sexta-feira, 18 de dezembro de 2015
quinta-feira, 17 de dezembro de 2015
#53 – Dia do Curinga – Amor Fati Blues.
“– Feliz Curinga! E um Feliz Ano Novo!
Nesse momento, o pequeno bobo da corte ergueu o braço fazendo tilintar
os guizos e exclamou:
– Não é apenas um ano que passou! O dia de hoje marca o fim de um longo
jogo... Daqui pra frente, o futuro está sob o signo do Curinga. Muitas felicidades,
irmão Curinga. O resto eu conto depois...” (O Dia do Curinga – Jostein Gaarder)
“Para o Ano Novo - Eu
ainda vivo, eu ainda penso: ainda tenho de viver, pois ainda tenho de pensar.
Sum, ergo cogito: cogito, ergo sum [Eu sou, portanto penso: eu penso, portanto
sou]. Hoje, cada um se permite expressar o seu mais caro desejo e pensamento:
também eu, então, quero dizer o que desejo para mim mesmo e que pensamento,
este ano, me veio primeiramente ao coração – que pensamento deverá ser para mim
razão, garantia e doçura de toda a vida que me resta! Quero cada vez mais
aprender a ver como belo aquilo que é necessário nas coisas: – assim me
tornarei um daqueles que fazem belas as coisas. Amor fati [amor ao destino]:
seja este, doravante, o meu amor! Não quero fazer guerra ao que é feio. Não
quero acusar, não quero nem mesmo acusar os acusadores. Que a minha única negação
seja desviar o olhar! E, tudo somado e em suma: quero ser, algum dia, apenas
alguém que diz Sim!” (Nietzsche - Gaia Ciência, aforismo 276)
quinta-feira, 10 de dezembro de 2015
#52 – REI DE COPAS – Sobrevivam apenas lembranças cheias de vida...
Os outros três reis do
baralho procuraram o rei de copas pra se queixar. Em espadas, concluiu-se com
citação que dá de ombros para o poder e suas leis, e, pior, afirma categoricamente
que “não interessa o que diz o rei”. Em paus, ao invés de louvar ao poder e a
força, ficaram rastros de peso e fraqueza. Em ouros, desprezou-se o metal
precioso em favor do valor da vida que quase se desfez em um acidente. E ainda
foi colocado que o coração valia mais que a cifra. Foi o próprio rei de copas
quem me contou. Em um misto de benevolência e autoridade, com uma espada em uma
das mãos e uma cruz em outra, me pediu pra redimir um pouco a imagem dos reis
aqui, agora.
Mas os reis, enquanto
reis, não tem mesmo muito a me dizer. Seu poder, sua benevolência ou sua
tirania não me interessam. Mas se o jogo sujo do poder não me interessa, tenho
por isso que odiar um rei como pessoa? Talvez, até mesmo o rei tenha um
coração. Talvez o rei também tenha sensibilidade pra, como eu, tocar um
instrumento e compor uma canção. Talvez, por baixo da capa e da coroa haja
alguém como eu e você. Alguém cheio de dúvidas e que também fica confuso:
"…Well, it goes like this: the
fourth, the fifth
The minor fall and the major lift
The baffled king composing
Hallelujah..."
(Hallelujah
- Jeff Buckley)
Viver é uma questão de
ponto-de-vista. Acho que foi a tecla em que mais batemos aqui no Clã. Mudar a
perspectiva é um ato revolucionário. Em tempos de instabilidade política, ter a
coragem de ignorar a política é uma virtude. Não é que as decisões que os políticos
tomam não nos afetam. É que isso é muito pequeno diante do esplendor de vida
que se revela aos nossos olhos a cada nascer do sol. Se vou comer em um
banquete de restaurante caro, ou se vou achar comida na lata do lixo de uma
lanchonete barata, são variáveis muito pequenas diante do valor de um coração
que vive e pulsa em nosso peito. Pobre do rei, disse uma vez Raul Seixas. Está condenado
a comandar seu povo. Está a mercê de chacotas e ódio de todos os que estão
obrigados a se curvar perante si. Pobre rei que pensa governar os homens, mas,
como todos nós, está a mercê do reinado do tempo, onde é preciso esperar o
momento oportuno pra assistir o pôr-do-sol ou sentir os pingos de chuva. Não vou
brigar e nem discutir por cauda de politica. Aos políticos faço apenas uma exigência,
aprendida do grego Diógenes – que não tapem o meu sol!
Como rei e comandante
do exército que sou eu, decreto agora que sempre haja uma voz pra me lembrar
que É HOJE! A vida não tem hora marcada pra ocorrer, ela é sempre agora!
Decreto também não me sejam negados a luz, os sons, aromas, sabores e texturas
e que, em nome de meus sonhos, minha tropa ataque tudo aquilo que me desfigure
e que me afaste daquilo que sou. Decreto que a poesia dos dias valham mais que
as lembranças, entretanto, não torno crimes as lembranças, na medida em que
elas sejam agradáveis contornos para os dias. Sobrevivam apenas lembranças
cheias de vida. E que fique registrado no meu Código Vivíl que, o que vier, seja bom demais, dolorido demais, ou
ambas as coisas, seja abraçado com o amor de quem aceita, deseja e procura seu
destino. Tudo valerá a pena, basta que apenas que seja sincero e venha do
coração.
Como último ato de meu
pronunciamento, deixo duas pegadas de vida - uma na boa lembrança de minha
ex-professora Sônia Sperandio Adum, que, há algumas horas deixou de viver. Outra no desejo
de muita saúde, alegria e força ao meu ex-aluno Maycon Andrey, a quem
encaminho uma cópia de meu livro preferido, "O Dia do Curinga".
Obrigado Maycon, tuas
palavras (ainda no primeiro naipe, na semana 8 de Espadas) foram inspiradoras e
acabaram por rasgar o aparente véu de desértica solidão que pairava sobre o Clã
Curinga! Tu foi a nossa maior prova de que, do outro lado das frias palavras
digitadas, havia vida!
A todos os que por
aqui passaram e que ainda passarão, faço votos de coragem pra correr riscos e
seguir aos instintos do CORAÇÃO. Instintos do último naipe da paciência. O naipe
da primavera. O naipe que fecha um ciclo iniciado em 2012. Mas o ano de copas ainda não acabou
- esta última semana prepara o duplo “Dia do Curinga”, que ocorre a cada quatro
anos e, depois de si, traz a tona o início de mais um ciclo em um novo ano de
espadas.
“Tudo é questão de obedecer ao instinto.
Que o coração ensina a ter, ensina a ter.
Correr o risco, apostar num sonho de amor.
O resto é sorte e azar.
Tudo é questão de não se negar nada.
A nenhuma força que dê luz, que dê luz.
Seja de Deus ou do Diabo se for claro.
É só pagar pra ver, é só pagar pra ver.
E se por acaso, doer demais.
É porque valeu.
E se por acaso, for bom demais.
É porque valeu.”
sábado, 5 de dezembro de 2015
Sempre um renascer poético em copas...
No dia do curinga do
ano de copas que antecedeu a este, o sol revelou ao amanhecer um típico dia de
final de primavera – sol, céu azul e coração aquecido. Tudo estava combinado
para o churrasco de comemoração ao cair da noite.
Aquele ano de copas
foi repleto de paradoxos: euforia em conseguir ingressar em uma pós-graduação que sonhava e frustração por perder uma oportunidade de trabalho por conta de
um erro burocrático. Alegria pelo nascimento de minha pequena curinguinha Clara
e apreensão por conta de um problema no esôfago que a colocou na mesa de
cirurgia em seu segundo dia de vida. Presenças inusitadas em minha vida e
ausências inexplicáveis...
Toda aquela
intensidade ganhou um espaço de canalização – um espaço onde uma grande amiga
assumia seu lado “Joker” e colocava-se inteira em prosa e poesia. Que ideia!
Rapidamente pedi que ela me ajudasse a criar também um blog. Assim surgiu o
“Trágica Mente Falando”. Na sequencia, a Andrea criou seu blog “Desconhecido”.
Estava armado o circo. Com os três habitando a mesma cidade, depois de um bom
tempo, proporcionamos uma espécie de renascimento do ano de 2007 (o último da
graduação). Naquela ocasião, também era ano de copas e, as vésperas do Dia do
Curinga estávamos eu, ela, a dama curinga e outros amigos na sala de aula, em
uma das últimas aulas do curso, esperando que o curinga aparecesse com seus
guizos porta adentro antes da aula de filosofia em que apresentaríamos o mágico
calendário de Frode. A presença do pequeno anão de mãos frias podia ser sentida
ali... Mas não o vi...
