quinta-feira, 1 de outubro de 2015

#42- TRÊS DE COPAS – Um sujeito fantástico - vestido com a camisa do Londrina?

Poucos minutos antes do fim do último dia do curinga, as palavras introdutórias deste clã anunciaram a meia-noite do novo ano! Desde aquele primeiro segundo do dia 18/12/2014, as semanas se iniciam na meia-noite das quintas-feiras. Desde então, cada uma das 41 semanas que se passaram contou com uma comemoração em verso, prosa e melodia por aqui. O fato de não anunciarmos a nova semana nos minutos finais da quarta-feira, não impede a semana de começar, nem a nossa celebração pelo início da mesma. Mesmo assim, com ou sem hora exata, cada uma das semanas teve seu monumento em forma de letras, números, naipes, símbolos e tons sonoros.
No último monumento que construí, ansiava pelo fogo primaveril que queimaria todo o gelo. Ironicamente, sem apelo linguístico ou metáforas, aquela última semana do inverno foi a mais quente do ano, superando as semanas de verão, por conta do fenômeno que chamam de “El Niño”. Naquela mesma semana ouvi alguém dizer que a matemática da felicidade é “realidade menos expectativa” Podemos representar assim pelas iniciais: R - E = F. Parece uma conta simples, afinal, basta não ter qualquer expectativa para ser feliz. Mas será que algum ser humano é capaz de extinguir suas expectativas diante da vida? O fato de nos acostumarmos com a rotina dos dias ao nosso redor, gera a expectativa de que tudo fique sempre “bem”, “em paz”, “como tudo deve ser”... Talvez, um caminho mais fácil pra felicidade, seja trocar expectativas difíceis e simples (como aquelas que dependem da vontade de outros seres humanos), por expectativas mais fáceis e grandiosas (como o nascer do sol pelas manhãs ou os dias maiores que surgem com a chegada da primavera):

“... Estrela, eu lhe diria
Desce à Terra, o amor existe
E a poesia só espera ver
Nascer a primavera
Para não morrer...”
(Primavera – Vinicius de Moraes)

Há tempos eu não andava tão feliz por aí... Desejei ardentemente a chegada da primavera! Embalado por sonhos e lembranças agradáveis de minha estação preferida, não desejava nada além dela própria, a Primavera... E não é que esta chegada foi extremamente especial? Ela trouxe alívio para os dias quentes do inverno. 

"Lembro-me ainda de que reconheci o seu perfume e de que mal cabia em mim de tanta felicidade. Não era o tipo de felicidade que a gente experimenta quando come ou bebe alguma coisa gostosa, pois esse tipo de felicidade a gente sente só na boca. Não... naquela hora, todo o meu corpo fervia de felicidade." (O Dia do Curinga – Três de Copas – Jostein Gaarder)

Em seus primeiros dias, acompanhei notícias surreais, como a do Líder da Igreja católica atacando valores tradicionais do povo dos Estados Unidos da América no congresso nacional daquele país. Depois, no mesmo país, talvez onde haja mais fanáticos nacionalistas no planeta, a cantora colombiana Shakira cantou pra chefes de estado da ONU uma canção que é considerada um hino anarquista, “Imagine” de John Lennon, que, entre outras coisas, sonha com um mundo dividido por todas as pessoas do planeta sem a necessidade de bandeiras nacionais nem propriedade privada... Surreal... Lennon, que morava na mesma Nova York da reunião da ONU, foi duramente perseguido pelo presidente Nixon por causa de tais ideias nos anos 1970.
Mas estas “histórias reais” são tão surreais quanto as histórias de Alice, Hans Thomas, Sofia, Curinga... Somos sonhadores – e não somos os únicos!!!
Para além do mundo da política, reencontrei um velho companheiro de partidas de futsal. Matávamos aula pra jogar bola a noite e tínhamos um time, o abelhux. Depois de 15 anos, saí do mesmo colégio, onde agora sou professor, e fui jogar bola com ele. Ele goleiro e eu atacante... Fiz os gols que nunca tinha feito nele, pois sempre jogamos no mesmo time. Um grande dia! O segundo da primavera, o primeiro de dois de copas...
Eu passaria horas narrando os momentos felizes desta primavera recém-chegada... Foi isso que comecei a fazer ontem e me perdi entre sensações e desejo de traduzir tudo em palavra... Mas vou me ater aos dias mais fantásticos: Sábado choveu o dia todo. Domingo acordei de madrugada e saí pedalando... Fazia frio, mas a chuva tinha cessado. Vi o sol nascer na estrada. Vi também o tempo se fechar novamente em nuvens de chuva. Mais de três horas de solitária pedalada por municípios vizinhos e circulando o perímetro urbano de Londrina... Cheguei em casa ainda disposto, sem as dores comuns a um exercício intenso. Depois do almoço, vi o céu ficar azul novamente. Ouvi o jogo do meu time de futebol pelo radio, pois jogavam longe de cidade. O eclipse previsto pra noite seria visível! Meu coração encheu-se de alegria! Nunca houvera um eclipse de super-lua desde que nasci!
Vitória do Londrina! Comemoração com meu filho! Mas o céu se fechava novamente... De repente, armou-se uma tempestade e... Não haveria mais a possibilidade de ver o eclipse! Tristeza? Frustração? Que nada!!! Acho que estou aprendendo a lidar com essa coisa de expectativa...
Na hora marcada pro eclipse a tempestade tinha cessado. Saí na rua e fui até a quadra de futebol em ruinas na frente da minha casa. Parei naquele local aberto e ergui a cabeça em direção ao céu. Mesmo com a trégua da chuva, não havia qualquer fresta entre as nuvens que revelasse o céu noturno. Mas eu sabia que, para além das nuvens, sol terra e lua estavam alinhados. Mais que isso, sentia o acontecimento.
Assim que voltei pra casa, deitei na rede da varanda e ouvi a TV ligada dentro de casa falando sobre o concurso “Legionário por Um Dia”, do Fantástico, na TV globo. Os 5 escolhidos pelos dois sobreviventes do trio Legião Urbana, cantariam uma música no palco com os ídolos. Como eu tinha gravado justamente a musica do concurso no ano anterior, com meu ukulele, resolvi mandar... Vai que cola, né?
Mas não criei expectativa. Soube que eram em torno de cinco mil os vídeos enviados. O meu provavelmente nem teria sido visto. Peguei a reportagem no meio e, depois de mostrar os vencedores, inteligentemente selecionados entre as duas maiores cidades do país (no sudeste) e as outras regiões, fizeram uma edição onde apareceram os vencedores e outros três. Eu era um dos três:


