quarta-feira, 8 de julho de 2015

#30 - QUATRO DE OUROS - Mãos frias como uma estátua de gelo.

“...quero um machado pra quebrar o gelo
quero acordar do sonho agora mesmo
quero uma chance de tentar viver sem dor...”
(O astronauta de mármore – Nenhum de nós)

A solidão é tão normal no espaço.
A terra está neste espaço.
Solidão é silêncio.
Sem melodia.
Sem palavra.
Sem gesto.
Sem cor.
Só dor.
Só...
...
..
.
(vácuo/vazio)

O inverno em mim atinge agora o estágio mais rigoroso. Não falo apenas dos dias frios e chuvosos, afinal, já vivi primaveras contornadas por dias de intenso frio e fortes tempestades. Mas hoje tudo se afina em frio, água, dor, e, finalmente, gelo! É um inverno rigoroso. Um inferno extremamente doloroso!


Fosse eu um astronauta (como o Nando Reis no clipe) talvez estaria agora congelando, machado em mãos, quebrando uma montanha de gelo na tentativa de encontrar-me a mim mesmo e descongelar minha alma. A mesma que há tempos “bateu em retirada” de mim. Não sou mais o mesmo. Mas este, que está no meu lugar, me quer de volta...
Não gosto de falar muito sobre mim. Na verdade nem falo muito. Sempre fui tímido, quieto, solitário, isolado... Raríssimos seres vivos conseguiram entrar no meu mundo ou me convidar pra fazer parte do seu. A estes sou especialmente grato. Mas especialmente hoje, me sinto ainda mais avulso, isolado, sozinho... 
Às vezes fico com a forte sensação de estar ocupando um espaço que não é meu. Que não diz respeito a mim. Gostaria de não ser empecilho para os planos de ninguém, mas às vezes é exatamente assim que me sinto. Escrevo com um certo peso na consciência por estar dizendo coisas assim - que nunca digo. É sempre mais fácil fingir estar bem pra não ter que explicar algo que nem eu consigo entender. Pudesse eu entender o mecanismo da tristeza, moveria icebergs pra não ter que senti-la... Mas me convenço de que posso falar por aqui, afinal, outro dia mesmo ouvi minha voz dizer que “gostava de morar nas entrelinhas do Clã Curinga”. Aqui acho que posso dizer, pôr pra fora... Um espaço que "quase ninguém lê" - um perfeito refúgio...
Às vezes pedalo pra tentar descongelar a minha alma. Quase sempre estou a fugir da morte, das absurdas palavras de Camus, ou das minhas próprias palavras diante do absurdo que é a vida. Ao escrever acho que trago certa parte da minha alma desertora de volta. Mas agora já não sei. Agora já não sou. Isto sou eu aqui, do lado de fora, vendo a minha própria imagem congelada na lua, feito mármore. As mãos frias como uma estátua de gelo...
Assim estou eu - congelando...
Por onde andará o sol em mim? Onde está Ás de Copas com seu calor solar? Quanto calor (ou machado) será necessário pra destruir o gelo? Talvez eu próprio agora seja este sol perdido que procuro!

"— Por que Ás de Copas está usando um vestido amarelo?
— Ela é o sol, que no verão atinge o seu ponto mais alto no céu."
(O dia do Curinga – Quatro de Ouros – Jostein Gaarder).

Que ironia... Logo eu que sempre tento vender um discurso otimista, de pés cravados no agora, me rendo a um niilismo de quem projeta um futuro que não existe... O início da primavera... Os caminhos do verão... Mas é o inverno em mim que parece invencível... Logo eu que me acho tão primaveril, fiquei preso em um labirinto de mármore e gelo...
As lágrimas (volumosas e ainda liquidas) talvez se tornem infiltrações decorrentes chuva que cai no meu peito. Talvez estas lágrimas possam amolecer meu coração congelado.
Vira e meche tenho a sensação de estar vivendo a vida em modo “piloto automático”. Hoje a sensação é ainda mais intensa. O que restou de mim não passa um mosaico incompleto de projetos incompletos... Sou como a luz apagada que outrora brilhava por traz da tela estilhaçada do meu iPad...

“Quero me encontrar, mas não sei onde estou...
tenho quase certeza que eu não sou daqui...
você me deixou sentindo tanto frio...
deixa ver como viver é bom...
...amava... odeio...
pequenas coisas...
deve passar...”
(Meninos e Meninas – Legião Urbana)

As paródias que planejei compor neste ano
deixei incompletas.
Os quilômetros que desejei pedalar neste mês
deixei de rodar.
A tela quebrada do meu velho iPhone
deixei estar.
As técnicas que quis aprender cantando
deixei em silêncio.
Os instrumentos que acompanhavam meu canto
deixei pelos cantos.
O instrumento novo que pensei em aprender
deixei empoeirando na estante.
Comecei meia dezena de livros que
deixei sem terminar.
A bola que eu chutava com as crianças
deixei murchar.
Os arquivos ociosos e inúteis no computador
deixei de deletar.
Aquela bagunça da velha estante trocada
deixei amontoada embaixo da mesa.
Nesta mesa onde trabalho, navego e me afogo
deixei meus pés sobre entulhos.
Entulhos que se misturam a mim
deixei-me confundir.
A barba, as obrigações do trabalho, a reforma
deixei por fazer...
O poeta que achava que era no dia-a-dia
deixei sem poesia.
Por fim, as palavras que escrevo agora
deix

Um comentário:

  1. Talvez o inverso rigoroso dure duas luas antes da chegada da primavera. E, talvez quando ela chegar, a dor insista em ficar mais um pouco pra ver as flores nascerem. Acho que só quem "poderá nos defender" seja o nascer do Sol em nós, outra vez, como nos velhos conhecidos tempos de "mãos quentes, coração puro...leveza...".
    Enquanto seu Sol não nasce no leste de todas as coisas, espero que a escuridão não tome conta dessa pura poesia que há em ti. Que insiste em manter o coração aquecido apesar do frio no estilo patagônico, apesar da turva visão que nada tem de retina felina, apesar da dor que não dói no corpo, mas dói naquilo que mais temos de perfeito e imperfeito. ..que sua alma encontre o caminho de casa e volte a lapidar aquilo que és. ..
    Ofereço agora meu abraço na esperança que sinta-se confortável nele. Reza a lenda que, quando a gente pensa com força, a montanha do outro lado da vida sente esse força e se move. Que haja dentro de ti força o suficiente pra sentir e mover, e ouvir as "teclas do teu piano", e ter fé. ..ainda que seja apenas na "força do silêncio. .."

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