Mas voltando a 2011,
foram frequentes encontros regados a chimarrão, vinho, violão, filosofia,
poesia... A poesia dos dias era tão intensa, que sempre havia motivos pra
esculpir textos em monumento a tudo aquilo que vivíamos... Nossa presença
poético-virtual era tão incisiva que, certa vez, por conta nas nossas fotos de
perfil com imagens de curinga, Carloz Maltz, baterista fundador dos
“Engenheiros do Hawaii”, se referiu a nós no twitter como “Clã Pierrot”... a reação
da Tim foi “Clã Pierrot, nada – Clã Curinga!”...
Mas aquele ano de
paradoxos, que começou tenso e se tornou o mais espetacular dos anos, guardava
em seu ultimo ato, uma dose cavalar de dor. Algo que gritava aos ouvidos
palavras de Mário Quintana na voz do Fernando Anitelli: “a felicidade
bestializa, só o sofrimento humaniza as pessoas...”.
O dia lindo que
amanheceu naquele dia do Curinga e no primeiro parágrafo deste texto,
terminaria na UTI pediátrica de um hospital. Meu pequeno curinga, depois de uma
intensa gripe insistente, teve uma hemorragia interna e, ao ser examinado,
constatou-se o pior – sua imunidade atingira níveis alarmantes. Foram horas com
ele ardendo em febre e refletindo nos olhos uma dor que ia consumindo sua
frágil vida... Ao invés de música e festa, o final do dia foi ouvindo seus
gritos de dor quando os médicos colocavam nele a sonda dentro da UTI. Não posso
mais passar por aquele corredor do hospital sem que as lágrimas me venham aos
olhos... Depois de viver o pior dia da minha vida, precisei sair do hospital. A
UTI não podia ter acompanhantes, mas, no caso dele, foi permitido a presença da
mãe.
Bem perto dali, a Tim,
sua mãe e nossa amiga Eliane, esperavam notícias. Elas queriam me homenagear
com dois mimos de aniversário – um cabo de instrumento de alta qualidade (que
uso até hoje), e um livro de um autor que se tornaria uma referencia pra mim –
Alberto Caeiro. Mas o mais comovente do livro, sem dúvida é a dedicatória:
Foram as únicas
pessoas que pude ver naquele dia. Sai de lá com a firme intenção de não ver
mais ninguém. Iria direto pra casa, pois, embora fosse meu aniversário, não
havia motivos pra comemorar... Quando me despedi das amigas e dei partida no
carro, ouvi um pequeno tilintar. Olhei na rua pra ver se havia algum papai noel
de shopping perdido, mas não havia ninguém. Passei a lombada e o barulho foi
mais forte, parecia estar dentro do carro. Olhei no retrovisor e tomei um
susto. Um sujeito baixinho com um sorriso constante me encarava. Parei o carro
e me virei pra traz – não havia nada... devia ser delírio por conta do dia
pesado...
Quando coloquei o
veiculo em movimento, uma voz aguda e sarcástica me disse:
- Cuidado com o
ciclista, amanhã pode ser você! – E desviei de um ciclista que, de repente
enxerguei na minha frente...
Antes que eu tivesse
tempo pra me recobrar do susto e conferir de onde teria vindo aquela voz,
ouvi-a novamente:
– Melhor continuar
dirigindo e fingir que eu nem estou aqui. Não queremos machucar mais ninguém
hoje, não é?
Olhei de lado e lá
estava ele. Não havia duvidas! A mesma presença que senti naquele final de
tarde no CCH em 2007, sentia agora – Era o Curinga! O mesmo que escapou da
paciência mágica de Frode! Não consegui dizer nada além de:
– M...maaas...
Co...Como?
– Ouça bem – disse ele
– tenho aqui comigo um tesouro e uma missão! Esta ampulheta é mais uma prova da
existência da ilha mágica e das cartas que pularam da cabeça de Frode. Esta
ampulheta foi feita com madeira colhida na floresta pelas cartas de paus e o
vidro soprado pelas anãs de ouros. Os anões de espadas modelaram a madeira e as
de copas colocaram um pouco do trigo azul-turquesa que usavam em seus pães e
envernizaram... você vai guarda-la até que chegue o momento certo! Antes que
comece o ano de copas, vais escrever como um valete no final de um livro sobre
sonhos. Semearás o “Clã Curinga” e ajudarás a fazê-lo crescer... Mas ouça bem,
só será digna da ampulheta a pessoa que for pequena gigante!
Enquanto desviei por
um segundo a atenção pra conferir um sinal de transito, já perto de minha casa,
o pequeno clown desapareceu. Em cima do banco, estava a ampulheta que, segundo
ele, foi feita pelas cartas de Frode:
A dama curinga mostrou
que o clã poderá sobreviver ao final desta paciência... Talvez mais solto, sem
a necessidade de um monumento a cada carta/semana... Talvez em melodia e
versos... Talvez em silêncio... Deixemos que o vento nos mostre a direção...
O Clã Curinga existe
antes mesmo de ser nomeado! Existe há quase 12 anos! Estamos na semana 12 de
copas, há 12 dias do fim desta paciência... Se virada 4 vezes, a ampulheta tem
duração de 13 minutos e 12 segundos. 13 são as cartas de cada naipe do baralho
– uma pra cada mês no calendário do Clã. 12 são os meses convencionais e os
ponteiros do relógio... são só números e coincidências em uma vida de números e
coincidências...
Não vou usar os níveis
de glucose do post anterior, evidentemente (hahahaha), mas deixo aqui as mais
sinceras saudações à arquiteta que, a partir de uma simples ideia proposta com
palavras de valete (ao contrario), fez surgir este lar virtual.
Faltam 12 minutos pro
fim do seu dia - Feliz Aniversário Tim, nossa Pequena Grande Clown!!!
"...e 29 anjos me saudaram..."
Dia Tim.....! Passei um café, topa? Senta ai, preciso te dizer umas coisas...
Sabe qual foi a primeira coisa que pensei quando te conheci? O que que é que esse cisco de gente ta fazendo aqui?? (Maldade, eu sei .....mas não posso deixar essa passar! )
Essa pessoa foi (e ainda é!) de uma gentileza tão grande sempre, durante os anos da faculdade, que faria qualquer mortal mudar de opinião...
Ao longo do convívio, percebi que o gigante estava travestido de cisco, só pra não revelar seus verdadeiros segredos logo de cara. Uma vez, em uma das nossas conversas no quadradinho da UEL, vc me disse, com propriedade: “Só dou o melhor de mim a quem merece...” Hoje vejo que nem sei se merecia tanto, mas agradeço por me deixar conhecer o melhor de vc, a melhor pessoa, o coração gigante, o melhor humor negro, a melhor introdução de trabalho...e outros tantos melhores...
“Se alguém já te deu a mão e não pediu maus nada em troca
Pense bem, pois é um dia especial...” (Duca Leindecker)
E quando eu comecei a (como diria a minha vó) “andar” com vc e com o Jé...! Eu sempre pensava que a gente havia saído da música do Renato “Festa estranha com gente esquisita...”. Nós sempre fomos pontos fora do gráfico. E ainda somos. Entretanto, o mágico disso tudo é que ainda estamos! E hoje eu não imagino a minha vida sem vcs....
Ser a única sentimental, viadjinha e romântica do Clã é foda. Nunca sei se vcs entendem o que eu quero dizer e, quando sei,fica aquela sensação de “putz,,,,seja menos, Andréa....”. Mas eu não sei ser diferente. E eu não sei ter outra intimidade a não ser essa com vcs....E eu não sei amar nada diferente. Nada pela metade. E os dois são inteiros pra mim!
Acredito e encontros cósmicos. Ok, andei um pouco com a Flávia na UEL....(Flávia, se algum dia vc encontrar esse blog e ler esse post, saiba que te considero uma querida...e não é pejorativo....hahahah), mas o fato é que aprendi a acreditar, de um modo cristão a priori, em encontros e reencontros de almas durante as vidas. E quem me ensinou isso foi o meu pai. Ele dizia (com o copo de caipirinha do lado): “Baixinha....tem gente que já cruzou nosso caminho em alguma outra oportunidade....veja a sua mãe, por exemplo, não é possível que tanto amor seja pra uma vida só. Não cabe em uma só...”Olhando hoje pra foto de vcs dois, sei que essa parceria também não caberia numa vida só.....foi preciso muitas voltas em muitos planetinhas pra gente se encontrar nessa vida...
