quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

#11 - Valete de Espadas - OLHOS COR DE MAR

Uma das características mais fascinantes de uma carta curinga, sem dúvidas, é a sua capacidade de se travestir em qualquer outra carta do baralho. 

Por ser elemento raro, e, muitas vezes, inútil na maioria dos jogos (inclusive no de Paciência), acaba sendo frequentemente descartado e se perde fora dos naipes que reúnem os outros personagens, numéricos ou figurativos. Se perde com o triunfo de, lá fora, se encontrar.

Em certas ocasiões, contudo, o Bobo da Corte passeia por entre essas famílias de caracteres comuns e, por não se encaixar em nenhum lugar, acaba sendo capaz de se encaixar em todos sem ser notado.

Apenas os olhos mais atentos (talvez, de outros curingas travestidos) são capazes de perceber a presença ilustre de um ser tão raro entre todos os outros.

São olhos iguais aos seus
Iguais ao céu ao seu redor
São olhos iguais aos seus...
[O que faz as pessoas parecerem tão iguais?]
(Humberto Gessinger)

[De roupa negra e balaclava, saio pelas madrugadas apenas com os olhos à mostra. Uma espécie de disfarce e de proteção, involuntários, sufocando o coração poético ao som de estampidos que já não me aterrorizam. Os olhares que as pessoas me dirigem não diferem uns dos outros. Sou apenas mais uma carta entre as demais. Hoje, de espadas e outras armas na mãos.

O fardo de ter de misturar-me ao baralho traduz-se nas lágrimas dos olhos cansados. Talvez seja este o preço do passaporte ao Curinga que não pretende ser notado ao ponto de ser considerado propriedade do carteador.]

Era inverno de 2013. Era mais um dia comum de trabalho. Treze cartas encontravam-se aprisionadas em uma masmorra que eu guardava. O povo inusitadamente aplaudira o encarceramento.

Haviam se passado duas noites veladas em claro, e, apesar da aparente ordem no caos, o corpo já não respondia aos estímulos externos diante do cansaço e do esgotamento. Um risco...

A vida naquela hora parecia ter perdido a rima, restando apenas os graves e os agudos dos que resmungavam qualquer coisa a um Curinga que se passava por Valete de Espadas. 

Armas em punho. Tez fechada. A postura aparentemente "marrenta" escondia apenas a saudade de casa. 

Eu não me arrependia da posição que ocupava naquele jogo. Até me orgulhava da astúcia daquela missão. Mas só pensava no mar... 

[Ver a imagem de um sol que nasce quadrado, ainda que não fosse para mim, fazia-me valorizar ainda mais a sorte de poder vivenciar esta ideia de plenitude que o mar encerra. Aos senhores das cartas, eu avisava em pensamento - minha alma nunca esteve à venda! Embora meu peito, naquele momento, estivesse à deriva]

Dias de inverno em Curitiba. O sol, além de quadrado, nascera tímido. Coisas que colocam a gente, nos dizeres do poeta, "comovido como o diabo" (Carlos Drummond de Andrade).

No plano de fundo destes turbilhões de pensamentos, ecoava um silêncio que, acredito, só eu ouvia. Enquanto sonhava, ou talvez, delirava numa miragem de paisagem litorânea, como uma alucinação diante da miséria humana a que chegavam os que se apresentavam à minha frente, um estrondo invadiu o pesado ambiente, trazendo-me à realidade.

- "Só falta você para assinar" - foi assim que mergulhei no verde do mais intenso mar daqueles meus dias. Eram olhos [verdes] que brilhavam... e, naquele momento, reconheci um outro Curinga.

***

Na Paciência em que me encontro, 
agora o é ano bissexto. 
O fardo que ainda levo, 
já não me agrega tanto peso.

Não fosse a grade da prisão, 
não fosse o estrondo no silêncio,
o tilintar de nossos sinos 
não passaria de adereço.

Hoje navego nesses mares,
de verde puro e intenso.
Clã Curinga hoje faz
Do Clã Pierrot um recomeço. 

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

#10 - DEZ DE ESPADAS - como ilhas distantes, inacessíveis a minha pequena bike.

