quarta-feira, 12 de agosto de 2015

#35 - Nove de Ouros - somos todos da mesma linhagem?

Existe uma teoria que afirma que, neste planeta, tudo o que existe é formado de poeira de estrelas. Outra complementa esta e afirma que todo ser humano descende de um ancestral comum. 

Para os que acreditam em histórias um pouco mais mirabolantes, temos a astrologia e o livro do Gênesis. 

Seja na Ciência ou na Arte, somos levados a acreditar que há uma identidade que nos une, algo que ficou lá atrás, "escrito nas estrelas". 

Por outro lado, basta um olhar, ainda que desatento, para notar estranheza até mesmo no espelho. Somos reflexos das mudanças que, por milênios, nos tornaram seres únicos neste universo, que também é único dentre tantos outros (será?).

"Se eu amo o meu semelhante? Sim.
Mas onde encontrar o meu semelhante?"
(Mário Quintana)

A minha provocação do dia é fruto de reflexões sobre a série "Cosmos - uma Odisseia no Espaço-tempo", apresentada pelo físico Neil deGrassen Tyson e produzida por Ann Druyan, viúva de Carl Sagan, a quem eu não saberia como apresentar, mas cito aqui como autor da primeira versão desta série, em 1980. [Mais uma] Indicação de ouro do curinga Jeferson Sabran.

Se eu tivesse que apresentar Carl Sagan aqui, contudo, diria apenas que foi o autor de um dos textos que me fizeram encantar pelo ceticismo científico há cerca de onze anos atrás. Para além da descrença, esse ceticismo pressupõe a dúvida como a maior dádiva da humanidade, negando tudo o que se afirma absoluto e contraria a razão humana.

"Quando é do conhecimento de todos que os deuses descem à Terra, nós talvez tenhamos alucinações com deuses; quando todos nós estamos familiarizados com demônios, aparecem os íncubos e os súcubos; quando os duendes são aceitos por toda parte, vemos duendes; numa era de espiritualismo, encontramos espíritos; e quando os antigos mitos se enfraquecem e começamos a pensar que os seres extraterrestres são plausíveis, é para eles que tendem as nossas imagens hipnagógicas." 
(Carl Sagan - O Mundo Assombrado pelos Demônios)

Pouco tempo depois, o excesso de cientificismo [acadêmico] me entediou. Fórmulas exatas de pensamento, mesmo na área de Humanas, parecia não passar de mera repetição do óbvio. E o óbvio era que as pessoas estavam perdidas em repetições de discursos sobre os quais sequer refletiam, por falta de coragem, talvez, de conhecer o novo ou o diferente.

Exceto pelo "rótulo acadêmico", essa atitude em nada se diferenciava daquilo que Sagan descreve como "imagens hipnagógicas". Chegamos a criar um estigma para a atitude - Universidade, o "templo laico" do conhecimento. 

Não longe disso, criamos nossas próprias "verdades" cotidianas, crendo no que quer que seja sob a desculpa de sermos, hoje, esclarecidos, e certamente repetimos tais imagens. Um astro do rock, o autor de um livro, uma página na rede social... nossos deuses já foram mitos, astronautas, doutores... hoje, são apenas detentores de um número considerável de seguidores ou fãs. Isso não os torna nem menos nem mais importantes, e é claro que não seremos abduzidos por um smartphone (espero!). 

Por outro lado, ficou mais fácil (e mais frio) acompanhar uma rede social de bolso do que dedicar alguns minutos de nosso precioso tempo para refletir sobre a real influência que tais fatos têm em nossas vidas. Não dedicamos ainda a eles o benefício da dúvida que dedicamos outrora aos outros deuses - hoje, em sua maioria, desacreditados. Fazemos porque todo mundo faz...

"[...] E a sua roupa nova
É só uma roupa nova
Você não tem idéias
Pra acompanhar a moda
[...]
Nós somos tão modernos
Só não somos sinceros
Nos escondemos mais e mais
É só questão de idade
Passando dessa fase
Tanto fez e tanto faz"
(A Dança - Legião Urbana)

A Ciência, a Arte, a Religião, o dia-a-dia... tudo carece de humanização. E humanização significa romper pelo questionamento, pela dúvida. Após a tempestade - eu garanto - vem a poesia: há onze anos atrás, eu e um grupo de amigos elegemos a Arte como guia da ciência histórica. Há décadas atrás, o homem elegeu a Física como a poesia das Exatas, e a astronomia como a rima de seus versos. Há dois mil anos, o cristianismo precisou tornar humano e sacrificar um deus para se aproximar dos homens.

