Quantos jovens de nosso tempo já “perderam
tempo” enviando uma carta? De minha parte, lembro de ter selado algumas poucas. Logo apareceram os e-mails, mensagens sms, msn, redes sociais, WhatsApp...
Lembro de receber algumas poucas cartas do meu pai que, depois de uma briga com
minha mãe, ficou em Porto Alegre, onde moramos por alguns meses, e nós voltamos
pra Londrina, pra casa da minha avó materna, a Dalva... Eu tinha a idade que
meu filho mais velho tem hoje, nove anos.
O paradeiro do meu pai, por anos foi um
mistério... Mas um dia chegou uma carta de Campinas, no interior de São Paulo,
ele estava vivo e morando lá...
A irmã dele, mais velha, se tornou missionária
da igreja católica e, ela sim, enviava muitas cartas da Itália, onde morou por
longos anos... Hoje ela mora aqui em Londrina e, há quase cinco anos, comemorou
25 anos de freira e me chamou para, junto com uns amigos, tocar na comemoração
realizada em um salão de igreja. Uma canção missionária católica executada em
rock, pra dar uma preparada naquele publico diferente, e tome rock and roll dos
anos 1980... Teve freirinha “requebrando até o chão” ao som frenético que
fazíamos... Entre as canções do repertório, uma está presa em minha cabeça há
alguns dias... Foi a partir desta canção que pensei em escrever sobre cartas aqui.
Mas vou guarda-la pro final...
Volto a falar de minha experiência com
cartas: Escrevi algumas respostas pro meu pai a pedido da vó Mafalda, mãe dele.
Esperei ansioso algumas respostas, que, hora nem chegavam, hora demorava m muito
pra chegar. Não... Não posso dizer que tive uma grande experiência com cartas. Ao
menos não uma experiência tradicional... Os e-mails, chamados em português de
“correio eletrônico”, serviam sempre pra enviar/receber trabalhos acadêmicos,
ou piadas, curiosidades, textos religiosos, de autoajuda, de promoções...
Houve
alguém que rompeu com este paradigma e, pela primeira vez, me fez ver o correio
eletrônico como espaço para receber e enviar cartas. Assim nasceu uma amizade
de imenso valor na minha história. Trocamos cartas por algum tempo e era
exatamente assim que chamávamos – cartas. Quando eu demorava, vinha uma
cobrança: “hey, você não vai responder minha carta? Estou esperando!!!”.
Não é incrível esta possibilidade: jovem
das cartas escreve na tela mágica e suas palavras alcançam de maneira arrebatadora outra pessoa, do
outro lado! E isso é capaz de se propagar por horas e mais horas além daquele momento de leitura da carta...
Não é exatamente igual, mas a possibilidade de eu escrever agora em uma tela
mágica e isso ficar disponível para milhões de pessoas, portando outras telas mágicas, há milhares e milhares de
quilômetros pelo planeta, através da internet, é incrível... (Claro que a disponibilidade não equivale a leitura. Mas é bom ter a companhia de alguns poucos raros e dos teus olhos aqui e agora.) A mesma
possibilidade se aplica a todos os recursos tecnológicos citados acima: você
escreve em uma tela mágica que leva suas palavras para os destinos desejados
instantaneamente!
Infelizmente (ou felizmente) a tela mágica ainda não pode
se comunicar com o passado... A jovem das cartas partiu, pediu que a deixasse
partir... Tal qual o pequeno príncipe, abandonou sua casca e hoje habita em cada
ponto luminoso do céu noturno. Se minhas palavras superassem a velocidade da
luz, poderiam viajar no tempo e voltar até aquele lugar. Um lugar que não mais
existe. Um lugar no passado, um tempo em que se esperavam ligações e cartas. Um
tempo em que as noites de insônia poderiam ser preenchidas escrevendo cartas,
mesmo aquelas que nunca seriam mandadas...