“Está em cima com o céu e o luar
Hora dos dias, semanas, meses, anos, décadas
E séculos, milênios que vão passar
Água-marinha põe estrelas no mar
Praias, baías, braços, cabos, mares, golfos
E penínsulas e oceanos que não vão secar
E as coisas lindas são mais lindas
Quando você está” (Nando Reis)
Por falar em seu Antonio, ele te admirava muito Curinga Tim! Hoje eu sei que ele sabia quem a gente era, nossas escolhas, os caminhos tortos e retos. E ele sempre dizia “A Cinthia é uma baixinha de valor....pessoas assim a gente não deixa ir embora nunca...” Hoje eu sei que o baixinha de valor nada mais é do que a Alice, quando o Chapeleiro diz pra ela “por que vc é sempre pequena demais ou grande demais?”
Por que vc é assim...? Creio que é pra sempre lembrar que a vida é pequena e grande demais....! A gente aprende com vc todos os dias....E a vida não seria a mesma sem essa pequena – grande mulher!
Por falar em mulher de valor, admiro sua coragem! Sério...não é pra muita gente isso ai não...
Coração com raízes no ar, cosmopolita, forte, firme até demais.... que só acredita em Deus se ele souber dançar...
No fim das contas, vc sempre acaba mostrando o caminho. E eu sempre acabo te ouvindo, porque vc manja dos paranauês...de muitos paranauês. Acho que a capital paranaense tem sorte de, todos os dias, te ver perambulando pelas ruas. E espero que seus amigos de lá saibam a grande sorte que tiveram em te encontrar. E espero que eles valorizem o que de melhor vc tem, porque seria um abuso ter vc por perto e não sacar que é um presente do Universo...
Por falar em mulher de valor, admiro sua coragem! Sério...não é pra muita gente isso ai não...
Coração com raízes no ar, cosmopolita, forte, firme até demais.... que só acredita em Deus se ele souber dançar...
No fim das contas, vc sempre acaba mostrando o caminho. E eu sempre acabo te ouvindo, porque vc manja dos paranauês...de muitos paranauês. Acho que a capital paranaense tem sorte de, todos os dias, te ver perambulando pelas ruas. E espero que seus amigos de lá saibam a grande sorte que tiveram em te encontrar. E espero que eles valorizem o que de melhor vc tem, porque seria um abuso ter vc por perto e não sacar que é um presente do Universo...
Por falar em fim....vou parar por aqui (antes que comece a subir formigas no seu celular de tanta melosidade...).
Eu quero que vc seja feliz! E que nada, nem ninguém te faça perder a fé na vida. E que teus sonhos se realizem logo. E que teus planos sejam pra te fazer feliz no hoje. O amanha a gente não sabe o que é...e a vida é muito curta pra não ser feliz agora, pra não comer a sobremesa antes, pra não se apaixonar todos os dias, pra não andar descalça na terra, pra não perder o fôlego, pra não ser Curinga....pra não ser exatamente quem vc é! E eu te admiro por ser quem vc é....por ser a baixinha de valor e o gigante todos os dias, Alice!
Eu quero que vc seja feliz! E que nada, nem ninguém te faça perder a fé na vida. E que teus sonhos se realizem logo. E que teus planos sejam pra te fazer feliz no hoje. O amanha a gente não sabe o que é...e a vida é muito curta pra não ser feliz agora, pra não comer a sobremesa antes, pra não se apaixonar todos os dias, pra não andar descalça na terra, pra não perder o fôlego, pra não ser Curinga....pra não ser exatamente quem vc é! E eu te admiro por ser quem vc é....por ser a baixinha de valor e o gigante todos os dias, Alice!
Felicidades! Nessa e nas outras vidas! E eu espero poder ter por perto o Jé e vc nas outras vidas! Seria um desperdício viver sem poder olhar nos olhos de vcs de vez em quando, e ver tanto brilho e tanta vida neles....e seria também um desperdício não me apaixonar por vcs dois sempre.....!
Vida longa! Beijo enorme! Saudades...!
Vida longa! Beijo enorme! Saudades...!
sexta-feira, 4 de dezembro de 2015
#51 - DAMA DE COPAS - "Tudo é tão maravilhoso e tão triste ao mesmotempo... "
O post dessa semana tem um Q de desafio, um Q de alegria, um Q de despedida e, por que não, um Q de tristeza. Ser Dama nesse jogo de cartas que é a vida não requer singularidade. Os dois Curingas desse Clã ja disseram que a Dama é plural, se traveste de várias formas. As emoções de hoje, então, não poderiam ser diferentes. A Dama de Copas pode ser muitas; E, mesmo que leve no RG o latim traduzido em R (não quero comentar sobre esse infortúnio... ), a melhor definição pra ela é "a Dama do Clã". E essa Dama é só dele.
Peguei um atalho e sai do fluxo dessa vez. O meu último post em casa foi dividido em duas partes. A primeira é essa. A segunda será publicada a partir da meia noite porque tenho um motivo mais que especial para fazê -lo! Que os Curingas dessa casa me perdoem e que compartilhem das mesmas emoções que eu. Amém!
Dediquei um tempo essa semana à releitura dos post do Clã. Quantos tantos fazem parte de mim ali...! Tem sido um prazer dizer que estou em casa aqui.. e confessar que espero toda semana poder ler cada Curinga nessas linhas do Clã. É um sentimento de pertencimento. Daqueles que se sente com cada parte da alma.
"Todos meus tantos são teus
Todos enquantos... " (OTM)
Enquanto houver vida haverá encontros e despedidas, reticências, pausas, vírgulas. Essa dinâmica de ir e vir nos deixa, muitas vezes, insensíveis ao caminho percorrido e crentes no destino a ser alcançado. Esquecemos de desligar o ar condionado do carro na Estrada e abrir a janela pra sentir o vento, pra ver o velocímetro traduzido nas faixas que quase desaparecem no asfalto. Esquecemos de desligar o som do carro e ouvir a música da estrada. Esquecemos de desejar o caminho mais que o destino.
A prosa tomou esse rumo porque eu, cheia de tristeza e lamento, não sabia como começar o meu texto sem expressar a falta que esse Clã fará em minha vida. É sério.. a primeira tentativa de texto não apresentava nenhum elemento de celebração. Mas, ao reler as postagens, cheguei à conclusão que o caminho percorrido até aqui é mais encantador do que o fim... ainda mais pra quem deixou de ser o expectador que via de dentro do carro a vida aqui dentro acontecer. Que via as sombras dançando e embalava o mesmo ritmo que elas de dentro do meu quarto quadrado.
Eu saí do carro no meio da estrada pra sentir o vento...
"A felicidade não está na estrada que leva a algum lugar. A felicidade é a própria estrada." (B. Dylan)
Durante esse ano eu acumulei riquezas que, para alguns, não vão me levar à conquistar o mundo do consumo. É a contradição dentro de um sistema que me diz a todo momento que na vida a gente precisa conquistar bens. É a contradição dentro de um outro Clã de São Paulo, onde as pessoas filtram a prosa que terão comigo de acordo com a marca do meu celular. Se for o da maçã, o assunto é Cult. Se for qualquer outro, vamos falar de desigualdade social...
Onde a amizade é medida pelo número de vezes que eu fui pro Chile... ou que eu jantei no mesmo restaurante que o Cristiano Ronaldo jantou... São riquezas acumuladas no meio do deserto de sentimentos vazios, de amizades por interesse, de egos em busca de afirmação de corpo perfeito, pessoas perfeitas, e com valores sociais que não cabem numa realidade como a nossa. Ou até mesmo em uma sociedade que "quer ensinar fazer comida uma nação que não tem ovo na panela... "
Em tempos de valores baseados em riquezas materiais, quem consegue encontrar ouro em amizades e em Clãs como o Curinga é privilegiado, ainda que a maioria diga que não. Ainda que pessoas se afastem...
"Aqueles que carregam as insignificâncias a que chamam riqueza ficam sempre demasiado pesados para voar." (Saramago)
Eu sou privilegiada.
Que sempre haja motivo pra me lembrar de tudo que vivi aqui com vcs! E que o Universo me leve a saltar pra queda livre, a acumular riquezas de coração e alma, a sair do quarto quadrado e ver o sol!
Escrever pela última vez como Dama de Copas nesse Clã foi um prazer! E que os ventos sempre continuem nos guiando pra mais encontros com café, prosa, chimarrão e poesia! A Dama sempre estará à espera da sombras dos Curingas dançando pelas ruas da vida! E ela dançará todas as vezes com vcs, de perto ou de longe!
Vida longa aos Curingas!