Você e eu, poeira das estrelas, gota d'água e grão de areia... somos completamente insignificantes diante da imensidão do que se apresenta a nós como Universo (ou multiversos?). E ainda, somos cada qual um universo único e paralelo caminhando por aí.

[No livro que inspirou este Blog, o capítulo de hoje é o dia em que o Curinga começa a colocar as cartas em ordem... Quantos universos ocultos começam a se apresentar para formar um todo coerente! Cada qual, em sua insignificância, ocupa um lugar no espaço-tempo de uma ordem maior... e a destruição de uma Paciência é apenas o início de outra]

Olho no espelho e vejo apenas novidade. Olho nos seus olhos, leitor, e vejo a mim mesma.

"Nós somos uma maneira do Cosmos conhecer a si mesmo"
(Carl Sagan)


quarta-feira, 5 de agosto de 2015

#34 – OITO DE OUROS – 8, infinito finito...

No nosso calendário do Clã Curinga, este post fecha o mês das cartas “8”. No calendário vigente, este post abre a semana que terá o dia 8 no mês 8. Curioso é que justamente neste mês 8, me foi apresentada a série “sense8”. 8 pessoas nascidas em um mesmo dia 8/8 em várias partes do mundo, possuem uma incrível conexão entre si.

Frame do episódio 8 de sense8.

Já que tantas conexões com o numero 8 apareceram justamente na semana de oito de ouros, trago um pensamento que tive tempos atrás em um dia 8/8. Abro aspas pra palavras que saíram de alguém que fui, pois já não sou o que era, e não serei por muito tempo o que sou agora (até mesmo esta frase precisará de aspas amanhã).

“Não quero entrar no mérito simbológico da coisa.
Prefiro enxergar o oito como um infinito não acomodado
Ele está de pé agora, pois sabe que permanecera inerte no fim.
Fim?
A ideia de fim mata o infinito...
É aí que entra o oito.
Ele sabe-se infinito, mas está de pé.
É eterno em sua duração.
Entende todo o fim como um recomeço.
A oportunidade de que a novidade floresça”
(Trágica Mente Falando – 8/8/2012)

Devo admitir que o que sou hoje, a julgar pela ideia acima, não é tão diferente do que era. Me agrada muito esta imagem! O símbolo do infinito, em pé, traz a ideia de como cada instante pode ser infinito em sua fragilidade e efemeridade!
A vida se alimenta da morte! Novas flores só poderão surgir na primavera que se anuncia porque as da estação passada morreram. Nós só estamos aqui porque nossos ancestrais morreram! Nos alimentamos literalmente da morte! E não me venha um vegetariano dizer que está isento de cadáveres em sua dieta. Cabeças de repolho precisam rolar (e sem a possibilidade de protestas e gritos) pra encher o seu prato. A morte de cereais, verduras e outros mamíferos, aves ou peixes, garante a nossa sobrevivência. Garante a nossa marcha em direção ao nosso próprio fim.

“Na praia, uma criança constrói um castelo de areia. Por um momento, contempla admirada a sua obra. Depois destrói tudo e constrói um outro castelo. Da mesma forma, o tempo permite que o globo terrestre realize seus experimentos. [...] Na Terra a vida pulsa de forma desordenada, até que um belo dia somos modelados... com o mesmo e frágil material de nossos antepassados. O sopro do tempo nos perpassa, nos carrega e se incorpora a nós. Depois se desprende de nós e nos deixa cair. Somos arrebatados como num passe de mágica e depois novamente abandonados. Sempre há alguma coisa fermentando, à espera de tomar nosso lugar. Isso porque não temos um solo firme sob os nossos pés. Não temos sequer areia sob os pés. Nós somos areia.” (O dia do Curinga – Oito de Ouros – Jostein Gaarder).