Mas não sou carta pra ficar me
lamentando... Sou carta curinga! Sou carta que olha do alto e tira proveito de tudo o que a vida oferece, sobretudo da
liberdade que só tem quem sabe olhar. Sou a carta do impossível, a carta dos sonhos e do olhar saudável para a vida que se revela em pura poesia ao meu redor...
Mas agora, só agora,
Sou a carta do número
da perfeição:
Sou um sete e possuo
um coração!
Sete copas, feito
prece em oração
Carta fora do baralho
nas minhas mãos...
“...Toda noite de insônia eu penso em te escrever: escrever uma carta
definitiva
Voar fora do radar exige destreza. Nos últimos posts, demos tchau a esta forma de controle panóptica, que nos observa, ainda que veladamente, ainda que se passe por inocente e não intencional. Big brother da vida real, vigilância 3G... Boas novas: o poder também cria!
"Existem momentos na vida em que a questão de saber se se pode pensar diferentemente do que se pensa, e perceber diferentemente do que se vê, é indispensável para continuar a olhar ou a refletir" (Michel Foucault)
Se não cria decisões, cria seus alicerces. Cria os posts nossos de cada quarta (ou quinta, ou sexta…). Transforma a realidade em prosa e vice-versa, jamais sendo perdida a inspiração, seja por sorrisos ou fúrias. Como na máxima nietzscheana - "o que não mata, fortalece".
Somos movidos pelos nossos afãs. Não incomumente, nos vemos "divididos entre a Tabacaria, como coisa real por fora" e os nossos "sonhos, como coisa real por dentro". Nos vemos inclinados a escolhas e dispostos a pagar seus preços, e por vezes nos vemos falhando em tudo - pior ainda, nos vemos fazendo do tudo o nada, mero despropósito [Fernando Pessoa e seu alter-ego talvez tenham escrito o poema dos poemas, comendo um chocolate e fumando um cigarro, e traduzindo toda a angústia inerente à existência humana].
"Somos quem podemos ser
Sonhos que podemos ter"
(HG)
Diante dos fatos, somos também movidos por atos. Nossas reações aos jogos de poder, às frustrações ou às realizações, também são molas propulsoras de nossas histórias. Daí o peso da realidade em contraposição ao mundo ideal... Dói estar em contradição consigo mesmo, qual seja o motivo. Dói, além, estar em contradição consigo mesmo por forças alheias.
[sob o mesmo sol e sob a mesma lua, ainda que distante, encontro curingas no mesmo barco]
Em recentes leituras, descobri a genialidade de um autor chamado Niklas Luhmann, o qual descreve de forma sistêmica as relações de poder que criaram os ordenamentos jurídicos das sociedades atuais. As normas, genericamente falando, seriam uma forma de controle criada pela sociedade para lidar com as frustrações de suas expectativas. Antes da norma, quando alguém se frustrava com algo, simplesmente readaptava seus objetivos. Isoladamente parece simples. Contudo, considerando um sem número de expectativas num meio social, tal medida poderia se tornar um caos. A norma veio a instituir a expectativa como algo binário (é ou não é / é bom ou é mal / é certo ou é errado) e passou a evidenciar e a punir os que dela destoavam. A norma precisou ser institucionalizada pela opinião de terceiros (senso comum) e oficializada (por meio de juízo).
Esqueceu-se, porém, que as expectativas humanas não são ou deixam de ser qualquer coisa… vêm-a-ser. São doces e amargas a um só tempo. Não se curvam aos juízes, nem aos juízos de valor. Somente o espírito livre é senhor de si mesmo. Ao poder simbólico, só se curvam os cúmplices da dominação. Aos espectadores, um lamento - que busquem seus próprios sonhos, ou que sonhem junto, em realidade.
