quinta-feira, 1 de outubro de 2015

#42- TRÊS DE COPAS – Um sujeito fantástico - vestido com a camisa do Londrina?

Poucos minutos antes do fim do último dia do curinga, as palavras introdutórias deste clã anunciaram a meia-noite do novo ano! Desde aquele primeiro segundo do dia 18/12/2014, as semanas se iniciam na meia-noite das quintas-feiras. Desde então, cada uma das 41 semanas que se passaram contou com uma comemoração em verso, prosa e melodia por aqui. O fato de não anunciarmos a nova semana nos minutos finais da quarta-feira, não impede a semana de começar, nem a nossa celebração pelo início da mesma. Mesmo assim, com ou sem hora exata, cada uma das semanas teve seu monumento em forma de letras, números, naipes, símbolos e tons sonoros.
No último monumento que construí, ansiava pelo fogo primaveril que queimaria todo o gelo. Ironicamente, sem apelo linguístico ou metáforas, aquela última semana do inverno foi a mais quente do ano, superando as semanas de verão, por conta do fenômeno que chamam de “El Niño”. Naquela mesma semana ouvi alguém dizer que a matemática da felicidade é “realidade menos expectativa” Podemos representar assim pelas iniciais: R - E = F. Parece uma conta simples, afinal, basta não ter qualquer expectativa para ser feliz. Mas será que algum ser humano é capaz de extinguir suas expectativas diante da vida? O fato de nos acostumarmos com a rotina dos dias ao nosso redor, gera a expectativa de que tudo fique sempre “bem”, “em paz”, “como tudo deve ser”... Talvez, um caminho mais fácil pra felicidade, seja trocar expectativas difíceis e simples (como aquelas que dependem da vontade de outros seres humanos), por expectativas mais fáceis e grandiosas (como o nascer do sol pelas manhãs ou os dias maiores que surgem com a chegada da primavera):

“... Estrela, eu lhe diria
Desce à Terra, o amor existe
E a poesia só espera ver
Nascer a primavera
Para não morrer...”
(Primavera – Vinicius de Moraes)

Há tempos eu não andava tão feliz por aí... Desejei ardentemente a chegada da primavera! Embalado por sonhos e lembranças agradáveis de minha estação preferida, não desejava nada além dela própria, a Primavera... E não é que esta chegada foi extremamente especial? Ela trouxe alívio para os dias quentes do inverno. 

"Lembro-me ainda de que reconheci o seu perfume e de que mal cabia em mim de tanta felicidade. Não era o tipo de felicidade que a gente experimenta quando come ou bebe alguma coisa gostosa, pois esse tipo de felicidade a gente sente só na boca. Não... naquela hora, todo o meu corpo fervia de felicidade." (O Dia do Curinga – Três de Copas – Jostein Gaarder)

Em seus primeiros dias, acompanhei notícias surreais, como a do Líder da Igreja católica atacando valores tradicionais do povo dos Estados Unidos da América no congresso nacional daquele país. Depois, no mesmo país, talvez onde haja mais fanáticos nacionalistas no planeta, a cantora colombiana Shakira cantou pra chefes de estado da ONU uma canção que é considerada um hino anarquista, “Imagine” de John Lennon, que, entre outras coisas, sonha com um mundo dividido por todas as pessoas do planeta sem a necessidade de bandeiras nacionais nem propriedade privada... Surreal... Lennon, que morava na mesma Nova York da reunião da ONU, foi duramente perseguido pelo presidente Nixon por causa de tais ideias nos anos 1970.
Mas estas “histórias reais” são tão surreais quanto as histórias de Alice, Hans Thomas, Sofia, Curinga... Somos sonhadores – e não somos os únicos!!!
Para além do mundo da política, reencontrei um velho companheiro de partidas de futsal. Matávamos aula pra jogar bola a noite e tínhamos um time, o abelhux. Depois de 15 anos, saí do mesmo colégio, onde agora sou professor, e fui jogar bola com ele. Ele goleiro e eu atacante... Fiz os gols que nunca tinha feito nele, pois sempre jogamos no mesmo time. Um grande dia! O segundo da primavera, o primeiro de dois de copas...
Eu passaria horas narrando os momentos felizes desta primavera recém-chegada... Foi isso que comecei a fazer ontem e me perdi entre sensações e desejo de traduzir tudo em palavra... Mas vou me ater aos dias mais fantásticos: Sábado choveu o dia todo. Domingo acordei de madrugada e saí pedalando... Fazia frio, mas a chuva tinha cessado. Vi o sol nascer na estrada. Vi também o tempo se fechar novamente em nuvens de chuva. Mais de três horas de solitária pedalada por municípios vizinhos e circulando o perímetro urbano de Londrina... Cheguei em casa ainda disposto, sem as dores comuns a um exercício intenso. Depois do almoço, vi o céu ficar azul novamente. Ouvi o jogo do meu time de futebol pelo radio, pois jogavam longe de cidade. O eclipse previsto pra noite seria visível! Meu coração encheu-se de alegria! Nunca houvera um eclipse de super-lua desde que nasci!
Vitória do Londrina! Comemoração com meu filho! Mas o céu se fechava novamente... De repente, armou-se uma tempestade e... Não haveria mais a possibilidade de ver o eclipse! Tristeza? Frustração? Que nada!!! Acho que estou aprendendo a lidar com essa coisa de expectativa...
Na hora marcada pro eclipse a tempestade tinha cessado. Saí na rua e fui até a quadra de futebol em ruinas na frente da minha casa. Parei naquele local aberto e ergui a cabeça em direção ao céu. Mesmo com a trégua da chuva, não havia qualquer fresta entre as nuvens que revelasse o céu noturno. Mas eu sabia que, para além das nuvens, sol terra e lua estavam alinhados. Mais que isso, sentia o acontecimento.
Assim que voltei pra casa, deitei na rede da varanda e ouvi a TV ligada dentro de casa falando sobre o concurso “Legionário por Um Dia”, do Fantástico, na TV globo. Os 5 escolhidos pelos dois sobreviventes do trio Legião Urbana, cantariam uma música no palco com os ídolos. Como eu tinha gravado justamente a musica do concurso no ano anterior, com meu ukulele, resolvi mandar... Vai que cola, né?
Mas não criei expectativa. Soube que eram em torno de cinco mil os vídeos enviados. O meu provavelmente nem teria sido visto. Peguei a reportagem no meio e, depois de mostrar os vencedores, inteligentemente selecionados entre as duas maiores cidades do país (no sudeste) e as outras regiões, fizeram uma edição onde apareceram os vencedores e outros três. Eu era um dos três:


Veja só... Eu que sonhei com três segundos de encontro corporal em chamas com Às de Copas, tive meus três segundos de aparição em rede nacional... E quase todos os que me reconheceram disseram que o fizeram porque só podia ser eu, com a camisa do Londrina, tocando Legião Urbana. Me tornei, de repente, um sujeito fantástico - vestido com a camisa do Londrina? Não havia camisa do Londrina. Expliquei apenas uma vez, depois, deixei ser assim... Claro que tenho e uso camisas do Londrina. Mas o gosto por camisa listrada em azul e branco vai além. Tenho camisas da Argentina e, aquela do vídeo, é apenas uma camisa de marca esportiva famosa, listrada em azul e branco... não importa... O que aconteceu depois foi uma enxurrada de mensagens em redes sociais, ligações telefônicas e os meus alunos na escola achando o máximo o fato de eu ter “ido no fantástico”... hahahaha
Dizer que não achei legal seria hipocrisia. A maioria concorda que estive perto de ser escolhido. Pode ser... Muitos Lamentaram por eu ter “perdido”... Não perdi! Meus filhos riram as mais gostosas gargalhadas quando apareci tocando “tuculele” [Clara] na TV na hora do jantar deles. Dois dos caras que mais admiro na música viram meu vídeo em homenagem a eles e, de quebra, a edição me colocou ali, cantando junto com o Renato Russo. Foi demais... Não pelo Fantástico em si, ou a tal “aparição nacional”, mas por ter uma fração de minha história passando perto da história da minha banda preferida.
Todo este burburinho acabou dando contornos especiais à simplicidade do dia seguinte. Segunda-feira o dia começou ensolarado... Nuvens, relâmpagos e água que taparam o momento em que a terra taparia a luz da lua, não estavam mais. Lindo dia!
Mas foi à noite que presenciei um fenômeno raro, único, irrepetível... A lua estava lá. Imensa e brilhante como eu nunca tinha visto. Da ciclovia que margeia o shopping perto da minha casa, vi a lua por entre o esqueleto da construção do futuro teatro municipal. Aquilo nunca se repetiria. E mesmo se você, que agora tem seus olhos presos nestas frias palavras, quiser ir sentir e viver o mesmo que vivi - ainda que vá ao mesmo local, com a mesma bicicleta, não verá o que vi. Hoje a lua não será a mesma que vi. Nunca mais será. Mais do que isso, o que vi tem a ver com cada momento que vivi até então, por isso, nem eu poderei repetir aquele momento, pois, também eu, já não sou o mesmo...
O agora é raro!!! A vida é rara!!! Não há palavra no mundo que garanta que eu vá te convencer disso, mas há você e todos os seus sentidos! Coragem! É três de copas... Estou 12 horas atrasado. No mês que acabou há doze horas, pedalei por 34 horas. Foram 567 quilômetros... Veja os números que escrevi em sequência e entenda que o mundo é perfeito se a gente quiser... 1,2,3,4,5,6,7...


O que vem depois do sete? Quem é você nesta troca escrever/ler? Estamos conectados e, depois do sete, vem o infinito em pé... Agora não é a meia-noite... Mas é meio-dia... Qual é a diferença? Sempre é tempo de desejar e ser feliz:

"Uma gota de orvalho? Perfume e Vapor de eternidade? Não ouvis? Não sentis o aroma? Meu mundo se tornou perfeito nesse instante, meia-noite é também meio-dia, —
A dor também é um prazer, a maldição também é uma bênção, a noite também é um sol — ide embora, ou aprendeis: um sábio também é um tolo.
Dissestes alguma vez Sim a um só prazer? Oh, meus amigos, então dissestes também Sim a todo sofrimento. Todas as coisas são encadeadas, emaranhadas, enamoradas, — e, se um dia quisestes duas vezes o que houve uma vez, se algum dia dissestes ‘tu me agradas, felicidade! Vem, instante!', então quisestes que tudo voltasse!
— Tudo de novo, tudo eternamente, tudo encadeado, emaranhado, enamorado, oh, assim amais vós o mundo [...]" (Assim Falou Zaratustra – Friedrich NIETZSCHE).