A Terra é minha morada.
A Terra é tua morada.
Pra onde quer que você olhe, sempre verá a Terra.
Existe uma força magnética que nos liga a ela de uma maneira irresistível: um espírito invisível e aprisionador chamado de “Gravidade”.
Não são poucas as imagens em minha mente que alimentaram a vontade de superar o espírito de gravidade. A primeira que me lembro é a do Peter Pan... A imagem era tão forte que cheguei a sonhar que voava como ele... Lembro-me de que, em meio aquela sensação fantástica, me veio à mente que tudo aquilo era um sonho. Consciente de minha inconsciência - passei a aproveitar ao máximo aquele momento. Lembro-me que foi bom. Muito bom. Uma hora acordei. Ficou um sentimento de alegria e satisfação pela liberdade momentânea que tive em relação ao espírito de gravidade. Jamais esqueceria este sonho de criança.
A segunda imagem que tenho é a do super-homem, não o do Nietzsche, mas o do cinema. Um alienígena que em nada diferia de nós, exceto por não sofrer os efeitos da gravidade, podendo assim voar e usar uma força sobre-humana...
Outras imagens de superação da gravidade se movimentaram em minha mente, mas deixo apenas mais uma como destaque: O alienígena do filme “E.T. O Extraterrestre” fazendo uma bicicleta voar:


Uma imagem que, embora pertença a um filme lançado seis meses antes de eu nascer, entrou em minha memória uns 15 anos depois. Andar de bicicleta pra mim é uma experiência libertadora. Na bike é possível se locomover em uma velocidade maior que a caminhada e sem o inconveniente da poluição e do barulho dos veículos de motores a combustão interna. No filme, a bike vai além... Faz pensar que é possível o impossível. Dá pra se imaginar pedalando pelas estrelas que aparecem no nosso céu noturno. Mas tudo o que está além da nossa Terra, se apresenta como ilhas distantes, inacessíveis a minha pequena bike...
O Zaratustra de Nietzsche não procurava voar andando de bicicleta, mas com o mesmo princípio de movimento: andar-correr-voar:

“Eu acreditaria somente num deus que soubesse dançar.
Quando vi meu diabo, achei-o sério, meticuloso, profundo e solene: era o espírito de gravidade - ele faz todas as coisas caírem.
Não com a ira, mas com o riso é que se mata. Eia, vamos matar o espírito de gravidade!
Aprendi a andar: desde então corro. Aprendi a voar: desde então, não quero ser empurrado para sair do lugar.
Agora sou leve, agora voo, agora me vejo abaixo de mim, agora dança um deus através de mim.” (Assim falou Zaratustra – Friedrich Nietzsche).

          Só com o movimento e a dança é possível conceber o divino! Só com o riso é possível superar o espírito de gravidade... Enquanto não aprendo a voar, sigo pedalando... Talvez um dia os meus pneus se desprendam do chão e, mesmo sem carregar comigo um E.T., eu consiga alçar voo... Mas ainda que voe, voltarei...
          A Terra é minha morada!
          Mas o que importa isso tudo ao sol e suas irmãs?

“Eia! chora [...] se tens lágrimas. Se só tens riso ri-te! É a mesma coisa. O Cruzeiro, que a linda Sofia não quis fitar, como lhe pedia Rubião, está assaz alto para não discernir os risos e as lágrimas dos homens.” (Quincas Borba – Machado de Assis)

          E se somos nós apenas poeira de estrelas, o que importa pras estrelas a poeira? O que importa pra ti a poeira em tuas coisas?
          Talvez as estrelas tragam o maior entre todos os ensinamentos: a indiferença! Não que eu queira vender a ideia de uma indiferença mórbida, pessimista... Mas se deixarmos de lado as coisas muito maiores que nós e a poeira no chão que a gente pisa, tenhamos mais tempo pra observar aquilo que nossos olhos podem observar, como uma paisagem em uma estrada rural sob as rodas de uma bicicleta... Como os minúsculos pontinhos de luz que aparecem a noite no céu... Pra que querer querer toca-los?
          Mas ainda assim, quero seguir em movimento... Sigo querendo voar pelo planeta...
          A Terra é tua morada. Nesta quarta-feira, lembra-te que nada mais somos que cinzas: Poeira apagada de corpos de luz que viajam pelo nosso universo...