Mas ainda vivemos! Eu e você - que agora lê com seus olhos vicejantes – piscando muitas vezes a cada parágrafo... Vivemos com as bênçãos da única e exclusiva fonte de energia de nosso planeta! Algo que está há 8 minutos-luz (ou 149.600.000 km) daqui. A ciência diz que átomos de hidrogênio são convertidos em Hélio no núcleo do sol e demoram 1 milhão de anos pra chegar até a superfície e, dali, chegar até o meu rosto de manhã em forma de luz e calor! Não fosse esta energia, você não estaria lendo estas palavras agora. Sem a energia do sol, nenhum ser vivo conhecido poderia habitar este "pálido ponto azul" que chamamos de Terra.
Tenho 8 motivos pra continuar escrevendo. Tenho 8 motivos pra parar. Faltam 8 minutos pra acabar o mês das cartas de 8. Mas ainda assim, algo a mais precisa ser dito (ou copiado) aqui:

“Não há um lugar onde possamos nos esconder para escapar do tempo. Podemos escapar de reis e imperadores, e talvez até de Deus. Mas não podemos escapar do tempo. O tempo nos enxerga em toda a parte, pois tudo à nossa volta está mergulhado nesse elemento infatigável [...] O tempo vai devorando tudo através da história, silenciosa e inexoravelmente, como o sol se levanta no Leste e se põe no Oeste. Ele destrói civilizações, corrói antigos monumentos e engole gerações atrás de gerações. Por isso é que falamos dos ‘dentes da engrenagem do tempo’: o tempo mastiga, mastiga... e somos nós que estamos no meio de seus dentes.
[...] Não é inacreditável, Hans-Thomas? Vivemos num planeta no universo. Mas logo seremos varridos do tabuleiro. Abracadabra e... pronto! Desaparecemos. [...]
Nesse momento só podemos cumprimentar, sorrir e desejar bom-dia para milhares de nossos contemporâneos: ‘Ei, você! Que coisa fantástica podermos compartilhar do mesmo tempo!’. [...] Estamos vivos, ouviu bem? Mas só por esta vez...” (O dia do Curinga – Oito de Ouros – Jostein Gaarder).

Um dia, o ultimo ser humano, a terra e até o sol morrerá! Mas isso poderá ser só um recomeço! O mesmo tempo que nos mastiga - poderá nos por de volta... Cada instante infinitamente se repetindo... Um eterno retorno de cada momento. Uma nova chance pra viver velhos/novos instantes - como os que se podem viver em um 08/08 às 08h08m08s...


“A vida vem em ondas - como um mar – num indo e vindo infinito” (Lulu Santos)

quinta-feira, 30 de julho de 2015

#33 - SETE DE OUROS - Apreciemos a queda!

Li uma vez que a vertigem que a gente sente em grandes altitudes (o famoso "medo de altura") nada mais é do que o medo que nos salva da vontade da queda - uma insustentável leveza. A queda é, quase sempre, na melhor das hipóteses, fatal. O medo é um limite que salva vidas. Apreciar a queda assumindo o risco do "quase" é para poucos.

Para mim, o risco do "quase" sempre foi proporcional ao medo do "mesmo". A rotina é uma engrenagem do tempo que tenta nos consumir... O tédio é o sintoma maior da estagnação - digo sintoma pois a inércia sempre me derrubou como fosse algum tipo de doença. E, diante da doença, meu ateísmo se rende apenas ao movimento:

“Vós dizeis-me: “A vida é uma carga pesada”. Mas, para que é esse vosso orgulho pela manhã e essa vossa submissão, à tarde?
A vida é uma carga pesada; mas não vos mostreis tão contristados. Todos somos jumentos carregados.
Que parecença temos com o cálice de rosa que treme porque o oprime uma gota de orvalho?
É verdade: amamos a vida não porque estejamos habituados à vida, mas ao amor.
Há sempre o seu quê de loucura no amor; mas também há sempre o seu quê de razão na loucura.
E eu, que estou bem com a vida, creio que para saber de felicidade não há como as borboletas e as bolhas de sabão, e o que se lhes assemelhe entre os homens.
Ver revolutear essas almas aladas e loucas, encantadoras e buliçosas, é o que arranca a Zaratustra lágrimas e canções.
Eu só poderia crer num Deus que soubesse dançar.
E quando vi o meu demônio, pareceu-me sério, grave, profundo e solene: era o espírito do pesadelo. Por ele caem todas as coisas.
Não é com cólera, mas com riso que se mata. Adiante! matemos o espírito do pesadelo!
Eu aprendi a andar; por conseguinte corro. Eu aprendi a voar; por conseguinte não quero que me empurrem para mudar de sítio.
Agora sou leve, agora vôo; agora vejo por baixo de mim mesmo, agora salta em mim um Deus”.
Assim falava Zaratustra.”
(Friedrich Nietzsche, “Assim Falou Zaratustra”)

Todos temos nossos demônios. Os meus, tais quais os de Raul Seixas, tornaram a minha solidão um vício - uma contradição de leveza insustentável. E tal qual a solução de Nietzsche, só permito que essa solidão seja rompida por quem realmente me ofereça companhia - o risco do quase, a apreciação da queda.

