Do meu pequeno quarto blog quadrado só dava pra observar o
movimento das sombras...dois Curingas perambulando pelas esquinas, dançando com
o vento do devir. E eu ficava encantada apenas com as sombras, que tinham um
“que” de esperança pra esse tédio todo dessa cidade toda cinza. Às vezes apenas
a ilusão pode dar sentido a paredes sem cor, corpos sem forma, sombras
refletidas num Universo de um milhão e meio de supernovas.
Agora, estou escrevendo de onde se produz o andar, o perambular...onde se
traduz o mais nobre sentimento à beira do precipício de um mundo onde cartas
perambulam, coelhos falam, deuses jogam dados e dançam tango. De precipícios
onde as cartas do grande jogo de baralho se ajeitam, se atracam, se abraçam, se
deixam livres, convivem. Recebi o mais nobre convite que, embora visualizado
atrasado, veio em tempo certo: “você gostaria de ser Dama De Paus?”
Aceitei. Claro! Diz a
velha lenda que, quando Curingas falam, a gente deve parar e ouvir a história.
Imagina quando eles falam diretamente com você...
"...que o teu afeto me afetou é fato..."
Ser Dama de Paus nesse grande jogo às vezes traz uma
responsabilidade gigante. Ainda mais quando o título é concedido por um
Curinga. Ainda mais se for por dois Curingas, aqueles das sombras que via no
meu quarto blog quadrado. Ainda mais se
fizer sentido o título, a frase, a assinatura.
Sem mais delongas, e falando em assinaturas...
Por que não Haverá de Mim um Deus?
Se a cada coisa que há um deus compete,
Por que não haverá de mim um deus?
Por que o não serei eu?
É em mim que o deus anima
Porque eu sinto (...).
(Ricardo Reis in "Odes" - Fernando Pessoa)
Sempre penso em Deus como um ser que tudo assina. E ele
geralmente não costuma fugir do que assina. Pelo contrário, está sempre ali,
seja pra dizer “não fui eu”, seja pra afirmar “problema é seu”, seja só por
estar. Aprendi a ver deuses de formas diferentes. Em pessoas, em lugares, em
prazeres, em virtudes, vícios....mas aprendi mesmo a ver deus na dor e nos
momentos de deixar-se levar pela magia do precipício. Numa dada hora do meu dia
de hoje, (dia nada fácil pra um mês que já começou com pancadas abruptas, ferro
na jugular, caixas de sombras que se abriram...) recebi uma mensagem de alento
de um grande perambulador do mundo: “aproveite a queda.” Talvez a presença de
deus esteja mesmo na queda livre. E talvez as pessoas que não acreditam nele
nunca se jogaram de verdade. Quando se cai, amores, dores,prazeres,
esperanças...tudo cai junto. Mas, não vejo isso como um infortúnio...cair é a
mais bela forma de encontrar a essência de nós mesmos. É encontrar o deus que
habita no que há de mais santo e podre que se tem, de mais belo e vil. A minha assinatura é quando caio, quando chego
ao chão sem nada do que antes atrapalhava meu voo rumo à queda livre.
Pensando bem, talvez não seja necessário cair sempre pra se ter esperança, ou pra se
encontrar um deus. Talvez eles estejam
no reencontro de velhos conhecidos de outros jogos; talvez estejam no pedaço de
papel que, de tanta lembrança, ficou amarelado. Talvez possamos encontrar a
esperança num beijo ou num abraço, ainda que virtual. Ou ainda num verde mar...
que nos deixa à deriva de nós mesmos. Ou ainda em um segundo, terceiro, quarto
sol, quarta dimensão ou imensidão, que um dia permitiu o encontro de dois seres
num banco de uma dessas Universidades da vida e fez com que toda teoria sobre
felicidade, fé, deuses e esperança tivesse um sentido real.
A maior dor, o maior amor, o melhor abraço, a grande
entrega, nada disso faz sentido quando deixamos morrer o deus que habita em
nós. Em minha breve opinião – assim como breve é a vida -, nada mais especial
para traduzir deus como a esperança. E o “invisível nos salta aos olhos” toda
vez que “falta a luz” da esperança.
Quando não vemos nada
além do vazio, não há onde assinar....não há o que viver. Agora, relendo o
texto, pensando no título e em tudo que acontece por esses dias, tenho receio
de não saber por onde minha assinatura pode andar....muito menos onde encontrar
a assinatura de quem um dia fez, ou ainda faz parte do livro dos meus dias.
Complicada essa história de assinatura....Aprendi um dia que deus assinou tudo
que fez. Talvez, no momento exato de assinar sua obra prima da criação – nós –
tenha lhe faltado papel e caneta. Se ele assinou tudo que fez, utilizou apenas
impressões digitais quando se trata da dor da gente, quando se trata da perca
da esperança. Eu ainda espero não perder de vista deuses, esperanças, fé.
“Do
alto da pedra”, de onde sempre me lanço pro precipício, as vezes fica difícil
de ver deus....e eu sei que essa busca por ele é um enredo construído apenas
pra mim, apenas pra essa vida. E eu sei que só tenho esse breve momento de
respiração para encontrar a esperança. Por isso a queda, pra mim, faz sentido.
É nesse momento que ninguém, nem deus, nem você, nenhuma das cartas recebe o
fardo de assinar por mim...

"É em mim que o deus anima"... E "corpos em movimento, um universo em expansão" - a palavra "anima" vem de "alma", nada mais forte e impalpável a ponto de trazer movimento ao corpo... Aprendi a chamar de Deus encontros como este que, apesar de virtual, traz vida e expande o universo dos meus dias para além das engrenagens massacrantes do dia-a-dia. Apesar de sermos "sombras nesta janela virtual", superamos a caverna a cada reencontro, e nossa história e nossas vivências, sem preço, são únicas e reais, e, na falta da assinatura de um ser superior, assinamos embaixo!
ResponderExcluirContinuando... A queda livre sempre nos foi inerente... Acredito que sempre fomos pessoas que sentiram tudo exacerbadamente, o que tem seus pors e contras... Mas aprendemos a amar a dor também como subterfúgio do crescimento, principalmente por termos curingas por perto (ainda que distantes) que solidarizam com nossas penas e se jogam junto de cima da pedra mais alta! Dama de Paus... São tempos difíceis para os sonhadores, mas a sua presença aqui no Clã traz luz aos nossos dias!
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