onde desenho
estas palavras... Estou cumprindo com o compromisso que fiz em Ás de Paus, de,
antes de digitar, escrever tudo “a mão” nesta estação.
É tempo de transição. Reis de paus
encerrará o semestre das cartas pretas, deixando metade da paciência sobre a
mesa!
Planejo mentalmente há dias o que
escrever aqui para o “gran finale” de
paus (outono), afinal, esta é a última semana que terá dias cada vez mais
curtos. Em Ás de Ouros o sol derrotará as trevas e os dias passarão a ser cada
vez mais longos – Sol Invictus! Mas falar disso é avançar a um tempo que ainda
nem existe...
Pensei então em dividir um pouco do que vivi
na última semana – a mais intensa de paus! Meus filhos precisaram ir a Curitiba
pra continuar lutando por sua frágil vida. Embora o apoio da embaixada Curinga
na Capital tenha tornado as coisas mais leves num primeiro momento, as coisas
que aconteceram no hospital tornaram tudo muito pesado...
No mesmo contexto, meus colegas
professores, em greve há muitos dias, deliberavam sobre a continuidade ou não
do movimento. Isso acontecia há dois quilômetros do hospital, então, fui até
lá... Poderia escrever sobre isso, afinal, é tempo de paus, de trabalho...
Deixo apenas uma foto...
Voltando ao hospital, me deparei com as
crianças desacordadas em um leito. Tinham feito exame de medula, o que exigiu
anestesia. Nos dois a reação foi ruim, mas no Luiz Miguel foi pior. Depois de
algumas horas a Clara levantou e o Luiz Miguel ficou com um mal estar que
insistia em não passar. Não conseguia nem se levantar... Precisei carregar ele
e uma das malas, enquanto a mãe dele carregava sua irmã e a outra mala. Quais
versos, melodias e prosas seriam capazes de reunir em mim forças pra carregar
todo aquele peso?
Não era só o esforço físico! Era um terrível
cansaço mental pela circunstancia toda. Porque aquelas crianças tão doces tem
que passar por situações assim? Porque as nossas crianças? Porque os
professores tinham que comprar a briga de todos os funcionários públicos? Porque
não temeríamos o corte em nossos salários tendo a menor folha de pagamento
entre os funcionários de formação superior? Minha cabeça funcionava como na
alegoria de uma música de Raul Seixas, entre a verdade do universo e a
prestação que vai vencer.
Poderia falar novamente sobre a cruz...
Uma cruz de paus bem pesados... Violência... Intolerância... Mas prefiro deixar apenas palavras
selecionadas de cada uma das cartas pretas do semestre. Embaralhei-as e juntei as
frases. Pra fazer jus ao ofício do curinga, ajeitei três ou quatro peças no monte e a primeira metade da paciência me apareceu assim:
É nesse momento que ninguém, nem deus,
nem você, nenhuma das cartas recebe o fardo de assinar por mim... (Q♣) Não
há transformação verdadeira sem dor e disposição, sem crescimento e
aprendizagem, sem vontade e aceitação (o que é diferente de conformação). (3♠) Aqui,
tenho sido errante por matas e praias, por vezes passo horas ouvindo apenas o
mar e o ruído ensurdecedor dos meus pensamentos... que, aos poucos, vão se
esvaindo em brisas... (10♣)
Minhas flores são efêmeras, mas não por
isso vou permitir que desapareçam assim tão fácil... (6♠) Hoje navego nesses mares de verde puro e
intenso. Clã Curinga hoje faz do Clã Pierrot um recomeço. (J♠). Cada
momento é único, insubstituível e incrivelmente ligado a um encadeamento
grandioso de acontecimentos que nos uniram aqui neste movimento cíclico de
escrita/leitura, sonho/realidade, passado/presente... (8♠) que me fez perceber que
a História só tem importância real quando nos vemos como sujeitos dela. (4♣). Ainda
que não saiam do mundo das ideias, esses versos se esvaem e retornam novos,
diversos, repletos de vontade e de potência - como eu, na transitoriedade,
vêm-a-ser. (K♠). Há dez anos as engrenagens do tempo conspiraram para que o
nascimento de um clã se fizesse possível. (A♠). De
um reencontro aparentemente corriqueiro, surgiu uma prosa fantástica - vi nos
olhos de menino o reflexo de um mundo poético. (5♠)
Em meio a tudo isso veio o duro golpe. (5♣). A
poesia de hoje é uma prece, como quem segura nos braços um tesouro e jura,
ainda que impotente, o bem maior como garantia... (6♣). Quais versos, melodias e prosas seriam capazes de reunir em
mim forças pra carregar todo aquele peso? (K♣)
Caneta em minha mão esquerda, ponta da caneta no papel, movimentos curtos e
rápidos que desenham as palavras que você está agora lendo. (A♣) O verbo, que era divino em si, pulou para fora do texto e se
fez carne! Passou a existir no plano palpável da matéria. (J♣) E no meio daquela noite consubstancial, descobri o vir-a-ser.
Entendi que tudo muda. (7♠)
O Clã Curinga tem sido o meu modo de
rotular, poeticamente ou não, o mundo que crio ao meu redor (8♣). E se
ficou muito mal explicado - desculpe-me! Mas garanto: nem mesmo soldado tem
feito sentido... (9♠) Ouçam o
som do silêncio da cidade que não para: não para pra ver, pra ouvir, pra
sentir, pra ser, pra viver. (Q♠) Pra onde
quer que você olhe, sempre verá a Terra. (10♠)
Nós, apaixonados, haveremos sempre de
carregar uma cruz de paixões bem pesadas! (3♣)Não
há porque lamentar coisas que não aconteceram... (9♣) Quem me conhece, sabe
que escrever é uma das coisas que mais gosto de fazer. (7♣) Não há "sol invictus" aqui! O início do verão
(espadas) marcou o declínio dos dias longos até que as trevas alcancem seu
ponto mais alto no início do inverno (ouros)... (2♠) Talvez seja necessário, ainda, este outono incerto para a
transição a um inverno que traga o aconchego do verso pinkfloydiano que diz que
é bom esquentar os ossos na lareira... (2♣) A festa da vida nunca acaba pra quem vive ao
som da poesia do tempo! (4♠)



“Quanto mais pesado o fardo, mais próxima da terra está a nossa vida, e mais ela é real e verdadeira. Por outro lado, a ausência total de fardo faz com que o ser humano se torne mais leve do que o ar, com que ele voe, se distancie da terra, do ser terrestre, faz com que ele se torne semi-real, que seus movimentos sejam tão livres quanto insignificantes. Então, o que escolher? O peso ou a leveza? [,,,] “Só é grave aquilo que é necessário, só tem valor aquilo que pesa.” (Milan Kundera)
ResponderExcluirMassa!!!
ResponderExcluirAssim posto, o peso é bem mais sustentável que a leveza!
Que encontremos o equilíbrio!
"Mas sei que uma dor assim pungente
ResponderExcluirNão há de ser inutilmente
A esperança
Dança na corda bamba de sombrinha
E em cada passo dessa linha
Pode se machucar
Azar!
A esperança equilibrista
Sabe que o show de todo artista
Tem que continuar"