Ao mês de Julho, ao naipe de Ouros, ao inverno rompido pelo calor do sol e dos abraços, meus agradecimentos! Que venham novos encontros. Apreciemos a queda!

quarta-feira, 22 de julho de 2015

#32 – SEIS DE OUROS – às vezes curingas se encontram aqui na Terra...

Se há duas semanas falei de um inverno rigoroso, hoje falo de um dia de sol e calor. Um dia de verão extraviado na estação mais fria...
Às vezes olhar para o céu me dá a sensação de estar sob o mesmo teto de outros curingas. Quanta vida inteligente já fitou o mesmo céu, com o mesmo sol, a mesma lua e as mesmas estrelas? Conheço alguns curingas neste planetinha ilhado neste espaço infinito... Se os gregos imaginavam que os deuses às vezes desciam do olimpo pra se misturar a eles, pra mim hoje posso dizer que às vezes curingas se encontram aqui na Terra...

“Fiquei sabendo que as divindades gregas viviam no Olimpo, uma elevada montanha bem ao norte da Grécia. Mas de vez em quando elas desciam à terra para se misturar às pessoas. E eram como grandes curingas no jogo dos homens...” (O dia do Curinga – Seis de Ouros – Jostein Gaarder).

Hoje fiz um desses contatos imediatos. Quando esses encontros acontecem, na verdade, não há muito que planejar ou fazer pra tentar aproveitar da melhor maneira... Nunca é possível dizer tudo... Curingas sempre terão algo pra se inquietar, questionar, expressar... O importante é sentir o momento e viver...
Se falo de frio e gelo, hoje o falo como o Duca Leindecker, que cantou seu “Iceberg” em um ensolarado e quente deserto:
Não tenho muito mais o que dizer. Se Pablo Neruda aconselhou aos seus leitores: “feche os livros e vá viver”, é oque tenho pra hoje a quem chegou com os olhos até aqui: desligue sua tela (display) e vá viver!

 

sábado, 18 de julho de 2015

#31- : CINCO DE OUROS - ...o azar maior foi que a bebida do meu copo era muito gostosa...

A poesia não tem hora marcada para acontecer. Essa afirmação pode parecer uma desculpa esfarrapada desta que vos escreve, haja vista atraso na data de publicação. Não deixa de ser: fora as intempéries da viagem e do clima que impediram a postagem usual de quarta-feira, uma bebida muito gostosa, aliada ao cansaço e ao excesso de receptividade materna, me colocaram de cama nas noites seguintes, feito Hans Thomas ao provar uma bebida alcóolica pela primeira vez.
Não me desculpo, contudo. A poesia realmente não tem horário para acontecer.
Há poesia numa sexta chuvosa, em que o corpo pede cama e a alma sonha rimas em silêncio sob o fundo da tela em branco. Há poesia na memória do rascunho perdido, para sempre no universo das reticências...
Há poesia, sobretudo, nos encontros mais inusitados da vida, cujos dez últimos dias de viagem me foram exemplo. Rio com mar, mangue e sal, pôr-do-sol... Olhares de estranhos que se cruzam e travam diálogos insanos sobre assuntos diferentes, concordando sem saber com o quê... O maior encontro de todos, sem dúvidas, comigo mesma...

