Existe uma teoria que afirma que, neste planeta, tudo o que existe é formado de poeira de estrelas. Outra complementa esta e afirma que todo ser humano descende de um ancestral comum.
Para os que acreditam em histórias um pouco mais mirabolantes, temos a astrologia e o livro do Gênesis.
Seja na Ciência ou na Arte, somos levados a acreditar que há uma identidade que nos une, algo que ficou lá atrás, "escrito nas estrelas".
Por outro lado, basta um olhar, ainda que desatento, para notar estranheza até mesmo no espelho. Somos reflexos das mudanças que, por milênios, nos tornaram seres únicos neste universo, que também é único dentre tantos outros (será?).
"Se eu amo o meu semelhante? Sim.
Mas onde encontrar o meu semelhante?"
(Mário Quintana)
A minha provocação do dia é fruto de reflexões sobre a série "Cosmos - uma Odisseia no Espaço-tempo", apresentada pelo físico Neil deGrassen Tyson e produzida por Ann Druyan, viúva de Carl Sagan, a quem eu não saberia como apresentar, mas cito aqui como autor da primeira versão desta série, em 1980. [Mais uma] Indicação de ouro do curinga Jeferson Sabran.
Se eu tivesse que apresentar Carl Sagan aqui, contudo, diria apenas que foi o autor de um dos textos que me fizeram encantar pelo ceticismo científico há cerca de onze anos atrás. Para além da descrença, esse ceticismo pressupõe a dúvida como a maior dádiva da humanidade, negando tudo o que se afirma absoluto e contraria a razão humana.
"Quando é do conhecimento de todos que os deuses descem à Terra,
nós talvez tenhamos alucinações com deuses; quando todos nós estamos
familiarizados com demônios, aparecem os íncubos e os súcubos; quando os
duendes são aceitos por toda parte, vemos duendes; numa era de
espiritualismo, encontramos espíritos; e quando os antigos mitos se
enfraquecem e começamos a pensar que os seres extraterrestres são
plausíveis, é para eles que tendem as nossas imagens hipnagógicas."
(Carl Sagan - O Mundo Assombrado pelos Demônios)
Pouco tempo depois, o excesso de cientificismo [acadêmico] me entediou. Fórmulas exatas de pensamento, mesmo na área de Humanas, parecia não passar de mera repetição do óbvio. E o óbvio era que as pessoas estavam perdidas em repetições de discursos sobre os quais sequer refletiam, por falta de coragem, talvez, de conhecer o novo ou o diferente.
Exceto pelo "rótulo acadêmico", essa atitude em nada se diferenciava daquilo que Sagan descreve como "imagens hipnagógicas". Chegamos a criar um estigma para a atitude - Universidade, o "templo laico" do conhecimento.
Não longe disso, criamos nossas próprias "verdades" cotidianas, crendo no que quer que seja sob a desculpa de sermos, hoje, esclarecidos, e certamente repetimos tais imagens. Um astro do rock, o autor de um livro, uma página na rede social... nossos deuses já foram mitos, astronautas, doutores... hoje, são apenas detentores de um número considerável de seguidores ou fãs. Isso não os torna nem menos nem mais importantes, e é claro que não seremos abduzidos por um smartphone (espero!).
Por outro lado, ficou mais fácil (e mais frio) acompanhar uma rede social de bolso do que dedicar alguns minutos de nosso precioso tempo para refletir sobre a real influência que tais fatos têm em nossas vidas. Não dedicamos ainda a eles o benefício da dúvida que dedicamos outrora aos outros deuses - hoje, em sua maioria, desacreditados. Fazemos porque todo mundo faz...
"[...] E a sua roupa nova
É só uma roupa nova
Você não tem idéias
Pra acompanhar a moda
[...]