No capítulo de Seis de Copas, Ludwig desconfiava de Albert, o qual lhe perguntara, já afirmando, se ficaria definitivamente em Dorf. Sentiu-se incomodado com petulância do velho, que lhe contara uma história absurda sobre uma ilha cheia de anões, relato que se confundiu com o seu próprio passado. Sonho. Realidade. Expectativa. Ludwig, qual São Tomé, não entrou na paciência antes de ter uma prova concreta do que lhe dissera Albert - provou da bebida púrpura, saiu da realidade para encontrar a sua confirmação de realidade. Talvez a vida real não fosse tão interessante apenas através das palavras alheias…
“Tudo me foi dilucidado naquele dia. Os trogloditas eram os Imortais; o riacho de águas arenosas, o Rio que o cavaleiro procurava. Quanto à cidade cujo renome se havia espalhado até o Ganges, nove séculos fazia que os Imortais a haviam assolado. Com as relíquias de sua ruína ergueram, no mesmo lugar, a desatinada cidade que eu percorri: espécie de paródia ou reverso e também templo dos deuses irracionais que manejam o mundo e dos quais nada sabemos, salvo que não se parecem com o homem. Aquela fundação foi o último símbolo a que condescenderam os Imortais; marca uma etapa em que, julgando vã qualquer obra, determinaram viver no pensamento, na pura especulação. Erigiram a obra, esqueceram-na e foram morar nas covas.”
(Jorge Luis Borges - O Imortal)
Mudança de foco, compleição de expectativas, redução de contingências, ver pra crer... Há inúmeras teorias aí a fora explicando (ou tentando explicar) por que eu e você temos dentro do peito todos os sonhos do mundo… e algo mais. Ainda assim...
As palavras que encerraram o texto da
semana passada reverberaram por toda a semana de quatro de copas e, hoje, ouvem-se
ainda seus ecos em cinco de copas...
Não é apenas o equipamento usado por
militares pra detectar objetos a longas distancias. Radar pode ser uma bela
metáfora pra tudo que tenta nos controlar, observar e ditar o ritmo de nossos
movimentos. Nossa vida é repleta de radares. Esperam sempre que nos comportemos
“como convém” com a família, amigos, no trabalho, naquilo que se acredita que é
explicação para a vida e o mundo...
Se calcularmos tudo na ponta do lápis, há
muito mais voos rastreados que voos livres na nossa vida curta. Estamos sempre
atrelados a inúmeros valores alheios a nós. A sombra de opiniões dos outros
sobre nossas escolhas...
Nos falta muito a capacidade de agir pela vontade! Mas
a palavra "vontade" pode ser perigosa, afinal, nem todos sabem querer. Há quem
queira muito um objeto e, para tê-lo, rouba. Não é disso que falo. Querer é
algo muito mais complexo, que exige cálculo, que exige conhecimento ou intuição do caminho
e certo planejamento. Não basta subverter as regras. "Disciplina é liberdade." (Legião Urbana). Pra conseguir algo, é preciso
saber jogar com as regras. Caso contrário, seremos meros curingas descartados
do baralho – ainda mais inúteis que as cartas que vivem na cegueira de seus
rebanhos, famílias, naipes...
“...E eu pude fazer o que queria, sem ser
perturbado. Li sem parar, até que, já de madrugada, adormeci...” (O dia do
Curinga – Cinco de Copas – Jostein Gaarder)
Quantas vezes curingas de todo o mundo
abriram mão de uma boa leitura para parecer gentil, ou pra cumprir convenções
sociais? A todos os curingas do mundo, desejo que possam ouvir e sentir o
silêncio do inevitável, o vácuo ensurdecedor da não existência, que nos faz
querer aproveitar ao máximo o que ainda há enquanto respiramos. E que o nossos
devaneios aqui no clã, sejam destes sopros de alegria, afinal, é na infinidade
de silêncios que havia antes de nós e na infinidade que virá depois - que
valorizamos o som que é possível hoje!!!