"Ser poeta é a minha maneira de estar sozinho"
(Alberto Caeiro)

Pessoa. Pessoas. Amizades. Amores. Laços tão improváveis desenhando um caminho há três mil quilômetros de minha terra natal. Mãos que se encontram para uma longa caminhada em silêncio, mesmo sob o fundo musical desesperador das modinhas do nordeste.
Roda de viola a dois, faltando corda. Jantar a dois, com uma multidão em volta. Outra vez, mãos dadas. Há encontros que, na imperfeição aparente, ordenam o caos do dia-a-dia. Há momentos em que o rompimento com o óbvio dá maior movimento ao coração já acostumado a bater no mesmo ritmo, e o improvável traz vida à parte da alma poética que já se encontrava em afogamento.
O tango argentino me vai bem melhor que o axé, o pagode e até mesmo o blues.
Contra a poesia serena da beira mar, a realidade dança nua nas ruas de Recife: obras de arte expostas a céu aberto numa das capitais do analfabetismo. Fome e revolução. Favela wifi. Colônia de exploração e exploração das desculpas. Contrastes. Devir.

Ainda bem que temos a arte para não morrer da verdade.

quarta-feira, 8 de julho de 2015

#30 - QUATRO DE OUROS - Mãos frias como uma estátua de gelo.

“...quero um machado pra quebrar o gelo
quero acordar do sonho agora mesmo
quero uma chance de tentar viver sem dor...”
(O astronauta de mármore – Nenhum de nós)

A solidão é tão normal no espaço.
A terra está neste espaço.
Solidão é silêncio.
Sem melodia.
Sem palavra.
Sem gesto.
Sem cor.
Só dor.
Só...
...
..
.
(vácuo/vazio)

O inverno em mim atinge agora o estágio mais rigoroso. Não falo apenas dos dias frios e chuvosos, afinal, já vivi primaveras contornadas por dias de intenso frio e fortes tempestades. Mas hoje tudo se afina em frio, água, dor, e, finalmente, gelo! É um inverno rigoroso. Um inferno extremamente doloroso!


Fosse eu um astronauta (como o Nando Reis no clipe) talvez estaria agora congelando, machado em mãos, quebrando uma montanha de gelo na tentativa de encontrar-me a mim mesmo e descongelar minha alma. A mesma que há tempos “bateu em retirada” de mim. Não sou mais o mesmo. Mas este, que está no meu lugar, me quer de volta...
Não gosto de falar muito sobre mim. Na verdade nem falo muito. Sempre fui tímido, quieto, solitário, isolado... Raríssimos seres vivos conseguiram entrar no meu mundo ou me convidar pra fazer parte do seu. A estes sou especialmente grato. Mas especialmente hoje, me sinto ainda mais avulso, isolado, sozinho... 
Às vezes fico com a forte sensação de estar ocupando um espaço que não é meu. Que não diz respeito a mim. Gostaria de não ser empecilho para os planos de ninguém, mas às vezes é exatamente assim que me sinto. Escrevo com um certo peso na consciência por estar dizendo coisas assim - que nunca digo. É sempre mais fácil fingir estar bem pra não ter que explicar algo que nem eu consigo entender. Pudesse eu entender o mecanismo da tristeza, moveria icebergs pra não ter que senti-la... Mas me convenço de que posso falar por aqui, afinal, outro dia mesmo ouvi minha voz dizer que “gostava de morar nas entrelinhas do Clã Curinga”. Aqui acho que posso dizer, pôr pra fora... Um espaço que "quase ninguém lê" - um perfeito refúgio...
Às vezes pedalo pra tentar descongelar a minha alma. Quase sempre estou a fugir da morte, das absurdas palavras de Camus, ou das minhas próprias palavras diante do absurdo que é a vida. Ao escrever acho que trago certa parte da minha alma desertora de volta. Mas agora já não sei. Agora já não sou. Isto sou eu aqui, do lado de fora, vendo a minha própria imagem congelada na lua, feito mármore. As mãos frias como uma estátua de gelo...
Assim estou eu - congelando...
Por onde andará o sol em mim? Onde está Ás de Copas com seu calor solar? Quanto calor (ou machado) será necessário pra destruir o gelo? Talvez eu próprio agora seja este sol perdido que procuro!

"— Por que Ás de Copas está usando um vestido amarelo?
— Ela é o sol, que no verão atinge o seu ponto mais alto no céu."
(O dia do Curinga – Quatro de Ouros – Jostein Gaarder).