"As estrelas são sábias, para elas, tanto faz como escolhemos viver nossas vidas aqui na Terra." (O Dia do Curinga – Dez de Espadas – Jostein Gaarder)


quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

#9 - NOVE DE ESPADAS - Desculpas: acreditava ter visto coisas onde outras pessoas não viam...

Pela primeira vez no ano, publico com alguns minutos de atraso. O peso da rotina me impediu, desta vez, de deixar um texto salvo e pre-publicado, como rascunho, motivo pelo qual inicio com um pedido de desculpas.

Estou atrasada, aliás, por uma desculpa. 

O estado do Paraná se tornou, essa semana, palco de manifestações de funcionários públicos legitimamente indignados devido a arbitrariedades contra seus direitos adquiridos. Em alguns casos, tratam-se ainda de direitos básicos ligados à própria subsistência.

Não obstante os descasos costumeiros da política pública básica voltada aos pilares das necessidades da sociedade - educação, segurança e saúde - vê-se claramente diversas tentativas e manobras ardis no intuito de quebrar-se o estado, ignorando-se o bem comum, em prol de imediatismos de projetos políticos mal formulados.

Há, contudo, detalhes que não são tão claros assim. Pela primeira vez em anos, os braços da única violência legítima - a do Estado - encontram-se do lado dito mais fraco do cabo de guerra. E, o único recado que vim dar esta noite, é este: se me tentam calar, passo então a agir...

"Se tu falas muitas palavras sutis
Se gostas de senhas sussurros ardís
A lei tem ouvidos pra te delatar
Nas pedras do teu próprio lar..."
(Chico Buarque - HINO DE DURAN)

Uma desculpa me impediu de publicar um texto mais poético e no horário costumeiro no dia de hoje (pelo horário, dia de ontem). Uma outra desculpa talvez tenha impedido que uma tragédia acontecesse esta noite. Por ter visto adiante, mesmo contrariada por todos, pedidos de desculpas talvez tenham sido a chave para que tudo desse certo - sacrificando, infelizmente, esta publicação em sua forma pretendida.

Mas, a virtude do Curinga é também uma responsabilidade... E sair pela esquerda talvez faça a sorte do leão da montanha. Hoje fui a prova viva disso tudo.

"... Nem de paus, nem de ouros, nem de copas, nem de espadas [...] É um caso a parte; uma carta sem relação com as outras. Ele está no mesmo monte das outras cartas, mas aquele não é o seu lugar. Por isso pode ser separado do monte sem que ninguém sinta falta dele." 
(Nove de Espadas - O dia do Curinga)

E se ficou muito mal explicado - desculpe-me! Mas garanto: nem mesmo soldado tem feito sentido...

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

#8 - Oito de Espadas: ERA COMO SE TIVESSE SIDO ARREBATADO PELO CÉU DE UM FIM DE TARDE

Quantas vezes na vida experimentamos momentos extraordinários? Quantos instantes de total alheamento ao contexto, onde os sentidos convergem em uma única direção, um único evento, uma explosão catártica capaz de conferir o mais elevado valor a vida? Quantos instantes assim cabem em uma vida? Quantos seres semelhantes a nós, igualmente tocados pelo sol, nunca viveram momentos assim?
Quanto aos que estão para além de mim, pouco ou nada sei. Quanto a mim, sinto ainda efeitos benéficos de momentos dotados de tal magnitude.

"Agora beba. Este é o momento mais sublime da sua vida, meu jovem. Você sempre vai se lembrar dele, mas ele nunca mais vai voltar." (Jostein Gaarder - O Dia do Curinga - 8 de espadas).