Louco é quem segue o fluxo, quem procura
em guias, mestres, gurus algo a ser copiado... O louco, ao imitar seu mestre,
ofende ao mesmo. O mestre deve ser superado! A grande cidade que prende pessoas
como gado e todos os loucos que nos roubam o encanto diante da vida, não
merecem nem nosso ódio. É preciso passar além deles. A vida só pode ser
grandiosa para além dos radares.
“...tuas palavras de louco prejudicam a
mim mesmo quando estás certo! E, ainda que as palavras de Zaratustra fossem mil
vezes certas: tu, com minhas palavras, sempre — farias errado!
Assim falou Zaratustra; e ele olhou para
a grande cidade, suspirou e longamente ficou em silêncio. Por fim, falou assim:
Também me enjoa essa grande cidade, não
apenas esse louco. Num e noutro não há o que melhorar, não há o que piorar.
Ai dessa grande cidade! — E eu gostaria
de já enxergar a coluna de fogo em que ela arderá! Pois tais colunas de fogo
devem preceder o grande meio-dia. Mas esse tem seu tempo e seu destino. — E
este ensinamento te dou, ó louco, como despedida: onde não se pode mais amar,
deve-se — passar ao largo! — Assim falou Zaratustra, passando ao largo do louco
e da grande cidade.”
(Assim Falou Zaratustra - Do Passar Além - Friedrich
Nietzsche)
Pausa. Finalmente consigo me sentar frente ao computador para escrever este post atrasado. Quem dá as cartas dos dias esqueceu-se de avisar-nos para cuidar de não sermos engolidos pelas engrenagens do tempo!
Mas, novamente, não peço desculpas pelo atraso. Como bem o sustentou meu colega de clã, em diálogos ocultos aos leitores, mas presentes nestas entrelinhas, a poesia (ou a prosa) tem o tempo certo de florescer - tal qual a primavera que acalenta as palavras que ora publico, tal qual os pãezinhos que descansaram fermentando antes de serem assados pelas anãs de copas no livro que inspira esse blog de poucos, mas valiosos leitores.
"Hoje eu quero, apenas, uma pausa de mil compassos..."
(Marisa Monte - Para ver as Meninas)
Confesso que me faltaram palavras esta semana. Como fato inédito, senti perder pelos vãos dos dedos as palavras que me invadem cada vez que faço login aqui. Uma dor. Incessante. O simples fato de ter de sentar-me comprometeu as frases vindouras. Mas não a poesia em mim reticente.
Assim como a primavera floresceu em nós há poucos dias, superando um inverno rigoroso (dos dias e da alma), a semana também foi de superação física e emocional. Conquistas. Celebrações. Todas em momentos oportunos e recebendo a devida gratidão.
Senti falta, contudo, justamente das pausas, que nos tornam humanos. O café de quinta. O chimarrão mais cedo, em minha própria companhia. Pessoas menos prolixas. Companhias, em silêncio, que acrescentassem. Menos "Tempos Modernos". Menos "Comfortably Numbs". Mais "Janelas Laterais".
"Quando eu falava dessas cores mórbidas
Quando eu falava desses homens sórdidos
Quando eu falava desse temporal
Você não escutou..."
(Flávio Venturini - Janela Lateral)
[Fui ver o filme novo do Roger Waters. Me peguei inebriada pensando no paradoxo entre o britânico dos contos de fadas, que toma religiosamente seu chá das cinco, e aquele do english way de Roger Waters, que segue em frente em desespero silencioso. Paradoxo? Ou apenas uma forma diferente de passar o tempo confortavelmente anestesiados?]
"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo."
(Álvaro de Campos)
O que é a realidade? Até que ponto vivemos de ficção? Nossos sonhos são combustíveis ou apenas ensaios absurdos? Quem dá as cartas, Deus, os deuses, nós mesmos?