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

#41 - Dois de Copas - Olhando para o céu...

É um novo dia, numa nova estação. É finalmente um naipe de valor. Sobrevivemos aos gumes da espada, às pauladas no dia-a-dia, ao ouro de tolo... Nos buscamos e nos encontramos num estranho devir entre sonho e realidade, como rito de passagem de quem precisou vencer pedras tantas até encontrar o caminho de volta pra casa... E descobrimos uma trilha repleta de flores à nossa frente, nos guiando até lá.

"O perfume que andava com o vento pelo ar
Primavera soprando prum caminho mais feliz"
(Primavera - Los Hermanos)

Não tenho a vã inocência de crer que meus fantasmas ficaram congelados na antiga estação. Blocos de gelo são pontas de iceberg. Tampouco soarei dramática ao ponto de carregá-los com peso insustentável daqui em diante... Basta-me a leveza que, aos poucos, surge e traz o ímpeto de dizer-me ao ouvido: "faça, fuce, force!"

"Os meus fantasmas
São incríveis
Fantásticos, extraordinários
Se fantasiam de Al Capone
Nas noites que tenho medo
De gangsters
Abusam de minha
Tendência mística
Sempre que possível
Os meus fantasmas tornaram
Minha solidão um vício
E minha solução
Um Status Quo
Ai! Meu Deus do Céu!"
(Raul Seixas)

Qual a teleologia desta história, que caminha para um fim? Para onde aponta a bússola do Clã Curinga? - As melhores perguntas são as de respostas reticentes.

... Com a leveza dos meus pés descalços,
embora carregando o mundo nas costas,
vou deixando meus rastros, que se apagam com o tempo...
posso, apenas, vir-a-ser...

Há momentos em que a inspiração nos tira do chão, seja num salto com riscos suicidas, mesmo que no campo das ideias, seja numa simples e profunda respiração que tenta colocar em dia os pensamentos. A Primavera perfuma as palavras de quem, como eu, já se encontrava absorto. Traz de volta rimas para permear as prosas estáticas e monólogas. 

Já me chamaram Pierrot
quando, hoje, sou Arlequim -
no idealismo puro
foi Platão quem errou,
e quanto ao resto,
sei de mim.

Há momentos em que a inspiração simplesmente nos tira o chão. Como num mês que, ao mesmo tempo, inicia a Primavera, o naipe de Copas e nos brinda com um Eclipse de Super Lua.

... como o Girassol que
busca no Sol a cura,
e este, alimento pra alma
na Lua...


Há momentos... quantos momentos... em que a arte e a vida simplesmente nos bastam para sonhar. 

Hoje serei breve... hoje o céu está tão lindo...

"A lição já sabemos de cor
Só nos resta aprender..." 
(Beto Guedes)

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

#40 - ÁS DE COPAS – Virei-me e vi o sol dando a luz à primavera...

Todo aquele gelo de que falei em ouros me afastou ainda mais da convivência social! Tenho andado solitariamente por aí... Muito por opção minha. Outro tanto não sei explicar. Às vezes dói.

“...Ando só
Nem sei porque
Não me pergunte
O que eu não sei"
(Humberto Gessinger)

Recebi, no entanto, preciosos trunfos neste final de inverno - valete, dama e reis. Uma revelação de ouro agitou meu coração! Existe beleza na solidão! Por isso, com o coração batendo forte agora, mesmo escrevendo da capital mais fria do Brasil, sinto o gelo derreter. Acolho e recebo a dor do descongelamento de braços abertos. Dor que muitas vezes faz emergir nos olhos algumas lágrimas. Elas parecem revelar um intenso processo de fusão dentro de mim.
Por que mergulhar na tristeza de algo que se perdeu se posso celebrar infinitamente ter estado, ao menos por alguns instantes, diante de pessoas, coisas e situações tão boas? Pecamos ao pensar que temos posse e controle sobre pessoas. Pecamos ao crer em compromissos de papel e palavras! Nada em nós garante sentimentos. Prometer sentimentos em rituais místicos e pedaços de papel é uma das coisas mais estúpidas que inventaram! Sentimentos são imprevisíveis. Se de minha parte posso deixar de ter disposição para com alguém, por que se lamentar a ausência de alguém que agora se indispõe de mim? Talvez um dos tesouros mais preciosos que podemos possuir seja a capacidade de tirar proveito do sentimento de "saudades" e não se lamentar, quando temos oportunidade de viver tal sentimento.
 "Bateu uma saudade de ti
Agora que eu sei escrever
Agora que eu ando sozinho
Voltei a lembrar de você
Aí bateu uma saudade de mim"
(Essa Nova - Tonho Costa)

