quarta-feira, 9 de setembro de 2015

#39 - REI DE OUROS - Perspectivas.

Saí do banco. Avisei a todos que estava a caminho. Essa viagem não seria nada demais - um feriado prolongado, com a família e os amigos. Churrasco, cerveja preta e, quem sabe, um chimarrão. Coisas que a alma pede, num suprassumo de simplicidade, mas a que o cérebro (tão cheio de suas razões) não atende no dia-a-dia.

Entrei no carro, arranquei... Um estalo. Em frações de segundo, um universo em câmera lenta se apresentou diante dos meus olhos, atônitos - contei cinco pingos de chuva caindo ao mesmo tempo no pára-brisas, destacando-se dentre os inúmeros outros que já escorriam... uma senhora de olhar cansado se espantou com minha súbita passagem e abriu a boca... um carro branco em minha frente ia ficando cada vez maior... e um prata em meu retrovisor também...

Puxei o freio de mão e vi o mundo num lapso de noventa graus. A chuva ficava cada vez mais bela, ao passo que eu filtrava (ou tentava) o som de suas gotas batendo contra a lataria do meu carro, em detrimento das buzinas e dos xingamentos ao meu redor.

Eu havia ficado sem freio e aquaplanado por uns cinquenta metros. A realidade, dita assim, racionalmente, é mais breve e mais dura que a forma poética narrada ali atrás. Mas escrevo para alimentar a minha própria memória - se houverem outros leitores, que cada um escolha a sua versão das "Aventuras de Pi". Aliás, é disto que se trata esse post e, penso eu, todas as leituras que fazemos - de uma questão de ponto de vista. 

Não relatei nenhuma experiência de quase-morte, nem sofri nenhum arranhão neste quase-acidente. Tampouco minha intenção foi a de impressionar alguém com meu relato quase-trágico (trágico, aqui, no sentido estrito - numa das versões dos fatos - e no sentido, digamos, nietzschiano - na outra versão deles). Talvez tenha sido apenas um segundo perdido no tempo... uma reflexão fantasiosa sobre um momento que poderia ter passado como outro qualquer... A vida é uma questão de perspectiva.

["Foi Deus... Foi o destino... Era / não era pra ser"]

"O medo nos leva a tudo,
sobretudo à fantasia...

Viver assim é um absurdo,
como outro qualquer..."
(HG)

O dia-a-dia de muita gente deve ser muito mais impressionante do que algumas linhas num blog de prosa e poesia - questão outra de ponto de vista.

"Matar um leão por dia" pode ser o simples fato de se chegar vivo e inteiro em casa no fim da tarde, ou um período repleto de acontecimentos fantásticos (ainda que sentado num escritório) que começam e terminam abençoados por dois astros cintilantes no céu - é preciso ver o nascer do sol e admirar a lua por alguns segundos ao menos uma vez na vida (ou no dia, mas este é o meu ponto de vista).

Senti falta dos amigos e da família nos dias que se passaram... Mas a solidão também é de ouro, e abriu alas neste inverno incessante para um naipe que vem provar que o coração vale mais do que a cifra - claro, também no meu ponto de vista.

"Você sabe por que a maioria das pessoas vive nesse mundo sem admirar as coisas que vê? 
- perguntou ele.  Fiz que não com a cabeça - Porque elas se habituam com o mundo!"
(O Dia do Curinga - Rei de Ouros)



2 comentários:

  1. Nada acontece por acaso, no meu ponto de vista. Todo encontro, desencontro, caminho traçado, vielas, atalhos, becos sem saída sempre dizem algo, as vezes sobre a vida, as vezes sobre nós mesmos. Nem sempre a moral da história existe. Mas, o Universo tem seus motivos. Minha vó perguntou de ti, e eu contei o que havia acontecido. Ouvi dela que "não era pra ser, minha filha..."e fiquei o fim de semana inteiro pensando em tudo que não era pra ser, em tudo que deveria ser, pensando tb na minha falta de jeito para lidar com isso. Não estou preparada pra lidar com os rumos que o Universo toma, é fato. Mas tb não posso ignorar o fato de que o desconhecido, o improvável e até mesmo o não adaptar-se já é uma solução, já é um caminho.
    Aí, as 5:45 da manhã dessa quinta feira, vem vc com o seu texto....e me faz dispensar toda e qualquer explicação sobre o que não entendo...
    Quero afirmar não só a alegria em ler o que escreve, mas principalmente em ler esse texto, nesse contexto, no meu ponto de vista. Vale ouro, assim como o silêncio, assim como o olhar, assim como o "não vou me adaptar. "
    Que hoje o Universo encontre um caminho, que a vida encontre um meio. Que haja encontros de olhares, mãos, sorrisos, prosas. Que nunca falte nem motivo e nem poesia. Que os Curingas, como vc, nunca faltem na minha vida, mesmo que seja pela tela ou pela voz no aparelho móvel. Que haja caminho, nem que seja atalho. E que seja leve.
    Belo texto, como sempre!
    E obrigada, como sempre!

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