Por certa lógica, nada se repete e cada momento é único. Há um ponto de vista que pensa no eterno retorno do diferente. Mas não há que se descartar a possibilidade do eterno retorno do mesmo... É bom sempre lembrar que nossos momentos são efêmeros, passageiros, pequeninos diante da grandiosidade infinita ao redor do nosso planetinha. Mas será que se soubéssemos que tudo vai se repetir infinitamente viveríamos cada momento da melhor maneira, apaixonados por cada instante e ligados na eterna conspiração do universo?
Subi há pouco as escadas de um estádio de futebol em direção à saída... A lua cheia, imensa e brilhante se mostrava soberana no céu. Sua presença só podia ser notada naquele momento porque seus contornos, naquele instante, se ofereciam aos olhos em uma brecha entre as nuvens de uma noite predominantemente nublada.
Já me perguntaram porque às vezes fico tão hipnotizado olhando pra lua. Quiseram saber o que vejo nela, para além dela. Nada. Somente a lua... Mas se campos de trigo podem trazer a lembrança de alguém com cabelos louros, igualmente a lua me lembra momentos... A visão da lua me traz a memória lembranças de momentos que nem sei se de fato vivi.
Descia a avenida distraído e em alta velocidade pilotando minha bicicleta... O céu estava pintado com as cores do momento mágico e derradeiro do dia, àquela hora no final da tarde onde não se sabe ao certo se é dia ou se é noite. Um pouco mais lenta, a garota pedalava também na mesma direção.
Alcancei-a e lhe sorri.
Ela sorriu de volta.
Acionei o freio.
Ela também parou.
Por oito milésimos de segundo estávamos parados lado a lado, sem que nenhum dos pés tocasse o solo... Pés no chão, mãos no guidão e passos lentos. Caminhávamos juntos sentindo a alegria e o prazer em cada um daqueles passos. Coração acelerado, vivo, em uma festa musical que passava por todo o meu corpo naquele ritmo alucinante que vinha do meu peito. Uma dor boa se instalava na região do estômago. Meus olhos escuros e profundos mergulhados na beleza que saia de seus olhos claros, rasos e límpidos. Brilhavam. Era como se eu pudesse ver além dos olhos e, sem dizer palavras, tocar os pensamentos dela que pareciam estar como os meus: Parados... Concentrados apenas naqueles passos lentos, sentindo cada instante daqueles, que eram temperados pelo barulho das catracas das bicicletas rodando sem serem pedaladas...
Parecia que a mesma música que meu corpo produzia era produzida também pelo corpo dela. Só que com outros timbres, outras possibilidades que enriqueciam uma mesma melodia. Era como se eu tivesse sido arrebatado pelo céu de um fim de tarde.
Aquele encontro foi tão breve quanto o encontro do dia e da noite, tão rápido quanto um eclipse, que é um daqueles momentos que a lua esconde o nosso sol para poder beijá-lo...
Anoiteceu...

"Uma lua cheia e branca erguia-se sobre as montanhas, a leste; no céu, as primeiras estrelas começavam a surgir.” (Jostein Gaarder - O Dia do Curinga - 8 de espadas).

Uma trégua em meio ao signo de espadas. O que importam todas as guerras diante de momentos como este? De que importariam bilhões de anos do universo ou a existência de um multiverso se não fosse pra existir aqueles oito milésimos de segundo em que paramos no ar no último instante de equilíbrio da bicicleta sem movimento? Não sei se tudo acontece por acaso ou se há um ordenamento proposital nas coisas que existem. O que sei é que foram necessários inúmeros eventos em bilhões de anos e movimentos no espaço-tempo para estarmos eu e ela lado a lado. Eu aqui escrevendo e você agora aí do outro lado lendo... Cada momento é único, insubstituível e incrivelmente ligado a um encadeamento grandioso de acontecimentos que nos uniram aqui neste movimento cíclico de escrita/leitura, sonho/realidade, passado/presente...

Um único verso
Justifica um universo
Com múltiplos versos
Talvez crie algo inverso...
Seja em prosas ou (in)versos
Tudo in(dica) um multiverso...

Subir solitário a montanha, buscar abrigo e respostas... O que ainda tenho por conhecer/viver neste mísero espaço/tempo do universo que me contém? Valeria a pena viver tudo de novo?

Sim!


quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

#7 - Sete de Espadas: UMA HISTÓRIA CHEIA DE MISTÉRIOS

Era verão de 2004. Cheguei de ônibus uma hora adiantada nos corredores do Centro de Ciências Humanas da Universidade Estadual de Londrina. Comprei um café com umas poucas moedas que tinha no bolso, acendi um cigarro e tirei da mochila surrada uma biografia de banca de Friedrich Nietzsche que eu tinha comprado recentemente. Eu tinha 17 anos e o mundo era uma mistura de mistério e possibilidades.