Sinto saudades de Às de Copas! Esta carta avulsa, solitária como o Curinga, mais do que os outros três azes, sente sua condição de avulsa, afinal, possui um coração. Desde que iniciamos a celebração de cada semana no Clã Curinga, venho pensando nas palavras pra esta semana tão especial... Às de copas é a carta que mais me atrai nesta paciência da vida... Talvez, como no trecho da música citada acima, a carta de um coração solitário seja metáfora pra mim mesmo. Talvez, assim como Frode inventou e se apaixonou pela própria criatura, eu, apaixonado por Às de Copas, esteja apaixonado por um reflexo de mim mesmo no espelho. Estaria eu, o curinga, ocupando o lugar da princesinha de copas como que por um sonho. Ou estarei eu vestida de rosa, dormindo e sonhando andar por aí, vestido de bobo da corte, cheio de guizos?
Sinto que não conseguirei resolver a trama. Jamais saberei se sou Às de Copas e Curinga a um só tempo ou se sou uma das duas coisas sonhando ser a outra. Há a possibilidade de que existamos separadamente, vivendo, ainda que na esfera dos sonhos, uma grande euforia em estarmos perto um do outro...

“Nada é tão nosso quanto nossos sonhos”
(Friedrich Nietzsche)
Amém!
Na semana que abrirá a temporada das flores sob o naipe de copas, eu, filho primogênito de Vera, autentico filho da primavera, deixo a narrativa de algo meu. Um sonho. Um encontro impossível que se materializa na minha sintaxe abaixo:

Uma voz encantadora entoava um canto triste. Embora a melodia imprimisse o peso de tudo o que se pode rotular por “triste”, era um som muito atraente...

 Tevere e Ponte.
...atração e peso...
Apenas ouvir de longe ou se aproximar e correr o risco de ser esmagado? Uma decisão que dispensava reflexão. O próprio coração guiava as pernas na direção daquele canto de sereia.
Ela me olhou (sem me ver) e continuou cantando. Olhei-a nos olhos e todo aquele receio de ser esmagado converteu-se em leveza....
...flutuava...
O coração acelerado, o suor frio e uma deliciosa dor aguda na região abdominal atirou-me no solo da minha timidez.

“Achei-a tão linda que fiquei sem saber pra onde olhar...”
(O Dia do Curinga - Jostein Gaarder)

Um descompasso inevitável de movimentos me deixou ainda mais desengonçado do que sou. O meu alvo parecia se divertir daquele nervosismo todo.
– Breathing – disse ela sorrindo.
– O que? Disse eu sem entender.
– Respiração... É engraçado o jeito que você está respirando! Parece melodia de um ritmo louco! Disse ela vindo agora em meu encontro.
...breathing...
Ela se aproximava devagar – sedutoramente devagar... Meus olhos, ao contrário de mim, se moviam rapidamente. Olhava sua boca com desejo. Mas também olhava seus olhos em contemplação. Um par de olhos fascinantes, que, naquele instante me pareciam verdes... Ela fixou seu olhar nos meus olhos cor de chocolate. Derretiam com o calor que vinha daquela luz intensa. Olhos nos olhos. Olhos na boca. Minha boca na mira de seus olhos... boca na boca...
O mundo inteiro deixou de existir, ou, ao menos, se resumiu inteiro naquele beijo, naquele momento... As ondas de ofegantes respirações pareciam agora estar prestes a explodir de alegria e prazer naquela manhã que começava. Virei-me e vi o sol dar a luz à primavera. Se no dia anterior podia ainda existir no coração pontos endurecidos pelo gelo que sobrou de um longo inverno, agora os corações batiam forte no peito. Ardiam. Produziam o fogo que queimava todo o gelo...

"(...) Teria olhos verdes? Era fascinado por olhos verdes, como se as pessoas de olhos verdes nunca revelassem tudo, escondendo por trás daquela cor uma vida secreta, profunda, como a dos gatos. " (Caio Fernando Abreu)

E o universo parece estar conspirando, como se tudo fosse programado. Como se tudo seguisse a ordem que eu mesmo escolhi aqui neste texto - como no filme “Vanilla Sky”. A linda Sofia é invenção minha, ou ela existe em algum lugar? Ela existiu um dia e partiu, ou é a memória dela que a torna tão real quanto o sol e a lua? Talvez tudo o que Às de Copas tenha a me dizer, é o mesmo que disse Sofia no filme –  que talvez um dia nos encontraremos "em uma outra vida – quando formos gatos"!
Se a loucura se avizinhou de minha mente por conta das intemperes invernais, o coração agora bate tão acelerado que o calor produz uma fogueira! A euforia é enlouquecedora! Mas parece ser uma loucura melhor que aquela do inverno!
Voltando de meus devaneios, notando a fogueira se alastrar pelo corpo, afastei-me dela!
– Não posso me aproximar mais, disse afastando-me dela!
– Vem! Tenho uma florzinha pra te entregar nestes primeiros raios de luz da primavera!
– Mas estou em chamas! Destruiria a ti e a florzinha em poucos segundos.
– Mesmo que dure apenas três segundos, eu quero! Me abraça e toma o que é teu – toma o que guardei pra ti, meu amor – ainda que dure apenas três segundos, eu quero...
Assim, a florzinha em minhas mãos e ela própria, depois do mais incandescente encontro de corpos que se tem registro, se desintegraram em pouco mais de três segundos...
Acordei sem saber se acordei mesmo ou se dormi em chamas e agora sonho... Pouco importa! Se os sonhos são meus e nada me pertence mais que eles, que a vida seja toda de sonhos – Sem a urgência de saber o que de fato é real ou não.