A ilha de Humberto Gessinger, o Muro de Roger Waters, o sonho que se sonha só de Raul Seixas... as metáforas que compõem obras que tanto nos influenciaram talvez nos revelem justamente essa impotência humana, a de não conseguir transpor o abismo de si mesmo.
Enquanto fazemos preces, os deuses jogam pôquer, e deixam todo o resto conosco. Haverá em mim gratidão maior? Viver absurdamente por viver... vale a minha conta e risco simplesmente pelos encontros no caminho. Um absurdo como outro qualquer.
Se os dias foram tensos, que a poesia prevaleça no que há de vir. Que a prece vire pressa. Que as cartas estejam em nossas próprias mangas, ainda que a gente não entenda nada do que está aí a fora. Tchau, radar!
Poucos minutos antes do fim do último dia
do curinga, as palavras introdutórias deste clã anunciaram a meia-noite do novo
ano! Desde aquele primeiro segundo do dia 18/12/2014, as semanas se iniciam na
meia-noite das quintas-feiras. Desde então, cada uma das 41 semanas que se
passaram contou com uma comemoração em verso, prosa e melodia por aqui. O fato
de não anunciarmos a nova semana nos minutos finais da quarta-feira, não impede
a semana de começar, nem a nossa celebração pelo início da mesma. Mesmo assim,
com ou sem hora exata, cada uma das semanas teve seu monumento em forma de
letras, números, naipes, símbolos e tons sonoros.
No último monumento que construí, ansiava
pelo fogo primaveril que queimaria todo o gelo. Ironicamente, sem apelo
linguístico ou metáforas, aquela última semana do inverno foi a mais quente do
ano, superando as semanas de verão, por conta do fenômeno que chamam de “El
Niño”. Naquela mesma semana ouvi alguém dizer que a matemática da felicidade é “realidade
menos expectativa” Podemos representar assim pelas iniciais: R - E = F. Parece uma
conta simples, afinal, basta não ter qualquer expectativa para ser feliz. Mas
será que algum ser humano é capaz de extinguir suas expectativas diante da
vida? O fato de nos acostumarmos com a rotina dos dias ao nosso redor, gera a
expectativa de que tudo fique sempre “bem”, “em paz”, “como tudo deve ser”...
Talvez, um caminho mais fácil pra felicidade, seja trocar expectativas difíceis
e simples (como aquelas que dependem da vontade de outros seres humanos), por
expectativas mais fáceis e grandiosas (como o nascer do sol pelas manhãs ou os
dias maiores que surgem com a chegada da primavera):
“... Estrela, eu lhe
diria
Desce à Terra, o amor
existe
E a poesia só espera
ver
Nascer a primavera
Para não morrer...”
(Primavera – Vinicius de
Moraes)
Há tempos eu não andava tão feliz por
aí... Desejei ardentemente a chegada da primavera! Embalado por sonhos e
lembranças agradáveis de minha estação preferida, não desejava nada além dela
própria, a Primavera... E não é que esta chegada foi extremamente especial? Ela trouxe alívio para os dias quentes do inverno.
"Lembro-me
ainda de que reconheci o seu perfume e de que mal cabia em mim de tanta
felicidade. Não era o tipo de felicidade que a gente experimenta quando come ou
bebe alguma coisa gostosa, pois esse tipo de felicidade a gente sente só na
boca. Não... naquela hora, todo o meu corpo fervia de felicidade." (O Dia
do Curinga – Três de Copas – Jostein Gaarder)
Em seus
primeiros dias, acompanhei notícias surreais, como a do Líder da Igreja católica
atacando valores tradicionais do povo dos Estados Unidos da América no
congresso nacional daquele país. Depois, no mesmo país, talvez onde haja mais
fanáticos nacionalistas no planeta, a cantora colombiana Shakira cantou pra
chefes de estado da ONU uma canção que é considerada um hino anarquista, “Imagine”
de John Lennon, que, entre outras coisas, sonha com um mundo dividido por todas
as pessoas do planeta sem a necessidade de bandeiras nacionais nem propriedade
privada... Surreal... Lennon, que morava na mesma Nova York da reunião da ONU,
foi duramente perseguido pelo presidente Nixon por causa de tais ideias nos
anos 1970.