Tudo ao redor dançava num ritmo de aventura e conhecimento. Todos pareciam loucos, uns mais que os outros. As aulas falavam de coisas das quais eu nunca ouvira a respeito, nomes como Quetzalcoatl e Tenochtitlán me causavam ao mesmo tempo arrepio e fascinação.

Cerca de um mês depois, a aula mais esperada. Era uma quarta-feira a noite. O texto para discussão tinha apenas duas páginas. Novamente, Nietzsche. E no meio daquela noite consubstancial, descobri o vir-a-ser. Entendi que tudo muda. Percebi que a noção de movimento era tão clara que havia permeado o pensamento ocidental da Grécia Antiga a Einstein, e chegaria até aquele banco de universidade com Jostein Gaarder e O Dia do Curinga.

Foi então que, entre tantos perdidos e desesperados com aquele assunto, conheci quatro figurinhas que fizeram a diferença no meu curso de graduação e na minha vida - com eles, nunca houve lugar para o estático, o pré-concebido e o para sempre assim. Fomos temidos e odiados por pensarmos subversivamente. Sem perdermos a "elegância", nos tornamos reis e inventores da "cutucada acadêmica". Talvez hoje sejamos lembrados pelo sarcasmo e por sermos apenas inofensivos. Curtimos, sem dúvida, o momento. Mas, longe de metáforas feicibuquianas... Crescemos e nos tornamos diversos, e assim ainda o é (ou vem-a-ser) a cada novo dia.

Hoje, verão de 2015, volto novamente ao "templo laico do conhecimento". A História, porém, vem-a-ser outra - "nunca sentamos duas vezes no mesmo banco acadêmico". 

Cheguei apenas 20 minutos adiantada. Fui de bicicleta e havia tomado um saudável café da manhã antes de sair. O livro dessa semana havia sido "O Universo numa casca de nós", de Stephen Hawking, e a frase que não me saía da cabeça era: "Einstein verificou que suas equações não tinham uma solução que descrevesse um Universo estático, imutável no tempo" (p. 33).

Primeira aula, primeira decepção - Ciência Política e Teoria do Estado. Um curso praticamente baseado em Kant. Um professor que pede silêncio quando há discussão dos temas, e enfatiza que o Direito é estudado por meio de "leis, jurisprudência e DOUTRINA". Sim, é assim que eles chamam a bibliografia do curso!

"- O que ensinam para você na escola, Hans Thomas? - perguntou meu pai.
- A ficar sentado na carteira sem perguntar nada - respondi. - E está aí uma coisa tão difícil que a gente precisa de anos para aprender"
(O Dia do Curinga. 7 de Espadas)

Não sei o que me aguarda nos próximos anos. O curso de Direito é, para mim, igualmente uma mistura de mistérios e possibilidades. A faculdade continua sendo um mundo de aventuras e conhecimento.

Aos tais "doutrinadores", contudo, deixo meu aviso: eu não vou me adaptar!

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

#6- Seis de Espadas: Cerveja X uma bebida muito melhor...