“Descobrir o verdadeiro sentido das coisas
É querer saber demais...”
(Sonho de uma Flauta - O Teatro Mágico)

Às de copas é a semana que abre a contagem regressiva para o início da nova estação que, em seu último dia, trará a primavera. Na próxima quarta-feira o sol trará a estação mãe deste Clã Curinga. A estação que, antes de se despedir, no último ano, deu a luz a este lar virtual. Como dizia um presságio em Reis de Ouros, o Clã está voltando pra casa. Foram muitas lutas com espadas, trabalho intenso com pedras e paus, recompensas em ouro que pagaram as passagens de retorno ao nosso mais precioso bem - o coração.
Seja bem-vinda novamente a estação das flores, do calor e do amor...

 “...se o coração bater forte e arder
No fogo o gelo vai queimar."
(Nando Reis)


quarta-feira, 9 de setembro de 2015

#39 - REI DE OUROS - Perspectivas.

Saí do banco. Avisei a todos que estava a caminho. Essa viagem não seria nada demais - um feriado prolongado, com a família e os amigos. Churrasco, cerveja preta e, quem sabe, um chimarrão. Coisas que a alma pede, num suprassumo de simplicidade, mas a que o cérebro (tão cheio de suas razões) não atende no dia-a-dia.

Entrei no carro, arranquei... Um estalo. Em frações de segundo, um universo em câmera lenta se apresentou diante dos meus olhos, atônitos - contei cinco pingos de chuva caindo ao mesmo tempo no pára-brisas, destacando-se dentre os inúmeros outros que já escorriam... uma senhora de olhar cansado se espantou com minha súbita passagem e abriu a boca... um carro branco em minha frente ia ficando cada vez maior... e um prata em meu retrovisor também...

Puxei o freio de mão e vi o mundo num lapso de noventa graus. A chuva ficava cada vez mais bela, ao passo que eu filtrava (ou tentava) o som de suas gotas batendo contra a lataria do meu carro, em detrimento das buzinas e dos xingamentos ao meu redor.

Eu havia ficado sem freio e aquaplanado por uns cinquenta metros. A realidade, dita assim, racionalmente, é mais breve e mais dura que a forma poética narrada ali atrás. Mas escrevo para alimentar a minha própria memória - se houverem outros leitores, que cada um escolha a sua versão das "Aventuras de Pi". Aliás, é disto que se trata esse post e, penso eu, todas as leituras que fazemos - de uma questão de ponto de vista. 

Não relatei nenhuma experiência de quase-morte, nem sofri nenhum arranhão neste quase-acidente. Tampouco minha intenção foi a de impressionar alguém com meu relato quase-trágico (trágico, aqui, no sentido estrito - numa das versões dos fatos - e no sentido, digamos, nietzschiano - na outra versão deles). Talvez tenha sido apenas um segundo perdido no tempo... uma reflexão fantasiosa sobre um momento que poderia ter passado como outro qualquer... A vida é uma questão de perspectiva.

["Foi Deus... Foi o destino... Era / não era pra ser"]

"O medo nos leva a tudo,
sobretudo à fantasia...

Viver assim é um absurdo,
como outro qualquer..."
(HG)

O dia-a-dia de muita gente deve ser muito mais impressionante do que algumas linhas num blog de prosa e poesia - questão outra de ponto de vista.

"Matar um leão por dia" pode ser o simples fato de se chegar vivo e inteiro em casa no fim da tarde, ou um período repleto de acontecimentos fantásticos (ainda que sentado num escritório) que começam e terminam abençoados por dois astros cintilantes no céu - é preciso ver o nascer do sol e admirar a lua por alguns segundos ao menos uma vez na vida (ou no dia, mas este é o meu ponto de vista).

Senti falta dos amigos e da família nos dias que se passaram... Mas a solidão também é de ouro, e abriu alas neste inverno incessante para um naipe que vem provar que o coração vale mais do que a cifra - claro, também no meu ponto de vista.

"Você sabe por que a maioria das pessoas vive nesse mundo sem admirar as coisas que vê? 
- perguntou ele.  Fiz que não com a cabeça - Porque elas se habituam com o mundo!"
(O Dia do Curinga - Rei de Ouros)



quarta-feira, 2 de setembro de 2015

#38 - DAMA DE OUROS - Teu olhar me tirou daqui...