Peguei um atalho e sai do fluxo dessa vez. O meu último post em casa foi dividido em duas partes. A primeira é essa. A segunda será publicada a partir da meia noite porque tenho um motivo mais que especial para fazê -lo! Que os Curingas dessa casa me perdoem e que compartilhem das mesmas emoções que eu. Amém!
Dediquei um tempo essa semana à releitura dos post do Clã. Quantos tantos fazem parte de mim ali...! Tem sido um prazer dizer que estou em casa aqui.. e confessar que espero toda semana poder ler cada Curinga nessas linhas do Clã. É um sentimento de pertencimento. Daqueles que se sente com cada parte da alma.
"Todos meus tantos são teus
Todos enquantos... " (OTM)
Enquanto houver vida haverá encontros e despedidas, reticências, pausas, vírgulas. Essa dinâmica de ir e vir nos deixa, muitas vezes, insensíveis ao caminho percorrido e crentes no destino a ser alcançado. Esquecemos de desligar o ar condionado do carro na Estrada e abrir a janela pra sentir o vento, pra ver o velocímetro traduzido nas faixas que quase desaparecem no asfalto. Esquecemos de desligar o som do carro e ouvir a música da estrada. Esquecemos de desejar o caminho mais que o destino.
A prosa tomou esse rumo porque eu, cheia de tristeza e lamento, não sabia como começar o meu texto sem expressar a falta que esse Clã fará em minha vida. É sério.. a primeira tentativa de texto não apresentava nenhum elemento de celebração. Mas, ao reler as postagens, cheguei à conclusão que o caminho percorrido até aqui é mais encantador do que o fim... ainda mais pra quem deixou de ser o expectador que via de dentro do carro a vida aqui dentro acontecer. Que via as sombras dançando e embalava o mesmo ritmo que elas de dentro do meu quarto quadrado.
Eu saí do carro no meio da estrada pra sentir o vento...
"A felicidade não está na estrada que leva a algum lugar. A felicidade é a própria estrada." (B. Dylan)
Durante esse ano eu acumulei riquezas que, para alguns, não vão me levar à conquistar o mundo do consumo. É a contradição dentro de um sistema que me diz a todo momento que na vida a gente precisa conquistar bens. É a contradição dentro de um outro Clã de São Paulo, onde as pessoas filtram a prosa que terão comigo de acordo com a marca do meu celular. Se for o da maçã, o assunto é Cult. Se for qualquer outro, vamos falar de desigualdade social...
Onde a amizade é medida pelo número de vezes que eu fui pro Chile... ou que eu jantei no mesmo restaurante que o Cristiano Ronaldo jantou... São riquezas acumuladas no meio do deserto de sentimentos vazios, de amizades por interesse, de egos em busca de afirmação de corpo perfeito, pessoas perfeitas, e com valores sociais que não cabem numa realidade como a nossa. Ou até mesmo em uma sociedade que "quer ensinar fazer comida uma nação que não tem ovo na panela... "
Em tempos de valores baseados em riquezas materiais, quem consegue encontrar ouro em amizades e em Clãs como o Curinga é privilegiado, ainda que a maioria diga que não. Ainda que pessoas se afastem...
"Aqueles que carregam as insignificâncias a que chamam riqueza ficam sempre demasiado pesados para voar." (Saramago)
Eu sou privilegiada.
Que sempre haja motivo pra me lembrar de tudo que vivi aqui com vcs! E que o Universo me leve a saltar pra queda livre, a acumular riquezas de coração e alma, a sair do quarto quadrado e ver o sol!
Escrever pela última vez como Dama de Copas nesse Clã foi um prazer! E que os ventos sempre continuem nos guiando pra mais encontros com café, prosa, chimarrão e poesia! A Dama sempre estará à espera da sombras dos Curingas dançando pelas ruas da vida! E ela dançará todas as vezes com vcs, de perto ou de longe!
Vida longa aos Curingas!
quinta-feira, 26 de novembro de 2015
#50 – VALETE DE COPAS – um militar suspeito prendeu-se a si mesmo.
Todos
os valetes do baralho seguram alguma arma.
Em contrapartida, todas
as damas seguram uma flor.
O valete de copas,
segundo soube, faz referência a um militar francês que lutou na “guerra dos cem
anos”. Étienne de Vignoles lutou ao lado de Joana d'Arc e, junto com ela, é
tido como herói. Alguém que servia ao seu país com fidelidade e bravura. Talvez
os ingleses não tenham a mesma percepção histórica dele. O exemplo de sua
companheira de guerra é notável, foi queimada como bruxa pelos britânicos e
aclamada como santa pelos franceses. O valete de copas da história queimou
aldeias e matou centenas de ingleses.
Herói ou vilão?
Os europeus lotearam
todo o território ao sul e promoveram na África e na Ásia um movimento
ganancioso de exploração de recursos e seres humanos que foi chamado de “imperialismo”.
O oriente médio tem um “tesouro” que os ocidentais anseiam pra continuar levando
a vida em alta velocidade com seus automóveis – petróleo. Tem um país
localizado em um ponto estratégico para o escoamento da produção de petróleo do
Oriente Médio para o Ocidente – a Síria. Um grupo radical classificado no
ocidente de “terrorista”, organizou um ataque à capital francesa com armas de
fogo manuais e causou a morte de mais de uma centena de franceses. O noticiário
brasileiro deu amplo destaque ao acontecimento e causou grande comoção no nosso
país. Entre notícias de como aconteceram os ataques terroristas, uma nota curta
informando que o governo da França respondeu aos ataques bombardeando a Síria. O
problema é que na Síria não vivem só os tais terroristas. Milhares de civis (e
muitas crianças) já morreram vitimas de bombardeios deste tipo. Mas quem liga
pra eles? Cem vidas ocidentais devem valer mais que 100 mil vidas orientais,
certo? É a impressão que se tem vendo os
noticiários...
Não quero desprezar a
dor das famílias de vitimas de uma guerra como esta, mas é preciso olhar pra
vida humana como um valor comum a todos os povos. A vida é algo tão incrível
que, receber notícias de atentados contra ela é algo deprimente.
Entusiastas de
governos e sistemas econômicos comemoram “avanços”, “crescimento”; lamentam “crises”,
“recessões”... Onde chegaremos com a tese liberal do “crescimento eterno”?
Prefiro nem falar da sede por lucros cada vez maiores que levou à destruição de
toda uma região engolida pela lama de uma destas empresas que visam “crescimento”
as custas da natureza... A tese do “crescimento eterno” é uma das maiores
aberrações do nosso tempo. O prenuncio de um colapso:
Esta discussão pode
ser demorada e chata... Mas não quero depor contra a “guerra”, afinal, é
necessário lutar sempre com unhas e dentes. O leão precisa matar pra viver. Nós,
em contrapartida precisamos “matar um leão por dia”. Não somos leões! Às vezes
matamos sem matar, como na metáfora citada. O dia está em guerra com a noite, o
amargo com o doce, o frio com o calor...
“...da
guerra de opostos nasce todo o vir-a-ser...”
(Heráclito
de Éfeso)
Os elementos em guerra
nas engrenagens do mundo não aniquilam o seu oposto! O leão não extingue a
manada de gnus, pois deli vem seu alimento. O sol não extingue a lua... Que
nossas guerras possam ser equilibradas, vantajosas. Guerrear por bandeiras,
religiões, líderes, parece uma estupidez sem tamanho. Quem dera todos os
valetes fossem como os que serviam a rainha de copas em “Alice no País das
Maravilhas”, que nunca cumpriam a ordem de cortar a cabeça daqueles que a
incomodavam... Quem dera todo rei fosse como aquele do “Pequeno Príncipe”, que
daria sempre o perdão ao rato de seu planeta pra poder condená-lo a morte
sempre... Rei que, aliás, fez do Principezinho um juiz que teria a mais difícil
das tarefas, julgar a si mesmo...
Como se portaria um
daqueles militares que cumpriram ordens do Governo do Paraná pra bombardear
professores desarmados em sete de paus? Eu que fui soldado ciclista em Ás de
Espadas, tenho reservas quando aos ensinamentos que tive sob a maior
instituição militar do país. Militares, ao meu ver, são formados pra obedecer
cegamente, sem ponderar se aquilo que foi ordenado é coerente consigo ou não. Um
militar fica enjaulado em sua farda sem poder dar vazão a si próprio enquanto
indivíduo. Ele é parte de uma instituição maior.
Mas o que pode ser
maior que eu próprio aos meus olhos?
ALERTA VERMELHO!
