Voar fora do radar exige destreza. Nos últimos posts, demos tchau a esta forma de controle panóptica, que nos observa, ainda que veladamente, ainda que se passe por inocente e não intencional. Big brother da vida real, vigilância 3G... Boas novas: o poder também cria!
"Existem momentos na vida em que a questão de saber se se pode pensar diferentemente do que se pensa, e perceber diferentemente do que se vê, é indispensável para continuar a olhar ou a refletir" (Michel Foucault)
Se não cria decisões, cria seus alicerces. Cria os posts nossos de cada quarta (ou quinta, ou sexta…). Transforma a realidade em prosa e vice-versa, jamais sendo perdida a inspiração, seja por sorrisos ou fúrias. Como na máxima nietzscheana - "o que não mata, fortalece".
Somos movidos pelos nossos afãs. Não incomumente, nos vemos "divididos entre a Tabacaria, como coisa real por fora" e os nossos "sonhos, como coisa real por dentro". Nos vemos inclinados a escolhas e dispostos a pagar seus preços, e por vezes nos vemos falhando em tudo - pior ainda, nos vemos fazendo do tudo o nada, mero despropósito [Fernando Pessoa e seu alter-ego talvez tenham escrito o poema dos poemas, comendo um chocolate e fumando um cigarro, e traduzindo toda a angústia inerente à existência humana].
"Somos quem podemos ser
Sonhos que podemos ter"
(HG)
Diante dos fatos, somos também movidos por atos. Nossas reações aos jogos de poder, às frustrações ou às realizações, também são molas propulsoras de nossas histórias. Daí o peso da realidade em contraposição ao mundo ideal... Dói estar em contradição consigo mesmo, qual seja o motivo. Dói, além, estar em contradição consigo mesmo por forças alheias.
[sob o mesmo sol e sob a mesma lua, ainda que distante, encontro curingas no mesmo barco]
Em recentes leituras, descobri a genialidade de um autor chamado Niklas Luhmann, o qual descreve de forma sistêmica as relações de poder que criaram os ordenamentos jurídicos das sociedades atuais. As normas, genericamente falando, seriam uma forma de controle criada pela sociedade para lidar com as frustrações de suas expectativas. Antes da norma, quando alguém se frustrava com algo, simplesmente readaptava seus objetivos. Isoladamente parece simples. Contudo, considerando um sem número de expectativas num meio social, tal medida poderia se tornar um caos. A norma veio a instituir a expectativa como algo binário (é ou não é / é bom ou é mal / é certo ou é errado) e passou a evidenciar e a punir os que dela destoavam. A norma precisou ser institucionalizada pela opinião de terceiros (senso comum) e oficializada (por meio de juízo).
Esqueceu-se, porém, que as expectativas humanas não são ou deixam de ser qualquer coisa… vêm-a-ser. São doces e amargas a um só tempo. Não se curvam aos juízes, nem aos juízos de valor. Somente o espírito livre é senhor de si mesmo. Ao poder simbólico, só se curvam os cúmplices da dominação. Aos espectadores, um lamento - que busquem seus próprios sonhos, ou que sonhem junto, em realidade.
No capítulo de Seis de Copas, Ludwig desconfiava de Albert, o qual lhe perguntara, já afirmando, se ficaria definitivamente em Dorf. Sentiu-se incomodado com petulância do velho, que lhe contara uma história absurda sobre uma ilha cheia de anões, relato que se confundiu com o seu próprio passado. Sonho. Realidade. Expectativa. Ludwig, qual São Tomé, não entrou na paciência antes de ter uma prova concreta do que lhe dissera Albert - provou da bebida púrpura, saiu da realidade para encontrar a sua confirmação de realidade. Talvez a vida real não fosse tão interessante apenas através das palavras alheias…
“Tudo me foi dilucidado naquele dia. Os trogloditas eram os Imortais; o riacho de águas arenosas, o Rio que o cavaleiro procurava. Quanto à cidade cujo renome se havia espalhado até o Ganges, nove séculos fazia que os Imortais a haviam assolado. Com as relíquias de sua ruína ergueram, no mesmo lugar, a desatinada cidade que eu percorri: espécie de paródia ou reverso e também templo dos deuses irracionais que manejam o mundo e dos quais nada sabemos, salvo que não se parecem com o homem. Aquela fundação foi o último símbolo a que condescenderam os Imortais; marca uma etapa em que, julgando vã qualquer obra, determinaram viver no pensamento, na pura especulação. Erigiram a obra, esqueceram-na e foram morar nas covas.”
(Jorge Luis Borges - O Imortal)
Mudança de foco, compleição de expectativas, redução de contingências, ver pra crer... Há inúmeras teorias aí a fora explicando (ou tentando explicar) por que eu e você temos dentro do peito todos os sonhos do mundo… e algo mais. Ainda assim...
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