“Com duas conchas nas mãos
Vem vestida de ouro e poeira...” (OTM)

Mais uma carta nas mãos. Mais uma oportunidade de ser uma, de ser outras. Mais uma vez, mais um convite. Todos os olhares hoje eu volto ao Clã que me acolheu. E aos Curingas que “como num pavilhão de espelhos”eu os vejo multiplicados em “mim, em mil”. Dessa vez, os Curingas deram-me a missão de ser a Dama de Ouros.
Mas, o que é ouro pra mim?
Essa frase não sai da minha cabeça....
A gente anda por tantos lugares, faz e refaz “eternidades da semana”, encontra e aprecia tantos olhares e sorrisos, fica difícil, às vezes, definir o que é ouro.  Andei tecendo cortina brilhante, cheia de detalhes – o presente e o futuro encaixando-se em cada ponto da agulha. Cada linha da cortina me lembra o Curinga, que perambula por aí. Ás vezes, cortinas tornam-se tão grandes que os ventos não conseguem perambular pela casa. E a casa fica abafada e sem luz. O coração é a casa da gente. O vento, a liberdade, o ouro – O Curinga perdido na pequena escuridão.
Talvez o ouro hoje seja a liberdade, o vento tocando o rosto, o espaço. O deixar-se livre. Ouvi certa vez que deve-se deixar livre para ser livre. Criar asas. Perambular.
A Dama de Ouros olhou para o espelho e viu que suas raízes estavam em seu coração. No fundo, sabia que o coração era a sua verdadeira casa. Entretanto, de móveis, só restava agora uma cadeira. E a casa, que um dia foi tão cheia, agora estava com espaço de sobra.

“(...) tudo na madrugada insiste em ficar
Já que existe tanto espaço em mim.”(Vitor Ramil)

Talvez o ouro esteja mesmo na solidão. Aprendi que não há mais bela canção que o silencio. E não há mais bela contemplação que um olhar. Ainda que apenas na memória. O ouro, nos últimos dias, veio a mim através de lembranças dos olhares que, certa vez, me disseram “sim”, “não”, “eu quero e preciso”, “eu te entendo”.

“ (...) tem certas coisas que eu não sei dizer...”(Lulu Santos)

Aprendi com meu pai a olhar nos olhos das pessoas. Ele certamente era um Curinga. Como um Curinga pode dar vida à Dama? Não se sabe. Também não se sabe por que aprendi essa lição. Na verdade, o Seu Antonio sempre soube a verdade escondida nos olhos, nos meus olhos. Ledo engano pensar que é um legado vil. É preciso ver.
Em sua breve (e linda!) passagem por esse planetinha, ele me mostrou que não há espaço para singularidades. São muitos amores, muitas dores, muitos olhares, muito ouro. É necessário ser plural. Repartir acúmulos, sorrisos, olhares. No início da reflexão, me coloquei no Clã como quem vem “vestida de ouro e poeira.” O ouro vem hoje do olhar. Pra mim, vale mais que toda riqueza acumulada, que todo título pregado em paredes como troféu, que todo dinheiro e posses de indivíduos que não sabem o valor da simplicidade. A poeira vem do “ser plural”. Vem do lapidar o ouro bruto que há em mim, do ouro que havia em mim. Vem da dança da Dama de Ouros no campo minado, à procura de seu Curinga. Vem dos móveis que arrastei dentro de casa à procura de espaço. Vem do velho caderno de memórias, um achado no meio de tantos filósofos e historiadores que habitavam caixas e mais caixas de muitas histórias. Pude reencontrar as tardes de cafés, rodas de violão, palavras e olhares. Hoje, tudo isso tornou-se ouro pra mim. De forma diferente. Com olhos diferentes.

“Reescrevi as memórias, deixei o cabelo crescer e te dedico uma linda história confessa...”(Tiê)

A Dama se despede com olhares de ouros. Saúda, mais uma vez, a casa, o Clã que lhe acolheu. Agradece ainda mais aos Curingas que fizeram dela um tanto do que hoje ela é. Na nova cortina que tece, a agulha é de prata. Entretanto, os fios são de ouros, são os Curingas que olham a poeira da vida. Que fitam a dança da Dama no silencio, no espaço. É a nova decoração para a casa do coração da Dama.
Reza a lenda que todas as manhãs a Dama se senta na cadeira em frente à janela. Quando o sol bate, dá pra ver os olhares dos Curingas. A Dama não sabe o que eles dizem através dos olhos. Mas, pra ela não importa. O enigma é o que importa. É o mistério que a faz voltar todas as manhãs só pra ser observada. No leste tudo nasce. No olhar ela encontra o seu tudo. Isso é ouro pra ela.

“Frode olhou para mim (...). Seus olhos ainda brilhavam como pedras preciosas. Ao constatar isso, não pude deixar de pensar em algo que já tinha ouvido muitas vezes na minha vida: os olhos são o espelho da alma (...). - Dá para vocês verem a profundidade desse jogo do Curinga?” (O dia do Curinga – Dama de Ouros – Jostein Gaarder).

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

#37 - VALETE DE OUROS - Na contramão da vaidade: perambulando no Planalto Central

Mais uma vez escrevo da estrada. Se o destino é uma serpente que engole a si mesma, minha tarefa é ludibriá-la para não virar presa - perambulo pelo mundo e tenho comigo mesma um voto de não "partir desta pra melhor" antes de compreender um pouquinho mais sobre ele.