Mas estas “histórias reais” são tão
surreais quanto as histórias de Alice, Hans Thomas, Sofia, Curinga... Somos
sonhadores – e não somos os únicos!!!
Para além do mundo da política,
reencontrei um velho companheiro de partidas de futsal. Matávamos aula pra
jogar bola a noite e tínhamos um time, o abelhux. Depois de 15 anos, saí do
mesmo colégio, onde agora sou professor, e fui jogar bola com ele. Ele goleiro e
eu atacante... Fiz os gols que nunca tinha feito nele, pois sempre jogamos no
mesmo time. Um grande dia! O segundo da primavera, o primeiro de dois de copas...
Eu passaria horas narrando os momentos
felizes desta primavera recém-chegada... Foi isso que comecei a fazer ontem e
me perdi entre sensações e desejo de traduzir tudo em palavra... Mas vou me
ater aos dias mais fantásticos: Sábado choveu o dia todo. Domingo acordei de
madrugada e saí pedalando... Fazia frio, mas a chuva tinha cessado. Vi o sol
nascer na estrada. Vi também o tempo se fechar novamente em nuvens de chuva. Mais
de três horas de solitária pedalada por municípios vizinhos e circulando o perímetro
urbano de Londrina... Cheguei em casa ainda disposto, sem as dores comuns a um exercício
intenso. Depois do almoço, vi o céu ficar azul novamente. Ouvi o jogo do meu
time de futebol pelo radio, pois jogavam longe de cidade. O eclipse previsto
pra noite seria visível! Meu coração encheu-se de alegria! Nunca houvera um
eclipse de super-lua desde que nasci!
Vitória do Londrina! Comemoração com meu
filho! Mas o céu se fechava novamente... De repente, armou-se uma tempestade
e... Não haveria mais a possibilidade de ver o eclipse! Tristeza? Frustração? Que
nada!!! Acho que estou aprendendo a lidar com essa coisa de expectativa...
Na hora marcada pro eclipse a tempestade
tinha cessado. Saí na rua e fui até a quadra de futebol em ruinas na frente da
minha casa. Parei naquele local aberto e ergui a cabeça em direção ao céu. Mesmo
com a trégua da chuva, não havia qualquer fresta entre as nuvens que revelasse o céu
noturno. Mas eu sabia que, para além das nuvens, sol terra e lua estavam
alinhados. Mais que isso, sentia o acontecimento.
Assim que voltei pra casa,
deitei na rede da varanda e ouvi a TV ligada dentro de casa falando sobre o
concurso “Legionário por Um Dia”, do Fantástico, na TV globo. Os 5 escolhidos
pelos dois sobreviventes do trio Legião Urbana, cantariam uma música no palco
com os ídolos. Como eu tinha gravado justamente a musica do concurso no ano
anterior, com meu ukulele, resolvi mandar... Vai que cola, né?
Mas não criei expectativa. Soube que eram
em torno de cinco mil os vídeos enviados. O meu provavelmente nem teria sido
visto. Peguei a reportagem no meio e, depois de mostrar os vencedores,
inteligentemente selecionados entre as duas maiores cidades do país (no
sudeste) e as outras regiões, fizeram uma edição onde apareceram os vencedores
e outros três. Eu era um dos três:
Veja só... Eu que sonhei com três
segundos de encontro corporal em chamas com Às de Copas, tive meus três segundos
de aparição em rede nacional... E quase todos os que me reconheceram disseram
que o fizeram porque só podia ser eu, com a camisa do Londrina, tocando Legião
Urbana. Me tornei, de repente, um sujeito fantástico - vestido com a camisa do
Londrina? Não havia camisa do Londrina. Expliquei apenas uma vez, depois, deixei
ser assim... Claro que tenho e uso camisas do Londrina. Mas o gosto por camisa
listrada em azul e branco vai além. Tenho camisas da Argentina e, aquela do vídeo,
é apenas uma camisa de marca esportiva famosa, listrada em azul e branco... não
importa... O que aconteceu depois foi uma enxurrada de mensagens em redes
sociais, ligações telefônicas e os meus alunos na escola achando o máximo o
fato de eu ter “ido no fantástico”... hahahaha
Dizer que não achei legal seria
hipocrisia. A maioria concorda que estive perto de ser escolhido. Pode ser...