Nós somos tão modernos
Só não somos sinceros
Nos escondemos mais e mais
É só questão de idade
Passando dessa fase
Tanto fez e tanto faz"
(A Dança - Legião Urbana)
A Ciência, a Arte, a Religião, o dia-a-dia... tudo carece de humanização. E humanização significa romper pelo questionamento, pela dúvida. Após a tempestade - eu garanto - vem a poesia: há onze anos atrás, eu e um grupo de amigos elegemos a Arte como guia da ciência histórica. Há décadas atrás, o homem elegeu a Física como a poesia das Exatas, e a astronomia como a rima de seus versos. Há dois mil anos, o cristianismo precisou tornar humano e sacrificar um deus para se aproximar dos homens.
Você e eu, poeira das estrelas, gota d'água e grão de areia... somos completamente insignificantes diante da imensidão do que se apresenta a nós como Universo (ou multiversos?). E ainda, somos cada qual um universo único e paralelo caminhando por aí.
[No livro que inspirou este Blog, o capítulo de hoje é o dia em que o Curinga começa a colocar as cartas em ordem... Quantos universos ocultos começam a se apresentar para formar um todo coerente! Cada qual, em sua insignificância, ocupa um lugar no espaço-tempo de uma ordem maior... e a destruição de uma Paciência é apenas o início de outra]
Olho no espelho e vejo apenas novidade. Olho nos seus olhos, leitor, e vejo a mim mesma.
"Nós somos uma maneira do Cosmos conhecer a si mesmo"
(Carl Sagan)
"A destruição de uma Paciência é apenas o início de outra. .."
ResponderExcluirReconstrução. Dádiva e maldição. Dádiva porque somos infinitos dentro de nós mesmos. Maldição porque continuamos infinitos dentro de nós. Um pouco antes de ler seu texto, conversava sobre essa coisa de "ser e estar." As vezes acredito que deveríamos pertencer ao universo pra caber todo esse tudo que somos. Pertencemos ao nosso corpo e nossa mente, é fato. Entretanto, se somos frutos do universo, feitos de "poeira das estrelas", é óbvio que nunca caberemos dentro de nós. E mais: somos bem maiores do que a "caixa de todas as coisas" que criamos. ..Como se fossemos finitos. Como se sentir fosse palpável. Como se o amor se resumisse a 'estar do lado, estar atento'. Como se a boca falasse mais que os olhos. Deve ser por isso (também) que o som não se propaga no universo...
Acreditamos na racionalidade como algo maior que o infinito, maior do que aquilo que nos criou. E essa "raça racional" aprendeu a transformar em som tudo que sabe. E acha que sabe tudo. Na verdade, acho que o som da nossa voz nada mais é do que o eco do que não somos. Porque somos cria do universo. Somos infinito e silêncio. Reconstrução, queda. Tijolos à mercê do martelo do tempo. Poeira...
Belo texto, Curinga!
"Nós somos medo e desejo... somos feitos de silêncio e som. Tem certas coisas que eu não sei dizer..."
ResponderExcluirEstou desde a fronteira de quarta pra quinta-feira procurando palavras que dêem conta de expressar o calor produzido por este texto aqui no meu inverno pessoal. Exercitando a dúvida, duvido que existam palavras pra conseguir expressar uma sensação boa (ou ruim). Mesmo assim, neste código limitado de comunicação, esta trivialidade (o ato de escrever) pode ser o maior de nossos tesouros.
ResponderExcluirPor isso tento...
"tá legal, eu desisto: tudo já foi visto
olhos atentos a qualquer momento: é preciso acreditar
tudo bem, eu acredito: tudo já foi dito
olhos atentos a todo movimento: é preciso duvidar
viver não é preciso e nem sempre faz sentido
é preciso muito mais fé cega e pé atrás".
Talvez recorrer a fórmulas que sabemos agradáveis nas duas pontas deste ler/escrever seja uma artimanha desonesta... Será? Repito outra frase intrigante do Humberto Gessinger:
"há um ponto de partida, um ponto de união:
sentir com inteligência, pensar com emoção..."
Viver é bom assim... Espero que sigamos trocando valiosas "dicas de ouro" pra aproveitar da melhor maneira possível este acidente improvável que é a vida aqui e agora.