Estou na terra do mais alto poder e autoridade do país. Local em que as pessoas se guiam por setores e asas, como se a compartimentação da vida fosse sinônimo de organização e, por consequência, de qualidade - "setor de indústrias"; "setor de diversões" (produza aqui, mas seja feliz apenas acolá). 

"Meu deus, mas que cidade linda..."
 (Legião Urbana)

A cidade de asas, contudo, não decolou. Afunda, amiúde, com seus símbolos maiores de poder e autoridade - vaidade daqueles que levam o país no cabresto da carência e da desinformação.

A ostentação das esplanadas é de uma beleza tão impressionante que quase disfarça seu ponto fraco aos olhos narcisistas - as paredes espelhadas refletem universos que não pertencem ao cenário. 

O Parque da Cidade não tem árvores. O Estádio Nacional não tem time. O Lago Paranoá não tem acesso. O museu só tem uma versão da História.

"O sonho é... [uma mentira repetida] popular... [até virar verdade]" (HG)

Seria destino ou coincidência essa viagem sob a égide do naipe de ouros?

... Devaneios que tenho caminhando no percurso de meus compromissos na capital federal... 

"Vidas se repetindo na estação", como na canção... Vidas que se cruzam por acaso ou por um motivo... A serpente novamente se engolindo...


Penso agora na poesia que sopra o vento árido do cerrado - rimas secas também são rimas, ventos que salvam de afogamentos. Perambulo pelo mundo pois a minha única vaidade é rimar sempre em novos ares, ainda que eles sejam rarefeitos nesta Terra de Gigantes.


quarta-feira, 19 de agosto de 2015

#36 – DEZ DE OUROS - ...quando olhei nas entrelinhas, vi a mim mesmo espreitando por detrás das palavras...

Comecei a fria temporada de Ouros invocando à música para redimir as palavras. Em cada uma das minhas aparições nesta estação, abrindo as semanas deste nosso “calendário maia”, usei como trunfo uma música. Não pretendo voltar antes de Ás de Copas, quando uma outra estação será inaugurada.

“...meu coração suburbano espera riquezas maiores
Eu sigo o calendário maia, sou descendente dos astecas
[...] Estou longe, longe - Estou em outra estação...”
(Uma Outra Estação - Legião Urbana)

Minha ausência no final de ouros será não por omissão, mas por lançar mão de um outro trunfo especial, que tem surgido aqui no clã em cada uma das estações – a dama – que agora virá adornada de ouros...
Por hora, tentando não projetar o futuro também neste parágrafo, deixo como despedida minha de ouros mais uma música. Embora seja ambientada em um cenário todo medieval, consigo ver um personagem contemporâneo nas entrelinhas desta canção – eu mesmo:

“Não sou escravo de ninguém
Ninguém é senhor do meu domínio
Sei o que devo defender
E por valor eu tenho
E temo o que agora se desfaz”

Ser escravo pode ser uma condição imposta à força por alguém armado (de metais ou palavras) o suficiente pra te convencer a fazer tudo o que interessa a ele e não a si. Mas se existem escravos circunstanciais, há que se dizer que existem muitos escravos que o são por escolha ou medo. Penso que a esmagadora maioria das pessoas é escrava. Refém de valores, anseios e vontades totalmente alheias a si. Nietzsche falou inúmeras vezes em sua obra sobre pessoas que possuem um “espirito livre”, indivíduos que são capazes de dançar mesmo acorrentados. Mas em um sentido mais prático, útil pra nossa maneira atual de levar os dias, gosto do que o filósofo diz em “Humano, Demasiado Humano”:

“[...] Não se pode perguntar ao banqueiro acumulador de dinheiro, por exemplo, pelo objetivo de sua atividade incessante: ela é irracional. Os homens ativos rolam tal como pedra, conforme a estupidez da mecânica. — Todos os homens se dividem, em todos os tempos e também hoje, em escravos e livres; pois aquele que não tem dois terços do dia para si é escravo, não importa o que seja: estadista, comerciante, funcionário ou erudito.” (Friedrich Nietzsche – Aforismo 283)
A partir desta ótica, podemos supor que um bobo da corte pode ser (e provavelmente é) bem mais livre que um chefe de estado. Quais são as moedas que fazem sentido em nossa vida? Quais são os limites de nossos domínios? Os pedaços de papel com números (tal qual cartas de baralho) ou as escrituras de posse valem mais que o tempo que temos de vida com saúde? Pra mim não! É um valor que tenho e temo ao vê-lo se desfazer em mim ou em seres que amo.

“Viajamos sete léguas
Por entre abismos e florestas
Por Deus nunca me vi tão só
É a própria fé o que destrói
Estes são dias desleais”

As vezes pegar a bicicleta e percorrer os abismos da vida não cura a sensação de solidão em meio a imensidão do universo e a aparente infinitude do tempo. Nunca houve tanto frio aqui dentro de mim. Ter fé (ou não) não é mérito! Como podem as pessoas se gabarem ou se acharem superiores pela simples credulidade em algo? Mesmo pra quem é muito convicto do que acredita, penso que a dúvida redime mais que a fé. Se a fé nunca foi colocada à prova pela dúvida, então ela não vale nada, pois é automática. É por isso que a fé, sozinha, destrói. Pensamentos vagos em uma alma extremamente solitária. Mesmo em dias que tenho os melhores abraços, o inverno ainda segue dolorido, embora a primavera já surja em meu horizonte anunciando o fim dos dias desleais.