Não foram poucas vezes que ouvi a frase: “acabou a cerveja, acabou os amigos”. Não foram poucas vezes que fui questionado por uma voz espantada: “Ué, você não vai beber?”. Não foram poucas as vezes que me senti olhado nos momentos de confraternização com piedade: “lá vai o fraco que não tem coragem de beber...”.
Nunca foi uma questão moral, apenas de gosto. Não gosto de cerveja e ponto. “O que? Como pode não gostar do liquido sagrado? Mas eu já vi você tomar...”. Não gosto, mas já fiquei refém dela. Desde pequeno aprendi que não havia lugar de honra nas geladeiras pras bebidas dos fracos (mulheres e crianças na lógica deles). Eram sempre dúzias de garrafas e/ou latas da cerveja da moda e uma garrafa do refrigerante mais vagabundo do mercado, armazenado na parte inferior da geladeira, por isso servido [quase] quente... Quando me tornei adulto, a única maneira de tomar algo gelado nestes encontros festivos de família e amigos era tomar um gole de cerveja... Todos se espantavam nestes momentos: “Olha só, tá bebendo... Tá virando um dos nossos... Tá virando homem...”.
Como é que é? Beber cerveja é o que me faz homem? Hahahahaha
Desprezo muito naturalmente estes fracos e pobres devotos da cerveja. Gente que passa os dias úteis escravizado por sua rotina e seus valores morais que, no fim de semana se orgulha de ficar parado bebendo o cereal liquido. Se falo deles agora é só pra chegar ao ponto de uma bebida infinitamente melhor...
A cerveja é fruto de uma artimanha alemã pra driblar uma obrigação moral. Monges medievais (pra alcançar a santidade) desejavam fazer as mais difíceis penitencias em períodos de quaresma. Como Cristo jejuou por quarenta dias no deserto, também eles queriam jejuar. Para passar toda a quaresma sem comer nada, eles precisavam de uma bebida forte, capaz de mantê-los fortes. Foi assim que, a partir da fermentação da um cereal criaram a cerveja. Uma bebida alcoólica tao calórica quanto o pão... Percebe a hipocrisia? Era uma bebida destinada a alimentar (como cereal que era)... Mas não era considerado alimento, pois não se comia... Sinto ainda na cerveja atual o odor daqueles monges obesos que sonhavam com um paraíso no além...
Minha aversão pela cerveja cresceu comigo muito antes de ler livros do Nietzsche, por isso, ler sobre o assunto na obra de um pensador que se considerava discípulo de Dionísio (ou Baco), o deus do vinho, foi divertido e intrigante:

Quanta enfadonha gravidade, paralisia, umidade, robe de dormir, quanta cerveja há na inteligência alemã! Como é possível que homens jovens, que devotam a existência aos objetivos mais espirituais, não percebam dentro de si o primeiro instinto da espiritualidade, o instinto de autoconservação do espírito — e bebam cerveja?...” (Friedrich Nietzsche – Crepúsculo dos Ídolos).

Também eu me deparo com mentes brilhantes que se rendem ao liquido caro (altamente tributado) e difundido pela mídia. Gosto é gosto. Não quero, de maneira nenhuma, adotar o tom moralista. Muitos são os que bebem simplesmente porque gostam! Quem sou eu pra questionar gostos? Mas a grande maioria é formada por animais de rebanho, que vão na onda visual, que querem saber qual é a boa, a que desce redondo, a numero um... Porque? Porque sim... Quanto a mim, mulheres seminuas em cartazes e na TV não me convencem do poder que aquele bebida tenta parecer ter e conferir a quem a bebe...

Bebidas alcoólicas me são prejudiciais; um copo de vinho ou cerveja por dia basta perfeitamente para tornar a vida um 'vale de lágrimas' para mim [...]. ” (Friedrich Nietzsche – Ecce Homo).

A mim também o álcool - longe de alegrar ou aguçar os sentidos - anestesia, promove uma estagnação corporal imensa, mãe de todo mal pensamento... Nietzsche, logo na sequencia de última citação que fiz de Ecce Homo, recusa o conselho ao ascetismo em relação ao álcool, mas aponta para uma bebida mais benéfica para o corpo e o espírito:

[...] não saberia aconselhar com seriedade bastante a completa abstenção de álcool às naturezas mais espirituais. Água basta... Tenho preferencia por lugares de onde se possa beber de fontes vivas (Nice, Turim, Silis). Um pequeno copo me segue como um cão. In vino veritas [no vinho, a verdade],: parece que também nisso me acho em desacordo com o mundo quanto ao conceito de 'verdade' - em mim paira o espírito sobre a água...”

Vá agora a um filtro ou a geladeira e encha um copo com água... A óbvia água... Talvez não haja nada de extraordinário em beber copo d'água, afinal, tudo o que vira corriqueiro perde o encanto e entra na esfera mórbida do habito... Faço então outro desafio: pegue uma bicicleta ou calce tênis confortáveis e saia por aí pedalando/correndo/caminhando... Depois de uma hora movimentando o corpo e levando oxigênio aos teus pensamentos, encha novamente um copo com água... Pronto! Terás a sensação de estar diante da melhor entre todas as bebidas! Por fim, entre debaixo de um chuveiro e sinta a magia em cada gota caindo sob seu corpo aquecido e exausto... Não tem jeito. Mesmo a bebida que está o tempo todo ao seu alcance precisa ser buscada. Teu movimento fará de ti uma pessoa mais viva, muito mais capacitada a se livrar das garras do óbvio e, por isso, conseguir a melhor das bebidas.

