Pausa. Finalmente consigo me sentar frente ao computador para escrever este post atrasado. Quem dá as cartas dos dias esqueceu-se de avisar-nos para cuidar de não sermos engolidos pelas engrenagens do tempo!
Mas, novamente, não peço desculpas pelo atraso. Como bem o sustentou meu colega de clã, em diálogos ocultos aos leitores, mas presentes nestas entrelinhas, a poesia (ou a prosa) tem o tempo certo de florescer - tal qual a primavera que acalenta as palavras que ora publico, tal qual os pãezinhos que descansaram fermentando antes de serem assados pelas anãs de copas no livro que inspira esse blog de poucos, mas valiosos leitores.
"Hoje eu quero, apenas, uma pausa de mil compassos..."
(Marisa Monte - Para ver as Meninas)
Confesso que me faltaram palavras esta semana. Como fato inédito, senti perder pelos vãos dos dedos as palavras que me invadem cada vez que faço login aqui. Uma dor. Incessante. O simples fato de ter de sentar-me comprometeu as frases vindouras. Mas não a poesia em mim reticente.
Assim como a primavera floresceu em nós há poucos dias, superando um inverno rigoroso (dos dias e da alma), a semana também foi de superação física e emocional. Conquistas. Celebrações. Todas em momentos oportunos e recebendo a devida gratidão.
Senti falta, contudo, justamente das pausas, que nos tornam humanos. O café de quinta. O chimarrão mais cedo, em minha própria companhia. Pessoas menos prolixas. Companhias, em silêncio, que acrescentassem. Menos "Tempos Modernos". Menos "Comfortably Numbs". Mais "Janelas Laterais".
"Quando eu falava dessas cores mórbidas
Quando eu falava desses homens sórdidos
Quando eu falava desse temporal
Você não escutou..."
(Flávio Venturini - Janela Lateral)
[Fui ver o filme novo do Roger Waters. Me peguei inebriada pensando no paradoxo entre o britânico dos contos de fadas, que toma religiosamente seu chá das cinco, e aquele do english way de Roger Waters, que segue em frente em desespero silencioso. Paradoxo? Ou apenas uma forma diferente de passar o tempo confortavelmente anestesiados?]
"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo."
(Álvaro de Campos)
O que é a realidade? Até que ponto vivemos de ficção? Nossos sonhos são combustíveis ou apenas ensaios absurdos? Quem dá as cartas, Deus, os deuses, nós mesmos?
A ilha de Humberto Gessinger, o Muro de Roger Waters, o sonho que se sonha só de Raul Seixas... as metáforas que compõem obras que tanto nos influenciaram talvez nos revelem justamente essa impotência humana, a de não conseguir transpor o abismo de si mesmo.
Enquanto fazemos preces, os deuses jogam pôquer, e deixam todo o resto conosco. Haverá em mim gratidão maior? Viver absurdamente por viver... vale a minha conta e risco simplesmente pelos encontros no caminho. Um absurdo como outro qualquer.
Se os dias foram tensos, que a poesia prevaleça no que há de vir. Que a prece vire pressa. Que as cartas estejam em nossas próprias mangas, ainda que a gente não entenda nada do que está aí a fora. Tchau, radar!
"Que sera, sera".




Ah, essa engrenagem do tempo. ..As vezes perdemos o fio da meada tentando encontrar tempo pro tempo. Mas, as melhores coisas acontecem no tempo certo, quando dá pra acontecer e é pra acontecer. O seu texto veio pra mostrar que "o melhor sempre está por vir.."
ResponderExcluirAs pausas que nos tornam humanos são essenciais pra mim. E vejo beleza em conversas virtuais, cafés virtuais, carinhos virtuais que encontro todas as vezes que estamos juntos! Me fez falta tudo isso durante algum tempo, e agora eu não sei o que seria dos meus dias longe de toda poesia de vcs, da gente!
Romântico? Talvez....mas tô exercitando a arte de não esconder sentimentos, nenhum deles. Não sei até quando o tempo vai nos dar tempo pra isso...
Como prece de hoje, desejo mais dias de comemorações, conquistas, mais pessoas que valem por uma eternidade ao nosso lado! E que dores nas costas, corações partidos, desilusões e pessoas chatas se afastem cada vez mais, até que, um dia, não deixem nem a lembrança do que foram pra gente...
Desejo mais posts como esse e do outro curinga no Clã! E mais poesia pros nossos dias! E mais de vcs de quinta, de sábado, de sempre!
Parabéns pelo texto! E por ser quem tu és. ..!
"(...) Seria noite a vida inteira
Não fosse a tua caligrafia. .." (HG)