“Eu sou metal, raio, relâmpago e trovão
Eu sou metal, eu sou o ouro em seu brasão
Eu sou metal, me sabe o sopro do dragão”

De que me adianta ser metal, ser ouro de brilho raro, se há gelo sobre minha pele? Qual seria o valor do ouro longe da luz? Um fóton de luz do sol que toca meu rosto de manhã não vale mais que todo ouro do planeta? Talvez me digam que os fótons de luz todos tem, enquanto ouros e brasões, são privilégios de poucos... Mas a raridade é mesmo um fator valorativo? Seja qual for o metal feito em brasa e timbrado naquilo que me garante enquanto eu, isto está coberto de gelo. Só o sopro do dragão irá me livrar do invólucro branco de água sólida.

“Reconheço meu pesar
Quando tudo é traição
O que venho encontrar
É a virtude em outras mãos”

Pesar, traição, encontro, virtude... Quanto peso atribuímos a certas palavras. E como são diferentes os modos com que entendemos palavras de grafia e sonoridade idênticas! Algumas ações das mais “indecentes” ao meu juízo, já me chegaram aos ouvidos sob a égide da busca pela “decência”. A atribuição da bandeira de “traição” à desvios de percurso em pobres histórias de relacionamentos afetivos me parece uma invenção de novelas mal escritas e letras de música destas que se vendem em rádios para um grande público. Traição nada mais é do que incoerência; Aqueles passos que damos em direção oposta àquilo que sentimos e desejamos em cada momento; A falta de sinceridade quando se finge sincronia com as pessoas próximas para manter um “status”. Jurar algo que não se pode controlar é, ao meu ver, uma das mais pesadas traições a si: “porque quando eu jurei meu amor eu traí a mim mesmo...” (Raul Seixas). Mas a conta não se fechará! No fim das contas, a única traição realmente condenável é aquela que cometemos contra nós próprios. Quando alguém de sua confiança te “trai” e você não percebe, é você quem na verdade está se traindo por confiar em alguém que não é você. Por outro lado, perceber um gesto traiçoeiro em algo exterior a si (como um abismo na trilha do pedal) é uma excelente oportunidade que a vida oferece para mudar o percurso, traçar novos caminhos e rotas pra longa pedalada da vida.

“Minha terra é a terra que é minha
E sempre será
Minha terra tem a lua, tem estrelas
E sempre terá”

Na Grécia Antiga, em Atenas, vivia um homem chamado Diógenes. Ele morava em um barril! Nascido em Sinope, quando questionado se era ateniense, dizia que era “uma criatura natural do cosmos, e não de uma cidade nem de um estado”. Ele andava com uma lamparina nas mãos em busca de pelo menos um homem “de verdade”, alguém que não vivesse como um animal de rebanho, mas que fosse livre das mentiras da sociedade. Alexandre, o Grande, tendo conquistado a Grécia, soube do sábio e colocou-se diante dele oferecendo qualquer coisa que desejasse. Diógenes exigiu apenas que ele não lhe tirasse aquilo que não lhe podia dar – a luz do sol, tampada pelo corpo de Alexandre diante de si! Coloco esta história pra dizer que não importa o quão rico ou pobre seja o lugar onde você esteja, a Terra – a Minha Terra – sempre mostrará a mais bela paisagem que se pode ver – um céu de sol, nuvens, estrelas e lua.

Poderia percorrer toda a letra da música aqui, afinal existem frases tão ricas quanto as citadas acima... Mas minha grande riqueza agora é aproveitar os dias de boa saúde dos meus filhos... Quanto dinheiro e posses alguém daria para garantir a boa saúde de seus filhos? De quanto ouro e oportunidades alguém com câncer terminal abriria mão pra alguns dias a mais de vida? Sim, sou rico! Muito rico! Tenho tempo e saúde pra aproveitar! E o melhor de tudo – aproveito da minha maneira, pois sou livre! Um dos raros espíritos livres neste estúpido mundo de rebanho que me rodeia! Mas não vou perder meu tempo com uma lamparina procurando outros seres livres como eu... Já conheço curingas o suficiente pra compartilhar palavras, sorrisos, abraços e vida! Além dos pequenos curingas, por quem sou responsável, tenho a companhia de outras cartas curingas que escrevem aqui no Clã! E você, leitor, é escravo ou é curinga?

“...tudo passa, tudo passará
E nossa estória não estará pelo avesso
Assim, sem final feliz
Teremos coisas bonitas pra contar
E até lá, vamos viver
Temos muito ainda por fazer
Não olhe pra trás
Apenas começamos
O mundo começa agora
Apenas começamos”.
(Metal Contra as Nuvens – Legião Urbana)