Pensar assim é muito suspeito! Sendo eu como o valete francês, fiel ao meu rei
e a minha causa, devo punir-me a mim por ter tais pensamentos! E assim um
militar suspeito prendeu-se a si mesmo. Nunca mais escapou da doutrina que
programaram em si.
Na estação passada,
despedi-me do naipe de ouros em dez, invocando o trunfo da dama. Na semana
passada, despedindo-se de copas (o último naipe), pelas mãos da arquiteta deste
clã, a dama-curinga foi invocada pela quarta e última vez nesta paciência. Era
um presente de aniversário. Curioso como as pontas se fecham – no big-bang que
originou este Clã Curinga e a temporada de espadas (o primeiro naipe), quem
recebeu presente de aniversário fui eu. Começou entregando a espada para que eu
pudesse me unir a ela nas lutas que viriam no ano e fechou de coração aberto com
homenagens de nov(a)idade a outra carta-curinga...
Que a dama de copas
traga em suas mãos as mais belas flores da primavera. Que nossas guerras sejam
a nosso favor e jamais a favor daquilo que não somos. Como na canção citada em Dez
de Ouros, “Eu quero a espada em minhas
mãos...”, como um bom valete, não fujo da luta e “Não me entrego sem lutar - tenho, ainda, coração...”. Mas não sou valete e nem devo fidelidade ao naipe copas! Há uma lição a aprender desta carta – deixemos
que os senhores da guerra se destruam entre si!
“[...]
E os senhores liberais, tão vulgares hoje, quem querem eles libertar? Por que
liberdade gritam e anseiam? Pela liberdade do espírito! Do espírito da
moralidade, da legalidade, da devoção, do temor de Deus, etc. Mas isso é o
mesmo que querem os senhores antiliberais, e toda a polémica que os divide anda
à volta de um beneficio: os últimos querem ter a palavra sozinhos, enquanto os
primeiros exigem "ter parte activa no usufruto desse benefício". Para
ambos, o epírito é senhor absoluto e só disputam entre si para saber quem vai
ocupar o trono hierárquico devido ao "regente do Senhor". O melhor de
tudo isto é que podemos ficar tranquilamente a ver toda ssa agitação com a
certeza de que as feras da história se irão comer umas às outras como as da
natureza; e os seus cadáveres a apodrecer vão adubar o terreno para... os
nossos frutos. [...]”
(Max
Stirner - O Único e sua propriedade - As Obsessões).
quarta-feira, 18 de novembro de 2015
#49 - 10 DE COPAS - " um bobo da corte, que a engrenagem do tempo é incapaz de engolir, perambula pelo mundo..."
Uma Dama da capital costuma aparecer ocasionalmente por aqui. Traveste-se de diferentes naipes. Possui diferentes faces. Possui um só coração, imenso, sem raízes.
Há cerca de 11 anos ela perambulava por Londrina, quando encontrou um soldado que pedalava pela estrada, e ambos se tornaram partes integrantes de meus dias, meus poemas, minha vida.
Há cerca de um mês ela comemora órbitas em torno do sol, tantas que já nem sei quantas foram! [perco o amigo, mas não perco a piada! rsrs]
Pudera... como condenar celebrações da vida, ainda que sob a égide de um "inferno astral"? Na onda do desapego do papel, sugerida genialmente no post passado, por que nos apegarmos tanto a datas marcadas, se há razão para celebrar a cada instante a presença de vidas tão preciosas ao nosso redor?
Nenhum título de post seria mais propício ao dia de hoje. Nem fiz questão de adaptá-lo! Mais uma vez sob a égide das poucas palavras, deixarei de lado os infortúnios diários que, especialmente hoje, distorcem meu silêncio solitário e inspiram palavras já guardadas a uma próxima ocasião...
... Para dizer que esta curinga que hoje vos escreve, mais uma vez, está a poucas horas de perambular pelo mundo novamente... E, por ironia, a caminho de local tão próximo de nossa Dama-Curinga... que igualmente tem a alma e o peito cosmopolitas!
[Infelizmente, a ocasião não permitirá um encontro... não fosse eu esta carta ignorada do baralho, nem mesmo poderia estar postando aqui o meu destino!]
Mas aproveito o ensejo para deixar registrado aqui, também, a felicidade de ter feito parte de mais uma volta em torno do sol na vida da Dama do Clã Curinga. Hoje [sim, somente hoje!] ela coloca fim ao seu inferno astral tão comemorado e celebra, de fato, seu aniversário!
"A amizade é um amor que nunca morre"
(Mário Quintana)
Que os astros então sejam sublimes nos seus atalhos por este mundo gigante! Que as trilhas que seguimos continuem nos cruzando os caminhos, pois família é também aquela que a gente escolhe, e posso afirmar plenamente que temos este porto seguro no que chamamos, há mais de dez anos, de amizade! E que o sorriso estampado na foto de 2007 seja o de todos os dias no teu espelho...
[pela distância, e como pedido de desculpas por não poder te dar um abraço nesta ocasião, posso te deixar de presente uma promessa de tirar uma foto decente no nosso próximo encontro, e também o próximo post da Dama de Copas, lugar já cativo e esperado aqui no Clã]
Feliz aniversário!
sábado, 14 de novembro de 2015
#48 – NOVE DE COPAS – O mundo agora apodrece em seus compromissos de papel...
Dar aulas para crianças que estão se
iniciando nos estudos da história (e na construção de sua própria) e escrever
aqui no Clã neste ano me fizeram pensar (e muito) no valor que damos à escrita.
Tudo o que vem antes da invenção da escrita chamamos de “pré-história”. A
história não passa de míseras dezenas de séculos em meio a um oceano de
existência de vida no planeta Terra. A própria Terra não passa de uma formação
recente no meio de uma infinidade de espaço vazio e incontáveis estrelas
distantes...
Mas nós inventamos a escrita. Artificio
que ajudou nossos ancestrais a acumularem conhecimento e aprenderem a, de uma
forma ou de outra, lidar melhor com o caos natural que se desenrola ao nosso
redor. Negar a importância da escrita seria uma grande hipocrisia. Mas a
sacralização da mesma e tudo o que hoje se aprisiona por meio dela é algo que
parece exalar (e já há algum tempo) o odor da decomposição...
Logo que nascemos, um papel assinado por
nossos pais, mais do que o nosso choro, ou a primeira respirada de ar, é o que “certifica”
nossa existência. Depois vamos experimentando o mundo e se encantando a cada
coisa nova que descobrimos. Mas as coisas tem nome, por isso vamos aprendendo. Às
vezes, duas coisas diferentes tem o mesmo nome, e somos surpreendidos quando
ouvimos uma frase do tipo “não limpa a boca suja de manga na manga da camisa!”.
Manga fruta, manga da camisa, folha do pé de manga, folha de bananeira, rádio
folha, folha de papel...
Na escola usamos muito papel...
Em blocos com muitas folhas de papel aprendemos
a ordenar tudo o que ouvimos em palavras escritas... E vamos descobrindo que
este mundo maravilhoso que parecia nosso, tem donos. Todo o mês chegam em casa
papeis cobrando pelo uso da agua, eletricidade, telefone, aluguel... Quem viveu
a vida toda vendo os pais pagarem aluguel, como vi e vejo minha mãe, conhece o
sonho da maioria das pessoas que vivem nessa situação – comprar uma casa. Basta
juntar dinheiro, achar uma casa a venda e assinar papéis. A casa será tua
quando tiver um papel no seu nome, uma “escritura”.
Iniciamos então os conhecimentos sobre a
propriedade privada. Tudo regulamentado por papeis assinados por pessoas “importantes”
e “poderosas”. Se eu der de ombros, como fez o Pequeno Príncipe nos planetas do
rei, do empresário, do geógrafo... ou simplesmente pedir pra que esses “poderosos”
não atrapalhem a visão que tenho do meu sol, como fez Diógenes, certamente posso levar a vida de
uma maneira muito rica...
(Planos de Papel - Raul Seixas)
Mas ignorar a idolatria por papel de
alguns poucos, não livra a grande maioria da mesma idolatria. Reproduzimos a
ideia de posse por uma escritura em nossas relações sociais. Quem não é filho
de político precisa estudar (e muito) pra alcançar alguma posição de destaque
nos palcos montados no circo das relações sociais. E pra sermos respeitados,
ter oportunidades de jogar o jogo deles, precisamos de um papel com o carimbo
de uma instituição e a assinatura dos superiores da mesma. Sem diploma, salvo raríssimas
exceções, não passamos de curingas descartados no lixo. Totalmente fora do jogo
que garante nossa permanência segura na terra.
"Se pensam que eu tenho as mãos vazias e frias - melhor assim.