Que ironia... Logo eu que sempre tento vender um discurso otimista, de pés cravados no agora, me rendo a um niilismo de quem projeta um futuro que não existe... O início da primavera... Os caminhos do verão... Mas é o inverno em mim que parece invencível... Logo eu que me acho tão primaveril, fiquei preso em um labirinto de mármore e gelo...
As lágrimas (volumosas e ainda liquidas) talvez se tornem infiltrações decorrentes chuva que cai no meu peito. Talvez estas lágrimas possam amolecer meu coração congelado.
Vira e meche tenho a sensação de estar vivendo a vida em modo “piloto automático”. Hoje a sensação é ainda mais intensa. O que restou de mim não passa um mosaico incompleto de projetos incompletos... Sou como a luz apagada que outrora brilhava por traz da tela estilhaçada do meu iPad...

“Quero me encontrar, mas não sei onde estou...
tenho quase certeza que eu não sou daqui...
você me deixou sentindo tanto frio...
deixa ver como viver é bom...
...amava... odeio...
pequenas coisas...
deve passar...”
(Meninos e Meninas – Legião Urbana)

As paródias que planejei compor neste ano
deixei incompletas.
Os quilômetros que desejei pedalar neste mês
deixei de rodar.
A tela quebrada do meu velho iPhone
deixei estar.
As técnicas que quis aprender cantando
deixei em silêncio.
Os instrumentos que acompanhavam meu canto
deixei pelos cantos.
O instrumento novo que pensei em aprender
deixei empoeirando na estante.
Comecei meia dezena de livros que
deixei sem terminar.
A bola que eu chutava com as crianças
deixei murchar.
Os arquivos ociosos e inúteis no computador
deixei de deletar.
Aquela bagunça da velha estante trocada
deixei amontoada embaixo da mesa.
Nesta mesa onde trabalho, navego e me afogo
deixei meus pés sobre entulhos.
Entulhos que se misturam a mim
deixei-me confundir.
A barba, as obrigações do trabalho, a reforma
deixei por fazer...
O poeta que achava que era no dia-a-dia
deixei sem poesia.
Por fim, as palavras que escrevo agora
deix

quarta-feira, 1 de julho de 2015

#29 - TRÊS DE OUROS - Quarto de Hotel

Não lembro qual o título do capítulo correspondente, no livro "O Dia do Curinga", ao Três de Ouros. Hoje, excepcionalmente, não tenho em minhas mãos o livrinho em versão pocket que sempre me acompanha nestas postagens.

Apesar de sempre me inspirar, tal fato, porém, permite um post talvez mais livre de temas pré-estabelecidos. 

Sentada numa cama dura de um quarto de hotel, na fria e nebulosa cidade de Cascavel, onde vim parar sem tempo de preparo - como tudo na vida - o cansaço exacerbado toma conta de minha parte mais humana (já peço desculpas antecipadamente, por este motivo, pelo post um pouco mais curto).

Fato é que a confortável sensação de estar anestesiada, sob o fundo musical pinkfloydiano que ressoa propositalmente em meu computador, parece fazer pairar sobre a alma uma poesia outrora esquecida - aquela que a gente só encontra quando respira o pó da estrada.

É verdade que sinto falta de casa e da familiaridade com as coisas. Mas é verdade também (pois a verdade jamais é absoluta) que tenho o coração cosmopolita. E, quando se fala em coração, não posso dizer que haja razão maior que a dele.

Por bater contra o tempo, ressalta o preciosismo dos momentos que constroem nossos dias, por mais corriqueiros que pareçam ser. Por soar ao sabor do vento, funciona como guia teleológico pelo mundo, como um Curinga com uma bússola, apontando nortes, quando a alma, desavisada, busca refúgio incerto das incertezas da vida.


Tô num lugar comum
Onde qualquer um se esconde
Pra fazer a frase feita
E sentir os efeitos colaterais
(Engenheiros do Hawaii)

Meu coração se perde e se encontra todos os dias. Se perde nas (tantas) possibilidades que a vida lhe proporciona, a cada novo Sol, de transformar-se em algo novo. Se encontra nas palavras incandescentes do Curinga que aconselha a ter cautela ante os pálidos pedidos dos falsos amores.

Mas se realiza, enquanto ditador do ritmo da vida, na poeira da estrada. A estrada é distância, é urgência. E é somente através da distância que somos capazes de nos percebermos. É apenas respeitando as distâncias que não acabamos nos engolindo uns aos outros. É, sobretudo, somente através dela que podemos dizer que há amor verdadeiro pelo "próximo" (ainda que distante), e não pelo reflexo de nós mesmos.