Ficar sentado o menor tempo possível; não dar crença ao pensamento não nascido ao ar livre, de movimentos livres — no qual também os músculos não festejem. Todos os preconceitos vêm das vísceras. — A vida sedentária — já o disse antes — eis o verdadeiro pecado contra o santo espírito.” (Friedrich Nietzsche – Ecce Homo).

Tenho pequenos tesouros perto de mim que tenho a obrigação de lapidar. São muito valiosos mas também muito frágeis. Todo cuidado é pouco para não destruí-los em um piscar de olhos. O mundo dos produtos industrializados e do paraíso liquido das latas de cerveja é altamente corrosivo para eles. Por isso declarei guerra. Por isso seleciono quem se aproxima do meu mundo. Minhas flores são efêmeras, mas não por isso vou permitir que desapareçam assim tao fácil... Mesmo sendo muito preciosos e raros, pra eles, como em todas as flores, água basta...
...Levantei-lhe o balde até a boca. Ele bebeu, de olhos fechados. Era doce como uma festa. Essa água era muito mais que alimento. Nascera da caminhada sob as estrelas, do canto da roldana, do esforço do meu braço. Era boa para o coração, como um presente.” (Antonie de Saint Exuperry – O Pequeno Príncipe)

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

#5 - Cinco de espadas: ouvi um velho ditado...

Os momentos que compõem nossos dias podem ser fantásticos ou corriqueiros. Aprendi, com a Física (a poetisa das Exatas), que tudo depende de um referencial - igualmente aqui, sobre os momentos, de um ponto de vista. 

Há dias em que, para mim, o mero e repetitivo cumprimento de meu trabalho se torna simplesmente corriqueiro, embora eu corra os mais diferentes riscos. Ao mesmo tempo, nada mais fantástico do que chegar em casa e ver pela janela um por-do-sol...

Dizer que a vida é feita de momentos é um ditado clichê...  Mas deve haver um bom motivo para existirem ditados clichês!

Os mais variados riscos de vida circundam, na verdade, todas as pessoas. Dizer que tenho maior propensão a um mal inesperado em virtude de minha profissão não exclui um acaso (acaso?) igualmente trágico (trágico?) a uma dona de casa, por exemplo. 

"Mapas e bússolas, sorte e acaso, quem sabe do que depende?" (Humberto Gessinger)

Talvez a maior dádiva e o maior desafio de nossos dias seja justamente a incerteza do amanhã, pois nos mostra a importância de não estagnarmos. A vida dita ritmos, e é preciso dançar mesmo entre amarras. Dessa forma, outra vez sendo clichê, posso afirmar com veemência que "o que não nos mata, nos fortalece..." - ou engorda! (citando Nietzsche e a minha avó numa mesma frase).

Por falar em momentos... Quem sabe do que dependem os grandes encontros? - um momento fantástico como um simples jantar entre curingas na noite de ontem só foi possível porque milhares de acontecimentos na História confluíram para tal. Nossa História nos fortaleceu!

De um reencontro aparentemente corriqueiro, surgiu uma prosa fantástica - vi nos olhos de menino o reflexo de um mundo poético; vi nos olhos das crianças o encantamento com os pequenos gestos. 

Talvez, a vida seja feita, além, de estado de espírito - e deste devem ter surgido os ditados clichês (pensando agora, "ditado clichê" é uma expressão tão forte que soa pleonástica). Podemos nos resignar com as intempéries do seu curso, ou enxergar nela a poesia que enxerga uma criança ao admirar, estupefata, a uma bela alvorada!

"Valeria a pena viver cada segundo de sua vida novamente, exatamente como foi da primeira vez?" 

Nos olhos de criança de todos nós, naquele momento, eu sabia que a resposta era: sim!



Ao visitante

O papel em que escrevo
Não é mais que uma miragem

Qual jangada e sua rede
Salva a vida da mensagem

Feito barco, prosa ao vento,
Num entreposto da viagem,

As palavras - o alimento,
De um poeta de passagem.