Se pensam que as minhas mãos estão presas - surpresa!
Se pensam que as minhas mãos estão presas - surpresa!
mãos e o coração livres e quentes - chimarrão e leveza..."
(Ilex Paraguarienses - Engenheiros do Hawaii)
(Ilex Paraguarienses - Engenheiros do Hawaii)
Mas queremos garantia de tudo pra
atingirmos a segurança necessária pra sermos felizes e vivermos em paz, então vem
outro papel. Uma escritura de posse que quase todo mundo quer ter. A posse
sobre outra pessoa. Um “papel passado” que garante que, a partir daquela data,
tu só poderá se interessar pela mesma cor, a mesma fruta (ainda que apodreça),
o mesmo cheiro, os mesmos sons, a mesma textura...
“Se eu te amo e tu me amas,
o amor a dois profana
o amor de todos os mortais:
porque quem gosta de maçã
irá gostar de todas,
porque todas são iguais..."
(“A Maçã” - Raul Seixas)
Já citei esta musica em um debate sobre o
amor e meus interlocutores disseram que era uma justificativa tola, uma
desculpa de quem não era capaz de arcar com um compromisso. Então me bate outra
dúvida, um “compromisso” é algo que firmamos e mantemos por amor ou por
obrigação? Não pretendo alimentar a ideia de que as pessoas devem viver em uma
sociedade sem compromissos, mas acho que só é possível se comprometer com
coisas possíveis e, mais do que isso, com coisas que nos fazem bem. Comecei o
texto falando sobre escrever e dar aulas. Meu compromisso com o colégio e os
alunos garante os recursos que preciso pra me manter na vivo na paciência da sociedade.
Mas não posso dizer que me seja um peso. Gosto do que faço. O compromisso de
escrever aqui a cada catorze dias é algo que me faz bem. Se não me agradasse
mais com isso, não acho que seria desonesto parar. O compromisso deveria
existir pra nos ajudar a viver e não o contrário. Viver em função de
compromissos que se afastam daquilo que somos e almejamos deveria ser
considerado um pecado contra a vida.
“Não basta o
compromisso, vale mais o coração
Já que não me
entendes, não me julgues, não me tentes...”
(Legião Urbana – 1º de
Julho)
Não quero descrer na vontade que duas
pessoas possam ter de passar a vida inteira juntos em harmonia um com o outro. Mas
também não posso acreditar que isso seja regra. A experiência me diz até que
isso é exceção. Sem negar a possibilidade de um amor “até que a morte os separe”,
penso que prometer amor é alta traição a si próprio. É como prometer que não
vai chover amanhã! Ou será que sentimentos são elementos de laboratório,
totalmente constantes e previsíveis? Somos natureza, somos caos...
"Podemos prometer atos,
mas não podemos
prometer sentimentos.
Atos são pássaros
engaiolados.
Sentimentos são
pássaros em voo."
(Mosaico de
Pensamentos - Rubem Alves).
Sentimentos não podem ser delimitados por
cercas!
Nunca pedi ajuda a tantos autores. Mas este
tema é quase uma unanimidade! Quase todos sacralizam e sonham com propriedades,
diplomas e, sobretudo, casamento – seu e dos outros... Não pretendo tirar o
orgulho de um eventual leitor que ame os arranjos sociais como são, à base de
papel e compromissos. Mas quero demonstrar que não concordar com isso não é
nenhuma aberração. Posso encontrar argumento até nas palavras de um padre,
representante de uma instituição que sacraliza por séculos a união de duas
pessoas por um ritual mágico que se confirma em papel:
“...Tudo o que te
aconteceu
Foi por falta de
entender
Que amar não é prender
Nem ter domínio sobre
alguém
Mas consiste em fazer
livre
A quem se ama e se
quer bem
Todo amor que não
promove
A liberdade, não
convém...”
(Beleza Imperfeita - Padre
Fábio de Melo)
Eu poderia passar horas tentando
demonstrar que o mundo agora apodrece em seus compromissos de papel, mas duvido
que hoje eu possa ser mais contundente e claro do que companheiros defuntos que
vira e meche chamo pra um bate-papo musico-filosófico: Nietzsche e Raul Seixas. Por isso deixo aqui inteiramente um aforismo do alemão e uma canção do baiano:
“As
coisas que chamamos de amor: Cobiça e amor: que sentimentos diversos evocam
essas duas palavras em nós! – e poderia, no entanto, ser o mesmo impulso que
recebe dois nomes; uma vez difamado do ponto de vista dos que já possuem, nos
quais ele alcançou alguma calma e que temem por sua ‘posse’; a outra vez do
ponto de vista dos insatisfeitos, sedentos, e por isso glorificado como ‘bom’.
Nosso amor ao próximo – não é ele uma
ânsia por nova propriedade? E igualmente o nosso amor ao saber, à verdade, e
toda ânsia por novidades?
Pouco a pouco nos enfadamos do que é
velho, do que possuímos seguramente, e voltamos a estender os braços; ainda a
mais bela paisagem não estará certa do nosso amor, após passarmos três meses
nela, e algum litoral longínquo despertará nossa cobiça: em geral, as posses
são diminuídas pela posse. Nosso prazer conosco procura se manter transformando
algo novo em nós mesmos – precisamente a isto chamamos possuir.
Enfadar-se de uma posse é enfadar-se de
si mesmo.
(Pode-se também sofrer da demasia –
também o desejo de jogar fora, de distribuir; pode ter o honrado nome de
“amor”.)
Quando vemos alguém sofrer, aproveitamos
com gosto a oportunidade que nos é oferecida para tomar posse desse alguém; é o
que faz o homem benfazejo e compassivo, que também chama de “amor” ao desejo de
uma nova posse que nele é avivado, e que nela tem prazer semelhante ao de uma
nova conquista iminente.
Mas é o amor sexual que se revela mais
claramente como ânsia de propriedade: o amante quer a posse incondicional tanto
sobre sua alma como sobre seu corpo, quer ser amado unicamente, habitando e
dominando a outra alma como algo supremo e absolutamente desejável.
Se considerarmos que isso não é outra
coisa senão excluir todo o mundo de um precioso bem, de uma felicidade e
fruição; se considerarmos que o amante visa o empobrecimento e privação de
todos os demais competidores e quer tornar-se o dragão de seu tesouro, sendo o
mais implacável e egoísta dos ‘conquistadores’ e exploradores; se
considerarmos, por fim, que para o amante todo o resto do mundo parece
indiferente, pálido, sem valor; e que ele se acha disposto a fazer qualquer
sacrifício, a transtornar qualquer ordem, a relegar qualquer interesse: então
nos admiraremos de que esta selvagem cobiça e injustiça do amor sexual tenha
sido glorificada e divinizada a tal ponto, em todas as épocas, que desse amor
foi extraída a noção de amor como o oposto do egoísmo, quando é talvez a mais
direta expressão do egoísmo.
Nisso, evidentemente, o uso linguístico
foi determinado pelos que não possuíam e desejavam – os quais sempre foram em
maior número, provavelmente. Aqueles que nesse campo tiveram posses e
satisfação bastante deixaram escapar, aqui e ali, uma palavra sobre o ‘demônio
furioso’, como fez o mais adorável e benquisto dos atenienses, Sófocles: mas
Eros sempre riu desses blasfemos – eram, invariavelmente, os seus grandes
favoritos.
– Bem que existe no mundo, aqui e ali,
uma espécie de continuação do amor, na qual a cobiçosa ânsia que duas pessoas
têm uma pela outra deu lugar a um novo desejo e cobiça, a uma elevada sede conjunta
de um ideal acima delas: Mas quem conhece tal amor? Quem o experimentou? Seu
verdadeiro nome é amizade.” (A Gaia Ciência – Friedrich Nietzsche)
sexta-feira, 6 de novembro de 2015
#47 - Oito de Copas - QUANDO A GENTE NÃO SABE SE RI OU SE CHORA
Mais um post "atrasado". Mais uma vez fora de hora. Como tudo na vida, a imprevisibilidade é a regra do devir, e talvez tudo o que possamos afirmar é que as coisas têm a hora certa para acontecer. Contradição?
Nossa impotência cria inúmeras justificativas para os fatos inexplicáveis da vida. Deus. Deuses. Vida. Morte. Além-morte. Todo ser humano, por mais cético que seja, encontra no fundo da alma uma certa síndrome de orfandade - a ignorância sobre de onde viemos e o medo do "para onde vamos" nos faz dormir em posição fetal algumas vezes na vida. Queremos ninho. Segurança. Ao menos, saber que alguém se importa.