Veja só... Eu que sonhei com três segundos de encontro corporal em chamas com Às de Copas, tive meus três segundos de aparição em rede nacional... E quase todos os que me reconheceram disseram que o fizeram porque só podia ser eu, com a camisa do Londrina, tocando Legião Urbana. Me tornei, de repente, um sujeito fantástico - vestido com a camisa do Londrina? Não havia camisa do Londrina. Expliquei apenas uma vez, depois, deixei ser assim... Claro que tenho e uso camisas do Londrina. Mas o gosto por camisa listrada em azul e branco vai além. Tenho camisas da Argentina e, aquela do vídeo, é apenas uma camisa de marca esportiva famosa, listrada em azul e branco... não importa... O que aconteceu depois foi uma enxurrada de mensagens em redes sociais, ligações telefônicas e os meus alunos na escola achando o máximo o fato de eu ter “ido no fantástico”... hahahaha
Dizer que não achei legal seria hipocrisia. A maioria concorda que estive perto de ser escolhido. Pode ser... Muitos Lamentaram por eu ter “perdido”... Não perdi! Meus filhos riram as mais gostosas gargalhadas quando apareci tocando “tuculele” [Clara] na TV na hora do jantar deles. Dois dos caras que mais admiro na música viram meu vídeo em homenagem a eles e, de quebra, a edição me colocou ali, cantando junto com o Renato Russo. Foi demais... Não pelo Fantástico em si, ou a tal “aparição nacional”, mas por ter uma fração de minha história passando perto da história da minha banda preferida.
Todo este burburinho acabou dando contornos especiais à simplicidade do dia seguinte. Segunda-feira o dia começou ensolarado... Nuvens, relâmpagos e água que taparam o momento em que a terra taparia a luz da lua, não estavam mais. Lindo dia!
Mas foi à noite que presenciei um fenômeno raro, único, irrepetível... A lua estava lá. Imensa e brilhante como eu nunca tinha visto. Da ciclovia que margeia o shopping perto da minha casa, vi a lua por entre o esqueleto da construção do futuro teatro municipal. Aquilo nunca se repetiria. E mesmo se você, que agora tem seus olhos presos nestas frias palavras, quiser ir sentir e viver o mesmo que vivi - ainda que vá ao mesmo local, com a mesma bicicleta, não verá o que vi. Hoje a lua não será a mesma que vi. Nunca mais será. Mais do que isso, o que vi tem a ver com cada momento que vivi até então, por isso, nem eu poderei repetir aquele momento, pois, também eu, já não sou o mesmo...
O agora é raro!!! A vida é rara!!! Não há palavra no mundo que garanta que eu vá te convencer disso, mas há você e todos os seus sentidos! Coragem! É três de copas... Estou 12 horas atrasado. No mês que acabou há doze horas, pedalei por 34 horas. Foram 567 quilômetros... Veja os números que escrevi em sequência e entenda que o mundo é perfeito se a gente quiser... 1,2,3,4,5,6,7...


O que vem depois do sete? Quem é você nesta troca escrever/ler? Estamos conectados e, depois do sete, vem o infinito em pé... Agora não é a meia-noite... Mas é meio-dia... Qual é a diferença? Sempre é tempo de desejar e ser feliz:

"Uma gota de orvalho? Perfume e Vapor de eternidade? Não ouvis? Não sentis o aroma? Meu mundo se tornou perfeito nesse instante, meia-noite é também meio-dia, —
A dor também é um prazer, a maldição também é uma bênção, a noite também é um sol — ide embora, ou aprendeis: um sábio também é um tolo.
Dissestes alguma vez Sim a um só prazer? Oh, meus amigos, então dissestes também Sim a todo sofrimento. Todas as coisas são encadeadas, emaranhadas, enamoradas, — e, se um dia quisestes duas vezes o que houve uma vez, se algum dia dissestes ‘tu me agradas, felicidade! Vem, instante!', então quisestes que tudo voltasse!
— Tudo de novo, tudo eternamente, tudo encadeado, emaranhado, enamorado, oh, assim amais vós o mundo [...]" (Assim Falou Zaratustra – Friedrich NIETZSCHE).

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