Muitos Lamentaram por eu ter “perdido”... Não perdi! Meus filhos riram as mais
gostosas gargalhadas quando apareci tocando “tuculele” [Clara] na TV na hora do
jantar deles. Dois dos caras que mais admiro na música viram meu vídeo em
homenagem a eles e, de quebra, a edição me colocou ali, cantando junto com o
Renato Russo. Foi demais... Não pelo Fantástico em si, ou a tal “aparição
nacional”, mas por ter uma fração de minha história passando perto da história
da minha banda preferida.
Todo este burburinho acabou dando
contornos especiais à simplicidade do dia seguinte. Segunda-feira o dia começou
ensolarado... Nuvens, relâmpagos e água que taparam o momento em que a terra
taparia a luz da lua, não estavam mais. Lindo dia!
Mas foi à noite que presenciei um
fenômeno raro, único, irrepetível... A lua estava lá. Imensa e brilhante como
eu nunca tinha visto. Da ciclovia que margeia o shopping perto da minha casa,
vi a lua por entre o esqueleto da construção do futuro teatro municipal. Aquilo
nunca se repetiria. E mesmo se você, que agora tem seus olhos presos nestas
frias palavras, quiser ir sentir e viver o mesmo que vivi - ainda que vá ao
mesmo local, com a mesma bicicleta, não verá o que vi. Hoje a lua não será a
mesma que vi. Nunca mais será. Mais do que isso, o que vi tem a ver com cada
momento que vivi até então, por isso, nem eu poderei repetir aquele momento,
pois, também eu, já não sou o mesmo...
O agora é raro!!! A vida é rara!!! Não há
palavra no mundo que garanta que eu vá te convencer disso, mas há você e todos os
seus sentidos! Coragem! É três de copas... Estou 12 horas atrasado. No mês que
acabou há doze horas, pedalei por 34 horas. Foram 567 quilômetros... Veja os números
que escrevi em sequência e entenda que o mundo é perfeito se a gente quiser... 1,2,3,4,5,6,7...
O que vem depois do sete? Quem é você
nesta troca escrever/ler? Estamos conectados e, depois do sete, vem o infinito
em pé... Agora não é a meia-noite... Mas é meio-dia... Qual é a diferença? Sempre é tempo de desejar e ser feliz:
"Uma
gota de orvalho? Perfume e Vapor de eternidade? Não ouvis? Não sentis o aroma?
Meu mundo se tornou perfeito nesse instante, meia-noite é também meio-dia, —
A
dor também é um prazer, a maldição também é uma bênção, a noite também é um sol
— ide embora, ou aprendeis: um sábio também é um tolo.
Dissestes
alguma vez Sim a um só prazer? Oh, meus amigos, então dissestes também Sim a
todo sofrimento. Todas as coisas são encadeadas, emaranhadas, enamoradas, — e,
se um dia quisestes duas vezes o que houve uma vez, se algum dia dissestes ‘tu
me agradas, felicidade! Vem, instante!', então quisestes que tudo voltasse!
—
Tudo de novo, tudo eternamente, tudo encadeado, emaranhado, enamorado, oh,
assim amais vós o mundo [...]" (Assim Falou Zaratustra – Friedrich NIETZSCHE).