As engrenagens mecânicas dos dias nos faz olvidar essas questões essenciais. Hora para acordar, para comer, para produzir, para descansar. Mascaramos nossos anseios e questões fundamentais com a ditadura das horas, num intento inútil de tornar previsível o que, de fato, não é. Queremos segurança - e ela se traduz na falsa sensação de que temos o controle dos acontecimentos.
Não quero, com essas constatações, afirmar que somos meros espectadores, inertes diante da vida. Temos certo controle e, sobretudo, responsabilidade sobre nossas escolhas. Podemos escolher viver uma vida em função de trabalho, de estudos, de outras pessoas ou de nós mesmos. Podemos escolher a disciplina das horas ou vender a arte na praia. São as escolhas, ainda que sob a égide de um livre arbítrio, que nos livram de sermos medíocres e pequenos. Nossa reação à condição humana de existência.
Assim sendo, não há forma de vida que se passe diante de nossos olhos sem ser grandiosa. Não há um só encontro entre seres humanos que não seja magnífico. A escolha de doar a tais encontros algumas das nossas preciosas horas é inefável. Dentre eles... os encontros com aqueles que passam por nossas vidas e permanecem, por algum motivo, sem dúvida, se tornam ainda mais especiais. Daí voltarmos, então, à estaca zero - a solidão suprema ao sentirmos que tudo é passageiro, que esses encontros um dia se desfarão, inevitavelmente. A falta... do ninho... da segurança...
"Súbito me senti infinitamente triste por todos nós, seres humanos, que acabamos nos acostumando com uma coisa tão incrível, tão imperscrutável como a vida. Um belo dia acabamos achando evidente o fato de existirmos... e então... bem, só então voltamos a pensar que um dia teremos de deixar esse mundo" (JG - 8 de Copas)
Nessas horas, o colo é a presença dos que se importam. O corpo carece do abraço que aconchega e aquece. O coração, da presença, ainda que distante, dos que comungam do mesmo sentimento. A solidão humana se faz menos só com solidões alheias lado a lado.
"... esqueça o roteiro, não pergunte que horas são -
eu não sei! - se tu quiseres saber quem eu sou...
me dá tua mão, me protege e terás proteção..."
(HG - Lado a Lado)
Hoje minhas palavras são breves, queria eu que fossem leves. Uma perda que não foi diretamente minha não deixa de ser igualmente perda, pois traz à tona todos os fantasmas que narrei aqui. No desespero de hoje, em nossa própria companhia, rimos e choramos diante do imprevisto, nos abraçamos para enfrentar a nossa impotência. Na solidão do poeta que conversa com as estrelas, acima de tudo, afirmo, por amor, a quem dirijo o post de hoje: olhe para o céu, não estás só.
Direis agora: "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas?
Que sentido tem o que dizem,
quando estão contigo? "
E eu vos direi:
"Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e e de entender estrelas
quinta-feira, 29 de outubro de 2015
#46 - SETE DE COPAS – Jovem das cartas escreve na tela mágica...
Quantos jovens de nosso tempo já “perderam
tempo” enviando uma carta? De minha parte, lembro de ter selado algumas poucas. Logo apareceram os e-mails, mensagens sms, msn, redes sociais, WhatsApp...
Lembro de receber algumas poucas cartas do meu pai que, depois de uma briga com
minha mãe, ficou em Porto Alegre, onde moramos por alguns meses, e nós voltamos
pra Londrina, pra casa da minha avó materna, a Dalva... Eu tinha a idade que
meu filho mais velho tem hoje, nove anos.
O paradeiro do meu pai, por anos foi um
mistério... Mas um dia chegou uma carta de Campinas, no interior de São Paulo,
ele estava vivo e morando lá...
A irmã dele, mais velha, se tornou missionária
da igreja católica e, ela sim, enviava muitas cartas da Itália, onde morou por
longos anos... Hoje ela mora aqui em Londrina e, há quase cinco anos, comemorou
25 anos de freira e me chamou para, junto com uns amigos, tocar na comemoração
realizada em um salão de igreja. Uma canção missionária católica executada em
rock, pra dar uma preparada naquele publico diferente, e tome rock and roll dos
anos 1980... Teve freirinha “requebrando até o chão” ao som frenético que
fazíamos... Entre as canções do repertório, uma está presa em minha cabeça há
alguns dias... Foi a partir desta canção que pensei em escrever sobre cartas aqui.
Mas vou guarda-la pro final...
Volto a falar de minha experiência com
cartas: Escrevi algumas respostas pro meu pai a pedido da vó Mafalda, mãe dele.
Esperei ansioso algumas respostas, que, hora nem chegavam, hora demorava m muito
pra chegar. Não... Não posso dizer que tive uma grande experiência com cartas. Ao
menos não uma experiência tradicional... Os e-mails, chamados em português de
“correio eletrônico”, serviam sempre pra enviar/receber trabalhos acadêmicos,
ou piadas, curiosidades, textos religiosos, de autoajuda, de promoções...
Houve
alguém que rompeu com este paradigma e, pela primeira vez, me fez ver o correio
eletrônico como espaço para receber e enviar cartas. Assim nasceu uma amizade
de imenso valor na minha história. Trocamos cartas por algum tempo e era
exatamente assim que chamávamos – cartas. Quando eu demorava, vinha uma
cobrança: “hey, você não vai responder minha carta? Estou esperando!!!”.
Não é incrível esta possibilidade: jovem
das cartas escreve na tela mágica e suas palavras alcançam de maneira arrebatadora outra pessoa, do
outro lado! E isso é capaz de se propagar por horas e mais horas além daquele momento de leitura da carta...
Não é exatamente igual, mas a possibilidade de eu escrever agora em uma tela
mágica e isso ficar disponível para milhões de pessoas, portando outras telas mágicas, há milhares e milhares de
quilômetros pelo planeta, através da internet, é incrível... (Claro que a disponibilidade não equivale a leitura. Mas é bom ter a companhia de alguns poucos raros e dos teus olhos aqui e agora.) A mesma
possibilidade se aplica a todos os recursos tecnológicos citados acima: você
escreve em uma tela mágica que leva suas palavras para os destinos desejados
instantaneamente!
Infelizmente (ou felizmente) a tela mágica ainda não pode
se comunicar com o passado... A jovem das cartas partiu, pediu que a deixasse
partir... Tal qual o pequeno príncipe, abandonou sua casca e hoje habita em cada
ponto luminoso do céu noturno. Se minhas palavras superassem a velocidade da
luz, poderiam viajar no tempo e voltar até aquele lugar. Um lugar que não mais
existe. Um lugar no passado, um tempo em que se esperavam ligações e cartas. Um
tempo em que as noites de insônia poderiam ser preenchidas escrevendo cartas,
mesmo aquelas que nunca seriam mandadas...
Mas não sou carta pra ficar me
lamentando... Sou carta curinga! Sou carta que olha do alto e tira proveito de tudo o que a vida oferece, sobretudo da
liberdade que só tem quem sabe olhar. Sou a carta do impossível, a carta dos sonhos e do olhar saudável para a vida que se revela em pura poesia ao meu redor...
Mas agora, só agora,
Sou a carta do número
da perfeição:
Sou um sete e possuo
um coração!
Sete copas, feito
prece em oração
Carta fora do baralho
nas minhas mãos...
“...Toda noite de insônia eu penso em te escrever:
escrever uma carta definitiva
escrever uma carta definitiva
Que não dê alternativa
pra quem lê
Te chamar de carta
fora do baralho
Descartar, embaralhar
você
E fazer você voltar
Ao tempo em que nada
nos dividia...”
(Perfeita Simetria - Engenheiros
do Hawaii)
quinta-feira, 22 de outubro de 2015
#45 - SEIS DE COPAS - No mesmo barco, sob a mesma lua...
Voar fora do radar exige destreza. Nos últimos posts, demos tchau a esta forma de controle panóptica, que nos observa, ainda que veladamente, ainda que se passe por inocente e não intencional. Big brother da vida real, vigilância 3G... Boas novas: o poder também cria!
"Existem momentos na vida em que a questão de saber se se pode pensar diferentemente do que se pensa, e perceber diferentemente do que se vê, é indispensável para continuar a olhar ou a refletir" (Michel Foucault)
Se não cria decisões, cria seus alicerces. Cria os posts nossos de cada quarta (ou quinta, ou sexta…). Transforma a realidade em prosa e vice-versa, jamais sendo perdida a inspiração, seja por sorrisos ou fúrias. Como na máxima nietzscheana - "o que não mata, fortalece".
