quinta-feira, 15 de outubro de 2015

#44 - CINCO DE COPAS - ...para além dos radares...

Tchau, radar...
As palavras que encerraram o texto da semana passada reverberaram por toda a semana de quatro de copas e, hoje, ouvem-se ainda seus ecos em cinco de copas...
Não é apenas o equipamento usado por militares pra detectar objetos a longas distancias. Radar pode ser uma bela metáfora pra tudo que tenta nos controlar, observar e ditar o ritmo de nossos movimentos. Nossa vida é repleta de radares. Esperam sempre que nos comportemos “como convém” com a família, amigos, no trabalho, naquilo que se acredita que é explicação para a vida e o mundo...
Se calcularmos tudo na ponta do lápis, há muito mais voos rastreados que voos livres na nossa vida curta. Estamos sempre atrelados a inúmeros valores alheios a nós. A sombra de opiniões dos outros sobre nossas escolhas...
Nos falta muito a capacidade de agir pela vontade! Mas a palavra "vontade" pode ser perigosa, afinal, nem todos sabem querer. Há quem queira muito um objeto e, para tê-lo, rouba. Não é disso que falo. Querer é algo muito mais complexo, que exige cálculo, que exige conhecimento ou intuição do caminho e certo planejamento. Não basta subverter as regras. "Disciplina é liberdade." (Legião Urbana). Pra conseguir algo, é preciso saber jogar com as regras. Caso contrário, seremos meros curingas descartados do baralho – ainda mais inúteis que as cartas que vivem na cegueira de seus rebanhos, famílias, naipes...

“...E eu pude fazer o que queria, sem ser perturbado. Li sem parar, até que, já de madrugada, adormeci...” (O dia do Curinga – Cinco de Copas – Jostein Gaarder)

Quantas vezes curingas de todo o mundo abriram mão de uma boa leitura para parecer gentil, ou pra cumprir convenções sociais? A todos os curingas do mundo, desejo que possam ouvir e sentir o silêncio do inevitável, o vácuo ensurdecedor da não existência, que nos faz querer aproveitar ao máximo o que ainda há enquanto respiramos. E que o nossos devaneios aqui no clã, sejam destes sopros de alegria, afinal, é na infinidade de silêncios que havia antes de nós e na infinidade que virá depois - que valorizamos o som que é possível hoje!!!
Louco é quem segue o fluxo, quem procura em guias, mestres, gurus algo a ser copiado... O louco, ao imitar seu mestre, ofende ao mesmo. O mestre deve ser superado! A grande cidade que prende pessoas como gado e todos os loucos que nos roubam o encanto diante da vida, não merecem nem nosso ódio. É preciso passar além deles. A vida só pode ser grandiosa para além dos radares.

“...tuas palavras de louco prejudicam a mim mesmo quando estás certo! E, ainda que as palavras de Zaratustra fossem mil vezes certas: tu, com minhas palavras, sempre — farias  errado!
Assim falou Zaratustra; e ele olhou para a grande cidade, suspirou e longamente ficou em silêncio. Por fim, falou assim:
Também me enjoa essa grande cidade, não apenas esse louco. Num e noutro não há o que melhorar, não há o que piorar.
Ai dessa grande cidade! — E eu gostaria de já enxergar a coluna de fogo em que ela arderá! Pois tais colunas de fogo devem preceder o grande meio-dia. Mas esse tem seu tempo e seu destino. — E este ensinamento te dou, ó louco, como despedida: onde não se pode mais amar, deve-se — passar ao largo! — Assim falou Zaratustra, passando ao largo do louco e da grande cidade.” 
(Assim Falou Zaratustra - Do Passar Além - Friedrich Nietzsche)


“(...)
Não fica pronto nunca
Não há final feliz
Não há razão pra desespero
Ouça o que o silêncio diz
Não tem roteiro certo
Não espere um "gran finale"
Tão pouco espere amiga
Que o meu grito se cale
(...)
Tchau radar,
vamos adiante.”

2 comentários:

  1. "...acima de qualquer radar eu vou. .."
    Já disse em outro canal de comunicação e repito: seu texto me deu um empurrão. ..me mostrou que mãos não se prendem, dedos não cabem coleiras, vidas não são iguais, silêncios são necessários. Entretanto, esse mesmo texto me "rega a alma, roga a calma em minha travessia. .."
    Que sejamos livres de senso comum, laços que apertem, mãos que sufocam.
    Que a gente se perca no vazio do silêncio. Que as perguntas feitas a nós não passem de "prefere café com açúcar? O que quer fazer no próximo por do sol?"
    Que possamos dançar apenas com as pessoas que não tem medo da vida.
    Parabéns pelo texto!

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  2. Acho que este espelho, de certa forma, reflete todos nós...
    Talvez os radares nos "quartéis" sejam realmente os menos nocivos, já que, ali, existem sem auto-censura e cumprem um papel pré-determinado... Dureza são os milhares de radares que se auto-negam. Pior ainda, muitas vezes vem fardados com os brasões da "liberdade"!

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