Somos movidos pelos nossos afãs. Não incomumente, nos vemos "divididos entre a Tabacaria, como coisa real por fora" e os nossos "sonhos, como coisa real por dentro". Nos vemos inclinados a escolhas e dispostos a pagar seus preços, e por vezes nos vemos falhando em tudo - pior ainda, nos vemos fazendo do tudo o nada, mero despropósito [Fernando Pessoa e seu alter-ego talvez tenham escrito o poema dos poemas, comendo um chocolate e fumando um cigarro, e traduzindo toda a angústia inerente à existência humana].
"Somos quem podemos ser
Sonhos que podemos ter"
(HG)
Diante dos fatos, somos também movidos por atos. Nossas reações aos jogos de poder, às frustrações ou às realizações, também são molas propulsoras de nossas histórias. Daí o peso da realidade em contraposição ao mundo ideal... Dói estar em contradição consigo mesmo, qual seja o motivo. Dói, além, estar em contradição consigo mesmo por forças alheias.
[sob o mesmo sol e sob a mesma lua, ainda que distante, encontro curingas no mesmo barco]
Em recentes leituras, descobri a genialidade de um autor chamado Niklas Luhmann, o qual descreve de forma sistêmica as relações de poder que criaram os ordenamentos jurídicos das sociedades atuais. As normas, genericamente falando, seriam uma forma de controle criada pela sociedade para lidar com as frustrações de suas expectativas. Antes da norma, quando alguém se frustrava com algo, simplesmente readaptava seus objetivos. Isoladamente parece simples. Contudo, considerando um sem número de expectativas num meio social, tal medida poderia se tornar um caos. A norma veio a instituir a expectativa como algo binário (é ou não é / é bom ou é mal / é certo ou é errado) e passou a evidenciar e a punir os que dela destoavam. A norma precisou ser institucionalizada pela opinião de terceiros (senso comum) e oficializada (por meio de juízo).
Esqueceu-se, porém, que as expectativas humanas não são ou deixam de ser qualquer coisa… vêm-a-ser. São doces e amargas a um só tempo. Não se curvam aos juízes, nem aos juízos de valor. Somente o espírito livre é senhor de si mesmo. Ao poder simbólico, só se curvam os cúmplices da dominação. Aos espectadores, um lamento - que busquem seus próprios sonhos, ou que sonhem junto, em realidade.
No capítulo de Seis de Copas, Ludwig desconfiava de Albert, o qual lhe perguntara, já afirmando, se ficaria definitivamente em Dorf. Sentiu-se incomodado com petulância do velho, que lhe contara uma história absurda sobre uma ilha cheia de anões, relato que se confundiu com o seu próprio passado. Sonho. Realidade. Expectativa. Ludwig, qual São Tomé, não entrou na paciência antes de ter uma prova concreta do que lhe dissera Albert - provou da bebida púrpura, saiu da realidade para encontrar a sua confirmação de realidade. Talvez a vida real não fosse tão interessante apenas através das palavras alheias…
“Tudo me foi dilucidado naquele dia. Os trogloditas eram os Imortais; o riacho de águas arenosas, o Rio que o cavaleiro procurava. Quanto à cidade cujo renome se havia espalhado até o Ganges, nove séculos fazia que os Imortais a haviam assolado. Com as relíquias de sua ruína ergueram, no mesmo lugar, a desatinada cidade que eu percorri: espécie de paródia ou reverso e também templo dos deuses irracionais que manejam o mundo e dos quais nada sabemos, salvo que não se parecem com o homem. Aquela fundação foi o último símbolo a que condescenderam os Imortais; marca uma etapa em que, julgando vã qualquer obra, determinaram viver no pensamento, na pura especulação. Erigiram a obra, esqueceram-na e foram morar nas covas.”
(Jorge Luis Borges - O Imortal)
Mudança de foco, compleição de expectativas, redução de contingências, ver pra crer... Há inúmeras teorias aí a fora explicando (ou tentando explicar) por que eu e você temos dentro do peito todos os sonhos do mundo… e algo mais. Ainda assim...
quinta-feira, 15 de outubro de 2015
#44 - CINCO DE COPAS - ...para além dos radares...
Tchau, radar...
As palavras que encerraram o texto da
semana passada reverberaram por toda a semana de quatro de copas e, hoje, ouvem-se
ainda seus ecos em cinco de copas...
Não é apenas o equipamento usado por
militares pra detectar objetos a longas distancias. Radar pode ser uma bela
metáfora pra tudo que tenta nos controlar, observar e ditar o ritmo de nossos
movimentos. Nossa vida é repleta de radares. Esperam sempre que nos comportemos
“como convém” com a família, amigos, no trabalho, naquilo que se acredita que é
explicação para a vida e o mundo...
Se calcularmos tudo na ponta do lápis, há
muito mais voos rastreados que voos livres na nossa vida curta. Estamos sempre
atrelados a inúmeros valores alheios a nós. A sombra de opiniões dos outros
sobre nossas escolhas...
Nos falta muito a capacidade de agir pela vontade! Mas a palavra "vontade" pode ser perigosa, afinal, nem todos sabem querer. Há quem queira muito um objeto e, para tê-lo, rouba. Não é disso que falo. Querer é algo muito mais complexo, que exige cálculo, que exige conhecimento ou intuição do caminho e certo planejamento. Não basta subverter as regras. "Disciplina é liberdade." (Legião Urbana). Pra conseguir algo, é preciso saber jogar com as regras. Caso contrário, seremos meros curingas descartados do baralho – ainda mais inúteis que as cartas que vivem na cegueira de seus rebanhos, famílias, naipes...
Nos falta muito a capacidade de agir pela vontade! Mas a palavra "vontade" pode ser perigosa, afinal, nem todos sabem querer. Há quem queira muito um objeto e, para tê-lo, rouba. Não é disso que falo. Querer é algo muito mais complexo, que exige cálculo, que exige conhecimento ou intuição do caminho e certo planejamento. Não basta subverter as regras. "Disciplina é liberdade." (Legião Urbana). Pra conseguir algo, é preciso saber jogar com as regras. Caso contrário, seremos meros curingas descartados do baralho – ainda mais inúteis que as cartas que vivem na cegueira de seus rebanhos, famílias, naipes...
“...E eu pude fazer o que queria, sem ser
perturbado. Li sem parar, até que, já de madrugada, adormeci...” (O dia do
Curinga – Cinco de Copas – Jostein Gaarder)
Quantas vezes curingas de todo o mundo
abriram mão de uma boa leitura para parecer gentil, ou pra cumprir convenções
sociais? A todos os curingas do mundo, desejo que possam ouvir e sentir o
silêncio do inevitável, o vácuo ensurdecedor da não existência, que nos faz
querer aproveitar ao máximo o que ainda há enquanto respiramos. E que o nossos
devaneios aqui no clã, sejam destes sopros de alegria, afinal, é na infinidade
de silêncios que havia antes de nós e na infinidade que virá depois - que
valorizamos o som que é possível hoje!!!
Louco é quem segue o fluxo, quem procura
em guias, mestres, gurus algo a ser copiado... O louco, ao imitar seu mestre,
ofende ao mesmo. O mestre deve ser superado! A grande cidade que prende pessoas
como gado e todos os loucos que nos roubam o encanto diante da vida, não
merecem nem nosso ódio. É preciso passar além deles. A vida só pode ser
grandiosa para além dos radares.
“...tuas palavras de louco prejudicam a
mim mesmo quando estás certo! E, ainda que as palavras de Zaratustra fossem mil
vezes certas: tu, com minhas palavras, sempre — farias errado!
Assim falou Zaratustra; e ele olhou para
a grande cidade, suspirou e longamente ficou em silêncio. Por fim, falou assim:
Também me enjoa essa grande cidade, não
apenas esse louco. Num e noutro não há o que melhorar, não há o que piorar.
Ai dessa grande cidade! — E eu gostaria
de já enxergar a coluna de fogo em que ela arderá! Pois tais colunas de fogo
devem preceder o grande meio-dia. Mas esse tem seu tempo e seu destino. — E
este ensinamento te dou, ó louco, como despedida: onde não se pode mais amar,
deve-se — passar ao largo! — Assim falou Zaratustra, passando ao largo do louco
e da grande cidade.”
(Assim Falou Zaratustra - Do Passar Além - Friedrich
Nietzsche)
“(...)
Não fica pronto nunca
Não há final feliz
Não há razão pra desespero
Ouça o que o silêncio diz
Não tem roteiro certo
Não espere um "gran finale"
Tão pouco espere amiga
Que o meu grito se cale
(...)
Tchau radar,
vamos adiante.”
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